Mostrar mensagens com a etiqueta Comunicação Social. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Comunicação Social. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

A mudança política em Portugal (IV)

O ‘pequeno passo’ de um Acordo histórico


Cumprida a segunda fase da mudança política em Portugal (a primeira ocorreu com a rejeição nas eleições legislativas de 4Out. da alternativa austeritária da coligação da direita) com a arrastada tomada de posse de um Governo que pretende inverter as prioridades políticas actuais, pondo as pessoas no lugar dos mercados, falta agora cumprir esse desígnio na sua essência. Descontada a farronca inconsequente de um presidente à beira do fim (mas que esbraceja como se não fosse deixar de o ser!), abortada a insolente campanha de uma frustrada oposição presa à extremista tese da ilegitimidade de um governo saído maioritariamente do parlamento recém-eleito (na obstinada fixação em eleições antecipadas, com o único propósito de recuperar o poder agora perdido), os maiores obstáculos à realização do Programa de Governo negociado entre toda a esquerda encontram-se a outros níveis bem mais críticos. Não será da oposição visível e declarada (parlamentar e presidencial) que advirão as maiores ameaças ao novo Governo, elas emergem bem mais sérias e certas de outras paragens onde era suposto, pela natureza dos seus intervenientes e das regras democráticas, prevalecer a neutralidade e a isenção.

Desde logo o da matilha neoliberal instalada na comunicação social – área que devia primar pela isenção e objectividade. Contudo, o domínio ideológico é tão absoluto e insistente que sobra pouco espaço, de tempo ou de lugar, para qualquer alternativa. O resultado é a uniformização das mentalidades segundo o ‘pensamento ‘único’ neoliberal, a que a generalidade de comentadores, especialistas, analistas, políticos e demais opinantes sujeita as audiências. A prova pode ser feita nos diversos programas de ‘opinião pública’, onde a forma estereotipada como os ouvintes se expressam, mesmo quando expõem posições contrárias, revela bem a amálgama que daí resulta. Sendo hoje a capacidade de moldar consciências e uniformizar comportamentos uma generalizada característica mediática na formatação das opiniões públicas, a sua subordinação ideológica constitui a primeira grande ameaça com que um poder que pretende a mudança se irá seguramente confrontar. Já se percebeu que esse alinhamento ditará tanto a ‘prioridade jornalística’ aos opositores da nova orientação política (seja por entrevista, pelo comentário, em análise…), quanto procurará ‘amplificar a mais pequena divergência’, real ou fantasiada, entre os três principais parceiros desta solução.

Uma outra ameaça é a que provém da Europa, mais propriamente das instituições europeias – onde seria suposto preponderar mais a neutralidade. Depois da Grécia tudo parece ter ficado mais claro sobre a limitada capacidade de decisão democrática de cada estado membro da UE. O que ainda não ficou bem claro foi o âmbito desses limites na construção de uma qualquer alternativa à ‘alternativa única’ imposta por Bruxelas/Berlim. Mas depois da Grécia dificilmente os que impuseram a humilhação do ‘Grexit’ admitirão qualquer desvio à linha política traçada. A menos que a isso sejam obrigados pela realidade: a que for imposta pelas inúmeras fissuras internas à própria União (sejam de carácter económico – disfuncionalidade do Euro, crise das dívidas…; ou de carácter político – eleições em Espanha, autonomias regionais, referendo britânico…), ou pelas diversificadas dinâmicas externas (Síria-terrorismo-migrações, agudizar da crise financeira mundial…). A actual deriva securitária, em resposta à ameaça terrorista, surge bem oportuna como forma de justificar o âmbito mais alargado de restrições à democracia que a prática do ‘pensamento único exige – mesmo que os respectivos propósitos aparentem não ter qualquer relação, directa ou indirecta, entre si.

As maiores expectativas quanto ao futuro desta nova solução governativa, no entanto, concentram-se em torno do que se antecipa como um difícil relacionamento entre o PS e os seus parceiros à esquerda (BE, PCP, PEV e agora também o PAN) tendo em conta as divergências de partida, a nível sociológico, ideológico e até histórico. A tensão entre aquilo que se convencionou chamar de ‘moderação socialista’ face ao ‘radicalismo de esquerda’ (ainda que se vislumbre uma facção radical no seio do próprio PS) será uma realidade sempre presente enquanto durar o Acordo e estender-se-á a todas as áreas políticas relevantes. O centro dessa tensão estará, sem surpresas, no difícil e muito instável equilíbrio entre o ‘rigor orçamental’ exigido pelo Tratado Orçamental e a ‘urgente reposição’ do esbulho perpetrado pela direita (em rendimentos e em direitos sociais e do trabalho). Mas se a manutenção do acordo depende, antes de mais, desse equilíbrio – com o PS a não abdicar do rigor orçamental e a esquerda radical a exigir a reposição de direitos usurpados – ele irá ser constantemente posto à prova, a partir desde logo do estrito cumprimento da lei vigente. É no domínio do trabalho e da precarização das relações laborais que mais se faz notar a urgência na reposição da legalidade subtraída: a nível dos contractos a prazo (renovados por tempo indefinido), dos falsos recibos verdes (sujeitos a horários, a dupla tributação e sem direitos sociais)…

A favor da manutenção e estabilidade do Acordo milita a certeza de que as principais vítimas de um eventual fracasso serão, em primeira linha, os seus protagonistas. Essa é seguramente a sua maior garantia, bem destacada aliás pela generalidade de quantos, à direita e à esquerda, se têm pronunciado a propósito. E a convicção de, caso se mantenha o entendimento que permitiu tal Acordo contra todas as oposições e contrariedades – contra até os mais ansiados vaticínios de desavenças e do seu inexorável termo para breve – ainda assim se tratar só do primeiro passo para uma efectiva mudança social, para já apenas destinado a repor equilíbrios perdidos pela acção destruidora do fundamentalismo neoliberal. Daí o recurso às ‘velhas e esquerdistas’ receitas keynesianas da retoma económica pela via da procura interna na sua versão mais básica – o consumo das famílias – com receio de se meter o Estado nisto e atrair-se a ira de Bruxelas! Tratar-se-á, afinal – como sempre na História – de um pequeníssimo passo na longa, penosa, mas persistente caminhada em nome da dignidade e da decência, contra todas as dependências e a desigualdade, em nome, enfim, da permanentemente inacabada emancipação do homem. A convicção, pois, de que a História não acaba aqui.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Nunca como agora... I

Economistas com peito!

De há muito que temos vindo a assistir a uma pantomina em três actos, produzida e montada pelo centro do capitalismo, bem orquestrada e difundida por uma subserviente comunicação social: (1) à imposição da ‘crença’ no misterioso poder dos ‘mercados’, (2) segue-se a obrigação de fazer o que eles mandam, (3) sob pena das mais terríveis pragas e castigos. Processo de mentalização praticamente concluído, já pouca gente o contesta, tão martelados temos sido pelos especialistas e comentadores do costume. A sequela já em curso dita que, para solver as enormes dívidas provocadas pela recente salvação do sistema da sua eminente derrocada e equilibrar as contas públicas, a solução é... mais mercado! Com os inevitáveis cortes no bem estar da maioria.

Nunca como agora se assistiu a tão vergonhosa montagem de uma operação mediática destinada a impor esta monstruosidade, pelo entendimento de se tratar de uma inevitabilidade sem alternativa!!! Papel essencial, neste processo, desempenham os chamados e auto-proclamados economistas de todos os feitios, espécie de alquimistas da era moderna na arte manhosa de transformarem tostões em milhões, ideologia em ciência – com os resultados conhecidos!

Não obstante a responsabilidade objectiva que deve ser assacada aos teóricos do modelo económico liberal/desregulador pela presente crise (pese embora a desonestidade criativa de alguns se afadigue em tentar justificar o contrário), o certo é que, passado o susto inicial e recompostas as abaladas finanças privadas (em especial nos sistemas bancários) à custa dos recursos públicos, o clima político parece cada vez mais de feição à retomada e consolidação do poder que se acoberta por trás da entidade difusa e anónima que todos tratam, reverencialmente, por ‘os mercados’!!! Todos, afinal, vergados ao peso dessa misteriosa alquimia económica, misto de pretensa ciência e de poderes ocultos (tenebrosos e malévolos como convém à alimentação da crendice e subjugação dos ingénuos), bem explorada pelos bonzos e acólitos desta bizarra e tão propagandeada religião!

Estranho deixou de ser a invocação da qualidade de especialistas na matéria com que alguns, em tom de bravata, apostrofam quem se oponha aos seus pontos de vista. E se o exemplo vem mesmo do alto (cultivado pelo ‘economista’ Cavaco, o Presidente, que recorre, amiúde, ao argumento da autoridade na matéria), como estranhar a sua utilização por outros?

Num destes dias, irrompeu pelo écran, ameaçador, o Nogueira Leite – esse mesmo, o ‘medinacarreirista’ conselheiro económico do Coelho do PSD – com ares de pretender fulminar quem se atrevesse a opor-se-lhe, para tanto arrogando-se a sua qualidade de ‘economista’! A invocação do estatuto de especialista na matéria tem o mesmo efeito arrasador que a medieval aspersão da água benta sobre os endemoninhados, exorciza os demónios e apostrofa os hereges. O tom ameaçador não deixa dúvidas sobre a alternativa contida na mensagem: ou fazem o que eu digo, ou vem aí o FMI para vos meter na ordem!

A largura de ombros do personagem demonstra-se de grande monta na hora de fazer peito. Talvez se justifique mesmo um aviso: ‘Eh, pá, cuidado! O Nogueira Leite é economista! E tem peito!

Tem ainda o mérito de trazer à memória tiradas célebres de grande conteúdo programático e precavido escarmento: quem se mete com o PSD, leva!
.....???? Alto aí! Essa é do outro Coelho, o do PS! Enfim, qual a diferença? Ultimamente tão diferentes no discurso, mas sempre tão iguais na prática!
(...)

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Percepções e realidades: o discurso do preocupado

Agora já sei, por saber firmado, a razão de nunca ter aderido a um partido político. Finalmente compreendi esta propensão para me manter independente, não me sujeitando a qualquer disciplina partidária. Bem, compreender não é o termo mais apropriado, pois compreender já eu tinha conseguido antes, tratou-se mais de uma confirmação, uma espécie de ‘prova factual’ reflectida através de um jogo de espelhos, a ‘evidência externa’ que (me) parecia faltar.

Foi ao ouvir na ‘tvi24’ (17Fev.) a deputada Rita Rato do PCP a repetir, vezes sem conta, que se encontrava ‘preocupada’, que esta minha ‘percepção’ (palavra também muito em voga, v.g., o Moniz ex-TVI, para extrair conclusões definitivas das ‘escutas’) se tornou mais consciente (e consistente). Ainda mal tinha começado a falar e já as expressões ‘estou preocupada...’; ‘estou muito preocupada...’, ‘eu já estava preocupada, mas agora fiquei ainda mais preocupada...’(!!!), lhe saíam ritmicamente da boca de forma tão insistente – quase mecânica – que o motivo de tanta preocupação ia passando despercebido. E o que é que motivava, afinal, tamanha preocupação numa ‘miúda’ de 27 anos (acabados de fazer)? As ameaças à liberdade de expressão e informação, que o dito caso das ‘escutas’ alegadamente configurava!

Dou comigo a pensar: ainda bem que tão ‘preocupada’ rapariga (perdão, ‘Excelência’, trata-se de uma deputada da nação!) não viveu antes do 25Abril, pois com a falta de liberdades que então legalmente imperava, a preocupação tinha derivado em angústia, a angústia em obsessão e... sabe-se o que acontece às obsessões, na melhor das hipóteses acabam no psiquiatra. A avaliar pelo automatismo matraqueado das expressões de preocupação, no caso dela dificilmente na cadeia, que era o destino mais provável de então e o foi, por isso mesmo, de tantos ‘camaradas’ seus, é justo recordá-lo e tê-lo sempre presente!

E, no decurso, dou comigo a concluir que tão excessiva dramatização acaba por se tornar contraproducente, pois alerta para que alguma coisa aqui soa a falso. De um modo geral, o discurso do preocupado tem o mérito de expor o vazio do conteúdo político das mensagens que o suportam. Mas também revela o enclausuramento implícito no processo de interiorização das normas e propostas partidárias a que se subordinam, as mais das vezes de forma inconsciente, todos os que aceitam entrar nessa lógica, por vezes – eis a questão! – a despeito ou em confronto mesmo com a própria realidade.

Ora eu também tenho em casa uma ‘miúda’ muito preocupada. Quase até da mesma idade. Mas, ao contrário da jovem deputada do PCP, a sua preocupação prende-se com coisas bem mais prosaicas, aquelas coisas que, no entanto, determinam a vida das pessoas, que marcam o seu futuro, afinal uma preocupação que atinge 3 a 4 milhões de portugueses (1,2 directamente, mais os pais, cônjuges,...) – a precariedade do trabalho, os malfadados recibos verdes, o confisco dos direitos laborais,... Eu sei, uma preocupação não impede a outra, muito menos a substitui (e, já agora, também sei que, para a resolução de um tal problema, as condições de êxito, no plano meramente interno, são escassas, ela exige uma acção concertada a nível internacional).

Este será, aliás, estou certo (também aqui não pretendo ser injusto), outro motivo de grande preocupação para a deputada Rita Rato que, se confrontada com tal flagelo, seguramente reagiria com tanta ou mais veemência do que o fez neste debate, a propósito do tema que lhe coube em sorte discutir em público... em nome do partido. E é aqui que bate o ponto - porque de tal modo imbuída do espírito partidário que, arrisco a dizer, a sua maior preocupação era, muito para além da expressamente manifestada, apresentar-se em sintonia, bem ‘afinada’ com as posições assumidas pelo partido sobre o tema em análise.

Perante o deprimente espectáculo que as ‘escutas’ têm proporcionado, distraindo mais que discutindo e, o que é mais grave, desviando as atenções dos problemas que importa resolver, de uma coisa estou certo: não consigo alinhar nem com a uniformidade situacionista manifestada do lado do governo (e do PS, claro) na defesa de posições no mínimo ‘trapalhonas’ (e eivadas de suspeitosos arreganhos), nem com a uniformidade oposicionista unida num espúrio conúbio assente no propósito central - e inútil - de apearem o ‘trapalhão’ (ou ‘vilão’, ainda não se sabe).

Decididamente, manter a independência, perante esta deplorável disputa partidária centrada na dramatização mediática das sensações (preocupações, percepções,...) e alienada da realidade, ainda continua a ser a forma mais saudável de fazer política!

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Um País em transe?

Ouviu-se no último ‘Prós e Contras’, um desorbitado penalista apregoar: ‘O país está em transe para ouvir as escutas!’. Para ouvir, esclareça-se, não o conteúdo das escutas supostamente efectuadas para detectar corrupção, mas apenas ‘o pormenor’ em que um estouvado 1º Ministro (Sócrates), presumidamente (?) é ‘apanhado’ a falar sobre uma destrambelhada ‘jornalista’ (MMGuedes). Não fora o tom hiperbólico da bramida diatribe e o assunto não passaria de mais uma tirada no longo rol de acusações canhestras e defesas obtusas com que um país, de facto posto em transe com tais desaforos, quotidianamente se vê obrigado a confrontar-se.

Escarmentado com a interminável saga ‘Casa Pia’ – o gáudio e condenação populares que a sua exibição pública proporcionou, encontra malsã contrapartida nos já irreparáveis danos no apuramento da verdade – recuso-me a embarcar neste clima de histeria colectiva, seja qual for a campanha ou personalidade envolvidas. Estranha (ou talvez não) a colaboração da comunicação social, seguramente nem sempre descomprometida e isenta, antes mais ocupada em colher os dividendos proporcionais ao efeito de atiçar na turba uma enviesada vingança por conta de magra compensação para desventuras, fracassos e angústias pessoais.

A minha inclinação será sempre a de contrariar o unanimismo das condenações prévias, a de me manter céptico perante verdades impostas, de desconfiar da fúria justicialista. Abundam na História exemplos que desaconselham tal procedimento. E se, no final, tudo o que a comunicação social deu por provado se vier a demonstrar falso? Ou se até só apenas algumas destas ‘impostas’ verdades mediáticas o forem? Talvez por deformação, inclino-me para o lado contrário para onde me querem empurrar. Contra as correntes dominantes, contra a moda, contra as verdades absolutas, contra o rebanho.

Resisto assim, mesmo quando o pé me foge para a dança, em dar o meu contributo para a fogueira com que pretendem – e têm-no conseguido! – queimar etapas ou eliminar provas. Assisto, pois, distanciado e céptico, ao desenrolar frenético mas enfadonho da interminável série de peripécias e contraditas em que os ‘media’ nos têm enredado, deste deplorável espectáculo com que nos pretendem – e têm-no conseguido! – entreter. Desviando-nos a atenção de questões bem mais sensíveis e relevantes na vida das pessoas, essas sim a merecerem inadiável debate público.

De entre os temas que melhor o exemplificam, há um que, mais uma vez, corre o risco de ser submergido pela leva de notícias em voga. Refiro-me, naturalmente, às alterações climáticas, cuja importância soçobra claramente perante a avalanche dos temas que vendem. A esse, cuja actualidade exige um debate quase permanente e cuja oportunidade, a 15 dias do início da Conferência de Copenhaga, o torna particularmente urgente, os ‘media’ têm dedicado apenas o tempo e o espaço para onde são empurrados pelo material noticioso que lhes cai nas redacções. Apenas para que se não diga terem-no completamente esquecido.

Mas o enquadramento ideológico que dita a valorização das escutas (até ao paroxismo mais absurdo) sobre a dimensão das alterações climáticas, é o mesmo que conduz à banalização dos efeitos de uma crise que alguns dão já em tempo de rescaldo. E, para a ultrapassar, ao desvelo na insistência no desgastado modelo de desenvolvimento que a ela conduziu, assente num insustentável crescimento económico como grande objectivo político e num pouco virtuoso modelo exportador como único modo de aí chegar. Argumenta-se que a isso obriga – e talvez com razão – as ‘leis’ da globalização. Mas isso não impede de lhe diagnosticarem a falência e de se pensar nas alternativas que se irão colocar (pelo menos) a prazo, de se discutir o futuro do ‘emprego’ (pois o emprego parece já não ter futuro), de se repensar o papel do Estado para além das funções de regulação que lhe reserva o pensamento neoliberal na origem da crise. Porque o essencial da crise não resultou dos desvios de carácter ou quaisquer perversões dos seus agentes!

Inquietante, sem dúvida, o recrudescer das corporações, neste serôdio corporativismo que parece finalmente instituído. Em que se encontram empenhados jornalistas e operadores da justiça, mas onde não faltam também os operadores da saúde, os da educação,... todos apostados em fazer valer os seus pontos de vista particulares sobre o geral, os seus interesses de ‘classe’ sobre os deveres profissionais – ou, no mínimo, confundindo-os. Em lugar de se extinguirem as velhas ‘ordens’, multiplicam-se as ‘pró-ordens’, sintoma pouco saudável deste revivalismo corporativo a destempo.

Sintomas pouco saudáveis de um país posto em transe para proveito de uns poucos – tanto os de bom como os de mau ‘carácter’! E, acrescente-se o bónus, seu supremo gáudio!

domingo, 8 de março de 2009

Casmurrice ou estupidez?

(A conselho do meu amigo Zé Sousa, aqui vai, com ligeiras adaptações, o comentário que havia produzido para um texto da sua autoria – ‘12,3%!’)

Assiste-se, hoje, diariamente, no comentário dito especializado sobre a CRISE (que a tanto obriga as intermináveis incidências desta), a uma espécie de pantomina ou ópera-bufa, não pelo tema escolhido, trágico de mais para se poder prestar à galhofa, mas na embiocada forma de tratamento dos comentários que pretendem explicá-la; não que a crise tenha produzido ou fosse pretexto para o aparecimento de uma nova espécie de comentador, mas porque os mesmos de sempre dão mostras de um contorcionismo tal que mais nos reportam ao circo que ao palco da vida.

A maioria destes empertigados comentadores – catedráticos, gestores de topo, técnicos altamente qualificados, ‘opinion makers’,... – recusam-se a aceitar, antes de mais, que erraram (ou que estavam errados); e depois, que é necessário alterar os mecanismos que conduziram à crise (quando muito, aceitam alguns retoques!). O mais grave é que mesmo antes de se discutir que tipo de alterações ou que tipo de mecanismos devem ser alterados, recusam-se simplesmente a aceitar o erro em que viveram dezenas de anos – o tempo das suas vidas, afinal!
Só conseguem raciocinar no contexto do mercado, de acordo com as reacções do mercado, ficam impotentes perante o mercado, pois este é que manda,... mesmo quando os mandar, presumo, atirar-se de uma ponte abaixo! Só que a realidade tem-se encarregado de empurrar todas as suas magníficas intenções e desastrosas decisões para além do que eles alguma vez imaginaram poder acontecer.

Até onde é que isto nos conduzirá? Ninguém o sabe neste momento, mas a posição deles mantém-se inalterada, puramente expectante: acreditam piamente (a sua sobrevivência continua a depender desta posição de fé!) que, passada a convulsão, tudo voltará a ser como dantes!

O debate no último ‘Expresso da Meia-noite’, da SIC, foi deveras elucidativo. Os entrevistadores, cépticos como qualquer mortal perante tudo o que está acontecer e no seu papel de lançar dúvidas e pôr questões, bem solicitavam dos 3 representantes da ‘situação a que isto chegou – precisamente um teórico, um técnico e um gestor, todos do topo – explicações convincentes para o que sucedeu e perspectivas para sair da crise. Todos eles se mantiveram irredutíveis e alinhados, recusando-se a encarar a realidade, preferindo construí-la à medida dos seus desejos! É certo que correm o risco de ela lhes cair em cima, porque ultrapassados por ela já o foram, mas não o admitem!

Na ausência de uma resposta satisfatória deste lado, viraram-se então para Louçã, a arcar sozinho as despesas da chamada à realidade e o ter de enfrentar estas ‘trutas matreiras’ – se bem que atordoadas pela avalanche de acontecimentos que, à revelia do que consta nos cardápios tradicionais, teima em não reagir às habituais receitas liberais!

Mas foi bonito de ver o encabulamento dos ‘três’ perante as explicações claras do Louçã, tanto na questão dos off-shores, como na proposta de utilização da (pública) CGD como instrumento de política no apoio à economia. Nem sempre as prestações do Louçã me convencem cabalmente, mas há muito tempo que não via um debate com tanto interesse, não obstante ter sabido a pouco. O Louçã ganha muito com este formato de discussão, pois é aí que ele pode expressar melhor a sua natural propensão para a exposição pedagógica, na dialéctica da argumentação.

Da outra parte, o habitual e estafado refúgio nas razões do mercado! Chega de atirar areia aos olhos das pessoas. Até os entrevistadores, a parte aparentemente mais neutra nesta discussão, sentiam necessidade de se voltar para o Louçã, na expectativa de, perante este contínuo esboroar do sistema económico, encontrarem respostas racionais e com algum sentido – e não apenas a insatisfação dos chavões do costume.

Quanto ao Duque, já por aqui bastas vezes referido e causticado, está a transformar-se, mesmo, no paradigma da casmurrice (será o reflexo dos óculos que o ofusca?). A rematar a vacuidade de afirmações produzidas, a ‘frase sensação’: “ A sensação (!) que eu tenho é que a Humanidade (??) não quer sair do modelo” (!!!). Até o ‘Ricardo Costa’ ripostou, incrédulo: “Não saímos já?

A propósito: existe alguma diferença entre casmurrice e estupidez?

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

A tragédia (repetida) da Av. 24 de Julho

O DN de domingo passado, 11 Jan/09, dedica uma página inteira a mais uma tragédia, das que ocorrem diariamente nas grandes cidades. Desta feita o título informava que uma “Rapariga fugiu do colégio e morreu carbonizada – Incêndio em prédio devoluto causa duas mortes”.

A insensibilidade perante a repetição deste tipo de notícias, apenas foi quebrada pela informação de que a “rapariga fugiu do colégio...”, o que me induziu a procurar no texto explicação para o sucedido. O que levaria uma miúda de 15 anos a preferir dormir num prédio abandonado, sem condições, nestes dias de gelo, precário abrigo dos sem-abrigo, ao eventual maior conforto do colégio onde se encontrava internada desde os 4 anos?

Descubro as razões no relato do pai, desempregado e junto de quem procurou apoio antes de se decidir pela solução fatídica. E fiquei a saber que ‘esta rapariga’ preferia tudo, incluindo dormir na rua, a ter de regressar ao colégio, porque ‘tinha medo das colegas mais velhas’!

Talvez a história devesse começar aqui, procurando saber-se das condições sociais que determinam sempre o mesmo tipo de vítimas. Ou então, aproveitando a ‘deixa jornalística’ proporcionada pela fuga ao colégio, das condições de vida existentes em muitos internatos (e não apenas na Casa Pia); das relações estabelecidas pelos adolescentes e dos códigos que as regem; da diversidade de comportamentos anti-sociais que se verificam nas escolas (violência, agressividade, coacção, humilhação...), reveladores de problemas psicológicos ou de carências de formação cívica (tolerância, direitos e obrigações,...); da constituição de ‘gangs’ organizados... Desse fenómeno que designam por ‘bullying’ (um estrangeirismo, mais objecto de tratamento analítico do que verdadeiramente atacado nas suas origens) e das causas do alheamento ou desvalorização deste fenómeno por parte da maioria dos educadores e professores, ao atribuírem tais manifestações ao processo normal de crescimento na adolescência (parecendo assim dar razão aos que os consideram, por esta altura, mais empenhados nas lutas corporativas do que nas educativas).

Os estudos existentes colocam Portugal em 4º lugar na Europa no que respeita à violência nas escolas. Contudo, é de temer que as situações de coacção psicológica ou mesmo física que acontecem entre os jovens possam ainda ser mais numerosas e de maior gravidade do que é dado entender nesses estudos (a estatística aponta para que 1 em cada 4 alunos seja vítima sistemática de alguma forma de agressão ou violência, com tendência para aumentar em número e frequência de ocorrências).

Mas a jornalista destacada para o tratamento da notícia preferiu enveredar pelo caminho do costume e situar-se sobretudo nas condições materiais do edificado em mau estado – uma realidade já tantas vezes causticada – e zurzir na Câmara que deixa ao abandono 4600 fogos devolutos, onde se torna possível acontecerem dramas de pessoas que apenas contam como números de estatísticas usadas para os mais diversos fins – menos para aconchegar pessoas com dramas. Perdeu, é certo, a oportunidade de averiguar das causas profundas que levaram uma jovem, numa fria noite de um Janeiro frio, a encontrar melhor refúgio numa dessas casas devolutas sem condições, do que as que lhe eram proporcionadas numa instituição em que, parece, alguém se esqueceu de dar o devido valor à crescente agressividade das relações entre os jovens.

Pobres Tamaras Sofias!

domingo, 12 de outubro de 2008

O controle ideológico da crise

Por estes dias, o tema que mais atenções – e preocupações – suscita é, de longe a ‘crise internacional’ e as formas de a ultrapassar. Como seria de esperar, a comunicação social concede-lhe largo destaque, obviamente mais concentrada nas audiências do que em contribuir para a sua resolução. Tardam a aparecer alternativas reais à situação actual.

Depois de uma longa gestação, de vários ameaços e não sei quantos avisos, a crise explodiu e parece ter apanhado meio mundo de surpresa (o outro meio, talvez mais, nem se apercebeu de qualquer mudança, pois o seu estado 'natural' é a crise permanente). Passado um primeiro momento de quase aturdimento e de manifesta desorientação, a nível dos responsáveis políticos e dos analistas mais encartados, surpreendidos (e até assustados) com a dimensão atingida, adoptadas as medidas de emergência tidas como indispensáveis – com a proscrita intervenção dos Estados a ser considerada bem vinda – entrou-se na fase das análises pretensamente mais ponderadas, mais informadas, mais técnicas, a pensar porventura já no mais longo prazo.

Não admira, pois, que a toda hora a crise seja tema de debate na generalidade da comunicação social. Mas por mais incrível que pareça, os ‘especialistas’ convidados para estas análises são exactamente os mesmos que no passado apareciam a fazer a apologia do modelo que agora entrou em crise (limito-me aqui a constatar uma evidência factual, sem qualquer juízo de valor, a de que o modelo de mercado está em crise, sem me atrever sequer a afirmar se a crise é passageira ou profunda – embora sobre isso já haja poucas dúvidas – ou se entendo as medidas em discussão para a conter ajustadas ou fora de propósito).

Assistimos então à sistemática repetição dos mesmos comentários, à análise das causas apenas à superfície e a propostas de solução de igual jaez, com a ritual declaração prévia – não vá alguém supor tratar-se de herege na clandestinidade ou, pior ainda, rotundo analfabeto em economia – de profunda convicção e absoluta fidelidade ao mercado (normalmente arvorado no par ‘elegante’ da democracia) e sempre às mesmas conclusões: o que falhou foi a regulação, logo introduza-se mais regulação com melhor controle!

Mas então nestas circunstâncias e apenas de um ponto de vista meramente racional, de simples eficácia nos resultados, não seria mais avisado proporcionar o confronto de verdadeiras alternativas e, para isso, convidar pessoas com concepções e pontos de vista diferentes, porventura antagónicos, por forma a permitir-se alargar o leque das eventuais soluções e saídas para a crise? Não seria até mais inteligente adoptar as regras do método científico na procura da maior objectividade e, depois do que aconteceu, pôr tudo em causa e partir à descoberta da verdade – o que implica alargar o leque das possibilidades até onde for preciso?

Até agora, porém, não vi em nenhum dos debates uma única posição discordante da linha dominante que define o mercado como o par ideal da democracia. Será mesmo?

Respira-se um ar bafiento e maçador nestes debates repetitivos, previsíveis e viciados à partida. Nada de novo acrescentam, servem apenas para justificar posições passadas, prolongar vantagens adquiridas, adiar mudanças inevitáveis. Faz-se sentir sobre os intervenientes, independentemente das boas intenções de alguns, o peso asfixiante da ideologia que em determinado momento chegou mesmo a proclamar o ‘fim da História’, entretanto já desmentido pelo seu próprio autor, o que traz à memória o célebre dito de Mark Twain aos que o davam como morto: ‘as notícias da minha morte são manifestamente exageradas’!

O debate sobre as alternativas reais à desgovernação que nos conduziu à presente situação tarda, pois, a ter lugar, pelo menos a nível público e aberto. Mais uma vez irá ser a realidade a reclamá-lo. E, pelos vistos, não há-de faltar muito. As soluções de dentro do sistema não passam de paliativos e estão em vias de esgotar as suas possibilidades, até agora, como era de prever, sem mostras de grandes melhoras.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

A Bolívia diz não a um novo ‘Chile’; a América Latina faz frente aos EUA

O dia de ontem, segunda-feira, 15 de Setembro, foi particularmente profícuo no que parece poder vir a ser o início de uma nova era na América do Sul. Quando tudo fazia prever – pelo menos assim nos era ‘transmitido’ pelos nossos pressurosos meios de comunicação, mais atentos aos humores do público (as audiências, pois então!), do que à sua missão de informar com um mínimo de isenção – quando, repito, tudo se encaminhava para um muito desigual braço de ferro entre o minúsculo anão Bolívia e o colossal mastodonte EUA (aquele contando apenas com o declarado e, para muitos quixotesco, apoio da Venezuela), eis que de repente se ergue um Continente inteiro a afirmar uma posição que pode vir a ser histórica.

Após intensa acção diplomática desenvolvida ao longo do dia, três organizações regionais, cobrindo a totalidade da América Latina, México incluído, decidem declarar apoio unânime à Bolívia democrática, no que só pode ser considerado um claro e sintomático desafio ao todo poderoso vizinho do Norte. De uma penada, num só dia, Comunidade Andina, Grupo do Rio (que reúne 22 países da América Latina e Caraíbas) e Unasur (União das Nações Sul-Americanas), estilhaçaram os esforços do ‘Império’ em manterem sob seu controle, económico e político, esta região imensa (em dimensão e dificuldades), ao não terem dúvidas em manifestar apoio incondicional a um dos seus, por sinal o mais débil de entre eles (o mais baixo PIB per capita, em dólares PPC, da região). Ao afirmarem, sem equívocos, o princípio da integridade territorial (que os insurrectos ameaçavam pôr em causa), salientando a legitimidade acrescida do Presidente Morales após o referendo de 10 de Agosto último, emitiram um sério aviso e estabeleceram barreiras a todos os aventureirismos, internos e externos.

Parecem assim criadas agora melhores condições para a pacificação interna de uma Nação que apenas pretende o direito à sua própria autonomia, sem interferências abusivas, de dentro ou de fora, nas decisões tomadas pelos órgãos legitimamente eleitos em prol de uma política de desenvolvimento inclusiva (no propósito expresso de abranger populações extremamente carenciadas) e uma mais equitativa distribuição das riquezas do Pais – afinal a grande fonte de discórdia que esteve na origem desta crise.

No rescaldo da mesma (faço votos para que já o seja), emerge então essa alteração qualitativa na correlação de forças presente no Continente, em benefício de uma maior autonomia regional. Ignoro se é a primeira vez que se consegue unanimidade numa posição regional contra as posições expressas dos EUA, mas é-o seguramente na amplitude das organizações intervenientes – e isso só pode ter uma leitura que deve ser particularmente saudada: a América Latina está diferente, o Mundo está a mudar – e só pode ser para melhor!

Quanto ao resto, apetece-me apenas sublinhar a mal disfarçada ‘frustração’ de alguns meios de comunicação social por este anunciado desfecho pacífico da crise, retirando aos manipuladores do costume os ingredientes com que alimentam os instintos mais primitivos da opinião pública – na busca das ditas audiências de que eles próprios se alimentam. Notória a posição da SIC (diferentes, neste caso, RTP e TVI), em que no seu canal generalista apenas insere, de raspão, breve notícia sobre estas movimentações regionais e consequentes apoios à Bolívia – deixando seguramente o seu desenvolvimento para a SIC/N, acompanhados, decerto, de mui judiciosas e ‘pedagógicas’ análises (é necessário garantir a orientação ‘certa’ dos telespectadores) de comentadores da jaez dos Monjardinos, Marcelos e quejandos (como bem ilustra José M. Sousa, em comentário à minha anterior ‘posta’ sobre este assunto).

Que, acrescento eu, parasitam a informação com notório proveito pessoal e indigente benefício geral!