sexta-feira, 12 de junho de 2009

Uma leitura pós-eleitoral

I – A crise nas eleições europeias

Dos resultados das eleições europeias, para além das análises políticas baseadas essencialmente na geometria partidária, sobressai uma conclusão deveras inquietante: a vitória dos partidos conservadores e liberais, por toda a Europa, para o Parlamento Europeu, significa que os cidadãos europeus decidiram entregar a resolução da crise que os afecta aos mesmos que a provocaram e dela são principais responsáveis. Directamente, ao manterem – e reforçarem – a mesma maioria no único órgão representativo da UE (e co-responsável por boa parte das decisões que os atinge); indirectamente, ao legitimarem pelo voto os partidos promotores das políticas que originaram a crise. Com especial incidência nos países que constituem o ‘eixo’ central que sustenta o famigerado PEC/Pacto de Estabilidade e Crescimento – principal base programática das políticas neoliberais europeias – Alemanha, França, Itália e Inglaterra.

À primeira vista não são perceptíveis as razões que determinam e justificam a opção insistente dos eleitores nas mesmas políticas e medidas económicas responsáveis pela grave situação actual, aparentemente contra os seus próprios interesses. Mas é possível tentar uma hipótese de explicação a partir de um olhar mais atento e pormenorizado sobre a dura realidade da crise, no enquadramento específico das eleições europeias.

Antes de mais, é necessário ter presente um dado sociológico simples mas essencial para se compreenderem os comportamentos actuais (eleitorais ou outros): a crise não afecta a todos por igual (pelo menos nesta fase). Os grandes e directos ‘sacrificados’ da crise são, para já, os que perderam o emprego ou estão na eminência de o perder. Incluindo ainda os que a ele não conseguem aceder pela 1ª vez, pois o denominado ‘mercado de trabalho’ parece ter “fechado para balanço”! (De facto, poucos arriscam, no actual contexto de indefinição e incerteza, a expansão dos negócios e, por aí, o aumento do emprego. Todos parecem ‘à espera do que isto vai dar’. E entretanto...). O que determina olhares diferentes sobre a crise. E a sua solução.

A grande maioria dos assalariados e independentes (ainda) não directamente afectados (e que constituem a esmagadora massa dos eleitores) olha para a crise e para os desafortunados por via dela, com o distanciamento calculista da pessoa saudável perante alguém condenado pelo cancro: com preocupação, num misto de comiseração e receio, mas procedendo como se essa fatalidade só acontecesse aos outros. Tenta, por isso, preservar a todo o custo a sua relativa comodidade, centrada na manutenção do emprego e na defesa das eventuais regalias conquistadas ao longo dos anos. Que até pode passar pela adesão a teses anti-emigração, de teor xenófobo, ou pelo retorno a ideologias tradicionalistas, de cariz fascizante. Em regra adopta uma atitude defensiva, porventura egoísta, se bem que racional, aderindo essencialmente ao que considera melhor poder contribuir para a preservação dos postos de trabalho. Volta-se, pois, para quem presume ter melhores condições de vir a defender este objectivo básico.

Surpreendentemente (ou talvez não), no meio da indiferença, desencanto ou mesmo frustração que as diferentes mensagens políticas mereceram por parte dos eleitores (como o comprova a extensa abstenção ocorrida, desta vez associada ao veemente protesto que ressoa dos votos brancos e nulos), as propostas da esquerda (aqui incluindo todos os partidos que dela se arrogam) foram as mais penalizadas, o que, na sequência da maior crise de que há memória, provocada pela aplicação das políticas de desregulação liberal, parece acontecer em claro benefício do infractor.

E é aqui que se levantam as grandes questões a que a Esquerdaneste crucial confronto político que a deve opor, acima de tudo, à dinâmica suicida dos que apostam numa estratégia de desenvolvimento baseada no crescimento ilimitado até agora não soube dar resposta, mas a que tem de o fazer, com a maior urgência.

Sob pena de vir a ser ultrapassada: ou pela realidade – normalmente da pior maneira; ou pela demagogia – na versão histórica da farsa (ou da tragédia?).
(...)

A dureza destes tempos que correm ...

“Nos últimos tempos, preocupava-o sobretudo as misérias das classes – por sentir que nestas democracias industriais e materialistas, furiosamente empenhadas na luta pelo pão egoísta, as almas cada dia se tornavam mais secas e menos capazes de piedade.
A Fraternidade - dizia ele numa carta de 1886, que conservo - vai-se sumindo, principalmente nestas vastas colmeias de cal e pedra onde os homens teimam em se amontoar e lutar; e, através do constante deperecimento dos costumes e das simplicidades rurais, o Mundo vai rolando a um egoísmo feroz.
A primeira evidência deste egoísmo é o desenvolvimento ruidoso da filantropia.
Desde que a caridade se organiza e se consolida em instituição, com regulamentos, relatórios, comités, sessões, um presidente e uma campainha, e do sentimento natural passa a função oficial – é porque o homem, não contando já com os impulsos do seu coração, necessita obrigar-se publicamente ao bem pelas prescrições dum estatuto.
Com os corações assim duros, que vai ser dos pobres?…”
( Eça de Queirós, in “A Correspondência de Fradique Mendes” )

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Uma questão de escolha(s) …

“Se comparo as duas condições mais opostas dos homens, quero dizer, os nobres e o povo, este último parece-me contente com o necessário e os outros inquietos e pobres com o supérfluo.
Um homem do povo não saberia fazer nenhum mal; um nobre não quer nenhum bem e é capaz de grandes malefícios; um, só se forma e se exerce nas coisas úteis; o outro, acrescenta as perniciosas: ali, mostram-se ingenuamente a grosseria e a franqueza; aqui, esconde-se uma seiva maligna e corrompida sob a casca da polidez: o povo não tem espírito e os nobres não têm alma; aquele tem bom fundo e não tem boa aparência; estes só têm aparências e uma simples superfície.
Será preciso optar?
Não hesito: quero ser povo.”
( Jean de La Bruyére, in “Os Caracteres” )

terça-feira, 9 de junho de 2009

E agora ?..

A "roubalheira" no Banco Português de Negócios, para usar a controversa expressão de Vital Moreira, tem servido para relembrar a experiência neoliberal portuguesa na sua origem, ou seja, a economia política e moral do cavaquismo. Isto é tanto mais útil quanto muitos dos problemas do país resultam das profundas transformações económicas promovidas pelos governos cavaquistas e das normas sociais que as legitimaram. Ler mais ...
(João Rodrigues, no "I")

domingo, 7 de junho de 2009

“É tarde demais para ser pessimista”

À hora a que a maioria das televisões acompanhava os derradeiros momentos desta ‘campanha triste’, a RTP2 transmitia, sob a forma de documentário, mais um sério aviso sobre ‘este’ desenvolvimento que está a consumir o planeta. Aos argumentos cruzados a propósito do ‘caso BPN’ (roubalheira dos ex-PSDs, de um lado, responsabilidades do ‘BP’, do outro – o CDS a impor a sua agenda mediática às prioridades das europeias em tempo de crise!), a “2”, através de um bem documentado e fundamentado ‘Home – o Mundo é a nossa casa’, alertava para o possível esgotamento dos recursos naturais até ao final do século. Da água, origem da vida, à agricultura, base da sobrevivência humana.

Sem grandes novidades – a não ser, talvez, o tom cada vez mais negro com que estes avisos vão sendo emitidos – durante hora e meia foram apresentados e actualizados os principais dados que os cientistas vão coligindo sobre o rápido processo de carbonização da atmosfera e dos seus principais efeitos no frágil equilíbrio ambiental. Como por exemplo:
- Que tendo a espessura do gelo da calota do Árctico reduzido cerca de 40% nos últimos 40 anos, se prevê o seu desaparecimento até 2030 (alguns avisam que tal pode mesmo acontecer já em 2015!), desaparecendo com ele o ‘efeito de albedo’ (uma espécie de ar condicionado da Terra) e influenciando a ‘circulação termohalina’ das correntes marítimas, o que alteraria todo o clima terrestre;
- Que o acelerado processo de degelo dos glaciares da Gronelândia, que representam 20% de toda a água doce do planeta, caso não seja travado, pode traduzir-se num aumento de 7 metros no nível dos mares, inundando vastas zonas costeiras fortemente habitadas, obrigando à deslocação de centenas de milhões de pessoas!
- Que, com o aquecimento global e o degelo, o metano retido nos solos gelados da Sibéria (o ‘permafrost’) pode libertar-se, o que virá a resultar numa catástrofe de dimensões inimagináveis;
- Ou que 20% da Humanidade consome 80% de todos os recursos da Terra!

Resta-nos então apenas concluir, com o documentário, que “é tarde demais para ser pessimista”! Mas isso obriga a muito mais mudanças do que as pessoas parecem dispostas a fazer. Mudanças políticas de fundo, é certo, mas sobretudo e naturalmente, mudança dos hábitos quotidianos mais simples na vida de cada uma delas.

Que não haja ilusões. Isso só se tornará viável se as pessoas forem a tal obrigadas. Pela força das circunstâncias – a pior maneira – ou pela força das normas – a ‘pérfida’ maneira. Primeiro, porque ninguém estará disposto a acatar normas que interfiram com o seu actual nível de conforto; depois, porque nenhum político das actuais democracias – o regime dominante daqueles 20% mais predadores de recursos – aceitaria afrontar os seus eleitores nesse seu conforto básico. O que implicaria um enorme volte-face nas actuais condições sócio-demográficas do denominado ‘mundo ocidental’. Incluindo também nos próprios comportamentos políticos da sua classe dirigente!

A convulsão gerada na sequência da crise actual (ou crises, importa aqui recordar que a primeira foi a energética, com o disparo dos preços do petróleo, prenunciando o rápido esgotamento dos recursos!) é bem mais do que uma simples ‘crise de crescimento’, como tem vindo a ser tratada. Não sei se é já o estertor do sistema, duvido. Mas sei que só poderá ser ultrapassada se as mudanças forem bem mais radicais e drásticas que as até agora adoptadas (ou as que se aprestam a sê-lo). Sob pena de as circunstâncias virem a impor a ‘sua’ solução. A pior, seguramente!

Talvez a solução, afinal, esteja na simplicidade das coisas. Talvez a solução da energia, por exemplo, esteja na fotossíntese. Tal como se refere no documentário, ‘basta imitar as plantas e procurar captar a energia do sol’. Se tudo fosse assim tão simples...

sábado, 6 de junho de 2009

Em dia de “reflexão” …

“Não é que, no nosso tempo, o representante da cultura seja menos escutado do que no passado o eram o teólogo, o artista, o sábio, o filósofo, etc...
É que, actualmente, tem-se consciência da massa que vive de mera propaganda.
Também no passado, as massas viviam de má propaganda, mas, então, sendo a cultura elementar menos difundida, essa massa não limitava as pessoas verdadeiramente cultas e, portanto, não fazia surgir o problema de saber se estava mais ou menos em concorrência com essas pessoas cultas.”
( Cesare Pavese, in “O Ofício de Viver” )

sexta-feira, 5 de junho de 2009

O automóvel, o mercado, as crises e as Europeias

VI – As ‘Europeias’ – as propostas que nunca existiram!

O papel do Parlamento Europeu, na actual configuração institucional, não corresponde, como se sabe, ao dos seus homólogos nacionais. Apesar do seu poder co-decisório (com o Conselho) num conjunto já alargado de matérias, com relevo para as orçamentais e do ambiente, mantém-se como órgão consultivo em outras, tão ou mais sensíveis quanto estas, como é o caso da política fiscal. Aqui a sua influência revela-se tanto ao nível da pressão exercida sobre a Comissão e o Conselho, como da função pedagógica que lhe cabe junto dos próprios cidadãos europeus. E se algum momento é propício ao contacto com os cidadãos, ele é, sem dúvida, o das eleições para o único órgão representativo de uma Europa que se pretende democrática.

Ademais, isso acontece precisamente a meio da maior crise global (económica, social, ambiental, até cultural) de que há memória e sem fim à vista. Teria sido muito saudável aproveitar-se a campanha para se debaterem as soluções europeias (se é que as há...) para a crise. O certo é que, passado o susto inicial da ‘crise’, começa a instalar-se a tendência para uma certa acomodação... à crise. Com o rol dos ‘sacrificados’ pela crise, para já, neutralizado pelas medidas de apoio financeiro imediato, o mais grave da situação aparenta estar devidamente acantonado. Mais ainda, todos acreditam que mais cedo ou mais tarde a crise irá passar, tudo regressando à ‘normalidade’ anterior!!! Crença apoiada, afinal, no discurso dos mais influentes teóricos e comentadores. Os candidatos, esses, fazem de conta que a crise não existe ou então que se trata de outro negócio que nada tem a ver com as ‘suas’ europeias.

Uma vez que os candidatos em campanha pouca ou nenhuma atenção lhes concederam, permito-me aqui trazer alguns dos temas, relacionados com a crise e com a Europa, cuja oportunidade, penso, se perdeu em serem debatidos. E a meu ver, três áreas estruturantes, em especial, mereciam ter sido questionadas, à escala europeia, nesta campanha – actividade laboral e emprego; modelo de sistema financeiro; uniformização fiscal – impondo-se aqui discutir, entre outras, as seguintes medidas, cuja consideração, mais cedo ou mais tarde, irá tornar-se inevitável:
- Quanto à actividade laboral e emprego: a redução do tempo de trabalho – por ex., para as 30 horas semanais, ainda que ao arrepio das tendências dominantes da actual globalização – como única forma racional e decente de se enfrentar o actual impasse criado na organização do trabalho, em resultado da própria reconversão na actividade económica.
- Relativamente ao novo modelo de sistema financeiro: a neutralização do epicentro gerador da crise – os ‘off-shores’ – o que só pode passar pela sua extinção ou integração nas normas que regem todas as instituições financeiras, opondo-se à desregulação imposta pelo fracassado modelo económico neoliberal.
- Sobre a política fiscal: a alteração do princípio da unanimidade em matéria fiscal (consagrado no Tratado de Lisboa), que tem impedido a adopção de uma política fiscal comum e fomenta as deslocalizações de empresas no espaço comunitário, gerando ineficiências no conjunto da EU – em nome da eficiência das empresas!

É certo que todos estes temas e as propostas neles inseridas foram aflorados, por este ou aquele partido, ao longo da campanha. O tema dos ‘off-shores’, por exemplo, introduzido e por várias vezes tratado na campanha do BE, rapidamente se via engolido na voragem dos compromissos impostos pelo voto, pois o ruído provocado por parte de outros partidos e comentadores encartados, afirmando tratar-se de proposta irrealista e, portanto, demagógica, sobrepunha-se claramente ao pretendido debate sobre o tema.

Incluindo, também, o das ‘30 horas semanais’ (referido – apenas? – pelo ‘descomprometido’ candidato do MRPP !), cuja abordagem se torna inevitável quando já hoje se sabe que a retoma económica não irá recuperar nem trazer de volta grande parte dos empregos perdidos por esta crise. Útil, pelo menos, na sua discussão e enquanto alternativa aos níveis de desemprego, perigosamente elevados – até para o poder dominante do capital.

Mas nenhum destes sensíveis mas nevrálgicos temas suscitou, da parte dos maiores partidos (os que, por definição, mais controlam a opinião pública), a receptividade indispensável para se avançar para o amplo debate exigido. A cortina de silêncio imposta sobre estes (e outros) temas é sintomática, mas não deixa de ser sobretudo preocupante, pois provavelmente o nível de destruição da crise (de recursos e de empregos), longe de abrandar, poderá acentuar-se. Penalizando sobremaneira e como sempre os mais débeis!

As eleições são já no domingo. As soluções para a crise vão ter que esperar... Seguramente não seguem dentro de momentos!

quarta-feira, 3 de junho de 2009

O automóvel, o mercado, as crises e as Europeias

V – As ‘Europeias’ – uma campanha triste!

Por tudo o que se disse antes, as eleições para o Parlamento Europeu apresentavam-se como a oportunidade ideal para debater, à escala europeia (só faz sentido nessa escala) a principal preocupação actual das pessoas – como sair da crise – o que, na perspectiva da maioria delas passava por um programa global de sustentação do emprego. Mas que implicaria ainda outros temas igualmente estruturantes para o futuro das sociedades (nomeadamente nos âmbitos financeiro e fiscal). Mesmo que, por enquanto – atendendo até à natureza das prerrogativas do PE – sobretudo de um ponto de vista pedagógico, identificando as responsabilidades que cabem ao centro das decisões europeias, confrontando os poderes nacionais pelas opções tomadas, demonstrando onde se encontram as verdadeiras amarras que as condicionam, qual, em suma, a situação real que os cidadãos enfrentam na condução das suas vidas.

Sendo isso que parecia exigir-se, não foi isso que, afinal, aconteceu. Na verdade, os períodos de campanha eleitoral têm por objectivos explícitos o esclarecimento dos eleitores sobre os programas dos partidos em disputa (com base no diagnóstico que cada um faz da situação política em função da sua perspectiva ideológica) e o consequente apelo ao voto nesses partidos. Contudo, o que invariavelmente acaba por se verificar é o predomínio absoluto do último desses objectivos, afinal o único que conta para os resultados, através da utilização dos mais diversos expedientes (dos mais ‘sugestivos’ aos mais ‘impositivos’, diga-se).

De tal modo que a tentativa de algum partido ou candidato em privilegiar o esclarecimento, introduzindo um tema para debate, arrisca-se a ser contraproducente, tanto pela reacção dos seus contendores – normalmente mais propensa a evidenciar o picaresco e até entrar no achincalhe, mais interessada na fulanização do que no debate das ideias, desviando as atenções do essencial; como pelo aproveitamento da comunicação social – apenas empenhada em explorar o episódio caricato, a espuma dos factos, o relato do espectáculo. No final apenas os especialistas em ‘sound bites’ prevalecem, as ideias pouco contam – contam apenas na medida em que contribuam para alimentar o ruído. A agitação frenética sobrepõe-se ao debate clarificador.

E foi assim que se assistiu à salvação do Vital pelo Sócrates, do mesmo modo que o Rangel apareceu a dar uma ‘mãozinha’ à Manuela. E é também por isso que os hilariantes espirros do Rangel, ou os constrangedores hiatos na fala do Vital, ou as extenuantes performances policiais (no caso BPN!) do “Mel(r)o que o CDS quer pôr no poleiro em Estrasburgo”, ocupam claramente mais tempo de antena e atenção mediática que os temas europeus. Porque nos divertem, tanto quanto nos distraem. O palco apenas para os verdadeiros artistas...

E tudo isto se desenrola ao mesmo tempo que, em Portugal como no resto da Europa e um pouco por todo o mundo, se vão sucedendo novos episódios dramáticos de uma crise que, contrariamente ao que parece decorrer do pícaro de uma campanha triste e enfadonha, sintomático apenas no que revela da degradação de uma certa política (e, já agora, também de um certo jornalismo), veio para ficar e está para durar, continua aí sem planos nem ideias que a contrariem. Que, ao invés, devia exigir a capacidade, o empenho e a imaginação dos candidatos ao PE, na apresentação das alternativas de solução à escala europeia, precisamente o nível em que ela devia ser discutida. Que merecia mais, pois, que a ausência de programas!

A crispação que agita a política (ou os políticos?), produto de múltiplos factores (entre eles o peso que os resultados desta eleição, por ser a primeira das três que vão ocorrer ao longo deste ano, terá sobre as restantes), não justifica um tão generalizado desatino político.
(...)

terça-feira, 2 de junho de 2009

O automóvel, o mercado, as crises e as Europeias

IV – As razões – ou imposições ? – do mercado automóvel

O conflito aberto na Auto-Europa pela intenção da Administração em impor o sábado como dia normal de actividade (sem qualquer remuneração adicional, como obriga a legislação laboral), reporta e aviva, de forma exemplar e paradigmática, todo o processo de desvalorização do trabalho empreendido pelo capital, aproveitando a maior fragilidade negocial dos trabalhadores em período de crise. Numa altura em que o principal problema das empresas é o da ocupação do tempo de trabalho disponível, com o consequente recurso a todas as formas de o reduzir (despedimentos, ‘lay-offs’,...) sob o argumento da quebra da procura e da falta de encomendas, esta tentativa de alargar ao sábado o tempo normal de actividade parece surgir contra a corrente.

O argumento, aqui, é o dos custos salariais comparados (é preciso ser competitivo à escala global), daí a exigência de mais um dia de trabalho semanal sem qualquer compensação contratual (mesmo reduzida), apesar de, aparentemente, ao arrepio de toda a racionalidade económica. E quando se sabe que os custos laborais apenas pesam no produto final cerca de 5% (!!!), não é possível evitar mesmo a dúvida sobre as reais intenções dos que a este expediente recorrem.

Estava anunciado, era uma questão de tempo. E o tempo tem vindo a revelar, agora a coberto de uma crise que tudo explica e desculpa, as estratégias que se vão já tecendo para o futuro e sob as quais se desvendam (não há como escondê-lo!) os propósitos de sempre: a crescente precarização dos vínculos laborais; a continuada degradação das condições de funcionamento do trabalho, sujeito à permanente chantagem do capital; a lenta mas persistente erosão do emprego, sem retorno à vista; a cada vez maior fragmentação da gestão das empresas e a consequente exclusão dos trabalhadores de lugares de decisão, sob o pretexto de se tratar de matérias altamente especializadas.

Mas o exemplo da Auto-Europa acaba por ser sobretudo esclarecedor do funcionamento tripartido da relação salarial, no contexto da actual crise global, entre trabalhadores, empresários e respectivos governos. Por toda a aparte os trabalhadores, de grandes ou pequenas empresas, quando em dificuldades ou sob ameaça de despedimentos, mais do que responsabilizarem os respectivos accionistas (quem são eles? onde estão?) ou deles exigirem o cumprimento dos seus compromissos contratuais (até porque, nalguns casos, intuem, e com fundamento, dificuldades financeiras reais), voltam-se para o chapéu de chuva dos governos, quaisquer que eles sejam (todos afinal estão comprometidos com este sistema), na vã esperança de deles receberem a protecção que sabem perdida do lado do capital (ou das nebulosas forças que o ocultam).

A resposta, invariável, de todos os governos, tem sido de apoio em palavras, mas de quase nulos resultados práticos. No final, consumada a derrocada e concretizados os despedimentos, limitam-se a accionar os mecanismos de apoio previstos para cada caso, que a tanto se resume a sua responsabilidade. E fazem-no escudados (ou sob desculpa) nas leis da concorrência impostas no espaço comunitário, mas que, fora destes contextos de desespero humano, defendem com todo o vigor e não menor cinismo.

Foi a consciência desta comprovada inutilidade dos governos que, a meu ver, levou os representantes dos trabalhadores da Auto-Europa a prescindirem deste apoio pouco mais que retórico e a sentarem-se frente a frente com os seus patrões, sabendo que negoceiam em condições de grande fragilidade (a chantagem da deslocalização mantém-se permanentemente em cima da mesa), mas intuindo também que nessas negociações não estão apenas em causa as suas concretas condições de trabalho, no limite o próprio emprego: aqui joga-se sobretudo o poder de, no futuro, manterem algum controle sobre as relações salariais em que são parte; de poderem continuar a ter um papel activo na construção da sociedade a que pertencem; de continuarem, pois, a sonhar – e a lutar – por um mundo gerido com responsabilidade, com solidariedade e com justiça.

Nas negociações em curso na Auto-Europa – e decerto em muitas mais empresas pelo mundo fora – está em jogo bastante mais do que apenas o seu próprio futuro, aqui se compromete também um pouco o de todos, joga-se talvez alguma daquela globalização alternativa que importa começar a construir desde já.

O chapéu e os azares …

Isso do azar – ou o que quer que isso, do azar, possa ser – é qualquer coisa que, ultimamente, não tem deixado de me azucrinar; e de que maneira …
Ainda este fim de semana, no remanço da Praia do Ribatejo, um chapéu - um simples chapéu de palha - fez toda a diferença, ajudando a engrossar o rol dos azares que, pelos vistos, me têm batido à “porta”, teimando, o azar, assim e de uma vez por todas, em não desgrudar …
Depois de um bom almoço de lampreia, nada melhor que um aprazível passeio;
e, assim foi : eu, o Quim, o Manel e o Jorge lá demos “corda aos sapatos” no pressuposto de juntar o útil ao agradável :
- espreitar e desfrutar a sempre luxuriante vistas sobre o Tejo e, claro, acelerar a respectiva digestão …
Porém, eis que, às tantas, o azar – de novo, o azar – me assola; uma brisa mais afoita de vento - que, este fim de semana e por aquelas bandas, quase não se fez sentir - entendeu “deschapelarme”… e, assim, o meu chapéu de palha – que (me) protegia do radioso e escaldante sol Ribatejano - voa, e desgovernado, e caprichosamente aterra numa propriedade privada, murada, desnivelada da estrada, com uma altura muito respeitável .
Desde logo, perante a “deschapelada”, os meus companheiros de caminhada, solidários, prontificaram-se a proceder ao resgate do meu chapéu para o que, objectivamente, seria condição necessária (?) saltar o respectivo muro.
Eu, lá tentei explicar da total desnecessidade de tal altruísmo (?), pois o chapéu não merecia, de todo, tais e tamanhos riscos, até porque, a montante, poderia existir um acesso muito mais “maneirinho” para, se necessário, proceder ao famigerado resgate.
Mas, pelos vistos, e lamentavelmente, não terei sido de tal modo convincente, pois, e sem que de tal me apercebesse, o Jorge entende, ainda assim e pese a altura do muro, dar o respectivo “salto”; que, e na circunstância, resultou fatídico, e de que maneira, para o Jorge :
- pé esquerdo partido, com fractura exposta …
Ligado ao 112, e enquanto não chegava a ambulância de V.N. da Barquinha, vivenciei um dos mais dramáticos momentos da minha vida, decorrente da minha total impotência em poder e saber socorrer o Jorge que, pelo facto de ser médico, e ainda por cima ortopedista, era o que – entre nós : eu, o Manel e o Quim – apresentava os melhores sintomas de “calmaria”…
Chegada a ambulância, feita a respectiva e necessária “estabilização” da fractura, lá fomos para o Hospital de Abrantes onde, à noite, altas horas da noite, o Jorge foi sujeito a uma necessária e urgente operação … que, felizmente, terá corrido a preceito dado que, no Domingo, por volta do meio-dia, teve alta do Hospital para, depois de um compasso para retemperamento na Praia do Ribatejo, regressar a Lisboa, ao aconchego do lar …
Eis, assim, como um fim de semana que, pela forma como havia (de)corrido o almoço – lampreia bem “regadinha” -, se preparava para ter tudo, mesmo tudo, para ser auspicioso se transformou, num ápice, e por azar (?), num autentico e verdadeiro suplicio …
Eu, por mim, já nem sei o que diga e o que pensar :
- se foi do almoço;
- se foi do chapéu;
- se foi do vento;
- se foi do salto;
- e/ou se foi e é, mesmo, do azar - o que quer que isso, do azar, possa ser - mas que, ainda assim, teima em (me) perseguir...
Para já, e para o Jorge, os votos de rápidas melhoras !!!

segunda-feira, 1 de junho de 2009

O automóvel, o mercado, as crises e as Europeias

III – Motores gripados

Se há objecto que pode ser erigido em símbolo da sociedade moderna ele é o automóvel. É sabido que a denominada civilização ocidental se constrói em torno de dois eixos fundamentais, que dela emergem como valores estruturantes inquestionáveis: a autonomia individual e a mobilidade. E o principal ícone dessa construção, simultaneamente artífice e artefacto civilizacional, síntese daqueles dois basilares valores, concretiza-se no automóvel individual, autêntico objecto de culto, imprescindível utensílio quotidiano, que organiza toda a vida social.

A interdependência estabelecida entre o automóvel e a organização social implica que qualquer alteração ou perturbação num deles afecta irremediavelmente o outro. Não é concebível esta civilização sem o automóvel, todos os cenários que se perspectivam para o futuro incluem-no inevitavelmente, ainda que sob as formas mais fantasistas e imaginativas. Mesmo o mais que previsível esgotamento da principal fonte de energia que o move, o petróleo, não impede, antes acentua a necessidade, que se concebam e idealizem modelos enquadráveis noutro paradigma energético.

Desde que soou o alarme sobre o esgotamento dessa energia fóssil, nenhum construtor deixou de apresentar alternativas e planos de reconversão completa das respectivas gamas, na base do que se pretende venha a ser esse referido novo paradigma energético. A necessidade precipitou a inovação no sentido da adopção de novas soluções. Para já no campo das mecânicas e do automóvel. Da evolução convenientemente lenta, para não criar rupturas na estrutura empresarial – leia-se, para não perturbar interesses instalados – o sector passou a viver numa agitação e instabilidade invulgares, entre falências, intenções de aquisição, apoios estatais gigantescos e o anúncio constante de planos de reconversão.

Mas não é só no sector automóvel que os dias vão agitados. A avaliar pela desordem instituída nas sociedades actuais, os limites parecem estar também a ser atingidos a nível da organização social, a pressão sentida em diversos domínios da vida das comunidades ameaça romper e explodir: instabilidade na actividade laboral com destruição de empregos, desigualdades ofensivas e crescentes, degradação e violência urbanas, corrupção e delinquência organizadas,... A crise mais acentuou este panorama, apontando rupturas eminentes, em especial a nível da reconversão da actividade produtiva, gerando problemas de dimensão imprevisível.

É por isso que o paralelo com o sector automóvel se afigura pertinente. Decididamente, os motores de ambos – o de combustão de energias fósseis, no caso do automóvel, o mercado, no que respeita à organização social – parecem caminhar para o seu termo com o respectivo prazo de validade quase a expirar, ou, utilizando a terminologia própria do sector, os motores parecem prestes a gripar. Relativamente ao automóvel, as soluções técnicas pressentem-se finalmente bem encaminhadas, todos esperam o surgimento breve de um novo ou novos tipos de motor, com a adopção de tecnologias mais limpas, eficientes e sobretudo mais económicas. Com os naturais efeitos de arrastamento positivos sobre o emprego e a actividade económica global.

Ao contrário, tudo se encontra bastante mais indefinido, no que respeita à organização social. Subsistem (ou resistem?) as velhas fórmulas mercantis de pendor liberal (mais refinadas, mas não menos eficazes), tardam alternativas políticas de pendor democrático (na base de um controle acima das pretensas leis naturais do mercado). O poder do mercado teima, pois, em ceder ao poder da democracia. Mas perante a súbita e rápida fragmentação das estruturas tradicionais (nomeadamente a empresa) que suportavam a vida colectiva, urge encontrar soluções melhor adaptadas, a nível da organização social, para responder de forma adequada e em tempo útil aos novos problemas e desafios da sociedade global, impõe-se mesmo reflectir e começar a preparar uma alternativa política à actual globalização – onde o poder financeiro e a força do dinheiro se submetam à supremacia do direito e da justiça.

As ‘europeias’, à partida, constituíam uma boa oportunidade para se efectuar (ou pelo menos iniciar), à escala devida, o debate necessário, mas...
(...)

domingo, 31 de maio de 2009

O automóvel, o mercado, as crises e as Europeias

II – A crise no mercado do automóvel

Um dos sectores mais afectados pela crise é o do ‘automóvel’, com forte impacto nas actividades que à sua volta gravitam e dele dependem (têxtil, plástico, componentes mecânicas e eléctricas, etc.). Contudo e ao contrário dos outros dois sectores mais ‘castigados’ – o financeiro e a construção – sem que para ela haja contribuído! Enquanto estes são responsáveis, por efeito dos movimentos especulativos que neles se acoitam, por desencadearem todo o processo que descambou na crise, já no ‘automóvel’ não é possível estabelecer nenhuma relação directa com as principais causas que a originaram.

É certo que se vinha falando também já da sua responsabilidade como principal meio na produção dos fatídicos gases com efeito de estufa, com implicações nas alterações climáticas e ameaça ao equilíbrio ambiental – de consequências gravíssimas para todo o planeta. Mas não foi aqui que a actual crise global teve a sua origem.

A do ‘automóvel’ dá-se, pois, em consequência desta crise global, com o forte abalo que ela provoca na confiança dos consumidores. Mas para além da ‘normal’ retracção do consumo por naturais motivos de precaução, a profunda quebra das vendas de automóveis ao longo dos últimos seis meses (que nalguns casos chega a ser superior a 40%!), não obstante o recurso a grandes campanhas comerciais de descontos, tem outras causas que merecem ser identificadas, pois tão drástica e rápida mudança no comportamento dos consumidores exige uma explicação mais plausível. Os consumidores alteraram os seus hábitos de vida ou deixaram de andar de automóvel (por substituição de meio de transporte, por exemplo)? Passaram a não confiar em marcas quase centenárias, com capital de confiança acumulado ao longo de muitas décadas de implantação mundial?

A explicação mais razoável, a meu ver, encontra-se na racional conjugação do efeito ‘precaução’ (adiamento das decisões de investimento) com a incerteza (e consequente reflexo nas expectativas individuais) provocada pelas alterações tecnológicas no próprio automóvel. A crise energética desencadeou um conjunto de efeitos na sociedade, afectando também – ou talvez sobretudo, veremos – e de forma irreversível, a concepção do produto ‘automóvel’. Ninguém se mostrará muito interessado em adquirir um automóvel tecnicamente ultrapassado!

Na verdade, até há poucos meses tudo parecia estar bem na indústria automóvel, eventualmente ocupada em competir com a restante concorrência na base de novas estéticas, em incorporar novas tecnologias electrónicas, reduzir custos de produção (automação vs. emprego), conquistar novos mercados, nomeadamente os denominados ‘emergentes’. É certo que pairava já em certos construtores alguma preocupação pela redução dos consumos, por um maior controle das emissões de CO2 devido ao efeito de estufa e à sua influência nas cada vez mais evidentes alterações climáticas. Mas, no essencial, tudo se resumia em como extrair, do tradicional ‘motor de combustão’, as melhorias que permitissem responder a esses níveis de preocupação, entretanto vertidos em normas restritivas e prazos políticos a cumprir.

De repente, porém, o mundo pareceu acordar para uma realidade ‘escondida’, a de que a energia que, até agora, tem sustentado a nossa actual comodidade, caminhava rapidamente para o seu natural esgotamento. Os preços dispararam (‘ajudados’ por um sempre atento movimento especulativo), o pânico não chegou a instalar-se mas começou a ganhar corpo a ideia de que era urgente, que se tornava inevitável mudar. Foi então que um vasto impulso abalou o sector, originando novos condicionalismos técnico-políticos mais restritivos, forçando a inovação tecnológica e a produção de alternativas ao ‘velho’ motor de combustão (dos híbridos ao motor eléctrico ou electromagnético, avançando mesmo até ao hidrogénio, ao solar,...).

Mas ao contrário dos outros dois sectores, financeiro e construção (que começam a dar sinais de alguma estabilização e mesmo alguns, ainda ténues, indícios de retoma), a saída da crise no ‘automóvel’ afigura-se bem mais demorada e radical nas soluções a adoptar (profunda reconversão da indústria, com gradual adaptação a um novo paradigma energético) e dramática nas suas consequências (falência de empresas – a da gigante GM está anunciada para o início de Junho – destruição de empregos,...).
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sexta-feira, 29 de maio de 2009

O automóvel, o mercado, as crises e as Europeias

I – As crises

Aparentemente, o título deste comentário (ou desta série de comentários), parece uma salgalhada sem nexo, pois afirmar que, afinal, ‘tudo se relaciona com tudo’, diz pouco, para não dizer nada, da razão porque se decidiu associar aqueles temas e não outros. E, contudo, mesmo sem uma explicação definida, não se torna muito rebuscado encontrar boas razões para um tratamento conjunto destes temas, pois algo parece ligá-los numa mesma preocupação comum. Dito isto, comecemos então pelo mais óbvio, por aquilo que, actualmente, mais agita e preocupa as pessoas, ‘a crise’ – ou melhor, as crises.

Sempre que se ouve ou lê qualquer um dos denominados (ou iluminados?) ‘economistas de referência’ – comentadores encartados a derramar prosápia, quase fulminando os comuns dos mortais com o anátema de ignorantes, de seres não iniciados nos segredos de que só eles são detentores – a falar sobre a crise, tanto o diagnóstico quanto as terapias giram à volta dos mesmos conceitos, tudo se resume em saber o lugar que cada um ocupa nesta espécie de ‘ordem natural das coisas’ que, aparentemente, rege o mundo de forma inexorável e sem remissão possível. As preocupações, raciocínios e outras considerações centram-se na forma de fazer funcionar o mercado, de pôr a economia a crescer, de reduzir o déficit,... ainda que pressurosos em tentar remediar as situações mais desesperadas (não vá a pressão social explodir).

Até há poucos meses atrás, o mundo ocidental evoluía então, aparentemente, dentro desta sua habitual normalidade, davam-se como adquiridos e naturais um conjunto de proposições que a ninguém passava pela cabeça questionar: crescimento económico ilimitado, custos da energia controlados (não obstante alguns sobressaltos esporádicos), inflação relativamente reduzida (‘mérito’ das receitas monetaristas imperantes),... Aqui ou ali pequenos distúrbios ou mesmo convulsões sociais, nada porém com dimensão para abalar as convicções mais profundas numa contínua melhoria de vida (pelo menos a que costuma ser vertida nas estatísticas divulgadas).

Mas, de repente, toda esta aparente normalidade (ou imutabilidade?) das nossas referências foi posta em causa pelas sucessivas crises:
- primeiro, pela da energia barata, todos parecendo acordar para a realidade há muito conhecida de uma anunciada escassez, mas que todos fingiam ser de uma indefinida perenidade. Com ela pareceu abalada a principal referência (ou instituição?) que sustenta o nosso modo de vida: o automóvel.
- depois, com a financeira, com algumas das instituições bancárias tidas como das mais sólidas e íntegras do mundo a soçobrarem num ápice: o dinheiro parecia volatilizar-se em instantes e, com ele, a seriedade e honestidade de alguns dos mais conceituados e influentes gestores, sorvidos na voracidade de uma desregulação que haviam criado e imposto, ameaçando, inclusive, alguns países de descambarem na bancarrota: o mundo nunca presenciara uma derrocada assim!
- por último, a global (económica, política, social, ambiental,...), quando a espiral da crise se propagou e começou a alastrar a todos os sectores, descobrindo ou acentuando fissuras até então contidas ou meramente escondidas, pondo em risco precários equilíbrios até então tidos como imutáveis, tornando consciente ou trazendo ao de cima problemas inimagináveis.

Mérito da crise (não obstante o séquito de desgraças, é possível descortinar nela também aspectos positivos), muita gente começa finalmente a questionar as razões desta aparente normalidade. A partir de aspectos ou elementos tão rotineiros e entranhados nos hábitos – tão naturais, pois – como os automóveis. Se até o automóvel é posto em causa, se até o meio por excelência da enorme mobilidade que caracteriza e distingue as sociedades modernas corre riscos, então isso pode significar um enorme retrocesso na qualidade de vida, é todo um modo de existência posto em causa.
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Não há duas sem três !..

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Cavaco : cineasta …

O senhor Presidente da República, talvez para espairecer - quem sabe (?) -, depois de Dias Loureiro ter apresentado o pedido de renuncia a/de conselheiro de Estado - sendo que, ainda assim e ao que se sabe pelos jornais, continua a merecer a confiança de Cavaco – visitou, hoje, o Jardim Zoológico …
Às tantas, e em conversa com os jornalistas – ouvi, agora, no noticiário da Antena1 – lá revelou mais uma das suas mui “ternurentas” histórias/aventuras; desta feita, ocorrida aquando da sua passagem pelas ex-colónias, no cumprimento do serviço militar.
Cavaco Silva – qual cineasta – lá filmou umas “cenas” com uns bisontes e/ou búfalos - pois o próprio Cavaco, ao que me pareceu, apresentava dúvidas – e num ímpeto de grande coragem, lá conseguiu os “bonecos” à curta distância de 50 metros; a D. Maria que, provavelmente e com muito ternura, acompanhava as filmagens, é que não esteve pelos ajustes e perante a perigosidade do “decor”, assustada e responsável, reclamava o terminus da carreira cinematográfica do prendado esposo.
Cavaco Silva, referiu aos jornalistas a perigosidade da situação e regozijou-se pelo facto de, felizmente, não (lhe) ter acontecido nada.
Eu, pela minha parte, refiro : que pena !!!

quarta-feira, 27 de maio de 2009

O "mete-nojo" ...

O ex-Conselheiro de Estado, Manuel Dias Loureiro - que, ainda, e há relativamente muito pouco tempo, fez a apresentação do livro do "Menino de Ouro" - é uma pessoa que sempre, desde sempre, me meteu nojo, muito nojo que, segundo o dicionário é o mesmo que : "repugnância, náusea, asco, etc, etc ..."
Hoje, ao vê-lo e ouvi-lo, na SIC, só acabei por reforçar a "dose"...

A caça ao homem!

O espectáculo que ontem, 26 de Maio, durante cerca de 8 horas, Oliveira e Costa, ‘ofereceu’ ao país, não veio baralhar as contas da complexa urdidura montada no BPN (de que foi principal responsável e impulsionador), porque elas já estavam baralhadas antes. Mas teve pelo menos o mérito de relembrar o facto comezinho, que parecia estar a desvanecer-se, de que, afinal, ele não foi o único responsável – logo culpado – por todas as malfeitorias a que aquele Banco foi sujeito.

As dúvidas saltitam de personagem em personagem, do agora ex-conselheiro de Estado, Dias Loureiro (que jura a pés juntos absoluta integridade ética em todo o processo), ao denominado ‘bando dos quatro’ (!), depressa convertido em ‘dez’ (ou doze?). Do accionista de referência Joaquim Coimbra, íntimo da direcção do PSD (desta e de todas as anteriores) e do próprio PR, aos inúmeros quadros superiores do Banco, citados como intervenientes em acções de pormenores rocambolescos.

E o Banco de Portugal, onde fica em toda esta trama (ou tramóia)? Será agora que os seus encarniçados críticos terão numa bandeja a desejada cabeça do Governador Vítor Constâncio? Ou a do ministro da tutela, Teixeira dos Santos? Ou mesmo a do 1º Ministro, Sócrates? Ou a dos seus antecessores, uma vez que tudo isto se desenrolou ao longo de muitos anos, numa série interminável de actores, agentes (nacionais e internacionais), profissionais competentes ou ‘pára-quedistas’, amigos e apadrinhados, sobretudo gente habilidosa e versada nos meandros financeiros, disposta a tudo para poderem beneficiar dos milhões que são agora tão despudoradamente exibidos e que, parece, se evaporaram na voragem da crise que tudo explica.

E, contudo, entretidos que andamos neste agitado e pouco edificante enredo, sobra-nos a frustração causada pela certeza de que tudo afinal pode voltar a acontecer, de que nada de essencial foi alterado, o ‘bezerro de ouro’ continua intacto, o mercado mantém inviolável todas as suas prerrogativas – incluindo essa dos famigerados ‘off-shores’! Responsabilizar os intervenientes no processo de acordo com o papel por cada um desempenhado é tarefa essencial que reveste, para além da eventual imputação de culpas, carácter pedagógico importante. Mas centrar o discurso apenas na incriminação de pessoas, por mais determinantes que elas pareçam ter sido no processo, pode transformar-se em exercício perverso, se acabar por desviar as atenções do essencial.

E o aviso vem, mais uma vez de quem domina o sistema por dentro, que sabe do que fala. Retenho o desabafo de Oliveira e Costa – se alguém fala com conhecimento de causa é ele – quando afirma que, se o Banco de Portugal aplicasse aos outros Bancos os procedimentos utilizados no ‘seu’ BPN, o sistema bancário nacional entraria em colapso, nenhum Banco escaparia à derrocada!

O importante aqui não é tanto saber se os procedimentos da supervisão eram ou não os mais indicados, mas a confissão de que todos os Bancos actuavam dentro dos mesmos parâmetros e recorriam aos mesmos expedientes. O importante é concluir que, afinal, do que aqui se trata é de um comportamento padrão adoptado pela generalidade da Banca, nacional e internacional. O próprio BCP, que viu actuações deste tipo serem denunciadas na sequência da ‘zanga de comadres’ pela disputa do respectivo controle gestionário, beneficiou de isto ter acontecido antes da crise rebentar, permitindo uma solução a tempo de evitar males maiores. E o BES, já em 2006,...

Hoje esta conclusão começa a mostrar-se clara, mas ninguém parece interessado em daí extrair as devidas ilações. Porque isso seria admitir que o sistema, no seu conjunto (e não apenas algumas ‘maçãs podres’), falhou – e as consequências seriam bem mais drásticas do que a mera ‘caça ao homem’ em que se transformou a investigação em torno do que afirmam ser apenas um simples (apesar de toda a sua aparente complexidade, isso também serve à tese que o afirma) caso de corrupção.

Já por várias vezes aqui falei deste enviesamento dos factos, com o desvio das atenções do essencial em jogo – e o essencial é mesmo a natureza política das opções que determinam estes comportamentos! – para os aspectos meramente pessoais. Que, repito, apesar de importantes, não podem – não devem – sobrepor-se à questão política. A começar pela firme denúncia dos ‘off-shores’ – como tem feito, e bem, o BE.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Série Fantasbloco: TRATADO À NOSSA PORTA

7 de Junho : o principio do fim ?..

“Não basta começar bem, não adianta mediar bem; de pouco servem bons começos e melhores meios, se os fins não se mostram bem sucedidos.”
( Mateo Alemán, in “Guzmán de Alfarache” )

segunda-feira, 25 de maio de 2009