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quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Um País em transe?

Ouviu-se no último ‘Prós e Contras’, um desorbitado penalista apregoar: ‘O país está em transe para ouvir as escutas!’. Para ouvir, esclareça-se, não o conteúdo das escutas supostamente efectuadas para detectar corrupção, mas apenas ‘o pormenor’ em que um estouvado 1º Ministro (Sócrates), presumidamente (?) é ‘apanhado’ a falar sobre uma destrambelhada ‘jornalista’ (MMGuedes). Não fora o tom hiperbólico da bramida diatribe e o assunto não passaria de mais uma tirada no longo rol de acusações canhestras e defesas obtusas com que um país, de facto posto em transe com tais desaforos, quotidianamente se vê obrigado a confrontar-se.

Escarmentado com a interminável saga ‘Casa Pia’ – o gáudio e condenação populares que a sua exibição pública proporcionou, encontra malsã contrapartida nos já irreparáveis danos no apuramento da verdade – recuso-me a embarcar neste clima de histeria colectiva, seja qual for a campanha ou personalidade envolvidas. Estranha (ou talvez não) a colaboração da comunicação social, seguramente nem sempre descomprometida e isenta, antes mais ocupada em colher os dividendos proporcionais ao efeito de atiçar na turba uma enviesada vingança por conta de magra compensação para desventuras, fracassos e angústias pessoais.

A minha inclinação será sempre a de contrariar o unanimismo das condenações prévias, a de me manter céptico perante verdades impostas, de desconfiar da fúria justicialista. Abundam na História exemplos que desaconselham tal procedimento. E se, no final, tudo o que a comunicação social deu por provado se vier a demonstrar falso? Ou se até só apenas algumas destas ‘impostas’ verdades mediáticas o forem? Talvez por deformação, inclino-me para o lado contrário para onde me querem empurrar. Contra as correntes dominantes, contra a moda, contra as verdades absolutas, contra o rebanho.

Resisto assim, mesmo quando o pé me foge para a dança, em dar o meu contributo para a fogueira com que pretendem – e têm-no conseguido! – queimar etapas ou eliminar provas. Assisto, pois, distanciado e céptico, ao desenrolar frenético mas enfadonho da interminável série de peripécias e contraditas em que os ‘media’ nos têm enredado, deste deplorável espectáculo com que nos pretendem – e têm-no conseguido! – entreter. Desviando-nos a atenção de questões bem mais sensíveis e relevantes na vida das pessoas, essas sim a merecerem inadiável debate público.

De entre os temas que melhor o exemplificam, há um que, mais uma vez, corre o risco de ser submergido pela leva de notícias em voga. Refiro-me, naturalmente, às alterações climáticas, cuja importância soçobra claramente perante a avalanche dos temas que vendem. A esse, cuja actualidade exige um debate quase permanente e cuja oportunidade, a 15 dias do início da Conferência de Copenhaga, o torna particularmente urgente, os ‘media’ têm dedicado apenas o tempo e o espaço para onde são empurrados pelo material noticioso que lhes cai nas redacções. Apenas para que se não diga terem-no completamente esquecido.

Mas o enquadramento ideológico que dita a valorização das escutas (até ao paroxismo mais absurdo) sobre a dimensão das alterações climáticas, é o mesmo que conduz à banalização dos efeitos de uma crise que alguns dão já em tempo de rescaldo. E, para a ultrapassar, ao desvelo na insistência no desgastado modelo de desenvolvimento que a ela conduziu, assente num insustentável crescimento económico como grande objectivo político e num pouco virtuoso modelo exportador como único modo de aí chegar. Argumenta-se que a isso obriga – e talvez com razão – as ‘leis’ da globalização. Mas isso não impede de lhe diagnosticarem a falência e de se pensar nas alternativas que se irão colocar (pelo menos) a prazo, de se discutir o futuro do ‘emprego’ (pois o emprego parece já não ter futuro), de se repensar o papel do Estado para além das funções de regulação que lhe reserva o pensamento neoliberal na origem da crise. Porque o essencial da crise não resultou dos desvios de carácter ou quaisquer perversões dos seus agentes!

Inquietante, sem dúvida, o recrudescer das corporações, neste serôdio corporativismo que parece finalmente instituído. Em que se encontram empenhados jornalistas e operadores da justiça, mas onde não faltam também os operadores da saúde, os da educação,... todos apostados em fazer valer os seus pontos de vista particulares sobre o geral, os seus interesses de ‘classe’ sobre os deveres profissionais – ou, no mínimo, confundindo-os. Em lugar de se extinguirem as velhas ‘ordens’, multiplicam-se as ‘pró-ordens’, sintoma pouco saudável deste revivalismo corporativo a destempo.

Sintomas pouco saudáveis de um país posto em transe para proveito de uns poucos – tanto os de bom como os de mau ‘carácter’! E, acrescente-se o bónus, seu supremo gáudio!

sábado, 24 de outubro de 2009

Os negócios do Árctico!

Não certamente por embirração ou impertinente fixação, de quando em vez tropeço na personagem. Sintetiza, na perfeição, o pensamento corrente dominante, ao reproduzir, de forma acrítica, a vulgata neoliberal (que verbaliza através das mais desgastadas expressões). Qualquer desvio a este fio de rumo, provoca-lhe mesmo um constrangedor desdém, extrai-lhe sorrisos de altivo desprezo, como que traduzindo a sua percepção do óbvio: ‘só não vê quem, por sectarismo ou ignorância, não quer ver’!!!

Já não é, portanto, a primeira vez que aqui me refiro a Estela Barbot (pois é dela que se trata), personagem da nossa ‘socialite’ (como agora se designa!!!) e lugar cativo nos ‘media’, onde de novo fui esbarrar com ela (no programa ‘Contas à Vida’, na TVI24). Desta feita, porém, passou das habituais – e banais – trivialidades (debitadas a propósito de tudo não dizendo nada), às mais delirantes boçalidades, ao atrever-se, de forma leviana, por territórios (literalmente) inexplorados mas muito sensíveis.

Foi o caso da dita criatura haver participado (desconheço em que qualidade) na última reunião da Trilateral (grupo de Bilderberg), em Oslo, cujo representante luso (entre outros insuspeitos frequentadores, alguns deles socialistas!) é o ex-ministro Braga de Macedo, também presente nesse programa (onde é convidado residente, juntamente com Pina Moura). De lá trouxe a informação – e a volúpia dos pormenores – de que, com o degelo do Árctico, prestes a consumar-se, abrem-se novas e promissoras áreas de actividade, ‘é todo um mundo de oportunidades para novos negócios’.

Com o Árctico navegável, acrescentou, as novas rotas abertas pelos transportes marítimos permitirão poupanças consideráveis, em tempo e combustível (já existe até uma estimativa dos custos ‘arrecadados’). Para já não falar das novas possibilidades no domínio da exploração petrolífera, em jazidas já identificadas, deste modo tornadas acessíveis... Enfim, um autêntico maná para o ‘business’, que já discute direitos de exploração e de soberania, ‘uma espécie do que virá a suceder com a Lua, no futuro’, logrou gracejar a Barbot.

Diante de tão inconsciente desaforo, Pina Moura objectou a reserva óbvia (porventura, remexendo no fundo das suas há muito sumidas convicções de esquerda, apelando a algum resquício de dignidade): ‘e os efeitos climáticos, já foram estimados?’. Efeitos climáticos? Mas perante tamanha fortuna, alguém estará interessado em perder tempo com tão esquerdizantes minudências, que só servem para atrapalhar e desviar a atenção do essencial – a expectativa de chorudos negócios – o que releva do ‘simples bom senso’, assim explicava a Barbot?

Perante a inevitabilidade do facto consumado – e o reconfortante cenário de um novo impulso económico – quem é que, no mundo de hoje, pára para avaliar os efeitos que a destruição da calota polar e consequente eliminação do efeito reflector solar (efeito de albedo) provocará, pela absorção de mais calor por parte do mar, no clima da Terra? Ou nas consequências imprevisíveis da alteração das correntes marítimas, por influência da circulação termohalina dos oceanos, com impacto determinante no clima e, por arrastamento, nos ecossistemas marítimos e terrestres, ou seja, nos recursos e na capacidade alimentar do planeta? E estes são apenas os efeitos directos imediatos!

Enquanto alguns ainda se afadigam em tentar evitar o pior dos cenários (incluindo soluções no mínimo engenhosas, mas de duvidosa eficácia), o ‘bom senso’ de outros leva-os já a antecipar, babados – e criminosamente inconscientes! –, o momento da concretização dos cúpidos negócios em perspectiva. Certo é que os efeitos gravosos incorporados no ‘bom senso’ actual da Barbot só se farão sentir de forma acentuada (alguns sinais são já visíveis, ainda assim pouco assustadores) algures no futuro, previsivelmente apenas daqui a um bom par de anos. E é isso que, para todas as Barbots (eles e elas), faz toda a diferença! ‘Quem vier a seguir que feche a porta’, chalacearão eles em tom de desafio.

Lastimo o Metelo metido nisto. No fim de contas e pensando bem..., nem isso!

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

O mundo está a avançar para o abismo!!!

O insensato (ou perigoso?) ‘alarmista’ que ousou proferir tal enormidade, a propósito dos efeitos das alterações climáticas, só pode ter sido algum tresloucado esquerdista ou descontrolado ambientalista (admitindo que esquerdista e ambientalista não comem do mesmo prato), em qualquer dos casos um irresponsável. Mas não, esta frase surgiu do sítio porventura mais improvável de aparecer, dadas as especiais responsabilidades do seu autor na compatibilização de interesses a nível mundial.
Reproduzo da edição digital do ‘Público’ de hoje (03.09.09):

O secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, alertou hoje na Conferência climática mundial, em Genebra, que o mundo “está a avançar para o abismo” devido à intensificação do fenómeno das alterações climáticas.
Temos o pé pregado a fundo no acelerador e dirigimo-nos para o abismo”, disse Ban Ki-moon na 3ª conferência da ONU sobre Clima, a decorrer em Genebra de 31 de Agosto a 4 de Setembro.
O secretário-geral da ONU, que chegou do Árctico onde constatou os impactos das alterações climáticas, lamentou que, durante anos, os cientistas tenham sido acusados de serem alarmistas. “Mas os verdadeiros alarmistas são aqueles que dizem que não podemos agir pelo clima porque isso iria abrandar o crescimento económico”.
Não têm razão. As alterações climáticas podem desencadear um desastre maciço”, acrescentou, preocupando-se com os milhões de pessoas que vivem nas zonas costeiras um pouco por todo o mundo, ameaçadas com a subida do nível médio do mar. “O que vão eles fazer quando as tempestades empurrarem o mar terra adentro? Para onde hão-de ir?
.'

Virou-se o bico ao prego! Até aqui eram apodados de alarmistas, ‘os cientistas’ que alertassem para os crescentes impactos das alterações climáticas, agora é o próprio responsável máximo pela mais importante instituição mundial que decide juntar-se aos ‘alarmistas’ e afirmar que o mundo ‘está a avançar para o abismo’ (!) – caso não tiremos o pé do acelerador do crescimento. Num mundo ‘viciado’ em crescimento económico (as razões últimas para tal, já por diversas vezes aqui expostas, estão longe das ‘necessidades por satisfazer’, o suposto objecto da economia, pois não podem ser dissociadas de um sistema movido/dirigido pelo 'motor' da valorização da mercadoria), não consigo antecipar a reacção da maioria das pessoas. Até porque, para muita gente (porventura a maioria), o episódio da Manuela (a outra, a Moura Guedes) é que constituiu a verdadeira ‘cacha’ do dia (nas próprias palavras da dita)! Dá que pensar!

Ora, todos os políticos de todas as políticas têm como principal objectivo, na área económica e social, demonstrarem o maior empenhamento e apresentarem propostas no sentido do desenvolvimento. E quando falam de desenvolvimento falam, antes de mais, de crescimento económico, da criação das condições que a ele conduzam e da forma mais rápida possível de lá chegarem, pois só assim garantem a confiança e a fidelidade dos seus eleitores. Estabeleceu-se mesmo uma espécie de ‘maratona’ – ou (para usar a imagem de Ban Ki-moon do ‘acelerador’) de Fórmula 1’ – para ver quem cresce mais, pois só os mais rápidos, os que mais aceleram, conseguem vencer (tal como nas empresas).

Agora, porém, no chocante alerta do secretário-geral da ONU, acelerar continuamente o crescimento económico, pode bem estar a conduzir o mundo para o abismo!

Eu sei, todos o sabem, o tema do crescimento (e por maioria de razão, o do desenvolvimento) não pode ser reduzido ao que foi dito, nem sequer se pode dizer que tenha sido aqui abordado. Apenas fica o registo de alguns desencontros de um mundo tão multifacetado quanto inesperado, mas em que dá gosto viver. Pelo menos, por enquanto.

domingo, 16 de agosto de 2009

É possível o ‘desenvolvimento sustentável’ nas sociedades dominadas pelo mercado? - VI

Transição energética, transformação social: o sistema na encruzilhada

A questão energética, é bem conhecido, encontra-se no centro da civilização moderna ocidental e do desenvolvimento tecnológico que a caracteriza, sendo a principal responsável pelos seus actuais elevados níveis de conforto e de consumo. Na verdade, todo o ‘modo de vida ocidental’, construído ao longo dos menos de 200 anos últimos, está baseado e depende da utilização intensa de energia, nomeadamente a partir de recursos fósseis, levando nesse curto espaço temporal, como é sabido, ao dispêndio (a caminho da exaustão) de reservas geradas e acumuladas ao longo de milhões de anos. Por isso mesmo, de entre todas as condições técnicas de funcionamento das sociedades capitalistas, esta questão foi a que desde sempre suscitou maiores preocupações e continua a levantar grandes dúvidas:

preocupações pelas actuais condições de produção e exploração, muito dependentes das fontes de energia fósseis (carvão, petróleo e gás natural, essencialmente), devido aos efeitos tanto na acentuada degradação do ambiente, quanto no rápido esgotamento dos recursos, parecendo ambos concertados em comprometer o futuro;
dúvidas quanto à efectiva capacidade técnica para criar alternativas viáveis, as ambicionadas ‘energias limpas’ ou renováveis, no quadro dos interesses que actualmente dominam o mercado – cabendo aqui colocar-se a questão de se saber qual o efeito de bloqueamento do poderoso ‘lobby’ do petróleo no seu desenvolvimento tecnológico ou no seu aproveitamento industrial.

Pode, assim, concluir-se que a ‘energívora’ civilização ocidental e a sua dependência dos combustíveis fósseis empurra o mundo inexoravelmente para um dilema: o colapso anunciado por esgotamento deste tipo de recursos ou a descoberta de alternativas viáveis. Certo é que, qualquer que seja o seu desfecho, as consequências para o modo de vida actual serão devastadoras. Refira-se, desde logo, que não parece de todo fora de propósito falar-se da possibilidade (cada vez mais provável perante a pressão sobre o consumo conjugada com a dificuldade na reposição dos stocks entretanto esgotados), de o mundo vir a confrontar-se, a breve prazo, com um autêntico ‘colapso energético’, se entretanto não forem descobertas alternativas viáveis (renováveis) à energia fóssil, o que arrastaria o ‘mundo ocidental’ para o caos – muito pior que o já vivido actualmente pelos restantes 2/3 da humanidade!

Mas nem será necessário chegar tão longe para se considerar a possibilidade da eclosão, que se tem como cada vez mais provável, de fortes perturbações sociais – sejam elas provocadas por razões essencialmente económicas (crise financeira global, o desencadear dum crash bolsista em cadeia, ou... uma ‘crise’ energética), ou geradas sob pressão de movimentos sociais de grande impacto (migrações maciças, terrorismo,...) – ainda que não deva ignorar-se a capacidade demonstrada pelo capitalismo para absorver a conflitualidade social (através da socialização dos comportamentos desviantes face às normas matriciais do sistema, com a consequente integração social dos insubmissos e inconformados), permitindo-lhe resistir à ofensiva dos mais diversos movimentos sociais, organizados ou espontâneos (actividade sindical, partidos políticos, contestação social estudantil ou ecológica,...).

Por último, um sistema que coloca acima de tudo a defesa de interesses particulares, perante a perspectiva da quebra potencial da sua principal fonte de rendimentos – a que se gera a partir da exploração do petróleo, com toda a panóplia de actividades que, directa ou indirectamente, gravitam ao seu redor (química, plástico, automóvel e até, ironicamente, as que hoje reportam às emergentes tecnologias ambientais) – legitima a dúvida sobre se o actual estado de desenvolvimento de alternativas energéticas não estará a ser bloqueado por esses interesses. Nem tão pouco lhe condiciona a voracidade rapace a recomendação da ONU no sentido do prudente ‘princípio da precaução’, já assumido e (timidamente) aplicado por alguns poderes públicos. Não obstante ser essa, porventura, a derradeira esperança que resta à Humanidade para inverter uma situação cada dia mais desesperadamente irreversível, a lógica suicida deste sistema impõe que a imolação física embutida no destino dos seus genes constituintes, se processe em louco holocausto colectivo, arrastando nessa vertigem tudo o que a ele se encontrar ligado, beneficiário ou serventuário, capitalista ou proletário, ser pensante ou mero ‘adorno’ da natureza.

Aceitaremos ligar o nosso destino ao genes suicidário de tal sistema? Como impedi-lo, então?

sábado, 15 de agosto de 2009

É possível o ‘desenvolvimento sustentável’ nas sociedades dominadas pelo mercado? - V

É possível ainda ‘salvar’ o planeta ?

Perante o quadro traçado e a aparente inutilidade dos esforços para o alterar, o desfecho mais racional ditaria a adopção de uma atitude de resignação, de baixar os braços ou desistir, restando então aguardar pela eclosão da catástrofe. Em especial a constatação da ineficácia das medidas tomadas a nível local, num mundo globalizado, conduz à aceitação, como inevitável, do que parece ser, precisamente, uma estratégia de resignação ou capitulação: considera-se apenas possível responder aos graves problemas ambientais com comportamentos e medidas de política visando, por um lado, a mitigação dos seus efeitos mais gravosos com vista, nomeadamente, à redução das emissões de gases com efeito de estufa (através de uma maior eficiência energética, de normas ambientais mais apertadas, de um controle mais severo no seu cumprimento), por outro, alertando para a necessidade de se procurarem desde já as vias para uma adaptação aos novos parâmetros climáticos, para uma absorção devidamente programada dos seus impactos.

Em face da dimensão atingida pelo problema e das previsões científicas que apontam para cenários altamente subversores do modo de vida actual, não pode questionar-se a necessidade da sua adopção generalizada, tanto a nível individual como institucional. Contudo, reduzir a estratégia de luta contra as agressões climáticas à ‘mitigação’ e ‘adaptação’ significa, só por si, abdicar de inverter uma situação em degradação acentuada, assumir a incapacidade para responsabilizar os seus fautores, premiar, em última instância, o acto predador que este sistema tem levado a efeito sobre o planeta, pondo em causa o seu futuro.

Apesar das certezas que, a este nível, podem já considerar-se adquiridas, importa reconhecer que subsistem ainda demasiadas incógnitas e com frequência se revelam imprevistos decorrentes de factores imponderáveis. Subsiste, sobretudo, uma nesga de esperança numa hipotética inversão da tendência no sentido da catástrofe, se for possível alterar, em tempo útil (ou seja, a breve prazo), as condições que determinam e influenciam o meio ambiente, sejam as materiais (alteração das fontes energéticas) ou as políticas (alteração da orientação económica do planeta), que de modo algum deve ser desprezada.

Entretanto, não obstante os efeitos positivos do ainda débil mas gradual despertar de um crescente número de pessoas para os problemas ambientais e a causa ecológica, contudo, a sua capacidade para reverter esta situação é extremamente débil e limitado, pois esbarrará sempre num sistema cuja lógica implica um consumo descontrolado dos recursos do planeta em nome da valorização incessante da mercadoria e das sagradas regras do mercado. Torna-se, pois, óbvio – mas importa aqui acentuá-lo com o maior ênfase – que a solução para os problemas ecológicos não passa apenas, nem sequer principalmente, pela alteração dos comportamentos individuais em matéria ambiental, mas implica sobretudo a assunção colectiva (ou pública) dessas responsabilidades.

Aliás, na fase actual, perante a apertada interdependência e a densa rede de ligações que se observa a nível planetário, deve assumir-se que a consciência das pessoas sobre os problemas ambientais só conseguirá ser despertada e, consequentemente, o seu comportamento cívico mobilizado para a necessidade de pôr cobro à desenfreada predação dos recursos e degradação das condições ambientais de vida, perante situações dramáticas ou outras que impliquem alterações radicais no seu modo de vida.

Nesse sentido, não sendo previsível que a ocorrência de catástrofes naturais de grande dimensão (ou a acentuação da sua frequência), possa contribuir, só por si e em tempo útil, para tornar consciente e impor a necessidade de mudanças radicais, a médio prazo apenas seria expectável tal efeito perante a hipótese (mirífica?) de geração de energia ilimitada a partir de uma fonte de recursos limpa e praticamente inesgotável (energia mecânica com origem magnética?) ou num método que a consiga sem consumo de energia (o motor do mítico movimento perpétuo?) – o que alteraria radicalmente as condições actuais de produção, as próprias relações sociais e todo o actual modo de vida das sociedades. Mas será realista esperar tal milagre?

Realista é, sem dúvida, considerar que o mundo se encontra confrontado com uma séria questão energética – ainda que a escassez de recursos se não reduza às fontes de energia (ela é até mais grave no que respeita à água, aos bens agro-alimentares ou mesmo ao ambiente!).
(...)

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

É possível o ‘desenvolvimento sustentável’ nas sociedades dominadas pelo mercado? - IV

As técnicas do Mercado ‘ao serviço’ do ambiente?!!!

O risco de a dimensão destes problemas assumir proporções irreversíveis, não obstante todo o esforço teórico desenvolvido pelos indefectíveis defensores do mercado na desvalorização do que já não pode mais ser ocultado, deixou de pertencer então à categoria de um invocado dramatismo sem fundamento, para se tornar numa realidade incontornável, impossível de ignorar pelos responsáveis políticos, porque cada vez mais presente no quotidiano das pessoas comuns. Começa, pois, a ganhar forma crescente, na consciência democrática da população mundial, nomeadamente a dos países ditos desenvolvidos, a necessidade de se estabelecerem controles rígidos sobre as práticas que originam as diferentes espécies de poluição, da terrestre à atmosférica, da marítima à dos cursos de água e restantes aquíferos.

Ora, não deixa de ser sintomático e ao mesmo tempo preocupante verificar que, numa sociedade em que toda a organização social é comandada pelo poder incontestado do mercado, as soluções engendradas pelo sistema para impedir a completa anarquia existente em termos de agressões ambientais passam pelo inevitável recurso aos mesmos princípios que as originam, ou seja, os princípios mercantis:
– O princípio do ‘poluidor-pagador’ (por adaptação do utilizador-pagador), pretendendo-se que os danos causados ao ambiente sejam reparados (monetariamente, entenda-se), pelos seus directos fautores: mesmo que apenas situados no estrito âmbito deste princípio, sem o questionar, a experiência comprova que o custo a pagar pelas infracções cometidas no domínio do ambiente é amplamente compensador, confirmando que, afinal, pelo menos aqui e até agora, ‘o crime compensa’. Muito largamente, aliás...
– O mecanismo de um inconsequente ‘mercado de emissões’ internacional, criado pelo Protocolo de Quioto, por realismo político assente num equívoco e regido por normas contraproducentes (que, além do mais, ninguém cumpre): o equívoco de partir do pressuposto de uma alternativa única de modelo de desenvolvimento, ao adoptar como padrão universal e exclusivo o mercado capitalista (altamente dependente dos recursos energéticos fósseis), levando a que todos os países se sintam, legitimamente, com igual direito ao seu acesso; a norma contraproducente de pretender reduzir a produção de CO2 por conta da fixação arbitrária dos denominados ‘direitos de emissão’, estabelecidos para cada país em função dos actuais níveis de emissão, transaccionáveis como qualquer outra mercadoria, facilmente manipuláveis, em seu proveito, pelos países altamente poluidores.

O sistema assente no mercado capitalista revela assim total incapacidade para enfrentar, de forma coerente e eficaz, a ameaça crescente constituída pelas agressões ambientais (cujos resultados se expressam nas alterações climáticas), dado que se encontra demasiado dependente e comprometido com todo o processo em que elas se produzem.

Pragmaticamente, no final, o que pesa é a ausência de qualquer alternativa global tendente à urgente inversão desta situação, a nível de hipóteses teóricas e no plano da luta política, sendo que todas as energias e esforços desenvolvidos são canalizados para acções pontuais localizadas, cujos efeitos mais perduráveis se fazem sentir na lenta mentalização das pessoas envolvidas ou atingidas, no sentido da mudança de atitude e alteração de hábitos passíveis de incorporar uma nova relação com o meio ambiente. Este processo, contudo, é, por natureza, de efeitos muito lentos e limitados, pouco consentâneo com a dimensão e a urgência atingidas pelo problema. Por isso mesmo, cada vez é mais real o risco de aqui ocorrer o pior dos cenários se, à semelhança do que aconteceu ao sapo da história, o homem se for conformando com o aumento gradual do calor na Terra – até a vida, conforme a entendemos e a fruímos hoje, se tornar completamente insuportável!

Resta-nos, porventura, a egoísta esperança de tal só vir a afectar, na sua forma mais dramática, as gerações futuras. Mas então importa questionar a nossa responsabilidade social, tanto em termos do contributo para a degradação das condições que aí conduziram, quanto sobretudo a nível da consciência ética do problema. Nestas circunstâncias, não será difícil de antecipar a condenação que o pesado juízo histórico abaterá sobre a nossa revelada incapacidade para o enfrentar e resolver – quando isso ainda se demonstrava ser viável.
(...)

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

É possível o ‘desenvolvimento sustentável’ nas sociedades dominadas pelo mercado? - III

Os limites da acção dos movimentos ecológicos

Não deixa de ser perigosamente ilusória, de facto, a luta que os movimentos ecologistas, apostados em denunciar e alterar este estado de coisas, desenvolvem um pouco por toda a parte, mas sem se atreverem a pôr em causa o que lhe dá origem e a determina – a lógica da mercadoria – que impõe uma sempre crescente valorização do capital (que se pretende traduzir por desenvolvimento) sem olhar aos meios utilizados, o que de modo algum se compadece com preocupações ambientais, como a razão explica e a experiência comprova. ‘Perigosamente ilusória’, porque ao desviar a atenção da verdadeira origem do problema, aliena a possibilidade de o resolver de forma consistente, para além da acção de resultado casuístico, criando ainda expectativas impossíveis de realizar.

Ao mesmo tempo, resulta de fraca ou nula eficácia, o esforço posto na defesa de um desenvolvimento sustentável (por estes movimentos e por todos quantos o propõem como alternativa), quando tal é feito sem que se tenham em conta e se questionem as condições de funcionamento do próprio sistema – sujeitas ao domínio absoluto do mercado capitalista – que aceitam como um dado natural ou uma inevitabilidade abstracta e a-histórica, ainda que a merecer reparos e ajustamentos de forma a despojá-lo dos aspectos mais odiosos e a torná-lo menos agressivo para o ambiente. Ajustamentos que todos sabem não terem hipótese de virem a ser considerados (ou de resultarem), pois isso equivaleria a dizer que o sistema aceitava alterar a sua natureza - como se o lobo pudesse deixar de ser carnívoro para se converter em herbívoro!

Nestas circunstâncias e perante a impossibilidade lógica de se alterarem as condições de funcionamento do próprio sistema (sem o desvirtuar), a acção em prol da construção de alternativas a uma situação cada vez mais unanimemente considerada insustentável, corre o risco de se transformar apenas numa luta contra moinhos de vento (como o recurso a tecnologias para substituir os mecanismos naturais de regulação climática na base de soluções tão engenhosas quanto aparatosas: o conhecido autor do conceito de Gaia, James Lovelock, por exemplo, sugere a criação de sombrinhas espaciais que protejam a Terra dos raios solares, contribuindo, assim, para a arrefecer e atenuar os efeitos esperados da diminuição dos glaciares polares no aumento da temperatura do planeta!)

Melhor que quaisquer outras considerações sobre a validade destas propostas, importa atentar no alerta lançado na síntese elaborada pelo próprio Lovelock (o que não significa total aderência às teses defendidas por este autor, mas apenas o inquietante alerta de um reconhecido especialista): “O desenvolvimento sustentável, suportado pelo uso da energia renovável, é a abordagem da moda sobre viver com a Terra, e é a plataforma dos políticos de pensamento verde. Em oposição a esta perspectiva, particularmente nos Estados Unidos, estão os muitos que ainda vêem o aquecimento global como ficção e favorecem os velhos hábitos". Estes últimos, explica, actuam ancorados mais na fé – ‘Deus tomará conta da Terra’, nas palavras de Madre Teresa de Calcutá – ou mesmo nos ‘velhos hábitos’ (que determinaram a situação actual), do que na ciência..

E prossegue, mais adiante: "Muitos consideram esta nobre política (do desenvolvimento sustentável) moralmente superior ao laissez faire dos velhos hábitos. Infelizmente para nós, estas abordagens totalmente diferentes, uma a expressão da decência internacional, a outra das forças de mercado insensíveis, têm o mesmo resultado: a probabilidade da alteração global desastrosa. O erro que partilham é a crença de que mais desenvolvimento é possível e que a Terra continuará, mais ou menos como agora, durante pelo menos a primeira metade deste século. Há duzentos anos, quando a alteração era lenta e inexistente, podíamos ter tido tempo para estabelecer o desenvolvimento sustentável, ou até ter continuado durante algum tempo com os velhos hábitos, mas agora é tarde demais; o estrago já foi feito”. E a conclusão não pode ser mais pessimista, ao apontar que, não obstante as diferenças, estas duas vias convergem para a existência, em breve, de um planeta onde poucos terão possibilidade de sobreviver...

Contra os que depositam confiança inabalável nas soluções da técnica para ultrapassarem este aperto da Humanidade, resta o conforto do aviso de Darwin: ‘Não é a mais forte das espécies que sobrevive... Nem a mais inteligente... Mas a que for mais adaptável à mudança’.
(...)

terça-feira, 11 de agosto de 2009

É possível o ‘desenvolvimento sustentável’ nas sociedades dominadas pelo mercado? - II

O paradoxo mercantil: a lógica do crescimento ilimitado num mundo de recursos limitados

Até à entrada na modernidade e ao consequente domínio do mercado, as agressões praticadas pelo homem contra a natureza produziam efeitos nefastos mas localizados, a sua influência, por norma, não extravasava os limites das regiões onde tais actos eram praticados (por exemplo, no período romano, a desflorestação das margens do Mediterrâneo, sobretudo para a construção de frotas de guerra, com consequências que ainda hoje perduram). Com o capitalismo, pelo contrário, tudo se alterou. O processo de industrialização das sociedades, acelerado de forma descomunal no pós-guerra, levou a degradação ambiental e a depredação dos recursos ao paroxismo e a níveis já considerados irreversíveis nalgumas situações. Aquilo que demorou uma infinidade a construir (entre 3 a 4 mil milhões de anos!), está em vias de ser delapidado no tempo planetário de um fósforo (em pouco mais de 2 a 3 centenas de anos!), desde a combustão da energia fóssil, ao ar que respiramos, dependente da lenta constituição de uma atmosfera habitável, fisiologicamente adaptável ao homem.

As actuais alterações climáticas, em boa medida responsáveis ora pela escassez de água e secas prolongadas, ora por tempestades e cheias diluvianas que tudo arrasam, têm origem, é hoje ponto assente, no aquecimento global do planeta em resultado da acção do homem (emissão de gases com efeito de estufa, CO2 e metano, sobretudo), muito embora se saiba ser possível actualmente evitá-las, através do recurso a soluções técnicas já disponíveis mas pouco utilizadas dado os custos que representam para as empresas com o consequente efeito na redução dos seus lucros! Pelo que, da destruição de áreas e espécies isoladas passou-se para a destruição com carácter sistemático, da devastação localizada e ‘controlada’ para a devastação planetária: a afirmação de que o futuro da Humanidade se encontra em sério risco surge agora cada vez menos como dramatização e mais como tradução da realidade. O crescimento ilimitado do mercado, imposto pela lógica do valor, choca-se com um mundo de recursos limitados: o mercado tende inevitavelmente para a sua própria autodestruição!

Esta realidade impõe-se já com tal evidência que até sectores da corrente liberal acabaram por a aceitar. Na verdade, os mais conscientes destes, mesmo não abdicando da fé nas virtudes do mercado, percebem que, a manter-se a actual tendência predadora na utilização de recursos finitos, a Humanidade caminha para a sua extinção, a vida na Terra pode encontrar-se ameaçada. A ideologia do crescimento contínuo, base inquestionável da actual Globalização Competitiva, conduzirá, afirmam (A. Neto da Silva, em O triplo conflito), “ao esgotamento do Planeta, não apenas dos recursos minerais mas também dos elementos fundamentais que permitem a existência da nossa vida”. A alternativa à catástrofe anunciada passa por “a ideologia hoje dominante, de uma globalização baseada apenas na (prossecução da máxima) eficiência e na (máxima) competitividade económica, (...) ser substituída por uma ideologia do crescimento possível, assente na maior eficiência ambiental, social e económica, por esta ordem de prioridades”. Essa alternativa passaria, então, pela implementação urgente e global de políticas enquadradas no designado ‘Desenvolvimento Sustentável’ e na conciliação indispensável dos três pilares em que assenta: o desenvolvimento económico, a protecção do ambiente e a coesão social. Mas sendo um objectivo global, isso significa que só resultará e será eficaz se puder contar com o concurso, em acção concertada, de todos os países do mundo, o que, para ser exequível, exigiria a constituição de um (mirífico?) Governo Mundial, capaz de federar/subordinar os interesses locais ou, no caso, nacionais.

Sublinhe-se, desde já, que a acção desenvolvida tanto pelos movimentos ecológicos como pelos defensores do desenvolvimento sustentável, no sentido, sobretudo, duma indispensável e urgente sociedade de baixo carbono – contra a lógica do crescimento ilimitado? – se é certo haverem contribuído decisivamente para a consciencialização desta situação na opinião pública, cada vez mais desperta e melhor informada sobre as suas gravosas consequências na vida das populações, arrisca-se, no entanto, a criar perigosas ilusões ou a redundar num exercício de efeitos práticos pouco eficazes ou mesmo frustrantes, as mais das vezes de âmbito meramente local, ainda que, a esse nível, importantes.
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segunda-feira, 10 de agosto de 2009

É possível o ‘desenvolvimento sustentável’ nas sociedades dominadas pelo mercado? - I

A lógica do Mercado contra o Desenvolvimento Sustentável

(Reproduzo aqui, adaptado, parte de um texto das minhas reflexões pessoais sobre o Mercado, escrito há cerca de 3 anos. Vem ele a propósito da ‘ideologia do crescimento contínuo’, aflorada em comentário anterior (sobre o ‘Desafio Global’, de N. Stern). Por isso me pareceu oportuno expor agora, à margem dos temas da actualidade (crise, eleições,...), o enquadramento que faço de assunto tão estratégico para o futuro das sociedades).

À percepção, cada vez mais generalizada, de que as sociedades modernas, desenvolvidas ou subdesenvolvidas, atingiram uma situação insustentável (face sobretudo às precárias condições de vida da maioria da população mundial e à degradação contínua do meio ambiente), os sectores mais conscientes e informados, do meio académico à política e aos movimentos ecológicos, contrapõem a necessidade e a urgência na implementação de um desenvolvimento sustentável. Referido pela primeira vez em 1971 e adoptado pelas Nações Unidas no ano seguinte, foi sob a égide desta que foram sendo clarificados os três pilares essenciais com que se costuma defini-lo: o desenvolvimento económico, a protecção do ambiente e a coesão social.

O que se pretende traduzir com este conceito é que só haverá efectivo desenvolvimento se este for construído em bases que permitam mantê-lo e alargá-lo para o futuro, sem delapidar nem comprometer, portanto, os recursos, próprios e alheios, através da sua exploração exaustiva, nalguns casos até ao esgotamento, como tem vindo a verificar-se. Na verdade, após a revolução industrial e num curtíssimo espaço de tempo (à escala cósmica, entenda-se), descobre-se que o homem passou de espécie constantemente ameaçada por uma Natureza hostil, a principal agente da destruição que ameaça o planeta e os seus frágeis equilíbrios ecológicos. A reposição destes equilíbrios ameaçados exigiria então, não o abandono do crescimento económico, símbolo de bem estar e conforto crescente, mas a aplicação do que se designa por ‘desenvolvimento sustentado’.

A análise deste tema e a consciência dos problemas que o gera, levanta desde logo uma questão prévia algo intrigante: apesar da insistência de há largos anos por parte de inúmeros movimentos e académicos respeitáveis nesta terapia e existindo actualmente um consenso tão alargado sobre a sua necessidade, o que impede a afirmação peremptória de tal modelo de desenvolvimento e a sua implantação generalizada em todo o mundo? E a resposta a esta questão encontra-se, mais uma vez, no condicionamento imposto pelo mercado e na lógica que o sustenta:

– Por um lado, a concorrência impõe às empresas o recurso a políticas de redução de custos, o que, na maioria das situações, se traduz, não na sua racionalização (revestindo a forma de alterações técnicas, por exemplo), mas apenas na sua remoção para outro sítio: esta externalização dos custos das empresas tanto toma a forma de desemprego, nos recursos humanos, como de poluição das águas ou do ar, ou de qualquer outra agressão sobre o meio ambiente, no que respeita aos recursos físicos;
– Por outro, a expansão contínua da produção desencadeia uma dinâmica específica com tradução quer a nível material, pela pressão desmedida sobre os recursos a nível planetário, quer sobretudo no modo de vida das populações, incentivadas por campanhas agressivas a um consumismo sem limites (uso do automóvel particular, urbanização descontrolada,...) e ao desperdício irracional (rápida obsolescência dos produtos,...).

Convirá, pois, antes de mais realçar a excessiva (ou mesmo exclusiva) tónica posta na componente ‘sustentável’, quando, na verdade, impor-se-ia questionar, acima de tudo, a natureza ‘deste desenvolvimento’ e as lógicas que o sustentam. Afinal são estas que explicam, em última análise, a razão da impossibilidade de tal desenvolvimento poder vir a ser alguma vez sustentável!
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quarta-feira, 9 de julho de 2008

As alterações climáticas na política do G8

A recente e muito badalada decisão do G8 de reduzir as emissões com efeito de estufa em 50% até 2050, suscita-me alguns breves (e ligeiros, ainda que o tema mereça, como é óbvio, tratamento mais sério) comentários ‘desencontrados’:
– O primeiro, quase anedótico, é que os ‘rapazes’ do G8 parecem ter sido atraídos pela sedução dos números redondos – reduzir 50%... até ao ano 50... – o que desde logo levanta dúvidas sobre as bases em que se fundaram para chegarem a estes números quase cabalísticos!
– O segundo, ainda dentro do anedótico, é que tal objectivo mais parece ter sido fixado como se os líderes do Globo, enfadados com os constantes apelos da comunidade científica e a persistente pressão das opiniões públicas, resolvessem descartar o tema, atirando-o lá para 2050..., que é um horizonte que certamente nenhum deles espera alcançar.
– O terceiro, não obstante a pouca transparência e o anedotário deste processo, é que ele constitui de facto um começo, muito pouco ambicioso, é certo, mas que mesmo assim se arrisca a agitar as águas mornas da política internacional actual, a nível ambiental (bloqueada pela irredutível posição norte-americana) e a ultrapassar, mais cedo do que se espera, esta aparente concessão agora feita.

É claro que o Bush sabia que se o não fizesse agora, o seu sucessor (seja ele qual for), encarregar-se-ia de o fazer daqui a meia dúzia de meses e portanto, este aparente volte-face que aparece travestido de gesto de grande magnanimidade (!), mais não representa que uma antecipação estratégica. Ao decidir abrir mão, no termo do seu mandato, de uma das suas imagens de marca – de político irredutível no que ao ambiente diz respeito – atirando para daqui a mais de quarenta anos um objectivo que se sabe claramente insuficiente para resolver o problema das alterações climáticas, o que ele certamente está a tentar fazer é reduzir a margem de manobra do seu sucessor, apostando no máximo adiamento das medidas indispensáveis neste domínio.
Mas depois do precedente aberto, já vai ser muito difícil parar a dinâmica que tal abertura pode proporcionar. A questão agora é saber se, nas condições actuais de funcionamento da economia mundial, bastará uma decisão política, mesmo que tomada pela sua cúpula dirigente, para inverter o peso de uma máquina que se habituou a funcionar sozinha, sem freios nem condicionantes, ao sabor dos interesses gizados a coberto da globalização liberal.

O anedotário estratégico dos políticos e a intocável globalização liberal não auguram nada de bom. Ainda assim, abriu-se uma porta. É preciso aproveitá-la.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

As Alterações Climáticas : a existência de um novo paradigma

Em Julho de 2007, o meu Amigo José Sousa, publicou no seu Blogue "Futuro Comprometido" (http://futureatrisk.blogspot.com/), um excelente artigo sobre as Alterações Climáticas onde justifica e fundamenta a necessidade premente e urgente da existência de um novo paradigma em que a obsessão com a competitividade terá necessáriamente que dar lugar à cooperação.
Ora, com a devida vénia e devidamente autorizado pelo autor, gostariamos de partilhar esta interessante reflexão que, hoje e agora, e face à situação crítica em que vivemos, é mais que pertinente.