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quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Leituras de Verão – no estio deste Outono retardado!

‘O crash de 2010’!

O fim do Verão e este início ensolarado e quase tropical de um Outono que tarda, trouxe interessantes novidades editoriais, seja as relacionadas com a interminável crise económica (que ameaça eternizar-se), ou as que respeitam à consolidada teoria da evolução (no ano em que se comemoram os 200 anos do nascimento de Darwin e os 150 da publicação da ‘Origem das espécies’). Mas entre Krugman (‘A consciência de um liberal’) ou R. Dawkins (‘O espectáculo da vida’), prefiro aqui trazer o espanhol Santiago Niño Becerra, que acaba de ver editado em português o seu enigmático (ou provocatório?) ‘O crash de 2010’.

Independentemente do tom premonitório do título – pois o mais relevante não é saber se a crise sistémica de que o autor fala vai mesmo acontecer, com uma precisão que roça a ‘convicção profética’, no Verão de 2010 (!!!) – importa aqui destacar alguns aspectos que a leitura deste livro suscita. Desde logo, que se trata de uma perspectiva diferente de quantas têm abordado a actual crise e as suas consequências ou saídas. O autor situa-se no que se pode designar de ‘keinesianismo de esquerda’, até nas referências teóricas que adopta (J. K. Galbraith e Joan Robinson), o que talvez explique a firmeza e a convicção que coloca tanto na caracterização da crise (trata-se de uma crise sistémica e não de mais uma crise cíclica), como no seu previsível desfecho (que só pode ser um novo modo de produção, com a mudança da ‘forma como as coisas são feitas’) – ao contrário dos denominados neo-keinesianos, empenhados em demonstrar a suficiência das tradicionais receitas públicas aplicadas em anteriores crises.

Neste contexto são especialmente significativas duas passagens do livro. A primeira diz respeito ao que o autor designa por ‘bluff irlandês’ – e já se percebeu a que se refere! Durante os últimos 20 anos apontado como um exemplo a seguir pela cartilha neoliberal, os episódios da crise tiveram o mérito de pôr a nu o verdadeiro milagre irlandês, ao transformarem em pesadelo aquilo que era propagandeado como um sonho – sonho para uns poucos, é certo, que não para os milhares de desempregados, submersos no endividamento para onde foram arrastados (atraídos?) pelo hiperconsumo, precisamente dois dos três pilares em que assenta este capitalismo tardio (o terceiro é, segundo o autor, o desmesurado crescimento do terciário). Os resultados do modelo irlandês do ‘boom’ (atracção do investimento externo por via fiscal), acabaram por, mais uma vez, demonstrar como a economia de um país pode ser usada apenas como plataforma de ganhos alheios sem retorno significativo para os respectivos cidadãos.

E adianta: ‘A crise das hipotecas de alto risco, ou subprime, os níveis descontrolados a que se deixou chegar a economia financeira, os montantes da dívida privada já incomportável a todos os níveis, a crescente produtividade que já está a tornar excedentários amplos colectivos humanos, os progressos de uma tecnologia cada vez mais eficiente não são mais do que manifestações do esgotamento do sistema’.

O que se prende com o segundo aspecto a destacar. De acordo com o autor, ‘o capitalismo nasceu com o germe que lhe permitiu desenvolver-se, alcançar os níveis de crescimento que conseguiu, mas, por sua vez, constitui a semente do seu esgotamento e da sua destruição.(...) o capitalismo exige uma expansão constante, que, obviamente, não é possível.Fisicamente, sublinhe-se. Pois ainda que relevando do óbvio, tende a ignorar-se o aspecto que cada vez mais importa evidenciar, o que o leva a concluir: ‘O crescimento do planeta tem-se baseado na convicção de que gastar de tudo, sem limite, era possível e inclusive necessário (...). Foi possível porque esse estado de bem-estar, esse ir mais além, nos fez crer que com as nossas criações, a nossa tecnologia e o nosso engenho financeiro seria possível compensar qualquer desequilíbrio. Contudo, quando a dívida se tornou fisicamente insustentável e a capacidade de absorver bens de consumo se esgotou, o nosso sistema deparou-se com uma crise.

Resta saber se a actual crise acaba mesmo em ‘crash’, como assegura a premonição de Santiago Becerra. E se o seu desfecho se traduz num novo modo de produção.

Há muitas questões que persistem sem resposta nesta descrição do sistema a caminho da catástrofe. Por exemplo, em que é que se traduz o germe (ou pulsão) que sustenta o capitalismo, mas que o irá levar à autodestruição. Limites, naturalmente, da própria concepção ideológica do autor – ou da sua recusa em aceitar conceitos decretados como ‘malditos’. Não obstante, pois, serem questionáveis alguns dos pressupostos em que assenta a narrativa, não deixa de ser interessante percorrer as páginas deste livro e confirmar que, afinal, por diferentes vias e processos, há muita gente a confluir numa conclusão básica: a mudança deste sistema impõe-se como uma medida profilática em nome do progresso – ou tão só da sobrevivência do homem.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Leituras de Verão – 2

O DESAFIO GLOBAL

Retomo aqui o título que, tanto pela data da sua edição original como pelo matéria nele tratada, mais actualidade suscita. Em 2009, O DESAFIO GLOBAL – é dele que se trata – destaca e desenvolve ideias chave do trabalho iniciado com o ‘Relatório Stern’, ‘já’ de 2006, beneficiando, naturalmente, das críticas e de novos dados entretanto coligidos após a publicação deste. E reforça a sua importância com o eclodir da crise económica, dada a pertinência do tema para a sua resolução. Destacaria, pois, nesse enquadramento, dois ou três aspectos mais relevantes (dos muitos que seria possível abordar), limitando-me a transcrever praticamente alguns excertos do texto.

1. Desde logo a resposta urgente ao que se pode designar por ‘estado de necessidade’, pelas ameaças ao nosso estilo de vida, tanto as que resultam das alterações às actuais condições de conforto climático, como as que se prendem com o esgotamento dos recursos. Porque, conforme se refere logo na Introdução, “o crescimento (baseado no) alto carbono destruir-se-á a si mesmo, primeiro por causa dos altos preços dos hidrocarbonetos e segundo, e mais fundamentalmente, por causa do ambiente físico muito hostil que criaria”.
A solução, para o autor, passa pelo desenvolvimento de “uma forte acção global empreendida agora”, a qual teria o mérito de não só contribuir para reduzir “os enormes riscos de longo prazo que advirão das alterações climáticas”, mas “também permitir que nos elevemos à altura de outro grande desafio do séc. XXI, a luta contra a pobreza mundial. Como defende o livro, teremos simultaneamente sucesso ou insucesso em relação a estes dois desafios que definem o séc. XXI. Convertendo as nossas economias em economias de baixo carbono criaremos e descobriremos uma nova forma de crescimento, mais limpa, mais segura em termos de energia, com maior biodiversidade, mais digna de confiança e mais tranquila”.

2. Entretanto, no Prefácio à edição portuguesa, Viriato Soromenho Marques deixa o aviso de que “esta crise (económica) só pode ser compreendida se percebermos que nas suas raízes mais fundas e nas suas consequências mais distantes tem uma ligação essencial com a negligência com que a humanidade tem habitado e malbaratado este planeta. (...) A principal tese do pensamento de Stern é a de que as alterações climáticas, para além de todos os seus aspectos científicos e técnicos que devem ser tratados pelas diferentes ciências da Natureza, constituem uma gigantesca ‘falha de mercado’. As consequências dessa falha, como este livro desenvolvidamente analisa e explica, são imensas e convocam outras falhas”. Falhas, acrescenta, tanto a nível do conhecimento, por incapacidade para prevenir e evitar os efeitos nefastos que agora se manifestam, como da ética, ao não acautelar as condições de sobrevivência para as gerações futuras. Mas interrogo eu: ‘falhas de mercado’ ou ‘mercado falhado’ mesmo?

3. Por último, e ainda, aquilo que tenho vindo a designar por os limites à mobilização das consciências para as questões éticas aqui envolvidas – sobretudo a relacionada com a herança deixada às gerações futuras de um planeta degradado (ou destruído?) – e ao trabalho pedagógico sobre a urgência da transformação social. Sobretudo por os problemas não serem directamente sentidos. ‘Quando comecei a ocupar-me da questão das alterações climáticas (...), a primeira coisa que me chamou a atenção foi a ordem de grandeza dos riscos e os efeitos potencialmente devastadores na vida das pessoas por todo o mundo. Estávamos a jogar o planeta. Tinha também a consciência aguda da importância da experiência directa na acção mobilizadora: a menos que as pessoas tenham visto ou sentido um problema, é difícil persuadi-las de que é necessária uma resposta. Dado que os efeitos das alterações climáticas só se tornam patentes ao fim de um longo período de tempo, isto é particularmente desafiador (...)’.

Vai certamente valer a pena prosseguir e aprofundar a leitura deste livro!

terça-feira, 1 de julho de 2008

O futuro e o sentido da Literatura …

«Lembremo-nos que a literatura, porque se dirige ao coração, à inteligência, à imaginação e até aos sentidos, toma o homem por todos os lados; toca por isso em todos os interesses, todas as ideias, todos os sentimentos; influi no indivíduo como na sociedade, na família como na praça pública; dispõe os espíritos; determina certas correntes de opinião; combate ou abre caminho a certas tendências; e não é muito dizer que é ela quem prepara o berço aonde se há-de receber esse misterioso filho do tempo - o futuro.»
( Antero de Quental, in «Prosas da Época de Coimbra» )