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quarta-feira, 29 de maio de 2013

Saídas para a crise – III

Novo modelo de organização social,... 
...para um outro modo de vida

Os mecanismos de decisão que comandam a realidade social não se regem pela lógica da razão, apenas pela força dos interesses. É exactamente no emaranhado complexo dos interesses que se deve procurar a explicação para os aparentes bloqueios que infernizam a vida das pessoas. Afinal, tudo se reduz a uma ‘opção fundamental da sociedade', pois 'a questão não é tanto saber se é necessário ou não reduzir o tempo de trabalho, mas saber como se fará esta redução: seja de maneira discriminatória, privando alguns de um pleno acesso ao emprego (...), seja, pelo contrário, repartindo de maneira igualitária os benefícios de uma progressão global da produtividade’ (M. Husson, 1996).

Num mundo prestes a desmoronar-se, multiplicam-se as atitudes irracionais, precipitadas, quase instintivas, desesperadas mesmo, daqueles (e são a maioria) que, lutando por sobreviver no caos instituído, procuram agarrar-se às condições que o fundaram e a custo o vão aguentando. Inscritas na matriz de um sistema que prima pela irracionalidade (veja-se, por exemplo, a gestão do potencial de riquezas do planeta), estas atitudes resultam da percepção de que vai escasseando o suficiente para permitir a todos manter, por muito mais tempo, os padrões de vida actuais, de que se torna vital lançar mão e dispor, por quaisquer meios, mesmo os militares (quando, para tanto, há capacidade), dos recursos que fizeram o sucesso do modelo económico e social, agora em crise.

A lógica inserida na dinâmica de progresso que acompanha o homem, determinaria, como resultado natural dos desenvolvimentos técnicos conseguidos, a consequente redução do esforço humano aplicado no trabalho de produção de bens e serviços. As preocupações em torno da ‘redução do tempo de trabalho’ são antigas, pode dizer-se que acompanham todo o processo de desenvolvimento da Humanidade. A implantação do capitalismo trouxe o advento das sociedades do lazer, impulsionadas pelo progresso técnico e a automação da actividade produtiva. A robótica (entre outras formas de automação) substitui o trabalho manual, libertando tempo antes dedicado à produção e com evidentes ganhos de produtividade.

Contudo, aquilo que se apresenta como resultado natural de um processo de substituição do esforço individual das pessoas (o trabalho manual) por uma crescente intervenção das máquinas e da inteligência artificial, esbarra não nos limites da técnica mas nos interesses particulares dos grupos sociais que dominam a organização social do capitalismo através de condições específicas impostas a nível mundial – globalizada no seu nível económico, mantida nos limites nacionais a nível político – o que permite todo o tipo de chantagem na base dessa constante ameaça da ‘deslocalização de empresas’! Daí assistir-se hoje, no campo laboral, a situações aparentemente contraditórias ou mesmo absurdas, de imposição patronal de alargamento dos horários de trabalho, a par do... aumento do desemprego!

Mesmo aquilo que, em determinado momento histórico, parece surgir como a solução para a crise que se instala, rapidamente se transforma na causa de novos problemas: o modelo keynesiano, de que deriva o Estado Social, consegue salvar o capitalismo da derrocada eminente no período pós Grande Depressão, mas acaba por se desgastar e quase se perder nos limites sociais de um sistema exclusivista (no duplo sentido: selectivo e promotor da exclusão); o modelo neoliberal, por sua vez, ao pretender salvar o capitalismo das ‘garras’ do Estado Social, devolvendo toda a liberdade à economia, parece destinado, tudo o indica, a demonstrar, com mais rapidez do que seria de esperar, a natureza realmente suicidária deste sistema, ao actuar, ainda que a contragosto, como seu principal carrasco.

O capitalismo tem demostrado, ao longo da sua curta mas atribulada existência, capacidade suficiente para, perante novos desafios, saber adaptar-se às novas exigências, mas mantendo intacta a sua matriz essencial, à custa, é certo, de algumas das maiores monstruosidades históricas (com relevo para o conjunto dos regimes totalitários, sem excepção). Contudo, ao contrário do que sucedia nas crises anteriores, típicas do sistema, a turbulência actual não se reduz apenas a mais um ‘salto tecnológico’ (com a consequente alteração nos ritmos de produtividade e o lançamento de novos produtos), idêntico aos que pontuaram toda a história do capitalismo e fez deste um sistema instável, caracterizado por períodos de crescimento alternando com crises cíclicas.

O que se encontra verdadeiramente em gestação é uma transformação social profunda, pondo em causa as próprias relações de produção, por força da decomposição da relação base do capitalismo, a relação salarial. Não é, então, de mais uma crise que se trata, mas da exigência histórica de substituição do próprio modelo de organização social, inteiramente subordinado ao funcionamento e existência do mercado, pois que entender isto permite a vantagem de se poder, com a devida antecipação, preparar o futuro. Pelo menos estar prevenido para o que aí vem e se anuncia, de forma irreversível.
(...)

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Saídas para a crise – II

Queda da civilização do trabalho?

Vivemos no meio de um logro magistral, de um mundo desaparecido que nos recusamos a reconhecer como tal, e que políticas artificiais pretendem perpetuar. Milhões de destinos são devassados e aniquilados por esse anacronismo, devido a estratagemas tenazes destinados a dar como imperecível o nosso tabu mais sagrado: o trabalho. Assim se exprimia, já em 1996 (!), a ensaísta e crítica literária do jornal Le Monde, Viviane Forrester, na abertura de ‘O horror económico’. Para logo a seguir acrescentar: ‘Desviado sob a forma perversa de ‘emprego’, o trabalho dá de facto fundamento à civilização ocidental, que domina por inteiro o planeta. Confunde-se com ela (...). Ora esse trabalho (...) não passa já, nos dias que correm, de uma entidade destituída de substância.
Os nossos conceitos de trabalho, e portanto de desemprego, em volta dos quais se desenrola (ou finge desenrolar-se) a política, tornaram-se ilusórios (...). Mas continuamos a fazer as mesmas perguntas fantasmagóricas às quais, sabem-no muitos, ninguém responderá, a não ser o desastre das vidas que esse silêncio destroça e que representam, cada uma delas, um destino, embora o esqueçamos.

Já antes aqui tinha trazido citações desta notável ensaísta (falecida há cerca de um mês) e que, não obstante produzidas à distância de quase vinte anos(!), dão bem a ideia do debate que timidamente vai despontando em torno do principal drama que, sobretudo nas sociedades ocidentais, ameaça a vida da maioria das suas populações, perante o acentuar dos sinais que apontam para o desmoronar do modelo em que até agora assentava, em boa medida, grande parte da sua estabilidade, segurança e prosperidade, ‘o mercado do trabalho’. São as próprias condições de sobrevivência que estão em causa quando o processo de destruição de empregos e a crescente falta de trabalho (com a consequente insegurança que transmite a súbita ausência dos rituais habituais que garantiam as tradicionais perspectivas de subsistência) atingem os níveis actualmente registados nestas sociedades. Um facto parece, pois, estar cada vez mais a impor-se na realidade social, o de que o emprego acabou!

Na lógica do sistema, o trabalho só se justifica, só é necessário, enquanto for útil ao capital, na medida em que este tiver interesse em explorá-lo. Só é empregado, só tem direito ao trabalho quem for considerado útil para produzir lucro ou, dito de outro modo, o trabalho/emprego subsistirá apenas enquanto for útil ao lucro. A noção de exploração é, pois, por definição, intrínseca à própria prestação do trabalho assalariado, reduzido a mero factor de produção. É, aliás, o factor mais facilmente descartável, porque tudo se encontra montado, neste sistema, para que seja o trabalho o principal responsável por qualquer anomalia no processo de produção (ausência de qualificação, baixa produtividade, obsolescência dos produtos,...). Contudo, pior que ser útil, portanto explorável, mas incluído no sistema, é ficar de fora dele, ser considerado não rentável, supérfluo e excluído.

Trabalho e emprego (ou desemprego) fazem de tal modo parte do quotidiano das sociedades actuais, encontram-se tão enraizados na vida das pessoas, que dificilmente se concebe outra forma de organização social em que tais conceitos possam encontrar-se ausentes. O certo é que a sociedade baseada no trabalho, pelo menos tal como a conhecemos hoje, foi posta irremediavelmente em causa pela própria evolução tecnológica. À semelhança do que ocorreu em outros momentos históricos de transição, pode afirmar-se que as relações sociais actuais, assentes em grande medida no trabalho assalariado, já não correspondem ao avanço alcançado pela tecnologia, cada vez mais ‘inteligente’ (integração de inteligência artificial) e libertadora de tempo de trabalho, tornando-se, portanto, num obstáculo à evolução económica das sociedades, mas constituindo sobretudo um entrave ao desenvolvimento individual e social do Homem.

Viviane Forrester vê na globalização a origem da ‘moderna’ exclusão social, a multidão crescente dos desempregados, poisempregos extintos não serão recriados, substituídos pela automação inteligente, pela informatização prodigiosa. E aponta a necessidade de se procurar um outro tipo de organização de sociedade, de uma mudança urgente de paradigma: ‘Parte do trabalho humano está a morrer e outra parte está a ser deslocalizado (até morrer). O problema fundamental não pode ser resolvido com a luta pelo emprego (porque este está a desaparecer), mas com a luta pela distribuição da riqueza criada.(...) Os downsizings e as reduções de pessoal não se devem a deslocalizações, mas sim à automatização, à robotização e à informatização.’
Os problemas das deslocalizações e da invasão de produtos muito baratos vindos do extremo oriente, resultam das leis do próprio capitalismo...num processo que conduzirá à sua própria auto-destruição.’

É pena que os melhores de nós vão desaparecendo, sobretudo num tempo em que o seu contributo mais se tornaria necessário. É a lei da vida, é certo. A mesma que ditará também a hora do capital!
(...)

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Uma questão de habilidade(s); será ?..


A habilidade específica do político consiste em saber que paixões pode com maior facilidade despertar e como evitar, quando despertas, que sejam nocivas a ele próprio e aos seus aliados.
Na política como na moeda há uma lei de Gresham; o homem que visa a objectivos mais nobres será expulso, excepto naqueles raros momentos (principalmente revoluções) em que o idealismo se conjuga com um poderoso movimento de paixão interesseira.
Além disso, como os políticos estão divididos em grupos rivais, visam a dividir a nação, a menos que tenham a sorte de a unir na guerra contra outra. Vivem à custa do «ruído e da fúria, que nada significam».
Não podem prestar atenção a nada que seja difícil de explicar, nem a nada que não acarrete divisão (seja entre nações ou na frente nacional), nem a nada que reduza o poderio dos políticos como classe
.”
Bertrand Russell, in “Ensaios Cépticos: A Necessidade do Cepticismo Político”

segunda-feira, 31 de maio de 2010

"A austeridade conduz ao desastre"


Joseph Stiglitz é conhecido pela sua postura crítica sobre as principais instituições financeiras internacionais, o pensamento único, a globalização e o monetarismo.
Numa entrevista ao jornal francês Le Monde, falou sobre a sua análise da crise do euro
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Ler mais …
(Via : www.esquerda.net )

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Em jeito de antevisão : “Debate da Nação” x Comparação da(s) Verdade(s)

«A verdade, esteja em que pessoa estiver, não se apaga por comparação com outra verdade e, qualquer diferença que possa parecer haver entre duas pessoas, o que é verdade numa não apaga de modo algum o que é verdade na outra. Podem ter mais ou menos adeptos e ser mais ou menos brilhantes, mas são sempre iguais pela sua verdade, que nunca é mais verdadeira nos grandes do que na arraia-miúda. A arte da guerra está mais espalhada do que a poesia, mas o poeta e o conquistador podem comparar-se um ao outro, porque são verdadeiramente o que são, tal como o legislador, o pintor, etc.»
La Rochefoucauld, in «Reflexões»