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sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Estado(s) de Alma ...


" Ninguém está obrigado a cooperar em
sua própria perda ou em sua própria
escravatura, a Desobediência Civil é
um direito imprescindível de todo o
cidadão ".

(Mahatma Ghandi)

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

(Des)Esperança ...


"Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes,
mas não esqueço de que a minha vida é a maior empresa do mundo.
E que posso evitar que ela vá à falência.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e
se tornar um autor da própria história.
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar
um oásis no recôndito da sua alma.
É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.
É saber falar de si mesmo.
É ter coragem para ouvir um 'não'.
É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.
Pedras no caminho?
Guardo todas, um dia vou construir um castelo..."

(Fernando Pessoa)

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

O bluff da produtividade (?) ...


"Uma tentação imediata do nosso tempo é o desperdício.
Não é só resultado duma invenção constante da oferta que leva ao apetite do consumo, como é, sobretudo, uma forma de aristocracia técnica.
O tecnocrata, novo aristocrata da inteligência artificial, dos números e dos computadores, propõe uma sociedade de dissipação. Propõe-na na medida em que favorece os métodos de maior rendimento e a rapina dos recursos naturais. As hormonas que fazem crescer uma vitela em três meses, as árvores que dão fruto três vezes por ano, tudo obriga a natureza a render mais.
Para quê?
Para que os alimentos se amontoem nas lixeiras e os desperdícios de cozinha ou de vestuário sirvam afinal para descrever o bluff da produtividade"
Agustina Bessa-Luís, in "Dicionário Imperfeito"

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

O reservatório inesgotável ( até ver ...) !!!


Diálogo entre Colbert e Mazarino durante o reinado de Luís XIV:
• Colbert: Para encontrar dinheiro, há um momento em que enganar [o contribuinte] já não é possível.
Eu gostaria, Senhor Superintendente, que me explicasse como é que é possível continuar a gastar quando já se está endividado até ao pescoço...

• Mazarino: Se se é um simples mortal, claro está, quando se está coberto de dívidas, vai-se parar à prisão. Mas o Estado... o Estado, esse, é diferente!!! Não se pode mandar o Estado para a prisão. Então, ele continua a endividar-se... Todos os Estados o fazem!
• Colbert: Ah sim? O Senhor acha isso mesmo ? Contudo, precisamos de dinheiro. E como é que havemos de o obter se já criámos todos os impostos imagináveis?
• Mazarino: Criam-se outros.
• Colbert: Mas já não podemos lançar mais impostos sobre os pobres.
• Mazarino: Sim, é impossível.
• Colbert: E então os ricos?
• Mazarino: Os ricos também não. Eles não gastariam mais. Um rico que gasta faz viver centenas de pobres.
• Colbert: Então como havemos de fazer?
• Mazarino: Colbert! Tu pensas como um queijo, como um penico de um doente! Há uma quantidade enorme de gente entre os ricos e os pobres: os que trabalham sonhando em vir a enriquecer e temendo ficarem pobres. É a esses que devemos lançar mais impostos, cada vez mais, sempre mais! Esses, quanto mais lhes tirarmos mais eles trabalharão para compensarem o que lhes tirámos. É um reservatório inesgotável.

( in Le Diable Rouge, de Antoine Rault )

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Uma questão de (des)crença ...


" Também eu padeço da mesma descrença e se não fosse antipatriótico, pelo menos neste momento, anular desde já a influência destes politiqueiros de profissão, eu apelaria para um movimento revolucionário que teria a vantagem de extremar campos e definir individualidades. "

( Abril de 1911 : Carlos da Maia em carta a João Chagas )

domingo, 3 de outubro de 2010

A (in)Justiça ...


«A vergonha não existe na natureza.
Os animais sabem a lei: a força, a força, a força.
Quem é fraco cai e faz o que o forte quer.
A inundação, as chuvas, o mamífero mais pesado e mais rápido e o mamífero pequeno.
Os primatas, os répteis, os peixes maiores e os mais minúsculos, a cascata: já viste algum animal cair?, não há a mais breve compaixão entre os animais e a água, o mar engoliu milhares e milhares de cães desde o início do mundo.
Não há a mais breve compaixão entre a água e as plantas, entre a terra que desaba e os pequenos animais acabados de nascer.
A natureza avança com o que é forte e a cidade avança com o que é forte: qual a dúvida ?
Queres o quê?

Não há animais injustos, não sejas imbecil.
Não há inundações injustas ou desabamentos da maldade.
A injustiça não faz parte dos elementos da natureza, um cão sim, e uma árvore e a água enorme, mas a injustiça não.
Se a injustiça se fizesse organismo: coisa que pode morrer, então, sim, faria parte da natureza.»
Gonçalo M. Tavares, in “Um Homem: Klaus Klump”

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Pois ...


«Privatize-se tudo, privatize-se o mar e o céu, privatize-se a água e o ar, privatize-se a justiça e a lei, privatize-se a nuvem que passa, privatize-se o sonho, sobretudo se for diurno e de olhos abertos.
E, finalmente, para florão e remate de tanto privatizar, privatizem-se os Estados, entregue-se por uma vez a exploração deles a empresas privadas, mediante concurso internacional.
Aí se encontra a salvação do mundo...
E, já agora, privatize-se também a puta que os pariu a todos».

José Saramago, in «Cadernos de Lanzarote – Diário III», pág. 148

segunda-feira, 7 de junho de 2010

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Passos para um país ainda mais fracturado ...


" Diz-se por aí que o PSD tem um líder com um projecto "liberal" que não quer o Estado nos negócios.
Na realidade, Passos Coelho é mais uma prova de que o liberalismo nacional está hoje reduzido a uma ficção económica que esconde mal a verdadeira aposta política no esvaziamento e enfraquecimento do sector público, transformando-o em campo para novos negócios.

Num contexto em que aumenta a pressão parasitária dos grupos económicos cada vez mais desesperados para que se opere uma transferência massiva de recursos públicos para mãos privadas, o PSD tenta ultrapassar o PS no desvelo com que serve a nossa lumpemburguesia.

O Serviço Nacional de Saúde ou a escola pública são demasiado apetitosos para serem geridos numa lógica de bem comum e de direitos sociais. A retórica da "liberdade de escolha" disfarça mal a aposta na construção de mercados, usando o financiamento público nestas áreas. O resultado é conhecido: maior desigualdade no acesso a estes bens, balcanização da sua provisão, corrosão da ética do serviço público e maiores custos de monitorização. (...) "

Por : João Rodrigues, in Jornal "I" / ( Ler mais ...)

sábado, 3 de abril de 2010

Uma questão de oportunidade ...


«Se retirássemos ao judaísmo os seus profetas e ao cristianismo todos os acrescentos posteriores aos ensinamentos de Cristo, em especial os do clero, ficaríamos com uma doutrina capaz de curar todo o mal da humanidade.
É dever de todo o homem de boa vontade lutar, no seu pequeno raio de acção e na medida em que lhe for possível, para que esses ensinamentos de tão grande humanidade se convertam numa força viva. Se ele lograr que os seus honestos esforços nesse sentido não sejam esmagados sob os pés dos seus contemporâneos, poderá considerar-se um homem afortunado e afortunada a comunidade em que está inserido.»
Albert Einstein, in «Como Vejo a Ciência a Religião e o Mundo»

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Uma questão de memória …


«Um dia, aproximadamente por esta mesma época, fui de excursionista a Mafra.
Tinha nascido na Azinhaga, vivia em Lisboa, e agora, quem sabe se por um cúmplice aceno dos fados, uma piscadela de olhos que então ninguém podia poderia decifrar, levavam-me a conhecer o lugar onde, mais de cinquenta anos depois, se decidiria, de maneira definitiva, o meu futuro como escritor.
(…) Dessa breve viagem (não entrámos no convento, apenas visitámos a basílica) não guardo a mais viva lembrança que a de uma estátua de S. Bartolomeu colocada, e aí continua, na segunda capela ao lado esquerdo de quem entra, a que chamam, creio, em linguagem litúrgica, o lado do Evangelho.
Andando eu, pela minha pouca idade, tão falto de informação sobre o mundo das estátuas e sendo a luz que havia na capela tão escassa, o mais provável seria que não me tivesse apercebido de que o desgraçado do Bartolomeu estava esfolado se não fosse a parlenga do guia e a eloquência complacente do seu gesto ao apontar as pregas da pele flácida (ainda que de mármore) que o pobre martirizado sustinha nas suas próprias mãos.
Um horror. No Memorial do Convento não se fala de S. Bartolomeu, mas é possível que a recordação daquele angustioso instante estivesse à espreita na minha cabeça quando, aí pelo ano de 1980 ou 1981, contemplando uma vez mais a pesada mole do palácio e as torres da basílica, disse às pessoas que me acompanhavam:
«Um dia gostaria de meter isto dentro de um romance.»
«Não juro, digo só que é possível.»

José Saramago
, in «As Pequenas Memórias»

quarta-feira, 17 de março de 2010

Uma questão de arbítrio(s) ….

" ... Um homem é dotado de livre arbítrio e de três maneiras: em primeiro lugar, era livre quando quis esta vida; agora não pode evidentemente rescindi-la, pois ele não é o que a queria outrora, excepto na medida em que completa a sua vontade de outrora, vivendo.
Em segundo lugar, é livre pelo facto de poder escolher o caminho desta vida e a maneira de o percorrer.
Em terceiro lugar, é livre pelo facto de na qualidade daquele que vier a ser de novo um dia, ter a vontade de se deixar ir custe o que custar através da vida e de chegar assim a ele próprio e isso por um caminho que pode sem dúvida escolher, mas que, em todo o caso, forma um labirinto tão complicado que toca nos menores recantos desta vida.
São esses os três aspectos do livre arbítrio que, por se oferecerem todos ao mesmo tempo formam apenas um e de tal modo que não há lugar para um arbítrio, quer seja livre ou servo."
Franz Kafka - in «Meditações»

domingo, 14 de fevereiro de 2010

O que e que nós somos ?

“ O Português é hoje um expatriado
no seu próprio país.
Somos uma nação, não uma pátria;
somos um agregado humano
sem aquela alma colectiva
que constitui uma Pátria.
Somos … Sei lá o que nós somos ?
Sabe alguém o que nós somos ?
Sabe alguém o que nós somos,
salvo o lugar por onde
um cataclismo vai passar ? “


Fernando Pessoa - “Carta a um Herói Estúpido” ( 1915)

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

(In)Tolerância ...

Um sujeito estava a colocar flores no túmulo de um parente, quando vê um chinês a colocar um prato de arroz na lápide ao lado.
Ele vira-se para o chinês e pergunta :

- Desculpe, mas o senhor acha mesmo que o seu defunto virá comer o arroz?

E o chinês responde:

- Sim, e geralmente à mesma hora que o seu vem cheirar as flores...!!!


Respeitar as opções do(s) outro(s), em quaisquer circunstâncias , é uma das maiores virtudes que um ser humano pode(rá) ter.


É que quando se pensa que se sabe todas as respostas, vem a Vida e muda todas as perguntas ...

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Os tempos que correm ...

«Convencidos da vida há-os, afinal, por toda a parte, em todos (e por todos) os meios.
Eles estão convictos da sua excelência, da excelência das suas obras e manobras (as obras justificam as manobras), de que podem ser, se ainda não são, os melhores, os mais em vista.
Praticam, uns com os outros, nada de genuinamente indecente: apenas um espelhismo lisonjeador.
Além de espectadores, o convencido precisa de irmãos-em-convencimento. Isolado, através de quem poderia continuar a convencer-se, a propagar-se?
(…) No corre-que-corre, o convencido da vida não é um vaidoso à toa.
Ele é o vaidoso que quer extrair da sua vaidade, que nunca é gratuita, todo o rendimento possível.
Nos negócios, na política, no jornalismo, nas letras, nas artes.
Para quem o sabe observar, para quem tem a pachorra de lhe seguir a trajectória, o convencido da vida farta-se de cometer «gaffes».
Não importa: o caminho é em frente e para cima.
A pior das «gaffes», além daquelas, apenas formais, que decorrem da sua ignorância de certos sinais ou etiquetas de casta, de classe, e que o inculcam como um arrivista, um «parvenu», a pior das «gaffes» é o convencido da vida julgar-se mais hábil manobrador do que qualquer outro.
Daí que não seja tão raro como isso ver um convencido da vida fazer plof e descer, liquidado, para as profundas.
Se tiver raça, pôr-se-á, imediatamente, a «refaire surface».
Cá chegado, ei-lo a retomar, metamorfoseado ou não, o seu propósito de se convencer da vida – da sua, claro – para de novo ser, com toda a plenitude, o convencido da vida que, afinal… sempre foi.»
Alexandre O’Neill, in «Uma Coisa em Forma de Assim»

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

A (des)propósito ...

“…Trocadas as descomposturas preliminares, sobre a questão da fazenda,decide-se que é indispensável, ainda mais uma vez, recorrer ao crédito, e faz-se novo empréstimo.
No dia seguinte averigua-se, por cálculos cheios de engenho aritmético que para pagar os encargos do empréstimo do ano anterior não há outro remédio senão recorrer ainda maisuma vez ao país e cria-se um novo imposto.
Fazem-se empréstimos para suprir o imposto, criam-se impostos para pagar os empréstimos, tornam-se a fazer empréstimos para atalhar os desvios do imposto para o pagamento dos juros, e neste interessante círculo vicioso, mas ingénuo, o deficit - por uma estranha birra, admissível num ser teimoso, mas inexplicável num mero saldo negativo, em uma não-existência - aumenta sempre através das contribuições intermitentes com que se destinam a extingui-lo, já o empréstimo contraído, já o imposto cobrado…
Pela parte que lhe respeita, o país espera.
O quê?
O momento em que pela boa razão de não haver mais coisa que se colecte, porque está colectado tudo, deixe de haver quem empreste por não haver mais quem pague."
Ramalho Ortigão, in Farpas ( em : 1882)

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

A propósito de/do carácter …

“ O carácter é constituído por um agregado de elementos afectivos aos quais se sobrepõem, mesclando-se muito pouco a eles, alguns elementos intelectuais. São sempre os primeiros que dão ao indivíduo a sua verdadeira personalidade. Sendo numerosos os elementos afectivos, a sua associação formará variados elementos: activos, contemplativos apáticos, sensitivos, etc. Cada um deles actuará diferentemente sob a acção dos mesmos excitantes.Os agregados constitutivos do carácter podem ser fortemente ou, ao contrário, fracamente cimentados. Aos agregados sólidos correspondem as individualidades fortes, que se mantêm não obstante as variações de meio e de circunstâncias. Aos agregados mal cimentados correspondem as mentalidades moles, incertas e mutáveis. Elas modificar-se-iam a cada instante sob as influências mais insignificantes se certas necessidades da vida quotidiana não as orientassem, como as margens de um rio canalizam o seu curso.Por mais estável que seja o carácter, permanece sempre ligado, no entanto, ao estado dos nossos órgãos. Uma nevralgia, um reumatismo, uma perturbação intestinal, transformam o júbilo em melancolia, a bondade em maldade, a vontade em indolência. Napoleão, doente em Warteloo, já não era Napoleão. César, dispéptico, não teria, sem dúvida, transposto o Rubicon.”
Gustave Le Bon - «As Opiniões e as Crenças»