sexta-feira, 13 de Novembro de 2009

Jazz contra o Racismo ...

Para colocar em Agenda :
20 de Novembro, 21h30m
Centro Cultural de Cascais

quinta-feira, 12 de Novembro de 2009

Água mole em pedra dura …

Na legislatura que ainda agora começou, a primeira Declaração Politica do Bloco de Esquerda esteve a cargo de Fernando Rosas que abordou o tema da corrupção, um tema que está – pelas piores razões – na ordem do dia da politica Portuguesa.
Trata-se, em meu entender, de um discurso que pela sua pertinência, pela abordagem factual e corajosa com que é sustentado, merece ser lido num propósito de séria e urgente reflexão:
… a linha divisória entre quem pretende responder à emergência ou continuar a fechar os olhos é a delimitação das causas da corrupção e a escolha dos remédios com que se pretende combatê-los.
A corrupção é filha do clientelismo, do nepotismo, do caciquismo e de todas as formas de degenerescência antidemocrática do poder que se perpetua sem alternância real – ainda que, por vezes, com substituição das clientelas -, criando promiscuidades ou cumplicidades ilegítimas com os interesses, furtando-se a uma eficaz vigilância cidadã com os alçapões que cria ou mantém nas leis e revestindo essa podridão essencial com uma fachada solene de respeitabilidade.”


E, talvez pela pertinência e oportunidade do discurso, porque a luta contra a corrupção é o combate pela democracia e transparência da vida política a todos os níveis que, embora a “falar” em nome pessoal, Francisco Assis, o líder da Bancada Parlamentar do PS, afirmou que :
“as propostas que foram apresentadas pelo sr. engenheiro João Cravinho podem a cada momento ser objecto de uma reapreciação”

Vá lá, vá lá; do mal o menos …
Tenhamos ao menos a esperança – não confundir, sff, com certeza – que e tal como reza um velho ditado que :
“ água mole em pedra dura tanto dá até que fura”.

quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

Robert Enke...

Robert Enke (1977-2009) suicidou-se ontem, aos 32 anos.
Em 1999, Robert Enke chegou ao Benfica.
Jovem, muito jovem mas já um guarda-redes consagrado.
Mas, e à partida, com um problema :
o de fazer “esquecer” um dos melhores guarda-redes do Mundo, Michel Preud´homme.
O Benfica tinha, então, e durante os três anos em que se manteve no Clube – lembro-me bem; infelizmente muito bem - uma equipa de qualidade mais que duvidosa.
Robert Enke, graças ao seu grande profissionalismo, lá conseguia – sozinho, e por vezes – colmatar as fragilidades da Equipa.
Não esqueço que foi deselegante para com o (meu) Benfica.
Quando saiu para o Barcelona, declarou que “precisava de jogar numa grande equipa para chegar à Selecção da Alemanha”.
Robert Enke, aos 32 anos, encontrava-se na fase de maturidade dos guarda-redes.
E, prematuramente, decidiu partir.
Deixando de jogar e, acima de tudo, de viver.
Uma tragédia pessoal que, e na circunstancia ocorrida, não tem qualquer defesa.
Enke, até sempre !..

terça-feira, 10 de Novembro de 2009

A insustentável leveza do (nosso) ser …

Ora, se a corrupção é um problema, um grande problema que mina e corrói a democracia, mui provavelmente este problema não pode(rá) ser resolvido pela mera retórica discursiva como, e de resto, se vem verificando por parte dos partidos do sistema e, muito em particular, pelo PS.
É um lugar muito comum ouvir-se que “à politica o que é da politica e à justiça o que é da justiça”.
O problema, o grande problema é que cada vez mais é difícil separar a justiça da politica e/ou a politica da justiça.
O que é naturalmente grave e motivo de múltiplas e sérias preocupações.
Eis um exemplo caricato que tipifica, de forma clara e inequívoca esta “confusão” entre a politica e a justiça e/ou vice-versa; desta feita, devidamente explicitado ao Jornal “I” ( pode ler-se na primeira página de hoje ) pelo senhor procurador-geral da Republica :
- na última semana de Junho, enviou para o presidente do Supremo Tribunal de Justiça duas certidões extraídas do Processo Face Oculta e está a avaliar o envio de outras oito.
- no dia 3 de Setembro, Noronha do Nascimento ( Presidente do Supremo Tribunal de Justiça ) decidiu sobre as duas primeiras, onde estarão incluídas as conversas entre o primeiro-ministro e Armando Vara.
Hoje, dia 10 de Novembro, finalmente, o Supremo Tribunal de Justiça diz que as escutas são nulas.
Mas, então, porquê só agora ?..
É que, e assim, como é que vamos a-c-r-e-d-i-t-a-r na Justiça !!!

quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

Leituras de Verão – no estio deste Outono retardado!

‘O crash de 2010’!

O fim do Verão e este início ensolarado e quase tropical de um Outono que tarda, trouxe interessantes novidades editoriais, seja as relacionadas com a interminável crise económica (que ameaça eternizar-se), ou as que respeitam à consolidada teoria da evolução (no ano em que se comemoram os 200 anos do nascimento de Darwin e os 150 da publicação da ‘Origem das espécies’). Mas entre Krugman (‘A consciência de um liberal’) ou R. Dawkins (‘O espectáculo da vida’), prefiro aqui trazer o espanhol Santiago Niño Becerra, que acaba de ver editado em português o seu enigmático (ou provocatório?) ‘O crash de 2010’.

Independentemente do tom premonitório do título – pois o mais relevante não é saber se a crise sistémica de que o autor fala vai mesmo acontecer, com uma precisão que roça a ‘convicção profética’, no Verão de 2010 (!!!) – importa aqui destacar alguns aspectos que a leitura deste livro suscita. Desde logo, que se trata de uma perspectiva diferente de quantas têm abordado a actual crise e as suas consequências ou saídas. O autor situa-se no que se pode designar de ‘keinesianismo de esquerda’, até nas referências teóricas que adopta (J. K. Galbraith e Joan Robinson), o que talvez explique a firmeza e a convicção que coloca tanto na caracterização da crise (trata-se de uma crise sistémica e não de mais uma crise cíclica), como no seu previsível desfecho (que só pode ser um novo modo de produção, com a mudança da ‘forma como as coisas são feitas’) – ao contrário dos denominados neo-keinesianos, empenhados em demonstrar a suficiência das tradicionais receitas públicas aplicadas em anteriores crises.

Neste contexto são especialmente significativas duas passagens do livro. A primeira diz respeito ao que o autor designa por ‘bluff irlandês’ – e já se percebeu a que se refere! Durante os últimos 20 anos apontado como um exemplo a seguir pela cartilha neoliberal, os episódios da crise tiveram o mérito de pôr a nu o verdadeiro milagre irlandês, ao transformarem em pesadelo aquilo que era propagandeado como um sonho – sonho para uns poucos, é certo, que não para os milhares de desempregados, submersos no endividamento para onde foram arrastados (atraídos?) pelo hiperconsumo, precisamente dois dos três pilares em que assenta este capitalismo tardio (o terceiro é, segundo o autor, o desmesurado crescimento do terciário). Os resultados do modelo irlandês do ‘boom’ (atracção do investimento externo por via fiscal), acabaram por, mais uma vez, demonstrar como a economia de um país pode ser usada apenas como plataforma de ganhos alheios sem retorno significativo para os respectivos cidadãos.

E adianta: ‘A crise das hipotecas de alto risco, ou subprime, os níveis descontrolados a que se deixou chegar a economia financeira, os montantes da dívida privada já incomportável a todos os níveis, a crescente produtividade que já está a tornar excedentários amplos colectivos humanos, os progressos de uma tecnologia cada vez mais eficiente não são mais do que manifestações do esgotamento do sistema’.

O que se prende com o segundo aspecto a destacar. De acordo com o autor, ‘o capitalismo nasceu com o germe que lhe permitiu desenvolver-se, alcançar os níveis de crescimento que conseguiu, mas, por sua vez, constitui a semente do seu esgotamento e da sua destruição.(...) o capitalismo exige uma expansão constante, que, obviamente, não é possível.Fisicamente, sublinhe-se. Pois ainda que relevando do óbvio, tende a ignorar-se o aspecto que cada vez mais importa evidenciar, o que o leva a concluir: ‘O crescimento do planeta tem-se baseado na convicção de que gastar de tudo, sem limite, era possível e inclusive necessário (...). Foi possível porque esse estado de bem-estar, esse ir mais além, nos fez crer que com as nossas criações, a nossa tecnologia e o nosso engenho financeiro seria possível compensar qualquer desequilíbrio. Contudo, quando a dívida se tornou fisicamente insustentável e a capacidade de absorver bens de consumo se esgotou, o nosso sistema deparou-se com uma crise.

Resta saber se a actual crise acaba mesmo em ‘crash’, como assegura a premonição de Santiago Becerra. E se o seu desfecho se traduz num novo modo de produção.

Há muitas questões que persistem sem resposta nesta descrição do sistema a caminho da catástrofe. Por exemplo, em que é que se traduz o germe (ou pulsão) que sustenta o capitalismo, mas que o irá levar à autodestruição. Limites, naturalmente, da própria concepção ideológica do autor – ou da sua recusa em aceitar conceitos decretados como ‘malditos’. Não obstante, pois, serem questionáveis alguns dos pressupostos em que assenta a narrativa, não deixa de ser interessante percorrer as páginas deste livro e confirmar que, afinal, por diferentes vias e processos, há muita gente a confluir numa conclusão básica: a mudança deste sistema impõe-se como uma medida profilática em nome do progresso – ou tão só da sobrevivência do homem.

sexta-feira, 30 de Outubro de 2009

20 anos : como "voa" o tempo ...

O José Carvalho, o Zé da Messa, foi assassinado (de)corre, agora, 20 anos ...
Faz tempo, muito tempo, mas é altura de (re)lembrar - porque a memória dos homens é, por vezes e propositadamente, muito curta - que morreu, então, esfaqueado por um grupo de skinheads neonazis.
Eu, porque não tenho o dom da ubiquidade, não vou poder lá estar; na Festa de Homenagem que a APSR promove, hoje e para o efeito, na Voz do Operário.
Tenho pena; muita pena...
Mas, ainda assim, estou contigo, Zé; até sempre !!!

quinta-feira, 29 de Outubro de 2009

A(s) Face(s) Oculta(s) ...

Eis que, e depois de um interregno bloguistico, regresso às lides ... e logo com esta surpreendente (?) noticia :
"Armando Vara constituído arguido"
Ele, Armando Vara, que «fez carreira política no PS de Bragança, foi secretário de Estado e posteriormente Ministro da Administração Interna. O seu nome ficou associado ao caso da Fundação para a Prevenção e Segurança, fundação privada criada por ele ainda como Governante, e que organizava campanhas de prevenção rodoviária para o Estado, contornando a possibilidade de escrutínio público. Com o regresso do PS ao poder em 2006, Vara é nomeado administrador da CGD, de onde posteriormente saiu para ver o seu salário duplicar como administrador do BCP.»
Ler mais ...

sábado, 24 de Outubro de 2009

Os negócios do Árctico!

Não certamente por embirração ou impertinente fixação, de quando em vez tropeço na personagem. Sintetiza, na perfeição, o pensamento corrente dominante, ao reproduzir, de forma acrítica, a vulgata neoliberal (que verbaliza através das mais desgastadas expressões). Qualquer desvio a este fio de rumo, provoca-lhe mesmo um constrangedor desdém, extrai-lhe sorrisos de altivo desprezo, como que traduzindo a sua percepção do óbvio: ‘só não vê quem, por sectarismo ou ignorância, não quer ver’!!!

Já não é, portanto, a primeira vez que aqui me refiro a Estela Barbot (pois é dela que se trata), personagem da nossa ‘socialite’ (como agora se designa!!!) e lugar cativo nos ‘media’, onde de novo fui esbarrar com ela (no programa ‘Contas à Vida’, na TVI24). Desta feita, porém, passou das habituais – e banais – trivialidades (debitadas a propósito de tudo não dizendo nada), às mais delirantes boçalidades, ao atrever-se, de forma leviana, por territórios (literalmente) inexplorados mas muito sensíveis.

Foi o caso da dita criatura haver participado (desconheço em que qualidade) na última reunião da Trilateral (grupo de Bilderberg), em Oslo, cujo representante luso (entre outros insuspeitos frequentadores, alguns deles socialistas!) é o ex-ministro Braga de Macedo, também presente nesse programa (onde é convidado residente, juntamente com Pina Moura). De lá trouxe a informação – e a volúpia dos pormenores – de que, com o degelo do Árctico, prestes a consumar-se, abrem-se novas e promissoras áreas de actividade, ‘é todo um mundo de oportunidades para novos negócios’.

Com o Árctico navegável, acrescentou, as novas rotas abertas pelos transportes marítimos permitirão poupanças consideráveis, em tempo e combustível (já existe até uma estimativa dos custos ‘arrecadados’). Para já não falar das novas possibilidades no domínio da exploração petrolífera, em jazidas já identificadas, deste modo tornadas acessíveis... Enfim, um autêntico maná para o ‘business’, que já discute direitos de exploração e de soberania, ‘uma espécie do que virá a suceder com a Lua, no futuro’, logrou gracejar a Barbot.

Diante de tão inconsciente desaforo, Pina Moura objectou a reserva óbvia (porventura, remexendo no fundo das suas há muito sumidas convicções de esquerda, apelando a algum resquício de dignidade): ‘e os efeitos climáticos, já foram estimados?’. Efeitos climáticos? Mas perante tamanha fortuna, alguém estará interessado em perder tempo com tão esquerdizantes minudências, que só servem para atrapalhar e desviar a atenção do essencial – a expectativa de chorudos negócios – o que releva do ‘simples bom senso’, assim explicava a Barbot?

Perante a inevitabilidade do facto consumado – e o reconfortante cenário de um novo impulso económico – quem é que, no mundo de hoje, pára para avaliar os efeitos que a destruição da calota polar e consequente eliminação do efeito reflector solar (efeito de albedo) provocará, pela absorção de mais calor por parte do mar, no clima da Terra? Ou nas consequências imprevisíveis da alteração das correntes marítimas, por influência da circulação termohalina dos oceanos, com impacto determinante no clima e, por arrastamento, nos ecossistemas marítimos e terrestres, ou seja, nos recursos e na capacidade alimentar do planeta? E estes são apenas os efeitos directos imediatos!

Enquanto alguns ainda se afadigam em tentar evitar o pior dos cenários (incluindo soluções no mínimo engenhosas, mas de duvidosa eficácia), o ‘bom senso’ de outros leva-os já a antecipar, babados – e criminosamente inconscientes! –, o momento da concretização dos cúpidos negócios em perspectiva. Certo é que os efeitos gravosos incorporados no ‘bom senso’ actual da Barbot só se farão sentir de forma acentuada (alguns sinais são já visíveis, ainda assim pouco assustadores) algures no futuro, previsivelmente apenas daqui a um bom par de anos. E é isso que, para todas as Barbots (eles e elas), faz toda a diferença! ‘Quem vier a seguir que feche a porta’, chalacearão eles em tom de desafio.

Lastimo o Metelo metido nisto. No fim de contas e pensando bem..., nem isso!

terça-feira, 20 de Outubro de 2009

Maiorias de esquerda, governos de direita

Surgido na sequência dos resultados eleitorais para as legislativas, o ‘Compromisso à esquerda’, iniciativa protagonizada por André Freire (e outros), apela a que os 3 partidos da esquerda parlamentar pós-eleições procurem entendimentos no sentido de ‘se encontrar uma solução estável de Governo’. Gesto simbólico, é certo, sem qualquer hipótese de sucesso face às declarações prévias dos partidos visados, o suficiente, no entanto, para desencadear, no meio da indiferença e bonomia gerais com que foi acolhido, algumas curiosas reacções. Mas também com o mérito e a utilidade de confrontar os responsáveis desses partidos com a realidade sociológica do País, pois a opinião pública de esquerda menos comprometida com os aparelhos partidários, não entende a incapacidade dos políticos em tentarem aproximar-se – e associar-se – num conjunto alargado de domínios, do político ao social, do económico ao cultural.

Importa, antes de mais, esclarecer que se tal experiência nunca foi tentada – e não se vêem condições de, tão próximo, o vir a ser – isso se deve, por um lado, à prática histórica do PS na governação e aos compromissos, sobretudo económicos, em que se enreda (ou a que se submete, não raro para proveito pessoal dos seus próprios interventores), por outro, à intransigência (dogmática? sectária? simplesmente de princípio?) dos outros dois partidos, pela incapacidade em transformarem propósitos em política. Mas deve acrescentar-se que, tão errado como qualificar estes últimos de expressões de um extremismo serôdio e irrealista, o é igualmente reduzir o PS a partido de direita, desprezando o sentido da sua base social de apoio, pelo facto de os seus governos se terem resumido a pouco mais que uma gestão (sofrível) de um sistema que, do ponto de vista de esquerda, deve ser transformado.

Uma coisa, porém, parece certa: no meio dos jogos de poder, o país real acaba sempre muito maltratado. Prova disso, para além do essencial – e o essencial são as dificuldades vividas em resultado de uma sociedade cada vez mais desigual – o crescente alheamento político das pessoas e o seu maior distanciamento dos eleitos para as representarem, como se depreende da desilusão que os eleitores manifestam (de diversos modos) quando chamados a pronunciar-se em actos eleitorais, não obstante todas as manipulações, propagandísticas ou outras, de que são alvo (incluindo a transformação/deformação da política numa espécie de ‘clubite’ partidária, à margem das ideias e dos programas).

No ponto em que se encontram as ‘coisas’ à esquerda e nas actuais condições de regresso à sobranceria neo-liberal, já nada há a esperar. A realidade – a vida, como diria o ‘outro’ – se encarregará, então, de ditar o ritmo e o momento do rumo que tais ‘coisas’ irão tomar. Será o caso do invocado óbice do ministro Amado (e outros), ao afirmar a impossibilidade de o PS estabelecer qualquer aliança (fosse qual fosse a sua natureza e profundidade) com o BE e o PCP, dadas as conhecidas posições destes no domínio da política externa, nomeadamente quanto à proposta de saída da NATO (que ambos propõem) e às reticências na integração na UE (menores, no caso do Bloco). Mas bastaria que tais matérias (e outras) ficassem fora de um eventual acordo! O futuro – a realidade vivida – ditaria a razão nos casos polémicos.

Subsiste ainda, no dizer de alguns, o sinal negativo que deste modo se transmitia aos mercados internacionais (!). Tanto melhor se assim fosse. Haveria oportunidade para se começar a fazer uma selecção dos apoios (incluindo o dos famigerados ‘capitais externos’) que mais interessa captar, excluindo os que apenas apostam nas habituais condições de competitividade do País (leia-se baixos salários) ou que pretendem tão só prolongar os laços de domínio e a exploração de recursos (humanos e naturais).

Para já, perante um Parlamento que não domina e sem a confiança de Cavaco, como se irá comportar a, a todos os títulos, salutar experiência de um governo minoritário do PS? Com quem virá, afinal, a estabelecer os entendimentos necessários à governação?

E, neste contexto, o que nos reservam as presidenciais ? Até onde conseguirão elas ‘forçar’ a realidade?

sexta-feira, 16 de Outubro de 2009

‘Tempos interessantes’

Tempos interessantes’ é o sugestivo título de um livro ainda recente de Eric Hobsbawm, dedicado a uma incursão intimista do autor ao longo do século XX, um tempo de grandes acontecimentos e transformações sociais. Longe a pretensão de estabelecer qualquer paralelo entre a narrativa do eminente historiador e os comentários aqui expostos. Simplesmente considero, não por consolidadas razões históricas de tramas e dramas, mas pelas enredadas teias a que se amarra actualmente o futuro incerto das sociedades, que se avizinham tempos deveras interessantes. Em termos de peripécias e dos seus efeitos. A nível global.

Limito-me a pontuar episódios, a respigar indícios, a destacar incógnitas. A começar pela política doméstica, onde será interessante acompanhar o comportamento da nova geometria partidária, sem maiorias absolutas, o centrão em declínio e a correspondente ascensão das denominadas ‘franjas’. Do poder absoluto de Sócrates ao (forçadamente) poder partilhado de... Sócrates, agora de ‘espírito aberto’ e pronto para o ‘diálogo’. Não o diálogo baseado em princípios, como pretendia ser o de Guterres, obrigado a ele também por força das circunstâncias (e por força disso exposto ao pântano), mas o diálogo assente no pragmatismo, que parece ser o grande princípio ideológico que o anima na pretensão de conservar o poder (a qualquer preço?).

E já com as eleições presidenciais por perto! Aqui será imensamente interessante ver como é que, Sócrates e Cavaco, vão gerir a hipertensa relação saída das eleições (para além dos antecedentes, ainda por aclarar), com o primeiro a ver-se obrigado a ‘apear’ o segundo da Presidência, não por razões de decência mútua (bastaria para isso o episódio do ‘e-mail’), mas pelo risco permanente de um Cavaco ressabiado e, já se percebeu, disposto a tudo. Nessa emergência, resta a Sócrates as alianças à esquerda. A quem recorrer, então? Ao ‘querido inimigo interno’ Alegre?

Interessante’, seguramente, será também seguir o percurso das oposições. À direita, após uma pírrica vitória de Rangel nas europeias, o PSD enredou-se em tramas e ilusões, colou-se à oca e chocha estratégia do Presidente das ‘escutas’, curando que lhe bastaria zurzir o nome de Sócrates e agitar vagos sintomas de apneia política para recuperar o poder. Resta saber, por agora, quem é que o vai tirar do estado catatónico em que se abate, alijando-o, na passada, da esfiapada ganga cavaquista. Já o PP, claro beneficiário de tão suicida atitude, espreita – e aproveita (até quando?) – a oportunidade desse vazio ideológico. Desdobrando-se em bravatas e desafios, alardeando uma tão cínica quanto propagandeada humildade, ao pragmatismo ideológico de Sócrates contrapõe o seu próprio pragmatismo populista (e justiceiro), bem à imagem do seu frenético líder (ao pretender arremedar o Batman, acabou clonado de Pinguim). Será então desta que surgirá (e de onde?) o sempre adiado projecto do ‘grande’ partido liberal, ou melhor, neo-liberal?

Não menos ‘interessantes’ se apresentam as perspectivas à esquerda, reforçada – e clarificada – pela recomposição parlamentar pós-eleitoral, escandalosa à luz da bitola europeia (?) do politicamente correcto. Resta, pois, saber ‘o que fazer com estes votos’: se o seu peso se esgota, como até aqui, na aritmética dos números, ou se será possível convertê-los em opções políticas comuns. Sem perda de identidade das três tendências que dela se reclamam, apenas abdicando de dogmas e preconceitos. Sintomático – e bem interessante – observar que até o proscrito marxismo, não obstante as resistências subliminares e ataques acéfalos, voltou a ser invocado para explicar realidades doutro modo inexplicáveis. As mais das vezes, é verdade, por interpostos discípulos.

Preocupante – e sem dúvida menos interessante – a realidade vivida, essa que permanece acima de todos os jogos de poder. É que a realidade, mesmo para além d’a crise que até se diz que já não é’ (!!!), faz-se de uma imensa soma de problemas: dos que exigem intervenção imediata (o desemprego imparável, a avassaladora precariedade laboral, as alterações climáticas,...), aos que obrigam a opções colectivas estratégicas. Opções que vão da afirmação da primazia do interesse público sobre os interesses privados (a nível dos serviços e recursos básicos: saúde, educação,...; água, energia,...), à construção de alternativas a ‘este’ esgotado modelo de desenvolvimento (termo do crescimento contínuo, exaustão dos recursos naturais, ‘crise’ do trabalho assalariado,...), em suma, ao questionamento deste nosso insustentável modo de vida que urge alterar – em troca do acentuado declive no sentido da autodestruição, de que as agressões ambientais são, por enquanto, apenas uma das faces mais visíveis.