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sábado, 17 de abril de 2010

O impertinente e a esfinge

No episódio checo do ‘confronto’ dos déficits entre os dois países (?), não sei o que mais censurar: se a pesporrente provocação (ainda que em tons melífluos, quase dengosos!) do ultra-vaidoso presidente checo – trazendo à baila, da forma mais impertinente, um tema melindroso e passível de múltiplas abordagens; se a esfíngica reacção (hirta e distante, como é seu timbre, de quem, afinal, só ali estava de passagem – para ver a paisagem?) do ‘quase ausente’ presidente português – de boca aberta (é a sua imagem de marca) e sem capacidade de resposta!

A explicação posterior, frouxa e tardia, em jeito de desculpas para a insolente atitude do checo Vaclav Klaus, não passou disso mesmo, de desculpas! Tardias e... sem jeito! Porque, no mínimo, exigia-se ao português Cavaco, que reagisse na hora, mais que não fosse para frisar – diplomaticamente, bem entendido – que ‘o outro’ nada tinha a ver com isso (por não pertencer à ‘zona do euro’, nem sequer entra na constituição do pacote financeiro acordado para auxiliar a Grécia, no âmbito do designado ‘mecanismo europeu de assistência’!).

Um Presidente que não sabe responder à letra e na hora a provocações, venham elas de onde vierem, não serve para... Presidente. Não é o meu Presidente!

sexta-feira, 17 de abril de 2009

“Quem é aqui a superpotência?”

Nunca os adeptos do ‘quanto pior melhor’ pareceram estar tão próximos desse objectivo como porventura agora com o novo governo israelita e, em especial, o seu MNE, o ultra-direitista Avgidor Lieberman. A primeira declaração deste, logo que tomou posse, foi considerar enterrado o processo de paz, ao denunciar os acordos de Annapolis (elaborados em 2007, na era Bush, vejam bem), por estes apontarem à constituição de um Estado Palestiniano, a par do já existente, Israel (passariam a coexistir, no espaço da antiga colónia britânica da Palestina, dois estados independentes: Israel e Palestina – envergonhadamente designado por Estado Palestiniano!). De acordo com a declarada opinião do novo MNE israelita, tais acordos ‘não têm validade’(!!!).

Independentemente da viabilidade ou não dos dois Estados nas actuais condições geográficas do terreno, esta tomada de posição dos novos responsáveis israelitas, ainda que esperada (e sem perda de tempo, pelos vistos), é um autêntico desafio à também nova administração norte-americana, que de imediato fez saber, aquando da deslocação de Obama à Turquia (bem perto, pois, do local do ‘crime’), que os Estados Unidos apoiam o objectivo que as partes acordaram precisamente em Annapolis, ‘de dois Estados, Israel e Palestina, vivendo um junto ao outro, em paz e segurança’, objectivo que para Obama, afirmou este, irá ser também o seu.

A propósito, o jornal El Pais referia um curioso episódio ocorrido ainda no tempo de Clinton (no final do seu mandato), na sequência das reacções negativas com que certos meios políticos israelitas haviam recebido as conclusões de um relatório solicitado por ele ao seu assessor George Mitchell e em que este concluía: ‘O Governo israelita deve congelar toda a actividade colonizadora, incluindo o crescimento natural dos colonatos existentes’. Ao ser informado destas reacções e referindo-se, em privado, especificamente a Benjamin Netanyahu, actual 1º Ministro do Governo israelita, Clinton terá desabafado (sic): ‘Quem diabo se julga ele que é? Quem é aqui a superpotência?’.

Não sabemos qual a reacção, também em privado, de Obama, ao tomar conhecimento das declarações do MNE israelita, mas sabemos que de imediato e publicamente fez questão em reiterar os princípios básicos da sua política para a região. Sabemos ainda, que a chefe da diplomacia da sua Administração é Hilary Clinton e que o enviado especial da Casa Branca para o Médio Oriente é... George Mitchell, que se deslocou agora a Israel, numa visita aparentemente ainda só exploratória, tendo como objectivo expresso ‘promover a fórmula dos dois Estados’.

O enorme imbróglio em que se converteu a situação na região, conhece, assim, nova fase, de contornos ainda incertos, mas, a avaliar pelas declarações dos responsáveis, ainda mais perigosos (se tal é possível) ao que já existia. Conforme expressei em anterior comentário e por força da implantação dos colonatos judaicos em território presumidamente destinado ao futuro Estado Palestiniano, ‘a mera configuração geográfica que este processo adquiriu apresenta-se de tal modo complexa e confusa, que torna praticamente impossível a solução (até agora aposta dominante na desacreditada diplomacia internacional) assente na existência de dois Estados independentes’.

Mas não é esta impossibilidade prática (que o futuro se encarregará de confirmar) que condiciona a evolução do processo de paz, na sua actual fase – ou que determinou a posição que transparece das palavras do MNE israelita. O que tal posição visará é, certamente, condicionar o resultado esperado das negociações com vista à implantação de um Estado da Palestina, partindo da actual situação no terreno como facto consumado (o que, caso viesse a acontecer, acentuaria – que não haja dúvidas – a sua inviabilização como Estado). Mas não deixa de se constituir num claro desafio à superpotência, no momento em que esta parecia reunir melhores condições para, finalmente, avançar para uma solução de paz.

Ficamos, pois, à espera para saber ‘quem é aqui a superpotência’, sr Obama.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Requiem pelo passado?

Acabo de ouvir, mais uma vez, o Requiem Alemão de Brahms, numa versão já não muito recente de Klemperer e, como sempre, sinto-me transportado para outros universos, a realidade transfigura-se e parece ganhar outra vida. Sobretudo aquele 5º movimento, arrebatador na voz sublime de Elisabeth Schwarzkopf, elimina as últimas resistências de ligação a qualquer sensação material, uma espécie de exaltação onírica parece transcender a realidade envolvente e, por momentos, esqueço todos os problemas que me atormentam. A música é um refúgio, eu sei, e eu deixo-me conduzir pelo seu encanto.

Hesito em estabelecer óbvios paralelos entre este Requiem e os tempos actuais. De forma mais directa, à presente quadra e ao repetido ritual sagrado dos cristãos; em termos mais distantes, porventura até despropositados, ao simbolismo que é possível extrair de tudo o que se passou na Cimeira dos G20, em Londres, na semana passada.

Confesso alguma nostalgia por toda a envolvência deste período do ano, pelas reminiscências de hábitos culturais cada vez mais em desuso, pelo canto gregoriano que facilmente se lhe associa – em especial por aquela despojada melopeia do ‘Dies Irae’, agora reproduzida em inúmeras versões comerciais, mas sem o ambiente que lhe garante autenticidade e a sua razão de ser. Mas não resisto à equiparação política, não obstante, repito, o abuso da hipérbole. De facto, ‘requiem’ por quê?

Não que já tudo tenha sido dito sobre os enaltecidos resultados da Cimeira que reuniu em Londres o grosso do poder mundial. O mais que se ouviu – e ouviu-se repetidamente – foi que as expectativas foram ultrapassadas, não tanto pela excelência dos mesmos, mas porque aquelas eram baixas. Perpassa, atrevo-me a dizer, mesmo entre os mais eufóricos na exaltação dos seus efeitos, um certo sentimento de frustração, como se o alívio que transpira das suas auspiciosas palavras exigisse algo de mais substancial que os muitos milhões das medidas anunciadas. Também porque, a par destas, a par dos resultados visíveis produzidos, algo permanece na penumbra ou até mesmo na completa ignorância, percebe-se que há decisões que só podem entender-se se lidas nas entrelinhas – ou para além delas.

Sobre os primeiros – os efeitos anunciados ou à vista de toda a gente – o principal ou o que mais duradouras consequências pode vir a provocar é de natureza mais psicológica que material e desenvolve-se em torno do ‘efeito Obama’. Tanto pelo estilo pessoal na quebra da crispação existente (herança de Bush), como pela capacidade de liderança nas orientações transmitidas (nos diversos domínios, da economia ao ambiente, às relações internacionais,...), Obama excedeu as expectativas de muita gente (incluindo as minhas), sobretudo pelo caminho aberto entre uma empertigada ortodoxia europeia, incapaz de evoluir seja a nível do protocolo, da economia ou da visão do mundo.

Quanto aos segundos – a importância dos bastidores – atrevo-me a pensar que o principal protagonista do encontro (tanto ou mais que Obama, logo o saberemos), terá sido a China, cujo papel se torna difícil de avaliar por enquanto. Discretamente, como lhe é apanágio e condiz com o estilo oriental (não obstante o numeroso séquito de que a sua delegação se fez acompanhar), chegou e, parece, teve o condão de ‘pôr ordem’ numa casa que, tudo o indicava, estava longe de se considerar arrumada. De concreto pouco se sabe do papel desempenhado, mas que ele foi de relevância fundamental para o resultado final não parecem restar dúvidas. A que preço? Quais as contrapartidas? Qual o papel deste emergente colosso no futuro das relações internacionais?

Vou voltar a ouvir o ‘requiem’ de Brahms, desta vez não ainda, como gostaria, um ‘requiem’ pelo passado de um mundo que se recusa a mudar, que, ao invés, continua a garantir a opulência e o desperdício 'por contraste com a miséria’, a incentivar a exploração ‘por razões económicas’, que suporta a opressão ‘porque é normal, sempre foi assim’,... Ouvi-lo-ei tantas vezes quantas o exigir a exorcização do pesadelo. E sempre, posso assegurá-lo, com imenso deleite e enorme vontade de enterrar este passado que poucas saudades deixa. Não obstante, reconheço, dele subsistirem algumas felizes reminiscências de sabor cultural.

Entretanto, uma Boa Páscoa.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Credibilidade e diplomacia

Portugal, pela voz do MNE, informou-nos que vai reconhecer o Kosovo e juntar-se ao restrito clube de países (pouco mais de 40 dos 203 que existem) que já o fizeram. Apenas duas perguntas:
– Porquê agora? Ou, de modo mais explícito, o que é que mudou desde a declaração unilateral da independência por parte desta província sérvia até hoje, para o ‘nosso’ reconhecimento ter sido agora e não então?
– Pela mesma lógica, o que impede o MNE de reconhecer também a Ossétia do Sul e a Abcázia?

Respostas difíceis, quando a lógica da diplomacia se rege apenas na base dos interesses e das pressões internacionais (mais ou menos negociadas, com menos ou mais contrapartidas). Mas mais incompreensível se torna a tomada desta medida, agora, quando somos informados que este mesmo MNE apoia a Sérvia na sua proposta junto da ONU para que aquele processo venha a ser considerado ilegal !!!

Verdadeiramente arrasadoras as declarações de Carlos Santos Pereira na SIC/N, incluindo informações comprometedoras relativas a relatórios recentes da UE que apontam claramente pela inviabilidade absoluta deste Estado fantoche, associadas à da mais que provável razão por trás deste Estado: a instalação de uma base estratégica dos EUA no território.

Uma coisa parece certa: o MNE português acabou de perder, na cena internacional, boa parte da credibilidade que havia acumulado quando decidiu não seguir as referências ocidentais neste irregular processo (até pelo precedente aberto).