Ironias da HistóriaO ousado descaramento com que agora se culpam os Estados do descalabro financeiro e se mesclam interesses num amalgamado ‘nós’ a puxar ao oportunismo nacionalista, merece ainda, a fechar estes breves comentários sobre equívocos e falsidades que se acobertam sob a capa de evidências ou verdades do senso comum, uma última nota.
Apesar de tudo parecer já ter sido dito sobre o papel contraditório que coube ao Estado assumir na actual crise – primeiro como salvador de um sistema à beira da catástrofe, depois, quase envergonhado, alvo de ataques incontidos por haver gasto ‘em aventuras desnecessárias’ (!) recursos que, afinal, não dispunha – há um aspecto que, a meu ver, não tem sido devidamente destacado. Refiro-me ao facto surpreendente – e algo irónico – de o capitalismo ter sido salvo da sua mais que certa derrocada, em boa medida (ainda que sem uma contabilidade rigorosa) pela ‘mão (quase) invisível’ de um país que, a despeito de todas as incoerências, continua a proclamar-se ‘comunista’!
Com efeito, se ‘esta’ China não existisse ou não tivesse actuado, antes e depois da eclosão da crise, comercial e financeiramente, comprando os produtos e as dívidas dos países capitalistas desenvolvidos, nomeadamente dos EUA, do Japão e da Alemanha, a sucessão de acontecimentos que culminou no Verão de 2008 naquilo que ficou conhecido pela ‘crise do sub-prime’ teria muito previsivelmente precipitado a derrocada do capitalismo, ter-se-ia assistido primeiro ao ‘salve-se quem puder’ – cada país empenhado em defender os seus interesses próprios – e, por fim, ao caos completo.
Ora, o que de objectivo se pode apurar é que tal só foi possível concretizar não pela discutível natureza do seu regime (dito comunista), mas por dispor de um Estado centralizado e forte (um trunfo que se revelou essencial – à parte juízos políticos sobre o seu carácter totalitário! – para gerir e suster os efeitos da crise), capaz, pela dimensão e peso relativo do país na cena internacional, de influenciar as trocas comerciais e alavancar recursos bastantes para ocorrer aos principais focos de perturbação mundiais, tanto de natureza económica como financeira.
Entretanto, a ‘saúde económica’ que se diz bafejar a Alemanha – exibindo enormes vantagens competitivas, assentes na diferenciação tecnológica e organizativa, que lhe permitem ditar no seio da UE, em seu benefício exclusivo, as regras e os tempos de resposta à crise – ameaça esboroar-se, em breve, perante o avanço alucinante que, nesse domínio, a China (e não só) tem vindo a imprimir em todos os sectores económicos. Depois de, na última década, ter arrasado o têxtil e dominado a electrónica, está já a avançar para o assalto final sobre o automóvel, a aeronáutica,...
As transferências de tecnologia – por deslocalização de empresas ou por contrapartida negocial aos apoios concedidos – são mais uma consequência na lógica desta globalização comandada pelo capital financeiro e onde, paradoxalmente (ou talvez não), a China ‘comunista’ adquiriu um poder incontestado. Mercedes e BM’s (ou equiparáveis) importados da China a preços das ‘lojas chinesas’? A Alemanha que se cuide, pois. Breve, breve, irá chegar a sua hora,... quero eu dizer, a dos seus trabalhadores!
Mas se a Alemanha consegue apresentar, por enquanto, uma aparente unidade de interesses entre capital e trabalho, mercê do seu histórico avanço tecnológico, entre nós o aprofundamento da crise tem servido – estranha ironia – para finalmente se exporem, em perspectiva e dimensão mais próximas da realidade, as gritantes disparidades que atravessam a estrutura social portuguesa, tornando cada dia mais ridículo o discurso de um pretenso destino comum ou colectivo – como se não existissem classes e estas não traduzissem realidades sociais bem distintas. Pois que dizer então da ultrajante insistência com que políticos, empresários e comentadores (os mesmos do costume) pretendem amalgamar o jogo de interesses contraditórios numa estranha toada de pendor nacionalista, sempre que se preparam para impor ao país medidas de maior austeridade, que no final apenas sobrecarregam os mais desfavorecidos?







































