
Como aconteceu, por exemplo, a propósito da crise mundial, que começou por financeira e agora cada vez mais se mostra geral e abrangendo o conjunto dos aspectos sociais. Apenas, pois, alguns excertos, pela oportunidade da reflexão e sempre pela lucidez e clareza da exposição. Com maior destaque, apesar de tudo, para as deixas que para os seus desenvolvimentos...
A aparente insensibilidade das opiniões públicas perante os enormes contrastes produzidos pela globalização liberal, que pouco ou nada reage ao aprofundamento das desigualdades e das situações de miséria extrema, dá o mote para a análise do tema. E o início de uma explicação surge através da pergunta que já inquietava Almeida Garrett: “quantos pobres são precisos para fazer um rico?”. Pilar esboça uma resposta ao afiançar que “(...) as pessoas não sabem (que a riqueza se alimenta da pobreza). Se os mestres do pensamento, se os partidos políticos de esquerda não o dizem, não sabem que são necessários muitos milhões de pobres para que haja um rico, simplesmente olham para os ricos com admiração, sem pensar que essa riqueza está construída sobre a pobreza de milhões de pessoas”.
Em nova deixa, Pilar desvenda um pouco da lógica que sustenta este sistema: “Se vivemos numa sociedade de mercado, se o mercado regula a democracia, parece que os governos têm de ser disciplinados segundo os interesses dos grupos económicos, e devem socorrê-los, chegado o caso, como nesta crise, para que o sistema não entre em quebra”.
E acrescenta: “Dizem grandes economistas que os bancos centrais são as entidades que permitiram os fenómenos que deram lugar à crise e, apesar disso, os analistas convencionais calam-se. O seu silêncio cúmplice frente aos paraísos fiscais, a sua pretensa independência, eram pretextos para gerir a economia a favor dos poderosos, coisa já evidente. Parece que é necessário revelar a natureza dos bancos centrais, assim como a cumplicidade das páginas económicas dos jornais”.
A conclusão vem de Saramago e é, só por si, todo um programa político: “As causas são conhecidas, as consequências não o são tanto, mas são sofridas por milhões e milhões de pessoas. Portanto, a questão está sobre a mesa com uma urgência que todos nós sentimos: é preciso pensar, propor, actuar... Muita coisa se resolveu, no passado, com a participação dos cidadãos”.
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