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terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

O Estado de Israel é viável?

Recente número da revista Visão, em plena campanha militar israelita em Gaza, inseria dois artigos a propósito da permanente crise judaico-palestiniana, tentando descortinar o futuro da região de maior incerteza do Mundo. A interrogação que, curiosamente, ambos colocavam no título, levanta uma dúvida comum e prenuncia um destino idêntico – ‘Requiem por Israel?’, de Boaventura Sousa Santos e ‘Israel pode sobreviver?’, de Tim Mcgirk, transcrito da revista ‘TIME’ – que, de algum modo, encerram o dilema com que o Estado de Israel, a potência dominante e que mais tem a perder com qualquer alteração ao ‘status quo’, se encontra confrontado. Mais que as raízes históricas deste interminável conflito, ambos visam perspectivar o futuro, abordando cada um deles um dos dois factores que, conjugados, mais podem influenciar o destino da região.

Em primeiro lugar, o factor demográfico, apresentado no artigo da TIME, revela que a principal ameaça ao poder de Israel se encontra dentro das suas próprias fronteiras e contra a qual o poderio militar de que dá provas hoje, tenderá a tornar-se inútil amanhã: é que a actual correlação demográfica entre judeus e palestinianos naquele espaço geográfico, por enquanto favorável aos primeiros, depressa irá inverter-se. Dada a taxa de natalidade, os palestinianos em breve tornar-se-ão numa maioria clara, pronta a ameaçar, pela via democrática do voto, o absurdo estatuto confessional do Estado judaico!

A este deve acrescentar-se o que pode designar-se por factor ético, que decorre da crescente pressão das opiniões públicas mundiais pela aplicação dos códigos democráticos à situação da região, sobretudo confrontando-a com:
– a aberração que constitui, hoje, a sobrevivência de um Estado confessional, equiparável ao ‘virtual’ Vaticano ou ao tão vituperado (e bastas vezes ameaçado) regime iraniano e, na prática, impossível de garantir, a prazo, a sua perenidade, face ao incontestado critério universal de “um homem um voto” ;
– a cada vez mais insustentável lógica da construção do Grande Israel, que este tem vindo a desenvolver, mas cuja concretização se encontra dependente de um intolerável extermínio dos palestinianos – como referido no artigo de Boaventura Sousa Santos, na Visão!

Ora, já aqui o referi antes, a situação actual na região apresenta-se constituída por um Estado – Israel – e um conjunto de 'Bantustões' – o território supostamente destinado à implantação do Estado da Palestina, resultado da permissividade, complacência, senão mesmo incentivo, à instalação nele dos colonatos judaicos. A mera configuração geográfica que este processo adquiriu apresenta-se de tal modo complexa e confusa, que torna praticamente impossível a solução (até agora aposta dominante na desacreditada diplomacia internacional, assente na existência de dois Estados independentes). Mas mesmo que tal fosse possível – implicando a praticamente inviável retirada de Israel para as fronteiras de 1967 – permaneceria sempre a exigência de, mais tarde ou mais cedo, deixar de fazer sentido a manutenção de um Estado de base confessional!

Ainda que seja arriscado aplicar a lógica à História para delinear prováveis cenários futuros, certamente que ela nos autoriza a utilizar as principais tendências que nela se cruzam para, pelo menos, esboçar os contornos desses cenários. E é por isso que, na sequência do que ficou dito e do que cada vez mais observadores independentes parecem aduzir, que me permito concluir (repetindo o que já afirmei em anterior comentário sobre o assunto) que “o desenvolvimento lógico da situação actual só pode descambar na inviabilidade do próprio Estado de Israel – e do da Palestina também, mas isso já hoje se verifica”.

Ou, de forma pragmática, como o articulista da TIME interrogava: “Como ganhar uma guerra quando o outro lado acredita que o tempo está do seu lado?

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Ilusões e realidades

Nunca como desta vez as expectativas na eleição de um Presidente norte-americano foram colocadas tão alto, nunca a esperança na mudança foi levada tão a sério. Mudança à medida de cada um, o que obviamente dá muitos milhões de ‘mudanças’, ainda assim... mudança!

A escolha de Obama pareceu, em determinado momento, olhando os rostos inebriados de milhares dos seus apoiantes ao longo da campanha, com a crise financeira em fundo já ameaçando transformar-se em crise global, prenunciar alterações muito para além do expectável ou do trivial desfecho das eleições americanas. A avaliar pela constituição já conhecida da nova Administração, contudo, composta essencialmente por figuras comprometidas com a situação – tanto no domínio da ‘guerra’, como no da ‘economia’ – algumas transitando mesmo da ainda em exercício, a única mudança mesmo, até agora, confina-se à substituição de Bush por Obama. Dir-se-á já não ser pequena mudança, tal o descrédito da criatura, pelo menos passou a respirar-se melhor!

Não obstante a prudência com que os mais avisados desde sempre olharam para a vertiginosa ascensão deste fenómeno (apesar de potenciado pelo germinar de uma crise que ameaça convulsionar o mundo), ninguém arriscaria a que, perante tais desafios e tamanhas expectativas, se seguisse a apresentação na ‘passerelle’ dos figurões de sempre. Seguramente não terá sido essa a motivação que levou a esmagadora maioria dos votantes a optar pela mudança,... como clamava o slogan da campanha, em tom bem afirmativo. De tal modo que até os neoliberais, depois de um momento de alguma desorientação senão mesmo pânico, fustigados por dupla vergastada ideológica – económica pela crise dos mercados, política pela derrota de Bush (mais que McCain) – começam agora a respirar de alívio: “Vêem, vêem! Mais que uma vitória de Obama, tratou-se antes de uma vitória da democracia americana!”

Mas quando é que “esta” democracia americana alguma vez esteve em risco? O que certamente está em risco (se é que alguma vez foi equacionada...) é a oportunidade única criada por esta avalanche inédita de vontades congregadas no sentido de uma mudança um pouco mais ousada, um pouco ao jeito, vá lá, da tentada pelo New Deal, por Roosevelt.

A preocupação pela continuidade – essencialmente para não assustar os ‘mercados’ (sempre os mercados!), que, por estes dias têm andado muito agitados! – sobreleva todas as restantes. Os comentadores já se entretêm em tentar antecipar o que vai mudar (“alguma mudança é inevitável para que tudo fique na mesma”), mas o entusiasmo numa qualquer outra modificação mais profunda arrefeceu, já ninguém arrisca mais que pequenas alterações de cosmética, para além das, claro, autênticas aberrações (Guantánamo, é o mínimo).

Enfim, apesar do começo não ser auspicioso, aguardemos. Mais uma vez terá de ser a realidade a impor-se à vontade. À teia de vontades tecida por interesses feridos. E esse é mesmo o maior risco.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

A propósito de uma vitória há muito desejada

Ao contrário provavelmente da maioria, a vitória de Obama nas presidenciais americanas não me suscita, para já, especial entusiasmo. De certo modo, reajo como os mercados bolsistas: já tinha ‘descontado’, há muito, o principal efeito positivo desta eleição (fosse qual fosse o vencedor...), o aguardado e inevitável afastamento de Bush e do bando mais ‘negro’ (no sentido de nefasto, claro) da história recente dos EUA (com Reagan ainda não eram bem conhecidos, na sua totalidade, os efeitos das políticas que protagonizou!).

Agora é tempo de ‘cobrar’ do candidato eleito, pelo menos algumas das mais emblemáticas promessas eleitorais feitas ao longo da campanha: nos domínios da guerra imperial, dos direitos humanos a nível interno, da aceitação de um mundo multipolar, do consequente multilateralismo nas relações internacionais, da protecção do ambiente, da reorganização do modelo social norte-americano e, em especial, do seu sistema de saúde,...

Mas aqui desconfio que nos estão reservadas algumas surpresas. Seguramente nem todas agradáveis. Mas vamos esperar para ver...

As expectativas criadas por esta eleição, dentro e fora de portas, foram – estão a ser – enormes. O momento não podia ser mais propício à mudança anunciada. Que tem na longa experiência comunitária na resolução de dificuldades sociais do presidente agora eleito, um trunfo que pode vir a revelar-se decisivo. Para já, seguro, seguro, ‘apenas’ o inegável efeito positivo – de influência essencialmente psicológica mas que pode vir a revelar-se decisivo para o futuro – que traduz o facto de um negro ter ascendido à liderança do supremo sistema de poder do mundo. O que não é coisa pouca!

domingo, 28 de setembro de 2008

O debate e a realidade

Primeiro o debate estava programado, havia ficado aprazado para 26 de Setembro, mas a pretexto da crise – financeira, dizem eles – ou melhor, da necessidade de se encontrar uma solução para a mesma, com dificuldades de última hora, levou um dos candidatos a pedir o seu adiamento. O outro recusou, precisamente com o argumento de que agora, em plena crise, é que ele mais se justificava.

O debate acabou mesmo por acontecer, no final os analistas apontavam para um empate técnico, o que significa que nenhum dos oponentes conseguiu sobressair, ultrapassar as expectativas criadas em torno da sua prestação, ou apresentar-se suficientemente distante do outro pela excelência das propostas apresentadas. Pelo que me foi dado perceber do que ouvi (directamente dos dois envolvidos e dos posteriores comentários dos analistas) estiveram bem um para o outro!

O que significa também que não há que ter grandes ilusões sobre o desfecho destas eleições americanas. É certo que não é totalmente indiferente ganhar qualquer um deles. Uma eventual vitória de Obama poderá vir a representar uma mudança, mais ou menos pronunciada – o futuro se encarregará de esclarecer a sua profundidade – na inclinação actual da política norte-americana, que o mesmo é dizer, mundial. Mas, no essencial, ambos estão de acordo – sobretudo após a eclosão da crise, para a qual ambos respondem praticamente da mesma maneira (diferenças de ritmo ou de pormenores não alteram a natureza da resposta). Acrescentaria mesmo que o essencial, expectável nestas eleições, já foi conseguido: afastar Bush e os fundamentalistas que governaram a América – e o Mundo – nestes últimos 8 anos! O que de forma alguma é de somenos importância.

É que o essencial, é bom ter isso presente, acontece fora destes debates – por mais interessantes que o possam ser! É a realidade da crise – chamam-lhe financeira, eu digo global – que irá acabar por impor-se aos argumentos esgrimidos. É a virulência de um sistema em decomposição – bem expressa na miséria que atinge mais de 80% (!!!) da Humanidade e no persistente aumento das desigualdades, na contínua degradação do ambiente e na lenta agonia da Terra,...! – que ameaça arrastar-nos, a todos, para uma situação que dificilmente cabe na civilizada ‘conversa’ dos dois candidatos à chefia do Império. A que ambos não sabem dar resposta, porque ambos se encontram assumidamente comprometidos com os princípios e os valores que determinaram essas realidades – os mesmos princípios e valores, afinal, que estiveram na origem desta crise.

Mas, como sempre e em última análise, será a realidade, mais que qualquer programa, campanha ou debate, a ditar o futuro dos dois candidatos – e da crise também!

terça-feira, 16 de setembro de 2008

A Bolívia diz não a um novo ‘Chile’; a América Latina faz frente aos EUA

O dia de ontem, segunda-feira, 15 de Setembro, foi particularmente profícuo no que parece poder vir a ser o início de uma nova era na América do Sul. Quando tudo fazia prever – pelo menos assim nos era ‘transmitido’ pelos nossos pressurosos meios de comunicação, mais atentos aos humores do público (as audiências, pois então!), do que à sua missão de informar com um mínimo de isenção – quando, repito, tudo se encaminhava para um muito desigual braço de ferro entre o minúsculo anão Bolívia e o colossal mastodonte EUA (aquele contando apenas com o declarado e, para muitos quixotesco, apoio da Venezuela), eis que de repente se ergue um Continente inteiro a afirmar uma posição que pode vir a ser histórica.

Após intensa acção diplomática desenvolvida ao longo do dia, três organizações regionais, cobrindo a totalidade da América Latina, México incluído, decidem declarar apoio unânime à Bolívia democrática, no que só pode ser considerado um claro e sintomático desafio ao todo poderoso vizinho do Norte. De uma penada, num só dia, Comunidade Andina, Grupo do Rio (que reúne 22 países da América Latina e Caraíbas) e Unasur (União das Nações Sul-Americanas), estilhaçaram os esforços do ‘Império’ em manterem sob seu controle, económico e político, esta região imensa (em dimensão e dificuldades), ao não terem dúvidas em manifestar apoio incondicional a um dos seus, por sinal o mais débil de entre eles (o mais baixo PIB per capita, em dólares PPC, da região). Ao afirmarem, sem equívocos, o princípio da integridade territorial (que os insurrectos ameaçavam pôr em causa), salientando a legitimidade acrescida do Presidente Morales após o referendo de 10 de Agosto último, emitiram um sério aviso e estabeleceram barreiras a todos os aventureirismos, internos e externos.

Parecem assim criadas agora melhores condições para a pacificação interna de uma Nação que apenas pretende o direito à sua própria autonomia, sem interferências abusivas, de dentro ou de fora, nas decisões tomadas pelos órgãos legitimamente eleitos em prol de uma política de desenvolvimento inclusiva (no propósito expresso de abranger populações extremamente carenciadas) e uma mais equitativa distribuição das riquezas do Pais – afinal a grande fonte de discórdia que esteve na origem desta crise.

No rescaldo da mesma (faço votos para que já o seja), emerge então essa alteração qualitativa na correlação de forças presente no Continente, em benefício de uma maior autonomia regional. Ignoro se é a primeira vez que se consegue unanimidade numa posição regional contra as posições expressas dos EUA, mas é-o seguramente na amplitude das organizações intervenientes – e isso só pode ter uma leitura que deve ser particularmente saudada: a América Latina está diferente, o Mundo está a mudar – e só pode ser para melhor!

Quanto ao resto, apetece-me apenas sublinhar a mal disfarçada ‘frustração’ de alguns meios de comunicação social por este anunciado desfecho pacífico da crise, retirando aos manipuladores do costume os ingredientes com que alimentam os instintos mais primitivos da opinião pública – na busca das ditas audiências de que eles próprios se alimentam. Notória a posição da SIC (diferentes, neste caso, RTP e TVI), em que no seu canal generalista apenas insere, de raspão, breve notícia sobre estas movimentações regionais e consequentes apoios à Bolívia – deixando seguramente o seu desenvolvimento para a SIC/N, acompanhados, decerto, de mui judiciosas e ‘pedagógicas’ análises (é necessário garantir a orientação ‘certa’ dos telespectadores) de comentadores da jaez dos Monjardinos, Marcelos e quejandos (como bem ilustra José M. Sousa, em comentário à minha anterior ‘posta’ sobre este assunto).

Que, acrescento eu, parasitam a informação com notório proveito pessoal e indigente benefício geral!

Outra vez o ‘Chile’?

A comparação já não é original, a muitos outros ocorreu também o paralelo, mas isso é o que menos importa. Ou então importa pela coincidência, o que reforça as preocupações. Começam a perfilar-se, na Bolívia, os fantasmas de um ‘novo Chile’ ao tempo de Allende, com as oligarquias, tal como então – e tal como então, com o despudorado apoio ianque –empenhadas em não perderem privilégios, mesmo que isso implique afrontar o Estado democrático. O confronto pode mesmo vir a assumir a forma de guerra civil, para onde os ditos oligarcas não se importarão de arrastar todo um povo se vislumbrarem que passa por aí a defesa dos seus interesses particulares.

Atenho-me, por enquanto, a constatar apenas as reacções tíbias dos meios políticos e mediáticos ditos democráticos deste Ocidente inebriado (ou anestesiado) pelas delícias da sociedade de consumo (que é, como se sabe, o produto da fórmula milagrosa ‘democracia + mercado’) e limito-me a destacar um pormenor semântico: até agora em nenhum desses meios eu vi classificar os acontecimentos daquilo que eles representam na realidade – uma insurreição aberta contra o Estado democrático – e os seus promotores e cabecilhas tratados como realmente merecem – criminosos e fora da lei.

Tivesse ela origem oposta, de reivindicações que fossem por melhores condições de vida de populações carenciadas dos bens mais elementares e o coro mediático acorreria a clamar contra a desordem e as instituições democráticas em perigo, a vozearia das chancelarias e da diplomacia erguer-se-ia contra os seus impulsionadores, porventura até apodados de perigosos terroristas. E nem será necessário invocar o Bush e respectiva pandilha como únicos possíveis fautores de tais dislates...

A contrabalançar a pusilanimidade (ou cumplicidade?) dessas reacções assépticas e apesar do destempero de alguma linguagem, a posição indignada, mas firme e clara, de Hugo Chavez. Mas será ela suficiente?

sábado, 13 de setembro de 2008

A ‘lasca’

Não consigo evitá-lo, foge-me mesmo o pé para o chinelo, para a brejeirice. Que me perdoem o trocadilho fácil e, pior ainda, a ‘rasquice’ baixa (a pior das ‘rasquices’) a que recorro para aqui trazer a candidata à vice-presidência dos EUA pelo Partido Republicano. Escolhida, não tenho dúvidas, para cavalgar a onda de popularidade gerada em torno da ‘outra’ candidata mulher, a Hillary Clinton. Apenas, pois, por ser mulher. De quem ainda sabemos pouca coisa - o bastante, porém, para se começar a esboçar, desde já, um perfil sinistro.

Do seu passado glorioso sobra esse título magnífico de ‘Miss Alasca’ (um honroso 2º lugar, ainda assim o suficiente para fazer jus ao cabeçalho desta crónica rasca!), porventura a melhor credencial para ter sido eleita pelos ‘barões’ republicanos (não, não é uma contradição, estes republicanos aspiram todos ao genuíno baronato, o ‘made’ in Europa – no mínimo!). Para o arquétipo ser perfeito só lhe faltava mesmo ser loura (pormenor que os ditos barões facilmente relevaram, perante as restantes credenciais exibidas).

Das intervenções tidas logo após ter sido indigitada para o cargo, percebeu-se, enfim, que a senhora milita no radicalismo mais fundamentalista – enfileira convicta e galhardamente, por exemplo, ao lado daqueles abencerragens creacionistas que acreditam piamente descender (todos em linha directa, acrescento eu, pois nem pode ser de outro modo) de Adão e Eva, esses mesmo, os míticos personagens bíblicos – e, suprema caução das virtudes mais retrógradas, sendo mulher pouco deve perceber de política, ou seja, é incompetente bastante para um cargo que pertence por direito (divino?) aos homens, é, em suma, a flor na lapela do ‘verdadeiro’ candidato (convenhamos que nem o McCain merecia isto!). Dois predicados de peso, portanto, e que, a juntar ao obtido no referido concurso de beleza, se demonstram essenciais para impressionar o eleitor americano médio, na sua versão mais integrista uma aparentemente discrepante mescla de machista e misógeno. Já quanto às eleitoras, será sociologicamente muito interessante ver qual vai ser a sua reacção...

Pois a ‘lasca’ – perdão, a Palin – deu uma entrevista (a exposição mediática é um dos saudáveis problemas das democracias, mesmo as mais controladas) onde, a propósito do conflito do Cáucaso, não teve rebuços em admitir – a isso foi ‘empurrada’ pelo entrevistador, que se limitou a seguir a lógica dos princípios que, com tanta prosápia e falta de senso, a entrevistada expendia – a possibilidade de os EUA virem a declarar guerra à Rússia... se a Geórgia, entretanto por si incentivada a aderir à NATO, solicitasse o apoio aliado.

A ligeireza com que esta ‘dona de casa’ – apropriado epíteto que tomo de empréstimo a Mário Soares, quando este, há uns anos (então de forma infeliz, diga-se), brindou a sua concorrente à Presidência do Parlamento Europeu com tal ‘mimo’ – decide da guerra, em nome do Mundo inteiro, é deveras arrepiante. Este autêntico pechisbeque da política, ou está a armar-se (ao pingarelho, por enquanto), ou é completamente inconsciente (perante os predicados anunciados é o mais provável) ou então é redondamente parva (indo à etimologia da palavra, claro) – e ponto!

Num mundo cada vez mais dominado por loucos perigosos, só cá faltava mesmo esta paródia da ‘dama de ferro’!

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

A propósito do TPI e de uma extradição

Por estes dias, um dos temas que mais tem dominado a cena internacional e, por arrasto, a comunicação social, é a prisão do líder sérvio Radovan Karadzic e a sua já consumada extradição para o TPI da ONU, em Haia – epílogo de um processo, diga-se, em que EUA e Alemanha repartem o grosso das responsabilidades por tudo o que de trágico lhe antecedeu. Produto da crescente consciência mundial de que não podem passar impunes crimes cometidos ao abrigo do poder político (‘ocupado’ seja por que método for), o TPI tem a sua principal fraqueza na auto-exclusão, entre outros, dos três principais ‘produtores de criminosos internacionais’ (na expressão de Fernando Rosas): EUA, China e Rússia.

Dou então comigo a elaborar no seguinte exercício especulativo: do que se sabe das acções políticas de Bush e Chavez, por um lado, e perante o que veicula a comunicação social sobre ambos, por outro, qual dos dois a opinião pública se apressaria a fazer seguir o mesmo caminho?
De acordo com os dados objectivos actuais, sem dúvida que o único que reúne matéria para um longo cadastro e pode vir a ser incriminado é o Bush (‘dossier’ Iraque). Contudo, a avaliar pelos cânones que regem a maioria dos comentadores políticos, Bush apresenta-se ao mundo como democrata impoluto, ao contrário de Chavez que não passa de um execrando populista, proto-ditador (?), que até Sua Alteza Real de Espanha aproveitou para meter na ordem, com aquele célebre (e acrescento eu, destemperado) ‘porque no te callas’.
Mas o facto de Chavez não apresentar cadastro garante-lhe, só por isso, autenticidade democrática? Claro que não, nem essa etiqueta, pelos vistos, a avaliar por Bush, é suficiente para avalizar toda e qualquer conduta.

Limito-me, pois, a registar a facilidade com que a opinião publicada (a que mais contribui para formar a opinião pública) se apressa a desprezar factos reais de gravidade criminal e a ilibar criminosos de guerra à luz dos princípios do direito internacional, a coberto do manto diáfano dos formalismos democráticos. No caso do Bush sabe-se, ainda por cima, que ascendeu ao poder de forma no mínimo dúbia dadas as condições pouco claras com que tais créditos foram obtidos: o papel nebuloso do irmão Jeff, Governador da Flórida; as trapalhadas com os cartões perfurados (!!!) na contagem dos votos; a sempre parcial constituição do Supremo; os menos 500 mil votos arrecadados que o seu adversário, a nível nacional,...

Estranhos critérios democráticos, estes! Os dos EUA (por maiores méritos que estes tenham – e têm-nos) e os dos analistas a ele enfeudados!

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Ainda a propósito da entrevista de Soares a Chavez – (2)

A mensagem por trás da caricatura
Na entrevista de Soares a Chavez, sobram motivos de interesse para uma reflexão mais cuidada, a partir tanto do discurso nela veiculado como de tudo o que a envolve, muito para além, certamente, das tricas urdidas pelos turiferários de um pensamento único castrador, impositivo e absorvente, que contamina até parte significativa da própria esquerda, sempre pronta a enfileirar no politicamente correcto de um discurso simultaneamente anti-Bush e anti-Chavez. Porventura por não apreciar o populismo que se diz ser o caldo de cultura de que se alimenta este último, incluindo as constantes diatribes e impropérios (talvez até por este tipo de excessos) por ele lançadas ao primeiro. Sem perceber, enfim, que a pureza ideológica não ganha revoluções, pois dificilmente se coaduna com a complexidade da realidade social.

Pelo que a entrevista permite avaliar, dá para perceber que, afinal, a sua preparação ideológica, não é tão falha como algumas das caricaturas ‘trabalhadas’ que nos chegam podem fazer supor. Pelo contrário, em tom calmo e ponderado (longe, portanto, dos estereótipos criados à sua volta, alguns, valha a verdade, de sua responsabilidade), Chavez conseguiu transmitir, com firmeza e forte convicção, uma mensagem política bem esquematizada, pontuada por ideias fortes e devidamente arrumadas.
Do seu conteúdo sublinho aqui duas ideias chave, ambas entroncando, faz questão de acentuar o próprio, na tutelar matriz bolivariana de independência, onde pesam, ao mesmo nível, os inseparáveis ideais de liberdade e igualdade:
– A recusa de modelos externos na construção do socialismo: há que inventar o socialismo todos os dias e construí-lo na combinação permanente entre liberdade e igualdade, pois sem liberdade não há socialismo (na URSS – afirma – não houve socialismo), mas sem igualdade não há liberdade.
– O esforço em que se tem empenhado da integração regional sul-americana, à semelhança da Europa e de outras tentativas esboçadas em várias regiões do mundo: a forma de contrabalançar o actual poderio unipolar do Império norte-americano, passa pela constituição de uma organização multipolar do poder mundial.


A quem o acusa de ditador contrapõe a sua luta contra todas as ditaduras que nos foram sendo impostas: a ditadura do mercado, a ditadura do imperialismo, dos grandes meios de comunicação social, das grandes corporações mundiais, do pensamento único.
Populista? Talvez. Excessivo? Sem dúvida. Mas como não comungar, no essencial, destes objectivos?

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Ainda a propósito da entrevista de Soares a Chavez – (1)

A ‘cosmética’ da voz do dono
Não obstante o atraso relativamente à sua divulgação, vale bem a pena retomar aqui a entrevista de Mário Soares a Hugo Chavez, não só pelo seu próprio conteúdo, com muito por onde escolher, mas também por alguns comentários que suscitou, significativos do estado ‘canino’ – não há outro termo – a que desceu determinada comunicação social (ou os seus ‘ditos’ jornalistas), reduzida, nuns casos, de forma consciente, na maioria das vezes, admito, inconscientemente, à condição de ‘voz do dono’. Mesmo que este ‘dono’ se detecte apenas no enfeudamento acéfalo ao denominado ‘pensamento único’, forjado ao longo dos últimos trinta anos de domínio absoluto do neoliberalismo. Que foi, como se sabe, objecto de experimentação e ensaio, por parte dos ‘Chicago boys’, Friedman e C.ª, no dramático laboratório do Chile de Pinochet, de má memória.


De tal modo que, ultrapassado o sobressalto ‘Allende’, o sub-continente parecia ter entrado, definitivamente (estava-se no auge da tese do ‘Fim da História’, entretanto também já descartada), na normalidade da ‘pax americana’ sob tutela do imperial vizinho do Norte. Mas, de repente, a aparente serenidade deste equilíbrio viu-se abalada por acontecimentos que, não obstante a sua genuína origem democrática, ousaram pôr em causa essa hegemonia. Os sinos soaram a rebate logo com o Lula, no Brasil – afinal, a sua recuperação para o sistema até nem pareceu muito difícil. Mas depois veio o Chavez que, para além do discurso agressivo (por vezes mesmo, excessivo e de cultivar amizades pouco recomendáveis – a mais emblemática, com o ‘proscrito’ Fidel), decidiu utilizar o enorme potencial energético do seu país, como via para tornar a Venezuela menos dependente do ‘Império’. O mais grave, porém, é que a experiência venezuelana passou a ser produto de exportação, com as necessárias adaptações, para um crescente número de países vizinhos.

A entrevista do ‘bonacheirão’ Soares ao heterodoxo Chavez, surge, assim, como uma espécie de frete democrático a este ‘facínora’ anti-democrático, uma ‘operação de cosmética’ de acordo com a abalizada opinião do encartado jornalista Joel Neto, nome escarrapachado no DN, jornal de referência (?). Perante a manipulação da opinião pública a que tem sido sujeito o entrevistado, quem ousará duvidar do acerto desta tese, tanto mais que, em paralelo, corre essoutra da deriva esquerdista do solícito veículo que se prestou a tal frete? Soares terá mesmo começado a entrevista, imagine-se, “com uma pergunta cheia de pressupostos destinados a legitimar democraticamente o seu interlocutor”. Ora, pensava eu que o ‘homem’ tinha sido legitimado democraticamente através de sucessivas e disputadíssimas eleições e vem agora esta luminária esclarecer-me que ‘não senhor’, afinal quem o legitima são figuras sinistras como Soares e os seus nefandos pressupostos.

A menos que se trate apenas de uma questão de estilo, dado que o tom cordato do entrevistador Soares – este, de acordo com o encartado comentador, não terá feito “uma só pergunta incómoda” – de modo algum se coaduna com o estereótipo de jornalista agressivo, impertinente e presunçoso, tão em voga na comunicação social actual, tão ao gosto do espectáculo mediático nacional, tão ao jeito do pensamento único!
Pensamento único ou pensamento castrador?
Basta de pensadores castrados!

sábado, 17 de maio de 2008

Qual o prisma para ‘Olhar o mundo’?

Gesto quase mecânico, ligo o televisor, caio no meio do programa ‘Olhar o mundo’. Para quem não o saiba, trata-se de um programa que aborda temas internacionais, da actualidade semanal, socorrendo-se normalmente do apoio de um analista que é apresentado e se pretende especialista na área em análise. Coordenado e dirigido pela jornalista da RTP Márcia Rodrigues, exemplo acabado do mais enfeudado e rastejante seguidismo ao pensamento único liberal, a garantia de objectividade e isenção no tratamento dos temas, sejam eles quais forem, encontra-se desde logo seriamente comprometida. Sob a capa de uma aparente objectividade que a profusa quantidade de informação utilizada pretende tornar consistente e credível, os dados são trabalhados por forma a ilustrar as teses doutrinárias dos promotores do programa.

Por inconsciente incompetência, porventura (?) arrebatado proselitismo ou até ausência de escrúpulos (na aceitação da tarefa), o certo é que esta senhora, e o ‘seu’ programa, se prestam ao desempenho de uma tarefa que evidencia propósitos bem definidos – alicerçar na opinião pública a ideia de que esta globalização não tem alternativa – a partir de alvos criteriosamente seleccionados e devidamente trabalhados todas as semanas: construção europeia, terrorismo, esquerda,...
Desta feita o tema versava o ascenso das esquerdas na América Latina. A partir, uma vez mais, dessa perigosa ameaça esquerdista que é o Hugo Chavez e da sua presumida pretensão hegemónica de a liderar. Para coadjuvar a coordenadora nos comentários a propósito, e tendo como peça jornalística excertos de uma entrevista concedida por Chavez a Mário Soares (desconheço se já divulgada na íntegra), nada melhor, pois, que um especialista na matéria. Quem? Jaime Nogueira Pinto, nem mais, o assumido salazarento defensor de Salazar naquele bafiento e originalíssimo programa das celebridades nacionais.

Não admira, pois, que os epítetos mais utilizados fossem os ‘propósitos hegemónicos’ (de Chavez, claro), populismo, demagogia,... Exemplo acabado, apesar do matiz nacionalista do convidado, do discurso com que o tal pensamento único liberal pretende descredibilizar esta tentativa (apenas mais uma?) de tornar as decisões sobre esta parte do Globo um pouco menos dependentes dos interesses dos seus poderosos vizinhos do Norte. Com excessos, contradições e também algumas ingenuidades.