quarta-feira, 16 de março de 2011

As angústias de uma geração... ou será de uma sociedade?

As inúmeras reacções que a manifestação da designada ‘geração à rasca’ suscitou são – como não podiam deixar de ser! – um curioso reflexo do estado actual da mentalidade dominante. O pensamento ‘correctamente’ alinhado, bem pensante e pouco dado a devaneios (os tempos não estão para aí virados, ‘quem manda são os mercados’... ou a Sr.a Merkel por eles!), não poupou nos adjectivos para classificar o despautério de uma movimentação inorgânica, desenquadrada, sem uma ‘cabeça’ responsável, contando, portanto, apenas com os ‘pés’ (literalmente) dos que decidiram sair à rua para se manifestarem contra uma situação que – malgrado as atentas e venerandas opiniões! – ameaça, ela sim, sair fora de controle e transbordar para além da mera insatisfação, desilusão, angústia, ou mesmo indignação. Quando muito condescendem, vá lá (por uma questão de princípio? ou de aparências?), no direito que todos têm a manifestar-se!

Aproveitam para verberar, na passada, ‘o mau gosto das canções’ (?), subitamente promovidas a hinos de uma causa indefinida e sem objectivos claros, dizem. A esmagadora maioria deles nunca se tinha dado ao trabalho de se pronunciar sobre o gosto musical (mau, bom ou requintado?) das canções que por aí correm, em especial as dos festivais da Eurovisão!!! Mas bastou que as duas eleitas projectassem o enorme mal estar que grassa na juventude (a dos ‘Deolinda’), ou apelasse à luta contra o desânimo (e as suas causas) mesmo que de forma chocarreira e até festiva (a dos ‘Homens da luta’), para os espíritos ‘bem alinhados’ se sobressaltarem e imitirem sinais de grande desconforto.

É de sinais, seguramente, que se trata quando se pretende perscrutar o significado das movimentações que dominaram o último fim de semana. Muito para além dos objectivos concretos que ninguém conseguiu nelas descortinar (e tão pouco alguém se deu ao trabalho de explicitar, simplesmente porque não existiam), o que importa é apreender a razão que levou centenas de milhares de pessoas a ‘incomodarem-se’ a descer à rua sem outra causa senão a de ‘apenas’ gritarem a insatisfação, a angústia e o mal estar que as invade.

Um sinal que devia actuar, então, não apenas como ‘catársis’ colectiva (como alguém a apodou, na tentativa de a desvalorizar!), mas como um alerta para os fundamentos desse profundo mal estar social que alastra a diversos níveis e em diferentes sectores – pois nunca como hoje as expectativas individuais estiveram tão longe de se concretizarem, as promessas políticas com tão frágil aderência à realidade social (promete-se aquilo que se sabe não se poder cumprir nem ser realizável). Um alerta que se expressa sobretudo a nível do trabalho – pois nunca como agora as capacidades técnicas e produtivas da sociedade encontraram tão fraca conformidade na organização social que determina tanto a distribuição do esforço do trabalho, como a sua contrapartida no rendimento criado.

Um sinal que, na sua substância, aponta para causas que não diferem muito das que levaram aos acontecimentos do Norte de África. A explosão social aí verificada tem explicações imediatas (e de aproveitamento mediático fácil...) no carácter fechado dos sistemas políticos lá implantados (regimes autoritários ou mesmo ditatoriais). Mas as motivações essenciais que levaram milhares às ruas a lutar por mudanças, lá como cá, centram-se mais em torno de questões de natureza social que política. E têm a ver essencialmente com uma repartição do trabalho baseada numa selecção competitiva que exclui do designado ‘mercado do trabalho’, todos quantos se não enquadrem ou não se sujeitem (consciente ou inconscientemente) às regras dos ‘donos do mercado’...

O diabo é que, falar de repartição do trabalho, implica necessariamente questionar a organização social que a determina... E o próprio ambiente cultural que daí resulta e a envolve, que afecta até muitas das posições de organizações que se reivindicam da defesa dos trabalhadores.

Tema sempre actual e a que importa voltar. Sempre.

3 comentários:

Teresa Bastos disse...

Os Deolinda com o "Parva que sou" foram nitidamente um sinal. Os "Homens da luta" foram nitidamente um aproveitamento dessa "luta". É completamente errado, quando se fala de música, confundir os dois grupos. Deolinda são Música, com carreira de qualidade em Portugal e no estrangeiro. Os Homens da luta são uma espécie de palhaços oportunistas do momento. Acho que se não fossem os Deolinda os HL jamais ganhariam o Festival da canção e não teria havido estas manifestações...

AVCarvalho disse...

Não seria tão radical na apreciação da ‘qualidade’ da canção dos ‘Homens da luta’, ou mesmo da actividade iconoclasta destes ao longo dos mais de 5 anos que levam de ‘rua’. É possível, admito, que se tenham aproveitado (ou beneficiado?) da ‘onda’ provocada pelos Deolinda, (cuja canção foi tanto ou mais objecto das críticas ‘bem pensantes’). Não é, contudo, o mais importante.
O que mais importa relevar aqui é a receptividade a tais canções, eleitas seguramente não pelos seus méritos artísticos, mas por corresponderem ao presente sentimento de generalizada ansiedade e profundo mal estar social. Pelo sinal que transmitem. Só isso.

Anónimo disse...

É, para mim, perfeitamente acessório se a canção que nos representa(rá) na Eurovisão tem e/ou não tem qualidade ...
O que sei é que, seguindo as regras - todas as regras - e graças a quem via Télélé ( telefonou e/ou fez SMSs sem ser de graça, não esquecendo o IVA) os "Homens da Luta" ganharam ...
E, que mais não fora, por via desta vitória, os "Homens da Luta" lá tiveram direito a uns "tempo de antena(s)";
num deles - já não recordo em que estação -, deu-me um gosto e gozo especial que um dos elementos do Grupo tenha caracterizado o (nosso) País como sendo tendo um tanto de Zeca Afonso e outro tanto de Marcelo Rebelo de Sousa.
Que, naquele (no Zeca), os "Homens da Luta" se reviam e que o outro, o Marcelorepresentava a reacção ...
Ora, só por isso, por terem, de viva voz, e com muita coragem, chamado ao Marcelo Rebelo de Sousa de r-e-a-c-i-o-n-a-r-i-o ... já valeu a Vitória !!!