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quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Bestas de carga e bestas quadradas



O polido Sr. Ulrich, banqueiro com pergaminhos e nome na praça, decidiu chamar aos portugueses ‘bestas de carga’. Não exactamente nestes termos, claro, afinal trata-se de pessoa de trato fino e verbo cuidado, obrigado por formação, posição e porventura até ascendência (o nome estrangeirado assim o faz supor) a tornear as intenções, a metaforizar as ofensas. O que ele disse mesmo foi, interrogando-se sobre se o País aguenta ainda mais cargas de austeridade – ‘Ai aguenta, aguenta’, ter-se-á expressado deste modo – o que, traduzido em português vernáculo e vertido para as pessoas, dá exactamente aquela expressão. Mas se os portugueses são tratados como ‘bestas de carga’, na opinião firme e abalizada do impoluto (?) banqueiro, então ele assume-se, na mesma linguagem vernácula e chã, não como vulgar ‘besta de carga’ (pois não suporta ‘carga’ nenhuma e a dos restantes portugueses não lhe pesa cheta), mas como rotunda ‘besta quadrada’! Recorro ao exemplo dos Yurok para explicar o ‘quadrado’.

Os Yurok eram (como estudado por etnólogos vai para mais de meio século!) um povo primitivo, que habitava nas margens do rio Klamath, algures na América (Califórnia do Norte). Toda a vida material e social deste povo se encontrava imbricada e dependente do rio, a ponto de a sua própria percepção geométrica do mundo ser influenciada pela morfologia física envolvente desse rio, de configuração cilíndrica por força da densa vegetação que cobria as suas margens e se prolongava por todo o leito do mesmo, formando um arco compacto. E assim, ao contrário da habitual visão tridimensional, aquela gente, com uma visão muito fechada do universo, desenvolveu uma concepção da realidade na base de uma estrutura... tubular! A nossa herança euclidiana reage à descrição, é certo, mas para quem se habituou a aceitar como natural a diferença, fará o esforço de compreender que existem culturas onde o próprio espaço físico é percebido de modos diferentes do nosso.

A etnologia, bem como as disciplinas afins da antropologia, da sociologia, da psicologia, são áreas a que o ilustre banqueiro pouco ou nenhum crédito dará. Os seus créditos são apenas de carácter financeiro, quando muito socorrer-se-á da economia – daquela ‘teoria económica’ tão científica, tão isenta, tão exacta que até pede meças à que é vista como a mais exacta das ciências, a matemática (longe, portanto, da denominada ‘economia política’ ou da perversa tendência de a integrar nas denominadas ciências sociais, também ditas ‘ocultas’) – para melhor poder argumentar em favor das suas teses. Vive assim fechado, também ele, num mundo à parte (só dele e de mais uns quantos exclusivistas), ostensivamente ignorando a realidade que o(s) rodeia, arrogantemente acreditando que todo o mundo pensa, vive e sente como ele(s), parasitando, afinal, as vidas dos que desprezam.

A imagem que me ocorre, então, é a daqueles funcionários chineses obrigados a fazer testes de aptidão para a polícia com a cabeça enfiada numa caixa de forma cúbica – para não poderem copiar, para melhor se concentrarem no exercício..., pouco importa aqui o motivo, apenas retenho o episódio para melhor ilustrar a posição do estimado Sr. Ulrich, que assim se vê ‘obrigado’ a olhar em frente, sem se ‘distrair’ com os dramas à sua volta, a sua visão lateral ‘limitada’ aos interesses financeiros de um lado e à teoria económica do outro (longe da ‘economia política’, claro, vade retro).

Eis, pois, a razão de, com toda a propriedade e sem risco de tal vir a considerar-se ofensivo, se dever chamar ao refinado banqueiro Sr. Ulrich ‘besta quadrada’. Ao ter classificado os portugueses, naquele jeito ao mesmo tempo peremptório e manso, de ‘bestas de carga’, sendo ele – até ver! – português, mas sem canga nem carga, de besta não se livra, o resto do epíteto advém-lhe da sua visão fechada nessa espécie de caixa cúbica onde, para proveito próprio, enterrou a cabeça e que o obriga, à semelhança da visão tubular dos Yurok, a manifestar um pensamento limitado – no caso, ‘quadrado’!

E, já agora, profundamente ofensivo para os portugueses que lhe merecem tanto desprezo. Pois até a aceitação da diferença tem limites. Fraco consolo, é certo, para tão ruim defunto!

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Nunca como agora... I

Economistas com peito!

De há muito que temos vindo a assistir a uma pantomina em três actos, produzida e montada pelo centro do capitalismo, bem orquestrada e difundida por uma subserviente comunicação social: (1) à imposição da ‘crença’ no misterioso poder dos ‘mercados’, (2) segue-se a obrigação de fazer o que eles mandam, (3) sob pena das mais terríveis pragas e castigos. Processo de mentalização praticamente concluído, já pouca gente o contesta, tão martelados temos sido pelos especialistas e comentadores do costume. A sequela já em curso dita que, para solver as enormes dívidas provocadas pela recente salvação do sistema da sua eminente derrocada e equilibrar as contas públicas, a solução é... mais mercado! Com os inevitáveis cortes no bem estar da maioria.

Nunca como agora se assistiu a tão vergonhosa montagem de uma operação mediática destinada a impor esta monstruosidade, pelo entendimento de se tratar de uma inevitabilidade sem alternativa!!! Papel essencial, neste processo, desempenham os chamados e auto-proclamados economistas de todos os feitios, espécie de alquimistas da era moderna na arte manhosa de transformarem tostões em milhões, ideologia em ciência – com os resultados conhecidos!

Não obstante a responsabilidade objectiva que deve ser assacada aos teóricos do modelo económico liberal/desregulador pela presente crise (pese embora a desonestidade criativa de alguns se afadigue em tentar justificar o contrário), o certo é que, passado o susto inicial e recompostas as abaladas finanças privadas (em especial nos sistemas bancários) à custa dos recursos públicos, o clima político parece cada vez mais de feição à retomada e consolidação do poder que se acoberta por trás da entidade difusa e anónima que todos tratam, reverencialmente, por ‘os mercados’!!! Todos, afinal, vergados ao peso dessa misteriosa alquimia económica, misto de pretensa ciência e de poderes ocultos (tenebrosos e malévolos como convém à alimentação da crendice e subjugação dos ingénuos), bem explorada pelos bonzos e acólitos desta bizarra e tão propagandeada religião!

Estranho deixou de ser a invocação da qualidade de especialistas na matéria com que alguns, em tom de bravata, apostrofam quem se oponha aos seus pontos de vista. E se o exemplo vem mesmo do alto (cultivado pelo ‘economista’ Cavaco, o Presidente, que recorre, amiúde, ao argumento da autoridade na matéria), como estranhar a sua utilização por outros?

Num destes dias, irrompeu pelo écran, ameaçador, o Nogueira Leite – esse mesmo, o ‘medinacarreirista’ conselheiro económico do Coelho do PSD – com ares de pretender fulminar quem se atrevesse a opor-se-lhe, para tanto arrogando-se a sua qualidade de ‘economista’! A invocação do estatuto de especialista na matéria tem o mesmo efeito arrasador que a medieval aspersão da água benta sobre os endemoninhados, exorciza os demónios e apostrofa os hereges. O tom ameaçador não deixa dúvidas sobre a alternativa contida na mensagem: ou fazem o que eu digo, ou vem aí o FMI para vos meter na ordem!

A largura de ombros do personagem demonstra-se de grande monta na hora de fazer peito. Talvez se justifique mesmo um aviso: ‘Eh, pá, cuidado! O Nogueira Leite é economista! E tem peito!

Tem ainda o mérito de trazer à memória tiradas célebres de grande conteúdo programático e precavido escarmento: quem se mete com o PSD, leva!
.....???? Alto aí! Essa é do outro Coelho, o do PS! Enfim, qual a diferença? Ultimamente tão diferentes no discurso, mas sempre tão iguais na prática!
(...)

sexta-feira, 6 de março de 2009

Falta de vergonha!

Ainda ponderei se valia a pena perder tempo e feitio com tão reles defunto (e daí o atraso nesta nota). Certo é que a espécie estrebucha, mas continua a arrotar postas de pescada e, aqui e ali, a fazer mossas. Porque importa não esquecer que foi esta enfatuada cáfila de danados – com o seu tão decantado ‘Fim da História’ (já morto e enterrado) – que pôs o mundo de pantanas, à beira do colapso, decidi enfrentar a ‘besta’, desprovido, embora, das adequadas tonsuras e responsos.

Vem isto a propósito de um pretensioso escriba que vegeta pelas páginas do DN, apostando na provocação indiscriminada a todos quantos ousem criticar, ou tão só discordar, da teologia do mercado e da agenda liberal (terrorismo à cabeça), armado em pindérico paladino de causas esconsas – a coberto da retórica agressiva de defesa da liberdade... a defesa da liberdade que mais preza, ele e a pandilha dele, a da ‘sacrossanta propriedade privada’! Como de costume, o DN do último domingo dava guarida à jactância deste bigorrilha, sob a forma de autêntico vómito: sem vergonha nem pudor, ousa afrontar um nome tão prestigiado como o do Dr. Fernando Nobre (FN).

Já por aqui escrevi antes sobre FN, homem de grande dignidade, inquestionável integridade e reconhecido exemplo de solidariedade. Que não enjeita a participação cívica e a oportunidade de intervir politicamente, como acontece agora na qualidade de mandatário da candidatura do BE ao Parlamento Europeu. A sua actividade, exercida em cenários de alto risco, em prol de múltiplas causas humanitárias em todo o mundo, apela a uma enorme coragem física e força de carácter, a austeridade é mesmo a única forma de sobrevivência nas condições de extrema dureza das situações a que ocorre. Características que – vá-se lá saber porquê... – não agradam a alguns!

Num estilo absolutamente repugnante, ainda que de forma estrábica e canhestra, este desprezível homúnculo não se coíbe de recorrer à negação da realidade e de utilizar o insulto, para melhor impor os seus pontos de vista. Acoutado no pomposo título de sociólogo – o que, na sua perspectiva, lhe garante cobertura para toda a espécie de dislates, mas que na realidade nada diz sobre a(s) actividade(s) que exerce (???), a não ser a de enfatuado diletante – no chorrilho de impropérios a que recorre, não se sabe o que mais surpreende:
- Se a ousadia de tentar denegrir ou mesmo sonegar a acção humanitária desenvolvida pelo Dr. Fernando Nobre, depreciativamente atribuída ao ‘espírito missionário que o embala’(!) – comparativamente, afinal, com a sua reles actividade prosélita de diletante ressabiado!
- Se a pesporrência do insulto soez e despropositado a um pensamento crítico (forjado no contacto com a realidade absurda de um mundo de profundas desigualdades), assumidamente livre, coerente e independente – proferido por uma mente perturbada e sem norte após o estrepitoso desmoronar do mito neoliberal.


Mas qual o pretexto para esta sanha cruzadista? É que FN – para além do seu apoio ao Bloco – no seu ‘blog’ pessoal (‘Contra a Indiferença’) ousou questionar a lógica liberal da ‘guerra contra o terrorismo’, pondo em destaque contradições que, no mínimo, deveriam fazer pensar (ao invés de reagir de forma pavloviana) – até por serem o testemunho vivido de situações reais! – em contraste com o discurso meramente especulativo, construído à base dos mais vulgares clichés liberais, de quem se toma por iluminado (pouco importa se por Deus – como Bush! – se pela razão – como gosta de exibir a maioria deles, talvez na tentativa de exorcizarem outros fundamentalismos religiosos). Todo este fervor sectário tem a sua Meca no Ground Zero (convergência de cumplicidades nostálgicas, pretexto para inflamadas diatribes). Mas a liturgia a que se entregam não consegue esconder o objectivo desta sua fúria securitária: a defesa do livre mercado e da propriedade privada, afinal o ‘santus santorum’ do sistema!

Normalmente o ego desta canalha é descomunal, 30 anos de poder quase incontestado fizeram-nos sentir os únicos detentores da verdade, alguns pensaram mesmo ter atingido o Nirvana do pensamento. A queda política de Bush, associada à crise económica, veio apressar a sua ‘debacle’ ideológica e enterrar definitivamente a famigerada tese do ‘Fim da História’ (o seu autor, honra lhe seja, já se havia antecipado a decretar-lhe o óbito!). O estertor em que se debatem torna-os raivosos, mas já dificilmente perigosos!


Aliás, tudo o que este assanhado liberal produz tem o cunho do sectarismo mais enviesado, mas por vezes bem elucidativo. Por exemplo, noutra parte da mesma prosa, a confissão, feita a propósito dos Óscares e depois de um chorrilho de comentários a despropósito sobre os males que afectam o cinema actual (para se ‘aliviar’ das tensões que o angustiam – por todas e à cabeça, o Iraque e o aquecimento global!), de que ‘das dezenas de filmes nomeados este ano, vi(u) parte de um e fugi(u) apavorado’!!! Qual o filme? ‘Milk’, sobre o assumido homossexual americano!

Afinal, do que este homem (?) precisa mesmo é de ir ao divã. Do psiquiatra, claro.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

A tragédia (repetida) da Av. 24 de Julho

O DN de domingo passado, 11 Jan/09, dedica uma página inteira a mais uma tragédia, das que ocorrem diariamente nas grandes cidades. Desta feita o título informava que uma “Rapariga fugiu do colégio e morreu carbonizada – Incêndio em prédio devoluto causa duas mortes”.

A insensibilidade perante a repetição deste tipo de notícias, apenas foi quebrada pela informação de que a “rapariga fugiu do colégio...”, o que me induziu a procurar no texto explicação para o sucedido. O que levaria uma miúda de 15 anos a preferir dormir num prédio abandonado, sem condições, nestes dias de gelo, precário abrigo dos sem-abrigo, ao eventual maior conforto do colégio onde se encontrava internada desde os 4 anos?

Descubro as razões no relato do pai, desempregado e junto de quem procurou apoio antes de se decidir pela solução fatídica. E fiquei a saber que ‘esta rapariga’ preferia tudo, incluindo dormir na rua, a ter de regressar ao colégio, porque ‘tinha medo das colegas mais velhas’!

Talvez a história devesse começar aqui, procurando saber-se das condições sociais que determinam sempre o mesmo tipo de vítimas. Ou então, aproveitando a ‘deixa jornalística’ proporcionada pela fuga ao colégio, das condições de vida existentes em muitos internatos (e não apenas na Casa Pia); das relações estabelecidas pelos adolescentes e dos códigos que as regem; da diversidade de comportamentos anti-sociais que se verificam nas escolas (violência, agressividade, coacção, humilhação...), reveladores de problemas psicológicos ou de carências de formação cívica (tolerância, direitos e obrigações,...); da constituição de ‘gangs’ organizados... Desse fenómeno que designam por ‘bullying’ (um estrangeirismo, mais objecto de tratamento analítico do que verdadeiramente atacado nas suas origens) e das causas do alheamento ou desvalorização deste fenómeno por parte da maioria dos educadores e professores, ao atribuírem tais manifestações ao processo normal de crescimento na adolescência (parecendo assim dar razão aos que os consideram, por esta altura, mais empenhados nas lutas corporativas do que nas educativas).

Os estudos existentes colocam Portugal em 4º lugar na Europa no que respeita à violência nas escolas. Contudo, é de temer que as situações de coacção psicológica ou mesmo física que acontecem entre os jovens possam ainda ser mais numerosas e de maior gravidade do que é dado entender nesses estudos (a estatística aponta para que 1 em cada 4 alunos seja vítima sistemática de alguma forma de agressão ou violência, com tendência para aumentar em número e frequência de ocorrências).

Mas a jornalista destacada para o tratamento da notícia preferiu enveredar pelo caminho do costume e situar-se sobretudo nas condições materiais do edificado em mau estado – uma realidade já tantas vezes causticada – e zurzir na Câmara que deixa ao abandono 4600 fogos devolutos, onde se torna possível acontecerem dramas de pessoas que apenas contam como números de estatísticas usadas para os mais diversos fins – menos para aconchegar pessoas com dramas. Perdeu, é certo, a oportunidade de averiguar das causas profundas que levaram uma jovem, numa fria noite de um Janeiro frio, a encontrar melhor refúgio numa dessas casas devolutas sem condições, do que as que lhe eram proporcionadas numa instituição em que, parece, alguém se esqueceu de dar o devido valor à crescente agressividade das relações entre os jovens.

Pobres Tamaras Sofias!

sábado, 20 de dezembro de 2008

A ética DA crise ou... a ética EM crise?

Decididamente a crise veio para ficar. Por quanto tempo e quais as consequências, eis o que resta por apurar, mas certamente só lá muito mais para diante e depois de fortes estragos, de contabilidade imprevisível. Ao mesmo tempo, o debate sobre a crise parece não ter fim e é compreensível que assim seja. A dimensão dos problemas por trás da crise, apesar de há muito anunciados, aprofunda-se agora dia a dia e assusta. O que aí vem, então, ‘mete medo’, sobretudo o que se adivinha para além dos danos financeiros. Os sinais de descontentamento e mal-estar ameaçam passar da surdina à convulsão social, as tensões aumentam e começam a manifestar-se bem mais fundas e ameaçadoras do que a legitimidade dos protestos consideraria admissível.

Aliás, o receio de que tais protestos extravasem os limites e não possam ser contidos dentro da legalidade preocupa cada vez mais os governos que, depois dos muitos milhões disponibilizados para salvar o sistema financeiro do colapso anunciado, acordaram agora avançar com programas - dominados por propósitos meramente assistencialistas - de contenção dos seus efeitos sociais mais gravosos, à cabeça o desemprego, ainda assim destinando-lhes apenas escassos milhões (verbas irrisórias, de facto, na comparação com os programas de apoio à Banca!).

É certo que, aqui ou ali, timidamente, vai aflorando nos debates e comentários, essa estranha mercantilização que parece ter tomado conta da vida em todos os seus aspectos, que se infiltra nos mais pequenos gestos e atitudes, que domina até os menos susceptíveis de a tal soçobrarem. Contudo, de imediato se passa a outro tema, com receio, parece, de se ofender “Sua Ex.ª O Mercado”, o pai da criatura! Existe e é cultivada uma indisfarçável reverência pela dita criatura, pois não é impunemente que se sofre o embate, sobretudo ao longo das últimas décadas, de um intenso processo de massificação mercantil que, afinal, ‘mercantilizou’ a vida, hábitos e... consciências.

O último ‘Prós e Contras’ do ano, que ocorreu no início da semana, traduz bem a desorientação que grassa nas pessoas, mesmo as tidas como mais informadas e melhor preparadas para tentarem uma resposta. Um painel o mais diversificado possível – um bispo, um cientista, um economista, um sociólogo e um médico retirado – gira, literalmente, à volta da crise: na tentativa de a explicar, na procura de alternativas para a solucionar. Com a ética por fundo, os ilustres intervenientes consideram, de modo praticamente unânime, que na sua origem está sobretudo a perda de valores e princípios fundamentais como a sobriedade, a modéstia, o esforço, a honestidade e o respeito – substituídos pelo consumismo e o desperdício, a ambição desmedida, o lucro fácil e a habilidade (‘manhosa’, as mais das vezes) de um individualismo extremo.

O mais preocupante, porém, é que esta tão profunda e rápida inversão de valores não se afirma apenas confinada aos ‘Madoffs’ deste mundo que, com grande espanto, se têm vindo agora a descobrir, subitamente convertidos de impolutos exemplos desta elevada civilização tecnocrática em vilões da pior espécie, ela pressente-se diluída e entranhada por toda a sociedade global. Mas então qual o vírus responsável pela contaminação tão acentuada, repentina e globalizada desta violenta subversão do código de valores?

A tentativa de uma resposta acarreta sempre uma enorme frustração, pois quando se procura identificar a causa ou causas dos problemas que supostamente se conjugaram para desencadear a crise, as reacções são tíbias e vão dos que consideram caricato tal propósito (‘todos andamos à procura de um culpado’), ou, na falta de outro argumento, as atribuem à alteração das ‘circunstâncias’ (?), como afirmou Campos e Cunha.

Quando alguém ousa apontar o dedo na direcção do ‘mercado’ (o médico foi quem mais perto esteve de o fazer, ao questionar precisamente a excessiva mercantilização das nossas sociedades), de imediato é confrontado com a pergunta proibida (formulada, neste caso, pela moderadora): ‘Mas afinal está a dizer que esta crise vem pôr em causa o capitalismo?’ A resposta só podia traduzir-se no recuo da posição crítica antes assumida e na inversão da lógica que a determinava. A inquieta assembleia suspirou de alívio e retomou o debate na ignorância deste momentâneo desvio ideológico que, a prosseguir, podia representar nada menos que a queda no abismo da incerteza!
Afinal de contas, todos parecem ter muita pena dos pobrezinhos, coitados, todos pretendem esconjurar as grandes pragas actuais (ou de sempre) da Humanidade: a miséria, a fome, a guerra,... Para quê, então, contribuir para uma maior instabilidade, pondo em causa as até agora sólidas estruturas de suporte ao nosso estimado modo de vida? Para quê alarmismos inúteis – o argumento sempre esgrimido da falta de alternativas viáveis... – sobre a sua pretensa insustentabilidade?

sábado, 24 de maio de 2008

Solidariedade

Na situação actual em que se encontra o nosso País, deveria existir um sentimento generalizado de bom senso e espírito de missão.
Os portugueses ficariam extremamente sensibilizados se os exemplos começassem de cima que, como todos sabemos, é um tema já muito rebuscado e fracassado, sempre que se fala ou até se pensa em semelhante tal.
O aparelho de Estado não prescinde das suas mordomias e tal como um Pai que não oferece bons exemplos a um filho também os nossos actuais e ex-governantes não dão sinais, quanto mais os tais exemplos, de solidariedade e compreensão, por quase tudo o que de muito mau tem acontecido e continua a acontecer.
Eles dizem que se preocupam e compreendem os sacrifícios de quem tem baixos salários e baixas reformas, sem nunca usarem o termo miseráveis, porque isso afecta o intelecto, não é bom para o ego e provoca náuseas. Mas o facto é que eles, os miseráveis, aí estão, todos os dias, cada vez mais.
Não consigo perceber, à semelhança do que se passa nos países nórdicos, porque é que os nossos governantes não se deslocam para os seus locais de trabalho pelos seus próprios meios, de transportes públicos ou nas suas próprias viaturas, tendo depois à sua espera, os respectivos carros oficiais e motoristas.
Não são histórias, muitos de nós já lemos e ouvimos falar destas evidências. Isto acontece porque são diferentes, porque são melhores, porque são todos cidadãos iguais entre si, existindo a diferença sem diferenças. Não é um paradoxo, simplesmente é assim!
Não percebo como os nossos ex-Presidentes da República não prescindem, não digo de todas, mas de algumas das suas mais dispendiosas benesses pelos serviços prestados à Nação, seria uma prova de solidariedade para com os mais desfavorecidos. São exemplos deste tipo que baixam a despesa pública, a carga fiscal e moraliza todos os outros à volta. Enquanto não se verificar este raciocínio, ninguém vai a lado algum e continua tudo mal, porque estão sempre todos à espera que haja um Messias que apareça ou que se adiante. É triste a nossa sina!
Penso que desta vez o Messias só virá quando todos tomarem consciência que temos de ser, «Um por Todos e Todos por Um ».
Ainda há pouco, ouvia na televisão, o Sr. Santana Lopes opinar sobre determinadas medidas para combater a pobreza e lembrei-me que quando ele chegou à presidência da Câmara de Lisboa não se esqueceu de encomendar um automóvel de topo de gama, mas por outro lado, esqueceu-se que o dinheiro para a referida compra também era um contributo dos impostos dos pobres, sim porque, os pobres também já pagaram e pagam impostos e é exactamente por causa destas mentalidades que ainda e cada vez mais pobres, os tais pobres. O antecessor deixou um bom automóvel. Era preciso um topo de gama que custou uma fortuna? Há muitos bons patrões de grandes empresas privadas de sucesso que embora ricos não esbanjam assim tanto dinheiro. O Estado não é rico, o País tem muita gente na miséria e meus Senhores, é preciso que haja respeito por quem anda a pagar impostos. Que eu saiba não votei em nenhum referendo para a compra de um topo de gama. Será que sentiu inveja do Rolls-Royce do Herman José? Mas o Herman é rico e o dinheiro é dele, não é o nosso.
Falsos moralistas que falam, falam, mas não dizem nada, como habitual. Cortinas de fumo!
Obviamente, mudei de canal, exactamente como nos serões de domingo, do canal 1.
Quando quero ouvir falar de pobreza falo com um pobre e sinceramente começo, peço desculpa pelo termo, a ficar chateado com tanta mentira, falsos moralismos de quem e donde vêm e de tanto chico esperto.
De facto o orador é bom mas a anestesia é tão forte que pode até matar. A quantidade de açúcar nos discursos de outros oradores também pode provocar danos irreparáveis.
Enquanto não chegarem os bons e verdadeiros exemplos, enquanto pensarem que o povo anda a dormir e não vê e enquanto pensarem que tudo não passa de fumaça, acautelem-se quando as paredes dos estômagos começarem a ficar coladas, porque aí, já não vão a tempo de lições de fraternidade e solidariedade, aí vamos todos sentir quanto custam os abusos e as incompetências dos convencidos iluminados.
Como os princípios e a educação dos filhos são da competência dos Pais, também toda a máquina que governa o povo, Presidentes, Ministros, Deputados, Todos, são responsáveis e devem executar as suas missões como missionários, porque se assim não for, de outro modo, não fazem falta nenhuma, deem o lugar a gente bem intencionada, que embora pouca, ainda existe.
São bem conhecidas algumas dessas Pessoas.
Deem bons exemplos porque o Povo somos nós todos e o que precisamos desesperadamente de acreditar é que assim, e só assim, será possível acreditar num Portugal melhor e tão bom como os famosos países nórdicos de quem tanta inveja temos.
Os exemplos dados são só alguns porque há quase uma infinidade deles e mais eficientes.
É uma questão de bom senso. Só isso.