sexta-feira, 31 de outubro de 2008

"O Espectro de Wall Street"

"O Espectro de Wall Street - O crash financeiro e a crise de sobreprodução" é o título da conferência proferida por Francisco Louçã, que também pode ser ouvida aqui. O objectivo desta sessão era apresentar de uma forma simples uma interpretação dos principais factores da crise financeira. Agora, o Bloco editou uma brochura que transcreve a apresentação de Louçã. Leia-a aqui em pdf.
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( Via : www.esquerda.net )

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Paraísos Fiscais



A propósito de debate havido noutro fórum e também na decorrência da crise que se vive, julgo oportuna esta citação:

«A ruptura deu-se com a grande vaga de desregulação financeira que, em cinco anos, entre 1979 e 1984, rebentou todas as barreiras nacionais à circulação de capitais. Enquanto os princípios de transparência e de globalização dos mercados eram protegidos, enquanto a informação financeira explodia em volume e em tecnicidade, o princípio da soberania e da opacidade era deliberadamente reforçado nos paraísos fiscais, ao contrário da ordem do mundo. Na Antígua, por exemplo, os poderes públicos jamais procederam a qualquer recenseamento preciso do número de empresas inscritas no registo do comércio.
Não se trata de um fenómeno natural, independente da nossa vontade. Na sua quase totalidade, estes territórios são antigas feitorias das colónias britânicas, francesas, espanholas, ou holandesas. Desenvolveram-se no nosso seio. São apenas sucursais de Londres, Nova Iorque, Tóquio, Frankfurt ou Paris, onde está o coração da finança. O jogo duplo não é inocente. Como se fosse necessária uma certa opacidade para garantir margens que a transparência devora.
Há alguns anos, o procurador do Condado de Nova Iorque, Robert Morgenthau, denunciou essa hipocrisia a propósito das ilhas Caimão, um dos dez primeiros centros financeiros do planeta. "A opacidade é a palavra mestra. Em matéria de regulamentação, a praça ganha o prémio do laxismo. No entanto, as ilhas Caimão pertencem à Coroa Britânica. O seu governador, tal como o seu ministro da Justiça, são nomeados por Londres. O Reino Unido tem, portanto, o poder de pôr fim ao deixa-andar na sua colónia mas não faz nada. Da mesma maneira, sob o ponto de vista financeiro, o arquipélago é uma dependência norte-americana - na realidade, a maior parte dos bancos offshore das ilhas Caimão é gerida por Wall Street. Washington também pode pôr fim às manigâncias offshore. Mas ninguém se mexe."1
É um desvio do direito, um abuso político cujo preço deverá ser pago pelas gerações futuras.» o futuro é hoje! digo eu!!

1 The New York Times, de 10 de Outubro de 1998

in Est-ce dans ce monde-là que nous voulons vivre? publicado em Portugal pela Editorial Inquérito em 2003

da autora juíza franco-norueguesa Eva Joly - famosa pelo caso Elf.

Quem pense que governantes dos EUA e Reino Unido como Bush, Blair, Gordon Brown, entre outros, são pessoas de bem, talvez seja melhor reconsiderar!

À Esquerda : o que fazer ?..

"(...) A esquerda tem de integrar e debater, no seu pensamento próprio, os princípios e os instrumentos possíveis de regulação da globalização: o combate à predação das multinacionais que localizam e deslocalizam investimentos a seu bel-prazer, a taxação das transacções financeiras internacionais, a abertura dos mercados dos países desenvolvidos às exportações oriundas dos países em vias de desenvolvimento, a travagem da proliferação dos off-shores, o combate à economia 'suja' dos tráficos de pessoas, drogas e dinheiro, o combate à exploração de mão-de-obra infantil, escrava ou sem quaisquer direitos sociais, e à degradação ambiental. (...)"
( Manuel Alegre, em Artigo no DN que merece ser lido AQUI com toda a atenção )

terça-feira, 28 de outubro de 2008

A desigualdade global tem de acabar

Os pobres têm subsidiado os ricos desde há muito tempo. Um maior envolvimento do estado na actividade económica é agora necessário. O mais importante é que o sistema financeiro internacional fracassou em encontrar duas exigências óbvias: prever instabilidades e crises e transferir recursos das economias ricas para as pobres. Ler mais...
Por : Jayati Ghosh, economista indiana.
( Via : esquerda.net )

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Enfrentar a crise: paliativos e alternativas

Nunca como hoje, por efeitos de uma crise que muitos teimam em classificar apenas de financeira, se falou tanto em milhões. Milhões, mil milhões, biliões... Aturdido com tantos cifrões e não fazendo eles parte do seu quotidiano nem das suas preocupações imediatas, o povo desliga e espera, como sempre, que os poderosos, os especialistas ou até o Estado protector resolvam lá esse ‘problema’ para tudo voltar ao que era dantes. É claro que esta demissão colectiva de intervir num assunto que a todos afecta é, em boa medida, a razão da perpetuação dos poderosos, dos especialistas ou do Estado (que afinal os representa) na condução do nosso destino colectivo. As razões para que tal aconteça são múltiplas, mas não é disso que me proponho hoje aqui tratar.

É que a estratégia da esquerda (PC e BE, em especial) no modo como tem abordado as medidas de combate à crise, adoptadas e anunciadas quase em simultâneo pela generalidade dos Estados, não me parece estar a ser a mais adequada. Tanto a nível da eficácia de resultados nos propósitos imediatos, como em termos dos objectivos a longo prazo. Em boa verdade ela tem-se limitado – em conformidade, aliás, com o que tem sido a sua prática de oposição à política de direita do PS – a denunciar aquilo que considera ser um apoio escandaloso para salvar os bancos. Independentemente das boas razões ou mesmo alternativas que, em abono desta denúncia, por norma são avançadas (e têm-no sido habitualmente), a verdade é que esta posição pouco mais que crítica da decisão tomada, nada de significativo acrescenta para uma resolução duradoura do problema.

Por um lado, a contestação a este tipo de medidas não tem condições para se tornar eficaz e pode até demonstrar-se contraproducente: na eminência do sistema bancário soçobrar e com ele desaparecerem as poupanças de milhares de pequenos depositantes, a adopção destas medidas surge inevitável. É bom aqui recordar que a natureza da actividade bancária – ou ‘negócio bancário’ – é diferente de todas as outras, que lhe advém de uma dupla responsabilidade social: a de, por um lado, funcionar essencialmente com o dinheiro dos outros, o de milhares de poupanças dos depósitos de clientes que nada têm a ver (enquanto tal) com o risco do capital dos accionistas; por outro, a função de apoio financeiro ao conjunto da economia, indispensável ao funcionamento normal da sociedade no seu todo. Isto significa que um eventual colapso do sistema bancário (ou a falência de qualquer banco) não prejudica apenas os respectivos banqueiros (incluindo os milhares de pequenos accionistas), mas envolve igualmente os que neles confiaram, entregando-lhes, supostamente para maior segurança e melhor gestão, os depósitos das suas poupanças, bem como a capacidade de reproduzirem riqueza através do apoio às actividades produtivas.

E é exactamente por isso, pelo carácter eminentemente social desta actividade e dos riscos (mais que comprovados pela realidade) de a sua gestão privada tender para se desviar dos propósitos que a devem nortear (com graves ou mesmo irreparáveis danos, directamente para os seus depositantes, indirectamente para toda a sociedade), que mais se justificará agora exigir que o Estado assuma o controle público de todo o sistema financeiro (não só a nível interno, como, de forma coordenada, a nível internacional). Aliás, o maior risco que a esquerda corre ao não avançar mais declaradamente para uma exigência política que, longe de quaisquer traumas ou complexos históricos, corresponde a uma necessidade social e faz parte da sua herança cultural, é vir a ser ultrapassada pela própria realidade.
Sintomático o agitado afã de Sarkozy neste domínio específico!

Hoje, depois da hecatombe que não pára de agravar-se todos os dias, já ninguém duvida que alguma coisa vai ter de mudar, em especial na área financeira. O que ainda não é claro é qual a dimensão e sobretudo a natureza dessa mudança. E se, até agora, o sistema se tem resumido a injectar cada vez mais milhões (?) sobre os inúmeros e crescentes buracos da crise – na expectativa de que, mudando alguma coisa, o essencial fique na mesma – à esquerda compete, a meu ver, contribuir para tornar claras as verdadeiras opções que neste momento se colocam às sociedades – em termos de alternativas ao sistema capitalista que as tem (des)governado!

Estatuto dos Açores : hoje, o dia "D" ...

Hoje, termina o prazo para o Presidente da República prumulgar ou vetar o Estatuto Político-Administrativo dos Açores.
Aguarda-se, assim e com natural expectativa (?), a decisão de Sua Excelência sendo que, e desta feita, não foi tão "lesto" como em outras ocasiões e assuntos; porque será ?..

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Até quando ?..

Surgiu mais um estudo sobre Educação Sexual nas escolas por parte da associação para o planeamento familiar (APF) e o Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Este revela que quase metade (48 por cento) dos jovens tem conhecimentos considerados insuficientes sobre os locais onde podem adquirir contraceptivos. A Educação Sexual nas escolas está legislada há décadas, contudo esta questão contínua no papel. A irresponsabilidade, a insensatez e a inconsciência educativa do Ministério da educação tem sido notória, estando este calado perante os factos completamente à vista. Ler mais...
(Via : Esquerda.net)

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Excertos de uma entrevista

Ainda (muito) a tempo de aqui trazer, dada a pertinência do assunto e o mérito da abordagem, extractos de uma longa e notável entrevista – tanto pelo entrevistado, José Saramago, como pela entrevistadora, Pilar del Rio – saída no Expresso (revista Única) de 11 de Out.08. Ela, Pilar, que fez questão, logo no início, de deixar claro que não se resumiria a pôr questões, mas que opinaria também, o que tornou esta entrevista mais numa análise ou comentário de ambos sobre alguns dos temas mais em evidência na actualidade. Numa estrutura em que Pilar avançava com as deixas, deixando para Saramago mais o respectivo desenvolvimento, por vezes num motivador confronto das ideias expostas por cada um.

Como aconteceu, por exemplo, a propósito da crise mundial, que começou por financeira e agora cada vez mais se mostra geral e abrangendo o conjunto dos aspectos sociais. Apenas, pois, alguns excertos, pela oportunidade da reflexão e sempre pela lucidez e clareza da exposição. Com maior destaque, apesar de tudo, para as deixas que para os seus desenvolvimentos...

A aparente insensibilidade das opiniões públicas perante os enormes contrastes produzidos pela globalização liberal, que pouco ou nada reage ao aprofundamento das desigualdades e das situações de miséria extrema, dá o mote para a análise do tema. E o início de uma explicação surge através da pergunta que já inquietava Almeida Garrett: “quantos pobres são precisos para fazer um rico?”. Pilar esboça uma resposta ao afiançar que “(...) as pessoas não sabem (que a riqueza se alimenta da pobreza). Se os mestres do pensamento, se os partidos políticos de esquerda não o dizem, não sabem que são necessários muitos milhões de pobres para que haja um rico, simplesmente olham para os ricos com admiração, sem pensar que essa riqueza está construída sobre a pobreza de milhões de pessoas”.

Em nova deixa, Pilar desvenda um pouco da lógica que sustenta este sistema: “Se vivemos numa sociedade de mercado, se o mercado regula a democracia, parece que os governos têm de ser disciplinados segundo os interesses dos grupos económicos, e devem socorrê-los, chegado o caso, como nesta crise, para que o sistema não entre em quebra”.

E acrescenta: “Dizem grandes economistas que os bancos centrais são as entidades que permitiram os fenómenos que deram lugar à crise e, apesar disso, os analistas convencionais calam-se. O seu silêncio cúmplice frente aos paraísos fiscais, a sua pretensa independência, eram pretextos para gerir a economia a favor dos poderosos, coisa já evidente. Parece que é necessário revelar a natureza dos bancos centrais, assim como a cumplicidade das páginas económicas dos jornais”.

A conclusão vem de Saramago e é, só por si, todo um programa político: “As causas são conhecidas, as consequências não o são tanto, mas são sofridas por milhões e milhões de pessoas. Portanto, a questão está sobre a mesa com uma urgência que todos nós sentimos: é preciso pensar, propor, actuar... Muita coisa se resolveu, no passado, com a participação dos cidadãos”.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Uff !!!

Em resultado das eleições de ontem, o Bloco de Esquerda/Açores estreia-se, e logo com um Grupo Parlamentar, uma Deputada (Zuraida Soares, de S. Miguel) e um Deputado (José Cascalho, da Terceira ) ao obter 3,3% ( 2.976 votos ) contra os 0,97% ( 1.019 votos ) registados em 2004, aquando das últimas eleições fazendo, assim, história nos Açores e passsando a ser a quarta força política da Região.
Assim, e tal como afirmou Zuraida Soares, a líder regional do BE/Açores :
« é uma alegria partilhada com todos aqueles e aquelas que fizeram questão de lutar connosco na defesa de uma esquerda socialista plural que vamos levar para dentro do Parlamento Regional».

PS - vou "meter" umas mini-férias, prometendo voltar, tão cedo quanto possivel, à necessária abordagem crítica destas Eleições e aos "engasgos" da Democracia de Carlos César, cujo Partido, nestas eleições, perdeu 1 Deputado e 15.063 eleitores, num cenário de 53,24% de abstenção.

domingo, 19 de outubro de 2008

A afirmação – difícil mas urgente – de um projecto de esquerda (II)

Nunca como agora a situação política foi tão propícia à explicação do que realmente é o mercado e, em geral, todo o sistema capitalista. Sem recurso a elaboradas e complexas explanações económicas, do teor das que serviram à teoria tradicional para enredar a opinião pública, sob pretexto de serem apenas acessíveis a especialistas, por forma a melhor poder apoderar-se dos mecanismos de controle social, a nível económico e político. Daí a necessidade de uma afirmação clara dos objectivos e das políticas para os atingir, num momento de manifesta fragilidade ideológica do sistema, onde por isso mesmo é mais fácil passar a explicação objectiva do que está acontecer e das consequências para a sociedade se não forem adoptadas, a tempo, as medidas adequadas. Como, aliás, penso que foi feito de forma bem expressiva na 2ª das intervenções do Louçã a que me referi antes.

Tenho alguma dificuldade em aceitar que as alternativas propostas pela esquerda ao modelo de sociedade que produziu esta crise se resumam a pouco mais que enfileirar na exigência de uma maior regulação do mercado por parte do Estado. Tarda em os seus representantes mais coerentes (entre os quais naturalmente o Louçã), conseguirem libertar-se do peso do condicionamento mental imposto por 30 anos de domínio liberal absoluto e pela falência do ‘socialismo real’ (apesar de criticado há muito por uma boa parte deles). Mesmo depois de profundamente desacreditado (ou ferido de morte?) pela actual crise, o modelo liberal assente num mercado pretensamente auto-regulado parece manter-se praticamente incólume, dos responsáveis e restantes actores aos propósitos e prática política, onde os discursos e todas as diligências vão no sentido de lhe introduzir as correcções que, dizem, eliminarão as falhas que originaram tudo isto. Agora, como sempre, o sistema prepara-se para, através de algumas mudanças, conseguir que, no final, tudo fique na mesma.

Mas que o não seja com a complacência (no mínimo) da esquerda. Que parece manietada pelo entrelaçado nó górdio em que se transformou o actual descalabro económico, muito por efeito das depreciativas suspeitas tecidas em torno da intervenção pública (tida como serôdia, quase arqueológica), pelo que, até agora, nem sequer ousou avançar com uma medida tão óbvia como a do controle político do sistema financeiro a nível mundial, porventura por pudor ou receio de tal medida ser apodada de filiada no tão negregado e já por demais eviscerado ‘socialismo real’. Certo é que esse controle está já a acontecer, não por proposta inserida em qualquer modelo alternativo, antes sob pressão da própria realidade que todos os dias parece superar os cenários mais sombrios da véspera. Correndo-se o risco, claro, de vir a ser recuperado e integrado no sistema, a seu devido tempo.

Tal como eu o entendo (e, penso, corresponde à sua matriz), o Bloco não é um partido no sentido leninista do conceito, mas um projecto onde convergem diferentes sensibilidades unidas por um propósito comum, a construção de uma sociedade socialista – ele próprio, é certo, rodeado de grandes incertezas sobre a natureza dessa alternativa e, portanto, de difícil conciliação na prática. Mas tem sabido conjugar a intransigente defesa deste ideário com a luta contra todos os sectarismos, o que lhe atribui especiais responsabilidades no conjunto das forças políticas de esquerda. Por isso mesmo os seus objectivos, sobretudo nesta fase histórica, não podem dissociar o trabalho pedagógico de consciencialização crítica, do trabalho político propriamente dito, incluindo o de índole mais eleitoral.

Até porque, em minha opinião, o Bloco não pode resumir-se a pretender ser apenas o refúgio dos episódicos descontentes do PS. Porque se arrisca a ser constituído por um núcleo, pequeno, de militantes fiéis e uma massa, mais ou menos significativa (conforme as conjunturas), de simpatizantes (e eleitores) flutuantes. E a diferença para um projecto mais consistente, capaz de suscitar uma maior fidelização, pode bem residir na clareza da alternativa proposta ao actual modelo social assente no mercado, que não deve pretender ser constituída em torno da ‘velha’ pretensão liberalizante de expurgar os aspectos negativos desse modelo (que tem sido, afinal, a ‘missão histórica’ dos partidos socialistas tradicionais), antes afirmar-se claramente anti-capitalista e de ruptura com o sistema.

Hoje, como nunca, a discussão sobre o conteúdo dessa alternativa impõe-se com urgência.

Eleições nos Açores : hoje, é dia de Votar ...


sábado, 18 de outubro de 2008

Duas mensagens para um projecto?

Na quinta-feira passada (16 de Out.), à noite, assisti a duas intervenções do Francisco Louçã sobre a actual crise. Primeiro na televisão, depois num debate promovido pelo Le Monde Diplomatique. E se trago aqui o assunto é sobretudo por não estar seguro de as mensagens transmitidas nas duas comunicações se poderem sobrepor, ou mesmo de uma poder ser o desenvolvimento da outra. E também porque me permite expressar um pouco aquilo que me parece ser, até à data, a estratégia da esquerda perante a crise e analisá-la criticamente.

Dir-se-á, desde logo, que a táctica comunicacional, atenta a heterogeneidade das duas audiências, aconselharia mensagens diferentes na forma (embora reproduzindo uma orientação comum). A primeira, dirigida a um público muito diversificado e por isso mais moderada, apontando para medidas imediatas e próximas das preocupações das pessoas; a segunda, perante um auditório já motivado pelo tema, permitindo um tratamento mais elaborado e de perspectivas a longo prazo. Contudo, a sensação que retirei destes dois momentos do Louçã é que podem não ser totalmente convergentes (descontando, portanto, o efeito dos públicos e dos meios de comunicação utilizados diferentes).

Explico-me:
– Na entrevista televisiva (não vi os 5 a 10 minutos iniciais), a preocupação do Louçã parece ter sido a de acomodar (ou pelo menos não hostilizar) a onda dominante que pretende sobrevalorizar as causas morais da crise – insistindo na ganância e na fraude dos gestores financeiros – enquadrando, por isso mesmo, a sua saída, em medidas de correcção mais de natureza técnica (maior regulação dos mercados, é certo que com um maior controle político do Parlamento) do que de natureza política, ainda que pondo em evidência a dualidade de comportamentos do Estado perante as vítimas daquela: pressuroso e mãos largas no caso dos financeiros, alheado, por exemplo, no caso dos desempregados com casa própria, de repente impossibilitados, por razões alheias à sua vontade, de cumprirem com os planos de pagamentos acordados.

– No debate do MD, entretanto, as causas da crise vão muito para além da ética dos gestores e entroncam na natureza do próprio sistema capitalista mundial, basicamente num processo de profunda desvalorização do capital, sobretudo financeiro (essencialmente capital fictício, pois nas duas ou três últimas décadas, ele tem sido sustentado pela especulação bolsista com epicentro na ultraliberal América!), conduzindo logicamente à desvalorização do trabalho de cuja sobreexploração se alimenta a sua acumulação. E se assim é, a solução para a crise não passa por mais ou menos regulação e melhores níveis de auditoria das empresas – pois comprova-se que a isenção e independência dos reguladores e auditores é uma falácia destinada a legitimar o poder económico capitalista, precisamente baseado na desregulação do mercado! – passa pela alteração radical da política e, logicamente, do papel do Estado na economia.

É certo que o condicionamento do meio televisivo, face à diversidade dos públicos atingidos, aconselha alguma prudência, até para garantir alguma eficácia da mensagem que se transmite. Penso, no entanto, que a degradação das condições actuais, a nível económico, político e até (ou sobretudo) ideológico, é hoje particularmente propícia à demonstração de que um outro modelo de sociedade se tornou indispensável e, por isso, aconselharia maior ousadia no seu conteúdo. E designadamente uma melhor explicitação (tanto quanto é já hoje possível fazê-lo) dos objectivos e medidas para os atingir.
Como tentarei mostrar em próxima posta.
(...)

Eleições nos Açores : falta 1 dia ...


Por aqui, nos Açores, hoje, é dia de reflexão ...


sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Eleições nos Açores : faltam dois dias ...

«O homem sensato só pensa nas suas inquietações quando julga de interesse fazê-lo; no restante tempo pensa noutras coisas e à noite não pensa em coisa nenhuma.
Não quero dizer que numa grande crise, por exemplo, quando a ruína está iminente, ou quando um homem tem razões para suspeitar que a mulher o atraiçoa, seja possível, a não ser a alguns espíritos excepcionalmente disciplinados, afastar o tormento nos momentos em que nada se pode fazer para o remediar.
Mas é perfeitamente possível afastar as pequenas inquietações de todos os dias, a não ser que seja necessário enfrentá-las.
É surpreendente como a felicidade e a eficiência aumentam quando se cultiva um espírito ordenado que pensa adequadamente no momento preciso em vez de inadequadamente em todos os momentos.
Quando uma decisão difícil tem de ser encontrada, logo que se reúnem todos os dados aplica-se ao assunto a melhor reflexão e decide-se; essa decisão, uma vez tomada, não deve ser corrigida, a não ser que se chegue ao conhecimento de novos factos.
Nada é tão fatigante como a indecisão e nada é tão fútil.»
Bertrand Russell, in «A Conquista da Felicidade»

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Eleições nos Açores : faltam 3 dias ...

«Poderia definir-se o sentido de possibilidade como aquela capacidade de pensar tudo aquilo que também poderia ser e de não dar mais importância àquilo que é do que àquilo que não é. Como se vê, as consequências desta disposição criadora podem ser notáveis; infelizmente, não é raro que façam aparecer como falso aquilo que as pessoas admiram e como lícito aquilo que elas proíbem, ou então as duas coisas como sendo indiferentes. Esses homens do possível vivem, como se costuma dizer, numa trama mais subtil, numa teia de névoa, fantasia, sonhos e conjuntivos; se uma criança mostra tendências destas, acaba-se firmemente com elas, e diz-se que tais pessoas são visionários, sonhadores, fracos, gente que tudo julga saber melhor e em tudo põe defeito.Quando se quer elogiar estes loucos, chama-se-lhes também idealistas, mas é claro que com isso só se alude à sua natureza débil, incapaz de compreender a realidade, ou que a evita por melancolia, uma natureza na qual a falta do sentido de realidade é um verdadeiro defeito. [...]
É a realidade que desperta a possibilidade, e nada seria mais errado do que negar isso. E no entanto, no cômputo global ou em média, as possibilidades serão sempre as mesmas até aparecer alguém para quem uma coisa real não é mais importante do que uma imaginária. É ele que dará às novas possibilidades o seu sentido e a sua finalidade, é ele que as desperta.»
Robert Musil, in «O Homem sem Qualidades»


Nota : esta “postagem” é dedicada a Tod@s e a Cada Um(a) que assistiram, ontem, na RTP/Açores a uma “coisa” que, em tempo de Campanha Eleitoral, pretendia ser uma espécie de debate, e que demonstrou, feliz e cabalmente, e para quem tivesse quaisquer dúvidas, a qualidade da Democracia vivenciada na Região Autónoma dos Açores.
Para quem, ainda e agora, possa ter quaisquer indecisões, eu, pela minha parte, por causa DISTO, votaria em Zuraida Soares, porque tenho a certeza que : nos Açores, o Bloco Faz Falta !!!

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Eleições nos Açores : faltam 4 dias ...

Porque é importante para @s Açorian@s o Voto em Zuraida Soares ?
Porque, nos Açores o Bloco Faz Falta !!!


O Bloco de Esquerda fará no próximo ano, em 2009, dez anos.
É, portanto, um partido jovem, ainda muito jovem e nasceu por uma razão objectiva, por um imperativo de necessidade :
- era preciso esquerda com alternativa(s) …

Nestas Eleições Regionais, em 19 de Outubro, com a eleição de uma representação parlamentar, nada fica(rá) como outrora na Assembleia Regional dos Açores.
Porque, com representação parlamentar, o Bloco de Esquerda/Açores fica(rá) seriamente comprometido e empenhado no sentido de desmontar a “césarista” inevitabilidade do pensamento único.
Tratar-se-á, é certo, de uma tarefa árdua e muito exigente, porquanto a criação dessa alternativa ( de e à esquerda ) terá de mobilizar, de encontrar respostas muito coerentes na oposição ao próximo futuro Governo de Carlos César procurando, por um lado, uma abrangente vivência social contra as desigualdades e as injustiças da maioria da população e, por outro lado, a busca de um pensamento crítico que “invente” respostas, que destrua ideias feitas, que combata este liberalismo reinante.
Sabe-se, sabemo-lo tod@s, que o governo do partido e/ou o partido do governo, i.e.: o PS/Açores e Carlos César já ganharam estas eleições regionais; então, porquê (em)prestar-lhe mais um voto, o Seu voto, contribuindo, assim, para uma maioria ainda mais absolutista ?
Ter-se-á dado conta, certamente, que em época pré-eleitoral, o governo do partido e/ou o partido do governo, i.e. : o Governo Regional do PS/Açores, encetou uma inusitada campanha de operação de propaganda no sentido de “vender” a ideia que, nos Açores, vive-se um oásis de/na governação…
Você, Açorian@, das diversas Ilhas do Arquipélago, consegue, por acaso, descortinar este “tudo vai bem” na Região Autónoma dos Açores ?
Ora, é por tudo isto, e por este Manifesto, que o Bloco de Esquerda/Açores, no dia 19 de Outubro, deve(rá) ser merecedor do Seu voto.
Para que o Bloco de Esquerda/Açores seja, de facto e de direito, uma nova alternativa ( de e à esquerda), uma esquerda de confiança, combativa, imaginativa que, com muita e muita energia, possa afirmar-se no espectro politico dos Açores, no Parlamento Regional.
Para que, no Parlamento Açoriano, o Bloco de Esquerda/Açores, como alternativa ( de e à esquerda ) de confiança, não traga qualquer “sossego” ao próximo futuro Governo Regional.
Porque, no dia 19 de Outubro, todos os Votos contam, não hesites e Vota no Bloco de Esquerda/Açores, Vota em Zuraida Soares.

Porque, nos Açores o Bloco Faz Falta !!!

terça-feira, 14 de outubro de 2008

O Casino, de novo

Nas Bolsas de todo o mundo, às maiores quedas de sempre sucedem-se agora as maiores subidas de sempre, sob efeito das medidas tomadas pelos Governos de todo o mundo, disponibilizando biliões dos recursos que arrecadam de todos os contribuintes para salvar o que apelidam de irresponsabilidade dos gestores. Neste contexto, o apelo de Bush para ‘uma resposta séria à escala mundial’, não passando de mais uma inócua pretensão de liderança, constitui patética demonstração de falta de vergonha.

A dúvida que agora se instala (só agora?) é se esta nebulosa e lastimável conjugação – Bolsas, Governos, contribuintes, gestores – não irá voltar ao que era antes e tudo, afinal, não vá passar de mais um jogo deste estranho casino em que o mercado transformou a economia mundial. É que até aqueles ganhos – poucos – que se admitiam poder resultar da crise, relacionados com a poupança da energia e uma maior moderação nos comportamentos, se encontram agora em risco, com a mensagem transmitida ao consumidor de que, afinal, o susto passou, pode continuar a gastar como antes.

Esquecida a memória, ignorada a razão, restam, como sempre, os interesses. Os de sempre, sobretudo: os da minoria que se serve da ‘ideologia do mercado’ para a defesa dos seus particularíssimos interesses. A esperança, essa, persiste, e reside em que a imensa maioria se tenha mesmo apercebido das piruetas a que a ‘ideologia’ se viu obrigada para salvar o 'mercado’.

Tudo se conjuga, pois, para se ‘voltar ao que era dantes’, para se dar por encerrado este incómodo episódio, para o considerar apenas um hiato na ‘permanente subida aos céus do capitalismo’, para se regressar, portanto – porventura com alguns acertos mais ou menos cosméticos – ao ‘melhor dos mundos’. Amem.

Eleições nos Açores : faltam 5 dias ...

"A ignorância é uma coisa vil, abjecta, indigna, servil, sujeita a inúmeras e violentíssimas paixões. Destes insuportáveis tiranos que são as paixões - e que por ora nos governam alternadamente, ora em conjunto - te libertará a sabedoria, a única liberdade autêntica.
Para chegar à sabedoria, um só caminho e em linha recta; não há que errar, avança em passo firme e constante. Se queres que tudo te esteja sujeito, sujeita-te tu à razão; dirigirás muitos outros, se a ti te dirigir a razão. Ela te dirá o que deves empreender, e que maneira; assim não serás surpreendido pelos acontecimentos.
Tu não podes apontar-me alguém que saiba de que modo começou a querer aquilo que quer.
E porquê?
Porque o comum das pessoas não é levada pela reflexão, mas arrastada por impulsos. A fortuna cai sobre nós não menos vezes do que nós caimos sobre ela.
A indignidade não está em «irmos», mas em «sermos levados», em perguntarmos de súbito, surpreendidos, no meio de um turbilhão de acontecimentos:
«Mas como é que eu vim parar aqui?»
Séneca, in «Cartas a Lucílio»

domingo, 12 de outubro de 2008

O controle ideológico da crise

Por estes dias, o tema que mais atenções – e preocupações – suscita é, de longe a ‘crise internacional’ e as formas de a ultrapassar. Como seria de esperar, a comunicação social concede-lhe largo destaque, obviamente mais concentrada nas audiências do que em contribuir para a sua resolução. Tardam a aparecer alternativas reais à situação actual.

Depois de uma longa gestação, de vários ameaços e não sei quantos avisos, a crise explodiu e parece ter apanhado meio mundo de surpresa (o outro meio, talvez mais, nem se apercebeu de qualquer mudança, pois o seu estado 'natural' é a crise permanente). Passado um primeiro momento de quase aturdimento e de manifesta desorientação, a nível dos responsáveis políticos e dos analistas mais encartados, surpreendidos (e até assustados) com a dimensão atingida, adoptadas as medidas de emergência tidas como indispensáveis – com a proscrita intervenção dos Estados a ser considerada bem vinda – entrou-se na fase das análises pretensamente mais ponderadas, mais informadas, mais técnicas, a pensar porventura já no mais longo prazo.

Não admira, pois, que a toda hora a crise seja tema de debate na generalidade da comunicação social. Mas por mais incrível que pareça, os ‘especialistas’ convidados para estas análises são exactamente os mesmos que no passado apareciam a fazer a apologia do modelo que agora entrou em crise (limito-me aqui a constatar uma evidência factual, sem qualquer juízo de valor, a de que o modelo de mercado está em crise, sem me atrever sequer a afirmar se a crise é passageira ou profunda – embora sobre isso já haja poucas dúvidas – ou se entendo as medidas em discussão para a conter ajustadas ou fora de propósito).

Assistimos então à sistemática repetição dos mesmos comentários, à análise das causas apenas à superfície e a propostas de solução de igual jaez, com a ritual declaração prévia – não vá alguém supor tratar-se de herege na clandestinidade ou, pior ainda, rotundo analfabeto em economia – de profunda convicção e absoluta fidelidade ao mercado (normalmente arvorado no par ‘elegante’ da democracia) e sempre às mesmas conclusões: o que falhou foi a regulação, logo introduza-se mais regulação com melhor controle!

Mas então nestas circunstâncias e apenas de um ponto de vista meramente racional, de simples eficácia nos resultados, não seria mais avisado proporcionar o confronto de verdadeiras alternativas e, para isso, convidar pessoas com concepções e pontos de vista diferentes, porventura antagónicos, por forma a permitir-se alargar o leque das eventuais soluções e saídas para a crise? Não seria até mais inteligente adoptar as regras do método científico na procura da maior objectividade e, depois do que aconteceu, pôr tudo em causa e partir à descoberta da verdade – o que implica alargar o leque das possibilidades até onde for preciso?

Até agora, porém, não vi em nenhum dos debates uma única posição discordante da linha dominante que define o mercado como o par ideal da democracia. Será mesmo?

Respira-se um ar bafiento e maçador nestes debates repetitivos, previsíveis e viciados à partida. Nada de novo acrescentam, servem apenas para justificar posições passadas, prolongar vantagens adquiridas, adiar mudanças inevitáveis. Faz-se sentir sobre os intervenientes, independentemente das boas intenções de alguns, o peso asfixiante da ideologia que em determinado momento chegou mesmo a proclamar o ‘fim da História’, entretanto já desmentido pelo seu próprio autor, o que traz à memória o célebre dito de Mark Twain aos que o davam como morto: ‘as notícias da minha morte são manifestamente exageradas’!

O debate sobre as alternativas reais à desgovernação que nos conduziu à presente situação tarda, pois, a ter lugar, pelo menos a nível público e aberto. Mais uma vez irá ser a realidade a reclamá-lo. E, pelos vistos, não há-de faltar muito. As soluções de dentro do sistema não passam de paliativos e estão em vias de esgotar as suas possibilidades, até agora, como era de prever, sem mostras de grandes melhoras.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

A génese da crise, segundo alguns neoliberais

Têm-se multiplicado, como era de prever, as explicação dos neoliberais para o eclodir da crise actual – que teimam em reduzir à financeira, mas que vai muito para além desta, como já é bem perceptível – na tentativa de sacudirem do capote as suas mais que óbvias responsabilidades. Uma delas, talvez a mais recente, junta, de um lado (na Sic/N) Pedro Ferraz da Costa, o ex-patrão dos patrões, a Eduardo Catroga, o ex-ministro de Cavaco (que já antes, em entrevista ao DN, havia tentado proeza idêntica, num ‘embrulho’ histórico sobre as crises anteriores), no denodado e concertado esforço de investigação pela ‘descoberta’ da génese (é mesmo assim que este último lhe chama) da crise financeira actual!

Apuraram estes dois briosos paladinos da verdade histórica que a explicação remonta, pasmem, a 1999 (só?), quando – e citam um artigo do New York Times de então – a Administração Clinton, na tentativa de democratizar a aquisição de habitação, pressionou o Freddi Mac e o Fannie Mae a concederem crédito às populaçôes hispânica e negra para essa finalidade, daí resultando o já tristemente famoso ‘sub-prime’, o malfadado vírus da crise actual (!).

Caem, assim, por terra as explicações de tipo moralista em que até aqui afanosamente se refugiavam os liberais menos informados (por menos dados a investigações) para não terem que admitir máculas insanáveis no mercado, quando afirmavam – constata-se agora que apressadamente – que a causa deste descalabro tinha a ver com a ganância, a fraude e até a corrupção de alguns gestores financeiros pouco escrupulosos.

Nada disso. A origem da crise, afinal, esteve, mais uma vez, no Estado, a causa última de todas as falhas, definitivamente a explicação suprema para todas as crises! Mesmo quando esse Estado está declaradamente ao serviço e sob dependência do mercado – como era sem sombra de dúvida então o caso – ou quando a ele se recorre em desespero de causa na esperança de se remediar o mal feito e evitar-se o pior – como é de forma ostensiva agora o caso.

As piruetas e malabarismos a que se sujeitam os atarantados neoliberais seriam cómicas não fora a situação ser dramática. Esperemos, a bem da maioria que, como sempre, mais irá sofrer com ela, que a não transformem numa tragicomédia, pois já basta o que aconteceu – e continua a acontecer!

Decididamente estas luminárias, inebriados pela fé no poder mágico (auto-regulador) do mercado, demoram a acordar para a realidade. E quando isso acontecer (mais cedo ou mais tarde vai mesmo acontecer), só esperamos que o acordar deles não coincida com eventuais pesadelos nossos.