terça-feira, 25 de novembro de 2008

Do mercado livre ao mercado vigiado: Regulação independente, regulação policial...

Um dos temas de que mais se houve falar por estes dias de crise – e seguramente se ouvirá ainda por muito tempo – é o da regulação (já por diversas vezes aqui abordado, enquadrado no funcionamento do mercado). A regulação como explicação para a crise; a regulação como solução para a crise.

No primeiro caso – a regulação como explicação para a crise – do que realmente se fala é da falta dela, por inexistência ou incompetência dos reguladores, o que, na opinião generalizadamente difundida, significa que se ela existisse ou tivesse funcionado, teria sido possível evitar a ocorrência daquela (ou, pelo menos, a dimensão atingida). Opinião que, diga-se, ficará sempre por provar, até porque não é possível antecipar ou conjecturar as formas concretas que as crises adoptarão perante eventuais cenários de desenvolvimento do sistema, caso existam os ditos reguladores e a sua actuação seja tida como exemplar. Ou seja, sabido que as crises são indissociáveis do mercado, a pergunta obrigatória que, para já, fica sem resposta é não só perceber qual o tipo e a dimensão que, em tais circunstâncias, essas manifestações poderão então assumir, como sobretudo por quanto tempo mais se espera poder aguentar, com mais ou menos regulação, um sistema cuja natureza própria é obter o máximo lucro através da valorização constante da mercadoria. Com a panóplia de efeitos dramáticos e perversões conhecidas. Que, já o provou, em desespero de causa não olha a meios para sobreviver – e sobreviver, neste caso, significa conseguir manter aberta a torneira da mais-valia de forma permanente e crescente, recorrendo ao todos os expedientes (predação cega de recursos, precariedade laboral, deslocalização de empresas, privatização dos últimos resquícios de serviços rentáveis,...).

O segundo caso – a regulação como solução para a crise – surge então como a grande tábua de salvação do sistema, que vê nela a forma de, mudando algumas regras, poder conservar ou mesmo consolidar o essencial. Neste sentido, as alternativas que se apresentam podem ir das simples alterações de cosmética ao que já existe (regulação de fachada), a formas mais ou menos aprofundadas e ainda não muito bem especificadas de controle e fiscalização dos mercados (regulação ‘policial’?). Passar-se-á assim, porventura, do ‘mercado livre’ ao ‘mercado vigiado’, com a regulação a exercer funções idênticas às da polícia no caso da segurança. E a questão que então parece dever colocar-se é a de se saber por quanto tempo aceitará o mercado (ou melhor, resistirá a exigência de valorização da mercadoria) ser coarctado por acção externa ao seu próprio funcionamento (por interferência do Estado ou de qualquer regulador) no objectivo básico que prossegue – como o ar que se respira, porque é a sua razão de ser – de maximizar o lucro.

As preocupações centram-se, por enquanto, na natureza e dimensão da crise económica, cujos indicadores todos os dias parecem surpreender mesmo os mais realistas batendo sucessivamente novos mínimos na actividade e sem fim à vista. Mas logo que se começar a falar de soluções destinadas a evitar no futuro o que agora aconteceu – e o tema da ‘regulação’ surgir então como a grande panaceia para os males do mercado – irá assistir-se ao curioso confronto ‘regulação–intervenção’, com o propósito assumido de se construir um modelo de regulação independente, por forma a proteger-se a economia do nefando intervencionismo estatal, reeditando a velha discussão em torno da capacidade do Estado em intervir na economia.

Ora o certo é que ninguém conseguirá dizer nem distinguir onde acaba a regulação e começa a intervenção (ou será o contrário?). É que, em bom rigor, mais regulação já significa, só por si, mais intervenção. Neste contexto, regulação equivale mesmo a intervenção. Desde logo pelo simples facto de competir ao Estado (ou aos órgãos públicos investidos da devida legitimidade) a normatização, promoção e fiscalização do modelo de regulação que vier a ser adoptado.

Incapaz de aceitar a falência do modelo responsável pela presente hecatombe, a ideologia neoliberal passará a adoptar, tacticamente, o dito propósito de uma pretensa independência da regulação. O esforço para recuperar a hegemonia agora abalada pela inclemência da dura realidade, pode passar então pela tentativa de centrar o debate nessa bizantina questão de se saber onde acaba a intervenção e começa a regulação (ou será o contrário?), na expectativa de minar a última réstia de credibilidade que assista a esta, na certeza de, por esse meio, neutralizar a acção do Estado, de voltar a contar com a sua total complacência, com ou sem reguladores.

Como quer que seja, seguramente que a ‘independência do regulador’ irá ser, sem dúvida de forma obtusa e necessariamente equívoca, um dos temas centrais dos próximos debates sobre as soluções para a crise actual.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

A insustentável leveza do ser de Cavaco Silva ...

O senhor Presidente da República entendeu esclarecer os Portugueses que (de)tem «a gestão das suas poupanças entregues a quatro bancos portugueses – incluindo o BPN, desde 2000 – conforme consta, discriminado em detalhe, na Declaração de Património e Rendimentos entregue no Tribunal Constitucional, a qual pode ser consultada».
Porém, para mim, enquanto cidadão, é-me perfeitamente irrelevante e totalmente indiferente saber em que Banco, ou em que Bancos o senhor Aníbal Cavaco Silva (de)tem ou não (de)tem contas ...
Para mim, enquanto cidadão, o que exijo é que o senhor Presidente da República (em)preste respostas políticas quando - como agora, e no caso do Conselheiro Manuel Dias Loureiro (MDL) – estão em causa, questões de ordem eminentemente políticas …
Porquê ?
Porque a designação de MDL para Conselheiro de Estado foi uma escolha pessoal e política de Cavaco Silva e como tal, em meu entender, não será de muito bom tom que o Presidente da República se “escude” em questões processuais para não tomar decisões de ordem política …
Para mim, esta atitude de Cavaco Silva terá que ser balizada e, infelizmente, tem nome :
- trata-se de cobardia política …

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Dias Loureiro = clareza e transparência ...

Hoje, no Dia Mundial da Televisão, a RTP1, talvez no sentido de comemorar a efeméride, e com grande sentido de Estado (?), teve um convidado surpresa, mas de honra :
o Dr. Manuel Dias Loureiro (MDL).
Gostei, sobretudo, daquela parte da entrevista em que MDL, algo solenemente, proclamou :
- “ … uma das melhores coisas da vida é ser claro e transparente “
Tocou-me fundo, bem fundo, a fluência discursiva de MDL.
Só tenho pena, que MDL, qual homem de mil ofícios, não tenha requisitado um “adereço” que, na circunstância, lhe assentaria que nem ginjas : - umas asinhas de anjo …
Ora, depois desta oportuna entrevista, superiormente conduzida pela D. Judite de Sousa, só tenho que estar grato, muito grato a Manuel Dias Loureiro :
- eu, pela minha parte, voltei a acreditar no Pai Natal !!!

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

BPN : a Justiça vai funcionar ?..

Depois de tudo quanto, nestes últimos tempos e em relação ao BPN, foi visto, dito e escrito, hoje, finalmente, houve lugar à primeira detenção
Ora, se neste caso, do BPN, ocorrer o mesmo que vem acontecendo com a operação Fair-play, em que as detenções são operadas às “mijinhas”, aguarda-se, assim e por isso, com natural expectativa, quem pode(rá) ser o próximo detido, ou quem sabe (?) os próximos detidos …

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

WEO 2008 - Relatório da Agência Internacional de Energia

No passado dia 12 de Novembro, a Agência Internacional de Energia (AIE – organização intergovernamental dependente da OCDE, mundo industrializado, portanto) publicou o seu relatório anual sobre as perspectivas mundiais relativas à energia (World Energy Outlook 2008 – aqui Sumário Executivo em inglês).
Este relatório marca um ponto de viragem na posição da AIE, habitualmente muito conservadora (leia-se, optimista) nas suas projecções, embora o relatório de 2007 já alertasse para os desafios do impacto da China e Índia.
Até aqui, os modelos da AIE calculavam as necessidades energéticas mundiais (procura) e assumiam que a indústria envidaria todos os esforços para responder do lado da oferta, e estava o problema resolvido, como se não houvesse qualquer limite geológico. Esta lógica deriva de uma crença cega - a ideologia do crescimento - que se recusa a constatar a evidência da finitude dos recursos naturais. Claro que deriva também da necessidade de não contrariar em demasia o seu “patrão”, “dono” de um sistema capitalista voraz por recursos, muito menos nesta altura de crise! Daí uma certa esquizofrenia.
A AIE vem admitir, finalmente, que os actuais padrões de consumo são insustentáveis. São insustentáveis porque a análise que fez de cerca de 800 poços de petróleo em exploração revelam já taxas de declínio da produção significativas (entre os 6 e os 9% ano, bem mais do que o admitido até há pouco), bem como porque continuar o “business as usual” em termos de consumo energético baseado em combustíveis fósseis conduzir-nos-á a um aumento médio das temperaturas globais que poderão atingir os 6º C até final do século, o que poderia ameaçar a própria existência da espécie humana à face da Terra! Esta admissão é bastante significativa! No entanto, a esquizofrenia revela-se na medida em que este “pormenor” é rapidamente esquecido e a AIE volta, ela própria, ao “business as usual”, garantindo que há petróleo para satisfazer uma procura de 106 milhões de barris/dia (mbd) em 2030 se forem realizados os investimentos necessários (cerca de 350 mil milhões de dólares ano até 2030 - total acumulado de $8.4 biliões - 10^12 - em dólares de2007). Muitos analistas consideram estas projecções totalmente irrealistas uma vez que estimam que seriam necessárias 6 “novas” Arábias Sauditas para fornecer a diferença entre o consumo estimado até 2030 face à produção actual (cerca de 86 mbd) bem como para substituir a produção de petróleo dos actuais poços em declínio.
A actual crise económico-financeira (dificuldades de financiamento e baixa conjuntural do preço do petróleo) está já a compromenter, a suspender mesmo, investimentos em nova exploração com impacto na produção a breve prazo.
Tirem as vossas conclusões sobre o que aí vem, à luz dos acontecimentos ocorridos este ano: “lock-outs” de camionistas, aumentos dos preços dos alimentos, etc.
Como diz um analista, não se espera que a AIE desate a gritar que o "teatro está a arder!", mesmo quando é o caso. É por isso que o conhecimento geral destes problemas se torna tão importante. O que está em causa é vital!

terça-feira, 18 de novembro de 2008

A razão de ser do meu "descontentamento" ...

Enquanto o jornal britânico "Financial Times" (FT) considera Teixeira dos Santos o pior dos ministros das Finanças da União Europeia, por cá, o filho de Belmiro de Azevedo, Paulo Azevedo, em entrevista ao Jornal de Negócios, dá nota positiva ao primeiro ministro José Sócrates…
Enfim, triste sina esta, a minha, de ser Português, Português nascido nos Açores, quando, por lá, no estrangeiro, se diz o óbvio do responsável das finanças, o ministro Teixeira dos Santos, por aqui, por cá, um patrão ( isso mesmo : p-a-t-r-ã-o) elogia o Governo, este Governo que tem como suporte um partido que se diz "socialista" ...
PS - entretanto, Manuela Ferreira Leite falou; interrogou-se, a outra senhora, se não será, mesmo, necessário interromper a democracia, aí, digamos, por uns seis meses, a ver se tudo "isso" não fica na ordem ...

Então, tenho ou não boas razões para o meu "descontentamento" ?..

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

China e Macau : Ciclo de Conferências do Observatório da China ...

O José Sousa, aqui, do Quebrar sem Partir, é um dos Conferencistas do "Ciclo - China e Macau", organizado pelo Observatório da China.
Proferirá uma Conferência sobre «Os dois gigantes asiáticos e o novo aeroporto»
É dia 21 de Novembro, pelas 18h30m, no Museu República e Resistência ( Espaço Universitário - Rua Alberto Sousa, 10 - A - Zona B - Rego ).

domingo, 16 de novembro de 2008

“ Prémios Precariedade 2008 “

Numa organização dos Precários Inflexíveis estão em curso as votações para os "Prémios Precariedade 2008".
Exerce o teu direito de voto, votando AQUI

sábado, 15 de novembro de 2008

O bobo e a bandeira

Por uma vez, devo confessar, estou de acordo com Manuel Monteiro. Na sequência do episódio protagonizado por um deputado regional do partido de que é (ainda) presidente, afirmou ele que, depois destes anos todos a aturar as ofensas à República (e, sobretudo, à democracia), a desobediência fanfarrona perante as suas leis, a alarvice mal-educada para com os seus pares políticos, as grosserias destemperadas, as pulhices manhosas, enfim, o mau hálito (pum!) do Jardim – que Jaime Gama denominou, em tempos (outros tempos!) por ‘Bokassa da Madeira’ – não resta senão uma de duas: ou o poder da República actua no sentido de o obrigar a cumprir o que os seus órgãos determinam se aplique a todo o espaço nacional (é o mínimo exigido), ou então, se esse poder se sente fraco de mais para intervir, o único caminho que resta é dar aos madeirenses a independência, já que estes, não obstante a anomalia que tal estado de coisas comporta, parecem satisfeitos com a situação! Quem certamente o não está é o resto do País, obrigado a sofrer o desaforo deste presunçoso e mal-agradecido bigorrilha (feito às custas da democracia, diga-se), sujeito à permanente chantagem canalha e, para cúmulo, a solver-lhe as dívidas contraídas nas obras do regime!

É que se a atitude do deputado PND da Madeira é (justamente) condenável, então que dizer dos comportamentos ‘acima da lei’ a que frequentemente se arroga o direito de ascender o omnipotente Alberto João? Ou das suas reiteradas atitudes intimidatórias, atirando insultos sobre os inimigos políticos, desdenhando dos ‘amigos’ quando dele discordam, classificando tudo o que mexe de fascista ou comunista (na sua mente delirante não há distinção...), e de outras inenarráveis (mesmo em ‘blog’) e aleivosas picardias! E o que é mais irritante é que o faz com aquele sentimento de impunidade e sobranceria, que lhe advém da certeza firmada ao longo de dezenas de anos de desafiante desfaçatez perante a completa inoperância (por vezes, é certo, um mal disfarçado e contranatura conúbio, veja-se os casos dos OE negociados) dos ‘cubanos do Contenente’.

A cena da ‘bandeira nazi’ mereceu vivo e unânime repúdio, as cenas canalhas do Jardim – atentatórias das mais elementares regras democráticas, vexatórias da dignidade dos atingidos – são levadas à conta dos excessos histriónicos do personagem e, por daí se deduzir a sua inimputabilidade, desconsideradas e merecedoras de... sorrisos amarelos (de impotência?). O gesto desajeitado e fora de propósito do deputado do PND serviu, no entanto, para chamar a atenção, mais uma vez, para uma situação que todos consideram democraticamente insustentável, mas que nenhum poder democrático se atreveu, até agora, a afrontar – ou sequer contrariar (porventura por receio (?) da habitual escalada alarve e chantagista), para além de algumas muito veladas críticas e inócuas posições.

Posições mesmo a jeito do Jardim – rematará, ufano, o Alberto João!

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Hoje, é o Dia Mundial da Diabetes …

A OMS-Organização Mundial da Saúde, não se cansa de advertir que uma má alimentação e a obesidade são dois dos factores que contribuem para a Doença dos Diabetes, que surge quando o pâncreas não produz insulina suficiente ou, então, quando o nosso corpo não pode utilizar de forma efectiva a insulina. O açúcar no sangue é um efeito comum da diabetes, doença que com o decorrer do tempo provoca graves danos e muitos órgãos do corpo humano.
Ainda e segundo a OMS, a Diabetes é responsável por cerca de cinco por cento das mortes anuais no Mundo e poderá afectar 500 milhões de pessoas em 2030 se, entretanto e no imediato, não forem tomadas medidas adequadas na prevenção e combate à doença.
Em Portugal, e segundo a APDP-Associação Protectora dos Diabéticos de Portugal, existem entre 400 a 500 mil diabéticos.
O Dia Mundial da Diabetes é assinalado hoje, a 14 de Novembro, data do nascimento de Frederick Banting, que, juntamente com Charles Best, teve um papel determinante na descoberta da insulina em 1922, uma hormona que permite tratar os diabéticos e salvar-lhes a vida.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

“Congresso Internacional Karl Marx”

Não se esqueça : dias 14,15 e 16 de Novembro
( Faculdade de Ciências Sociais e Humanas - UNL )
Entrada Grátis

A presente crise financeira e económica do capitalismo global iniciada nos EUA, a mais grave desde o crash de 1929, recoloca a pertinência das abordagens marxistas sobre a economia, a sociedade, as ideologias e a política nas sociedades capitalistas. Talvez por isso se registou uma tão significativa adesão de contributos: comunicações que analisam os marxismo enquanto instrumentos de interpretação e transformação do tempo presente, e comunicações que, reivindicando-se de alguma forma nas tradições marxistas, se debruçam sobre problemáticas discutidas no âmbito das ciências sociais e humanas.

domingo, 9 de novembro de 2008

As explicações da crise - II

A máquina trituradora

A primeira nota distintiva com que os liberais (incluindo os ‘neo’) apreciam diferenciar-se diz respeito à importância decisiva que atribuem à autonomia do indivíduo e, daí, ao seu desenvolvimento livre de condicionamentos atrofiantes e tutelas asfixiantes. Mostram-se mesmo particularmente severos perante as ameaças que decorrem da sua menorização, quando não mesmo do seu esmagamento, diante do poder do Estado, bastas vezes apodado de verdadeira máquina trituradora das capacidades pessoais e invasora da esfera privada de cada indivíduo, castrador do seu génio criativo, inventivo e ambicioso – como se comprazem em proclamar!

Advogam por isso a teoria do Estado mínimo, reduzido àquelas funções tidas como indispensáveis para garantir a liberdade dos indivíduos em sociedade – legislativa, judicial, segurança (interna e externa), fiscal – excluindo-se quaisquer outras (as sociais, por ex.) que possam influenciar ou pôr em causa o seu espontâneo desenvolvimento. Daí o papel atribuído ao ‘mercado livre’, enquanto regulador automático, supostamente neutro e, se liberto de condições, imune à influência sempre nefasta de interferências externas, porque desviantes da norma que melhor garante decisões optimizadas.

Refira-se desde já e para que não restem dúvidas que o desempenho histórico do Estado explica e justifica, em parte, as visões críticas do seu papel. Na esmagadora maioria das vezes, o Estado arrecada os impostos de todos e, na volta, enreda-os em burocracias, devolve-lhes escassos serviços básicos (quase sempre deixando muito a desejar), faz-se desfrutar (qual meretriz bíblica) pelos arrivistas do costume. Mas o que a actual crise demonstrou está longe de implicar o Estado na sua génese (não obstante algumas tentativas grotescas nesse sentido!), bem pelo contrário. Na hora da aflição o que se viu e se assistiu foi à intervenção maciça do Estado na actividade económica, em resposta ao mais lancinante e descarado apelo dos seus principais detractores implorando a sua protecção, para salvação do sistema – em nome da salvação colectiva!

Ora, o que mais importa aqui acentuar é que em todo este processo que redundou na mais grave crise capitalista de que há memória, não há inocentes, não há bons e maus gestores: de um lado os honestos cumpridores das normas, do outro os prevaricadores e fraudulentos, venais e corruptos, dispostos a lançarem mão dos mais baixos expedientes para atingirem os seus fins. Não. Estas situações assentam num padrão comum de comportamento implantado pela tecnocracia neoliberal (a ‘classe’ dos gestores) e são, acima de tudo, o resultado histórico de um processo de interligação dialéctica entre três momentos simultâneos, aqui dissecados apenas para efeitos de análise:

– O momento teórico, em que se defende – e consegue – que o mercado ascenda, no plano económico, ao estatuto que a democracia detém, no plano político. O mercado corresponderia então à mais evoluída forma social de regulação económica, tanto mais perfeita quanto mais liberta de condicionamentos. Mercado e democracia passam, assim, a constituir o suporte institucional básico e indissociável das ‘modernas sociedades de consumo’.
– O momento ideológico, em que a adopção fervorosa deste quadro teórico gera a percepção de que só o ‘mercado livre’ – leia-se, desregulado – tem capacidade para impulsionar a criatividade e gerar progresso, dando lugar a um novo extremismo ideológico, o fundamentalismo de mercado, que tritura e afasta quem a ele se tentar opor e que, por isso, passa a actuar como um autêntico colete de forças sobre os agentes do sistema (os gestores, em primeiro lugar).
– O momento das aplicações práticas, em que uma criativa e muito imaginativa dinâmica interpretativa do mercado toma conta da gestão económica, deixando meio mundo inebriado com os feitos alcançados em termos de progresso tecnológico (se bem que a origem do actual ‘boom’ remonte aos anos 70, em Silicon Valley, antes, pois, da onda liberal vingar) e de ardilosas ‘engenharias’ financeiras (as múltiplas formas engenhosas de ‘fazer dinheiro’!). O outro meio mundo, diga-se, ou não se apercebe ou desconfia – e com razão – de tanta fartura. Com os resultados agora à vista!

O que importa então acentuar é que ‘este tipo’ de fraudes e de corrupção acontece não por razões unicamente derivadas dos aspectos pessoais e psicológicos dos seus intervenientes, mas pelo contrário é o próprio sistema que a isso induz. A verdadeira máquina trituradora das capacidades do indivíduo não está, pois, no Estado, mas antes num sistema que lhe confisca a honestidade, coarcta a liberdade e o impede de qualquer desvio às normas do mercado por que se rege!
É, pois, sobre o sistema e o modelo que o sustenta – o modelo mercantil – que devem incidir todos os esforços na busca de soluções alternativas.

sábado, 8 de novembro de 2008

E hoje, quem foi “escalada” como Ministra da Propaganda ?..

Hoje, mais de 120.000 professores concentraram-se e desfilaram em Lisboa, naquela que foi a maior Manifestação de sempre, contra a recusa da “Avaliação Burocrática do Desempenho” que a Ministra da Educação, Maria de Lourdes Rodrigues, teimosamente pretende levar a efeito…
A Ministra, esta, tem-se desdobrado, ao longo desta noite e em todas as Televisões, em múltiplas entrevistas/comícios na vã tentativa de “desvalorizar” a substância desta monumental censura ao governo e à sua política de educação.
Para Maria de Lourdes Rodrigues que, hoje, teve o azar de ser a Ministra escalada para o “tratamento” da Propaganda, a questão é, afinal, muito simples quanto aos protestos :

- “... não são expressão de argumentos, são estados de alma”

Considerando que, pelos vistos, Maria de Lourdes Rodrigues não consegue perceber o óbvio, até quando, obviamente, será Ministra ?..

As explicações da crise - I

O dilema imposto pelas regras do mercado

Inconformados com o descalabro para onde as suas teorias arrastaram o mundo, os neoliberais procuram a todo o transe encontrar explicações e bodes expiatórios para ilibar o modelo social que têm formatado nas suas cabeças e que utilizam para ver e analisar as sociedades, catalogar a realidade, avaliar as pessoas. De acordo com eles, o que aconteceu ficou então a dever-se a duas ordens de razões: por um lado, aos desvios de carácter ou à má-formação moral dos gestores ‘apanhados’ na situação, por outro, às falhas (nalguns casos, ausência) dos mecanismos de supervisão, falhas invariavelmente atribuídas a erros humanos. Em suma, o modelo é bom, o que falhou foram as pessoas incumbidas de o aplicar. Explicações moralistas e muito pouco objectivas: a única objectividade reside nos números ‘manipulados’, obrigados a dizerem o que essas suas teorias lhes exigem que digam!

Já não é a primeira vez que aqui abordo e falo sobre este tema, mas o sentimento de impunidade que a insistência neste tipo de explicações revela, obriga-me a voltar a ele. Parece fácil, agora, culpar os gestores dos bancos pelas decisões tomadas, norteadas essencialmente por objectivos de curto prazo – o lucro imediato – mas o certo é que, individualmente considerados, nenhum tinha hipótese de proceder de modo muito diferente, sem correr riscos pessoais. Assim o ditava o dilema imposto pelas regras do mercado: ou se sujeitavam a elas, ou o próprio mercado se encarregaria de afastar quem as não cumprisse, dando lugar a outros... dispostos a acatá-las.

Se, do ponto de vista ético, não é de todo indiferente o comportamento individual dos gestores envolvidos (as diferenças pessoais são sempre relevantes, ocasionando apreciações distintas, por vezes mesmo opostas, no plano profissional e no da ética), do ponto de vista social o resultado objectivo seria sempre o mesmo: a crise, como inevitável epílogo das regras ditadas pelo mercado que, pelo caminho, se encarregaria de triturar quem se atrevesse a não as respeitar.

Não foram seguramente as características do carácter ou as eventuais perversões de um determinado grupo de pessoas (todas elas, afinal, muito respeitáveis, na esmagadora maioria religiosas até, de missa ao domingo e confissão pascal!) que mais contribuíram para o regabofe em que de repente pareceu transformar-se o capitalismo, foi antes o colete de forças do sistema que assim o determinou. Colocados perante tal enquadramento e considerando o comportamento estabelecido para o desempenho da função, a esses gestores pouco restava de margem de manobra nas escolhas possíveis. Como adiante se tentará melhor demonstrar (cf. A máquina trituradora).

Mesmo o facto de a situação apresentar gravidade diferente de instituição para instituição, apenas traduz a maior ou menor criatividade de cada uma delas e reforça as características distintivas do sistema: em períodos de expansão sobressaem e ganham as mais criativas, em períodos de crise, como o actual,...... nenhuma ganha (nem sequer as mais ‘conservadoras’, como se comprova pelo carácter genérico das medidas adoptadas).

O pandemónio actual é, assim, produto primeiro do sistema e não o resultado de comportamentos maníacos ou depravados... por muito que estes pesem – e pesam – nas contas finais.

Change. Yes, we can …

Pedro Silva Pereira (PSP), ex-militante do PSD, foi, ontem, o Ministro escalado para “tratar” da Propaganda do Governo.
Coube-lhe em sorte comentar (?) o facto da Drª. Manuela Ferreira Leite ter mudado de opinião quanto à avaliação dos Professores uma vez que, outrora, a actual Presidente do seu ex-partido, havia alinhado com as posições “socráticas”…
A PSP saiu-lhe o tiro pela culatra, pois bem lhe poderia ter calhado outro dia para ser o Ministro “escalado” para tratar da Propaganda do Governo.
Teve azar (?) o “sósia” de José Sócrates dado que, logo ontem e na Assembleia da Republica, foi votado o novo Código do Trabalho, votando o PS, agora e desta feita, contra tudo o que havia defendido antes.
Votaram contra as bancadas parlamentares do Bloco de Esquerda, do PCP e dos Verdes, os deputados do PS Manuel Alegre, Teresa Portugal, Júlia Caré, Eugénia Alho e Matilde Sousa Franco e dois deputados do MPT que integram a bancada do PSD, Carloto Marques e Pedro Quartim Graça. Os deputados do PSD e do CDS-PP, estes, abstiveram-se.
Há dias, assim, azarados ...
E, não fora as enormes pressões, as "negociações" do Governo junto da bancada do PS, o número dos "insurrectos" bem poderia ser diferente; para mais e pior ...
Change. Yes,we can …

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

O Plano de "Salvamento" Bancário Alemão

Veja-se a diferença entre o nosso governo "socialista" e o governo alemão, de "direita",...Trata-se acima de tudo, a meu ver, de pura decência e responsabilidade na gestão da coisa pública!


«The government's 500 billion-euro rescue plan, announced Oct. 13 and passed by parliament four days later, comes with strings. It not only requires that the state be granted a stake in banks that apply for funds, as in the U.K, it also makes financial institutions cap manager pay at 500,000 euros, relinquish bonuses, abandon businesses the state decides are risky, and pay dividends only into the state-run fund.» Fonte : Bloomberg

Ou seja, em troca dos 500 mil milhões de euros para apoio à banca, o governo alemão exige não só uma participação no capital, como impõe um tecto salarial para os gestores de 500.000€ (quando anteriormente eram normais salários de 2-3 milhões) e a perda de bónus; o Estado dispõe também da prerrogativa de vetar negócios que considere arriscados e impõe ainda o pagamento de dividendos apenas para um fundo gerido pelo Estado.

«has all but abandoned a goal to balance the budget» - Além disso, o governo alemão mandou às urtigas o cumprimento do défice!

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Justiça : porque é que a "coisa" não anda ?..

Com muita perplexidade e natural preocupação leio, atónito, este artigo de Paulo Morais – ex-vereador da Câmara Municipal do Porto, da gestão Rui Rio - que, pura e simplesmente, (re)clama por Justiça.
O artigo merece, naturalmente e em meu entender, ser lido com toda a atenção, considerando que Paulo Morais não pode, na circunstância e de todo, ser mais claro e cristalino quando refere :
“ …quem, como eu, conhece as teias que a corrupção tece neste domínio tem o direito e o dever de identificar os casos, os responsáveis e os culpados. Assim, ao longo de anos, venho carreando para o sistema de Justiça documentos que atestam os crimes, os actores políticos envolvidos e os empresários que tentam (ou conseguem) corrompê-los. Venho ainda explicando de forma detalhada como se urde esta malha, quais as conexões entre Administração Central e Local, por um lado, partidos políticos e interesses económicos, por outro”
Fico muito mais perplexo e claramente muitíssimo mais preocupado quando, e pela leitura do artigo, fico a saber que :
“…estas são hoje as formas mais sistemáticas de transferência da riqueza que é de todos para as mãos de alguns, tornando os ricos cada vez mais ricos à custa de pobres cada vez mais pobres.
Volvido todo este tempo - após inúmeros depoimentos no Ministério Público, em Lisboa, no Porto, na Polícia Judiciária - penso que é tempo de clamar por justiça. Já o fiz nos locais próprios. Tomo agora a iniciativa de o fazer publicamente.
Por ora, em meu nome, e por imperativo de cidadania, peço justiça.

Mais: em nome de todos quantos empobrecem à mercê destas máfias que nos dominam, exijo-a.”
Ora, considerando todo o manancial de informações "ofertadas", do que estará, ainda e agora, à espera a Procuradoria Geral da Republica ?

Então, e por tudo isso, não será legítimo perguntar :

- porque é que a "coisa" não anda ?..



quarta-feira, 5 de novembro de 2008

A propósito de uma vitória há muito desejada

Ao contrário provavelmente da maioria, a vitória de Obama nas presidenciais americanas não me suscita, para já, especial entusiasmo. De certo modo, reajo como os mercados bolsistas: já tinha ‘descontado’, há muito, o principal efeito positivo desta eleição (fosse qual fosse o vencedor...), o aguardado e inevitável afastamento de Bush e do bando mais ‘negro’ (no sentido de nefasto, claro) da história recente dos EUA (com Reagan ainda não eram bem conhecidos, na sua totalidade, os efeitos das políticas que protagonizou!).

Agora é tempo de ‘cobrar’ do candidato eleito, pelo menos algumas das mais emblemáticas promessas eleitorais feitas ao longo da campanha: nos domínios da guerra imperial, dos direitos humanos a nível interno, da aceitação de um mundo multipolar, do consequente multilateralismo nas relações internacionais, da protecção do ambiente, da reorganização do modelo social norte-americano e, em especial, do seu sistema de saúde,...

Mas aqui desconfio que nos estão reservadas algumas surpresas. Seguramente nem todas agradáveis. Mas vamos esperar para ver...

As expectativas criadas por esta eleição, dentro e fora de portas, foram – estão a ser – enormes. O momento não podia ser mais propício à mudança anunciada. Que tem na longa experiência comunitária na resolução de dificuldades sociais do presidente agora eleito, um trunfo que pode vir a revelar-se decisivo. Para já, seguro, seguro, ‘apenas’ o inegável efeito positivo – de influência essencialmente psicológica mas que pode vir a revelar-se decisivo para o futuro – que traduz o facto de um negro ter ascendido à liderança do supremo sistema de poder do mundo. O que não é coisa pouca!

"Congresso Internacional Karl Marx"

Dias 14, 15 e 16 de Novembro, na Universidade Nova de Lisboa

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Caso BPN : já, alguém, foi preso ?..

Não deixa de ser curioso, curiosíssimo …
Faz tempo, algum tempo, e muito antes de Miguel Cadilhe ter assumido a Presidência, um grupo de colaboradores entregou, formalmente e a quem de direito, à Procuradoria Geral da Republica, um extenso dossier com um rol de irregularidades pretensamente exercidas pela Administração do BPN.
Porém, ainda a semana passada, não havia quaisquer problemas com o BPN.
E, agora, esta semana e depois da nacionalização do Banco :
- já, alguém, foi preso ?..

Derrubar o muro das ideias feitas

Já se sabia que era assim, mas agora tornou-se mais evidente, porque muito presente e... condicionante. O principal obstáculo com que a esquerda depara na formulação e apresentação de alternativas, seja em termos de soluções para os problemas concretos, seja (de uma forma mais global e radical) ao próprio modelo actual de organização social encontra-se, antes de mais e acima de tudo, nos bloqueios de natureza psicossocial. Que se traduzem por múltiplas formas, desde a muito difusa mas eficaz coacção social (exercida subtilmente pelos diferentes mecanismos de integração social, da religião aos meios de comunicação) à própria auto-censura, das mais sofisticadas às que exploram os instintos mais primários. Que começam, como não podia deixar de ser, ao nível das estruturas mentais e das mentalidades. Ardilosamente manipuladas por especialistas na condução das massas (psicólogos sociais,...) e na venda de produtos, quaisquer que eles sejam (técnicos de marketing,...), ao serviço de campanhas devidamente programadas e com objectivos definidos.

Os exemplos sucedem-se e dão que pensar: de um lado a campanha às presidenciais norte-americanas, do outro a resposta à crise mundial actual. A primeira, já na recta final, regista da parte do candidato republicano, em fase de desespero, a utilização do último grande ‘argumento’ que melhor parece tocar a mentalidade do ‘norte-americano médio’: “Obama é socialista”! O anátema é tão óbvio, o tema tão obsessivamente tabu (para uma sociedade que se pretende liberal, não está nada mal!), que nem o increpante se atreve a pronunciar a execranda e vil palavra do opróbrio, preferindo parafraseá-la. A palavra ‘socialista’ queima os lábios do americano médio!

Ao mesmo tempo, com a crise a correr, a engrossar e a acrescentar milhões sobre cifrões, aquilo que a liberal América repudia de forma explícita, a social Europa atreve-se, por enquanto, ainda e só a insinuar de forma envergonhada e tímida, quase a medo. Medem-se as palavras, evitam-se expressões conotadas (Ah, a neutralidade da ‘ciência económica’!...), sufoca-se sob os traumas e fantasmas do passado. Assiste-se a uma meticulosa operação terminológica para expressar o que se tem como inevitável – a intervenção do Estado na esfera económica – mas por forma a que tal não apareça com o rótulo de... nacionalização,... ou, ainda pior, socialização.

A onda de estatizações (chamemo-lhe então assim) que se adivinha, em especial no sector bancário, ao longo dos próximos meses, começa a suscitar preocupação séria nos sectores liberais, receosos do abalo que as suas posições ideológicas de absoluto domínio do mercado na condução política das sociedades venha a sofrer, pondo em risco toda a lógica que sustenta o poder do actual sistema de relações sociais.

Mas mesmo perante a ruína eminente, as críticas a uma maior intervenção do Estado na actividade económica não esmorecem. Até agora o único aspecto que mudou no discurso neoliberal foi sobre a auto-regulação do mercado. ‘Mudou’? Não, ‘dissimulou’, reservando-se para melhor oportunidade reincidir na desregulação. Aposta-se (sempre o casino!) em que a crise será temporária. Enquanto isso, a arrogante supremacia com que os neoliberais impuseram o seu controle ideológico nos últimos vinte anos, expressa-se agora em contrafeitos esgares a simular sorrisos de superior desdém, que lhes advém da certeza de, muito em breve, não obstante o mundo parecer desmoronar-se debaixo dos emproados narizes, tudo voltar ao que era dantes, com o Estado a servir apenas de capacho, ou quando muito de amortecedor, aos seus desvarios, ou antes, excessos criativos.

Não é fácil, há que reconhecer, a tarefa de penetrar, ou melhor, de derrubar este muro de ideias feitas, sobretudo em período de grandes incertezas sociais e angústias individuais. Na maior parte das vezes, estou em crer que a resposta a esses bloqueios resulta mais do instinto e do traquejo de quem com eles se vê confrontado do que propriamente de uma bem elaborada estratégia racional. Mas é importante tomar consciência da natureza dos obstáculos na construção de alternativas viáveis e eficazes. É que desmantelar o modelo de organização social actual e tentar erguer um outro - procurando que ele seja economicamente mais racional e responsável, socialmente mais inclusivo e ambientalmente mais sustentável - é tarefa árdua a todos os níveis – muito em especial ao nível das mentalidades.

Nota: o episódio da ‘nacionalização’ (ou estatização?) do BPN – ocorrido no dia de finados do corrente ano de 2008 – apenas vem corroborar tudo o que aqui fica dito, sem necessidade de alterar o que quer que seja, num texto escrito antes, portanto, de se saber que tal iria acontecer.
Discute-se já como e quando é que o BPN voltará à 'eficaz' gestão privada!

sábado, 1 de novembro de 2008

A factura da crise

Por estes dias, dias de crise e de natural ansiedade, uma das palavras mais ouvidas é ‘ajustamento’. Sabido que a crise financeira teve a sua origem (?) no desfasamento brutal entre a economia real e o próprio sistema financeiro – estima-se que os activos financeiros em circulação no mundo, entre 1980 e 2006, tenham aumentado cerca de quatro vezes mais (!!!) que o valor do PIB (valores apurados de 130% e 380%, respectivamente) – rebentada a bolha especulativa, afanam-se agora os responsáveis em voltar a fazer corresponder o sistema financeiro à economia real, para o que se torna então necessário proceder a profundos ‘ajustamentos’ estruturais.

Mas quando a teoria tradicional fala em ajustamentos na economia, eles têm sempre o mesmo sentido: trata-se invariavelmente de comprimir salários, confiscar regalias, reduzir benefícios sociais, em suma, de fazer pagar os desvarios especulativos de alguns, por quem não tem absolutamente nada a ver com eles, os trabalhadores (com natural incidência nos menos qualificados e mais mal pagos, por isso mesmo também menos defendidos e mais expostos). A pretexto de se evitar a ‘fuga de capitais’, dada a livre circulação financeira mundial, nunca as grandes fortunas, seguramente as mais (senão mesmo as únicas) beneficiadas, previsivelmente ou com toda a probabilidade as causadoras e responsáveis pelos desajustamentos ocorridos, são importunadas nem afectadas por qualquer medida tendente a repor um mínimo de justiça (aqui apenas a justiça dos tribunais, entenda-se, não a que resulta dos princípios de equidade).

Hoje, ainda a notícia em torno das declarações de um professor universitário norte-americano (não fixei o nome), antigo administrador da Lehmann Brothers. Afirmou ele que o maior erro das autoridades foi terem permitido a falência desta instituição financeira. Não por se tratar especificamente do Lehmann, mas por ser um grande banco de investimento, o que provocou a quebra de confiança e a instauração do medo entre a população. Presumo que, depois deste aviso, não mais algum Estado do mundo globalizado se arriscará a deixar ‘cair’ qualquer banco de referência. Atrevo-me mesmo a considerar impensável, no ponto em que as coisas estão, que tal ocorra com qualquer banco, dado o efeito de contágio que inevitavelmente alastraria sobre todo o sistema. Temos, pois, como muito provável, a intervenção do Estado no sector bancário ao longo dos próximos meses, sob efeito sobretudo das ondas de choque que reverterão, desta feita da economia real, onde os sinais de uma crise profunda começam já a despontar: ao sector imobiliário, em queda livre, segue-se agora o automóvel, a restauração,...

Não é possível ainda prever a dimensão dessa intervenção, mas ela será certamente a necessária e a suficiente para evitar o colapso da economia. Pelo menos nisso o sistema está avisado desde a ‘crise de 29’ e tem vindo a reagir em conformidade. E prepara-se para, como sempre, fazer pagar a factura da crise aos que para ela em nada contribuíram, seja por via dos recursos aplicados nos programas de recuperação das empresas intervencionadas, como sobretudo através das habituais medidas de reanimação da economia – centradas na inevitável desvalorização do trabalho!

É por isso que cada vez se afigura mais premente a exigência de se avançar para formas de controle do sistema financeiro, coordenadas a nível mundial, que permitam, por exemplo, fiscalizar a origem e o destino dos activos financeiros, de cuja proliferação descontrolada resultou o descalabro da situação económica actual. Com consequências ainda impossíveis de determinar, pois a crise apenas agora começou a revelar as suas manifestações perversas, por enquanto ainda muito confinadas à área financeira (o que induz em muita gente a ilusão de poder ficar a ela circunscrita), mas que rápida e inevitavelmente irá contagiar e alastrar à economia real, onde os seus efeitos serão bem mais sentidos pelos que, afinal, em nada contribuíram para a sua eclosão. Se nada entretanto acontecer ou for feito para contrariar a tendência habitual...

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

"O Espectro de Wall Street"

"O Espectro de Wall Street - O crash financeiro e a crise de sobreprodução" é o título da conferência proferida por Francisco Louçã, que também pode ser ouvida aqui. O objectivo desta sessão era apresentar de uma forma simples uma interpretação dos principais factores da crise financeira. Agora, o Bloco editou uma brochura que transcreve a apresentação de Louçã. Leia-a aqui em pdf.
Ler mais...
( Via : www.esquerda.net )

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Paraísos Fiscais



A propósito de debate havido noutro fórum e também na decorrência da crise que se vive, julgo oportuna esta citação:

«A ruptura deu-se com a grande vaga de desregulação financeira que, em cinco anos, entre 1979 e 1984, rebentou todas as barreiras nacionais à circulação de capitais. Enquanto os princípios de transparência e de globalização dos mercados eram protegidos, enquanto a informação financeira explodia em volume e em tecnicidade, o princípio da soberania e da opacidade era deliberadamente reforçado nos paraísos fiscais, ao contrário da ordem do mundo. Na Antígua, por exemplo, os poderes públicos jamais procederam a qualquer recenseamento preciso do número de empresas inscritas no registo do comércio.
Não se trata de um fenómeno natural, independente da nossa vontade. Na sua quase totalidade, estes territórios são antigas feitorias das colónias britânicas, francesas, espanholas, ou holandesas. Desenvolveram-se no nosso seio. São apenas sucursais de Londres, Nova Iorque, Tóquio, Frankfurt ou Paris, onde está o coração da finança. O jogo duplo não é inocente. Como se fosse necessária uma certa opacidade para garantir margens que a transparência devora.
Há alguns anos, o procurador do Condado de Nova Iorque, Robert Morgenthau, denunciou essa hipocrisia a propósito das ilhas Caimão, um dos dez primeiros centros financeiros do planeta. "A opacidade é a palavra mestra. Em matéria de regulamentação, a praça ganha o prémio do laxismo. No entanto, as ilhas Caimão pertencem à Coroa Britânica. O seu governador, tal como o seu ministro da Justiça, são nomeados por Londres. O Reino Unido tem, portanto, o poder de pôr fim ao deixa-andar na sua colónia mas não faz nada. Da mesma maneira, sob o ponto de vista financeiro, o arquipélago é uma dependência norte-americana - na realidade, a maior parte dos bancos offshore das ilhas Caimão é gerida por Wall Street. Washington também pode pôr fim às manigâncias offshore. Mas ninguém se mexe."1
É um desvio do direito, um abuso político cujo preço deverá ser pago pelas gerações futuras.» o futuro é hoje! digo eu!!

1 The New York Times, de 10 de Outubro de 1998

in Est-ce dans ce monde-là que nous voulons vivre? publicado em Portugal pela Editorial Inquérito em 2003

da autora juíza franco-norueguesa Eva Joly - famosa pelo caso Elf.

Quem pense que governantes dos EUA e Reino Unido como Bush, Blair, Gordon Brown, entre outros, são pessoas de bem, talvez seja melhor reconsiderar!

À Esquerda : o que fazer ?..

"(...) A esquerda tem de integrar e debater, no seu pensamento próprio, os princípios e os instrumentos possíveis de regulação da globalização: o combate à predação das multinacionais que localizam e deslocalizam investimentos a seu bel-prazer, a taxação das transacções financeiras internacionais, a abertura dos mercados dos países desenvolvidos às exportações oriundas dos países em vias de desenvolvimento, a travagem da proliferação dos off-shores, o combate à economia 'suja' dos tráficos de pessoas, drogas e dinheiro, o combate à exploração de mão-de-obra infantil, escrava ou sem quaisquer direitos sociais, e à degradação ambiental. (...)"
( Manuel Alegre, em Artigo no DN que merece ser lido AQUI com toda a atenção )

terça-feira, 28 de outubro de 2008

A desigualdade global tem de acabar

Os pobres têm subsidiado os ricos desde há muito tempo. Um maior envolvimento do estado na actividade económica é agora necessário. O mais importante é que o sistema financeiro internacional fracassou em encontrar duas exigências óbvias: prever instabilidades e crises e transferir recursos das economias ricas para as pobres. Ler mais...
Por : Jayati Ghosh, economista indiana.
( Via : esquerda.net )

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Enfrentar a crise: paliativos e alternativas

Nunca como hoje, por efeitos de uma crise que muitos teimam em classificar apenas de financeira, se falou tanto em milhões. Milhões, mil milhões, biliões... Aturdido com tantos cifrões e não fazendo eles parte do seu quotidiano nem das suas preocupações imediatas, o povo desliga e espera, como sempre, que os poderosos, os especialistas ou até o Estado protector resolvam lá esse ‘problema’ para tudo voltar ao que era dantes. É claro que esta demissão colectiva de intervir num assunto que a todos afecta é, em boa medida, a razão da perpetuação dos poderosos, dos especialistas ou do Estado (que afinal os representa) na condução do nosso destino colectivo. As razões para que tal aconteça são múltiplas, mas não é disso que me proponho hoje aqui tratar.

É que a estratégia da esquerda (PC e BE, em especial) no modo como tem abordado as medidas de combate à crise, adoptadas e anunciadas quase em simultâneo pela generalidade dos Estados, não me parece estar a ser a mais adequada. Tanto a nível da eficácia de resultados nos propósitos imediatos, como em termos dos objectivos a longo prazo. Em boa verdade ela tem-se limitado – em conformidade, aliás, com o que tem sido a sua prática de oposição à política de direita do PS – a denunciar aquilo que considera ser um apoio escandaloso para salvar os bancos. Independentemente das boas razões ou mesmo alternativas que, em abono desta denúncia, por norma são avançadas (e têm-no sido habitualmente), a verdade é que esta posição pouco mais que crítica da decisão tomada, nada de significativo acrescenta para uma resolução duradoura do problema.

Por um lado, a contestação a este tipo de medidas não tem condições para se tornar eficaz e pode até demonstrar-se contraproducente: na eminência do sistema bancário soçobrar e com ele desaparecerem as poupanças de milhares de pequenos depositantes, a adopção destas medidas surge inevitável. É bom aqui recordar que a natureza da actividade bancária – ou ‘negócio bancário’ – é diferente de todas as outras, que lhe advém de uma dupla responsabilidade social: a de, por um lado, funcionar essencialmente com o dinheiro dos outros, o de milhares de poupanças dos depósitos de clientes que nada têm a ver (enquanto tal) com o risco do capital dos accionistas; por outro, a função de apoio financeiro ao conjunto da economia, indispensável ao funcionamento normal da sociedade no seu todo. Isto significa que um eventual colapso do sistema bancário (ou a falência de qualquer banco) não prejudica apenas os respectivos banqueiros (incluindo os milhares de pequenos accionistas), mas envolve igualmente os que neles confiaram, entregando-lhes, supostamente para maior segurança e melhor gestão, os depósitos das suas poupanças, bem como a capacidade de reproduzirem riqueza através do apoio às actividades produtivas.

E é exactamente por isso, pelo carácter eminentemente social desta actividade e dos riscos (mais que comprovados pela realidade) de a sua gestão privada tender para se desviar dos propósitos que a devem nortear (com graves ou mesmo irreparáveis danos, directamente para os seus depositantes, indirectamente para toda a sociedade), que mais se justificará agora exigir que o Estado assuma o controle público de todo o sistema financeiro (não só a nível interno, como, de forma coordenada, a nível internacional). Aliás, o maior risco que a esquerda corre ao não avançar mais declaradamente para uma exigência política que, longe de quaisquer traumas ou complexos históricos, corresponde a uma necessidade social e faz parte da sua herança cultural, é vir a ser ultrapassada pela própria realidade.
Sintomático o agitado afã de Sarkozy neste domínio específico!

Hoje, depois da hecatombe que não pára de agravar-se todos os dias, já ninguém duvida que alguma coisa vai ter de mudar, em especial na área financeira. O que ainda não é claro é qual a dimensão e sobretudo a natureza dessa mudança. E se, até agora, o sistema se tem resumido a injectar cada vez mais milhões (?) sobre os inúmeros e crescentes buracos da crise – na expectativa de que, mudando alguma coisa, o essencial fique na mesma – à esquerda compete, a meu ver, contribuir para tornar claras as verdadeiras opções que neste momento se colocam às sociedades – em termos de alternativas ao sistema capitalista que as tem (des)governado!

Estatuto dos Açores : hoje, o dia "D" ...

Hoje, termina o prazo para o Presidente da República prumulgar ou vetar o Estatuto Político-Administrativo dos Açores.
Aguarda-se, assim e com natural expectativa (?), a decisão de Sua Excelência sendo que, e desta feita, não foi tão "lesto" como em outras ocasiões e assuntos; porque será ?..

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Até quando ?..

Surgiu mais um estudo sobre Educação Sexual nas escolas por parte da associação para o planeamento familiar (APF) e o Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Este revela que quase metade (48 por cento) dos jovens tem conhecimentos considerados insuficientes sobre os locais onde podem adquirir contraceptivos. A Educação Sexual nas escolas está legislada há décadas, contudo esta questão contínua no papel. A irresponsabilidade, a insensatez e a inconsciência educativa do Ministério da educação tem sido notória, estando este calado perante os factos completamente à vista. Ler mais...
(Via : Esquerda.net)

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Excertos de uma entrevista

Ainda (muito) a tempo de aqui trazer, dada a pertinência do assunto e o mérito da abordagem, extractos de uma longa e notável entrevista – tanto pelo entrevistado, José Saramago, como pela entrevistadora, Pilar del Rio – saída no Expresso (revista Única) de 11 de Out.08. Ela, Pilar, que fez questão, logo no início, de deixar claro que não se resumiria a pôr questões, mas que opinaria também, o que tornou esta entrevista mais numa análise ou comentário de ambos sobre alguns dos temas mais em evidência na actualidade. Numa estrutura em que Pilar avançava com as deixas, deixando para Saramago mais o respectivo desenvolvimento, por vezes num motivador confronto das ideias expostas por cada um.

Como aconteceu, por exemplo, a propósito da crise mundial, que começou por financeira e agora cada vez mais se mostra geral e abrangendo o conjunto dos aspectos sociais. Apenas, pois, alguns excertos, pela oportunidade da reflexão e sempre pela lucidez e clareza da exposição. Com maior destaque, apesar de tudo, para as deixas que para os seus desenvolvimentos...

A aparente insensibilidade das opiniões públicas perante os enormes contrastes produzidos pela globalização liberal, que pouco ou nada reage ao aprofundamento das desigualdades e das situações de miséria extrema, dá o mote para a análise do tema. E o início de uma explicação surge através da pergunta que já inquietava Almeida Garrett: “quantos pobres são precisos para fazer um rico?”. Pilar esboça uma resposta ao afiançar que “(...) as pessoas não sabem (que a riqueza se alimenta da pobreza). Se os mestres do pensamento, se os partidos políticos de esquerda não o dizem, não sabem que são necessários muitos milhões de pobres para que haja um rico, simplesmente olham para os ricos com admiração, sem pensar que essa riqueza está construída sobre a pobreza de milhões de pessoas”.

Em nova deixa, Pilar desvenda um pouco da lógica que sustenta este sistema: “Se vivemos numa sociedade de mercado, se o mercado regula a democracia, parece que os governos têm de ser disciplinados segundo os interesses dos grupos económicos, e devem socorrê-los, chegado o caso, como nesta crise, para que o sistema não entre em quebra”.

E acrescenta: “Dizem grandes economistas que os bancos centrais são as entidades que permitiram os fenómenos que deram lugar à crise e, apesar disso, os analistas convencionais calam-se. O seu silêncio cúmplice frente aos paraísos fiscais, a sua pretensa independência, eram pretextos para gerir a economia a favor dos poderosos, coisa já evidente. Parece que é necessário revelar a natureza dos bancos centrais, assim como a cumplicidade das páginas económicas dos jornais”.

A conclusão vem de Saramago e é, só por si, todo um programa político: “As causas são conhecidas, as consequências não o são tanto, mas são sofridas por milhões e milhões de pessoas. Portanto, a questão está sobre a mesa com uma urgência que todos nós sentimos: é preciso pensar, propor, actuar... Muita coisa se resolveu, no passado, com a participação dos cidadãos”.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Uff !!!

Em resultado das eleições de ontem, o Bloco de Esquerda/Açores estreia-se, e logo com um Grupo Parlamentar, uma Deputada (Zuraida Soares, de S. Miguel) e um Deputado (José Cascalho, da Terceira ) ao obter 3,3% ( 2.976 votos ) contra os 0,97% ( 1.019 votos ) registados em 2004, aquando das últimas eleições fazendo, assim, história nos Açores e passsando a ser a quarta força política da Região.
Assim, e tal como afirmou Zuraida Soares, a líder regional do BE/Açores :
« é uma alegria partilhada com todos aqueles e aquelas que fizeram questão de lutar connosco na defesa de uma esquerda socialista plural que vamos levar para dentro do Parlamento Regional».

PS - vou "meter" umas mini-férias, prometendo voltar, tão cedo quanto possivel, à necessária abordagem crítica destas Eleições e aos "engasgos" da Democracia de Carlos César, cujo Partido, nestas eleições, perdeu 1 Deputado e 15.063 eleitores, num cenário de 53,24% de abstenção.

domingo, 19 de outubro de 2008

A afirmação – difícil mas urgente – de um projecto de esquerda (II)

Nunca como agora a situação política foi tão propícia à explicação do que realmente é o mercado e, em geral, todo o sistema capitalista. Sem recurso a elaboradas e complexas explanações económicas, do teor das que serviram à teoria tradicional para enredar a opinião pública, sob pretexto de serem apenas acessíveis a especialistas, por forma a melhor poder apoderar-se dos mecanismos de controle social, a nível económico e político. Daí a necessidade de uma afirmação clara dos objectivos e das políticas para os atingir, num momento de manifesta fragilidade ideológica do sistema, onde por isso mesmo é mais fácil passar a explicação objectiva do que está acontecer e das consequências para a sociedade se não forem adoptadas, a tempo, as medidas adequadas. Como, aliás, penso que foi feito de forma bem expressiva na 2ª das intervenções do Louçã a que me referi antes.

Tenho alguma dificuldade em aceitar que as alternativas propostas pela esquerda ao modelo de sociedade que produziu esta crise se resumam a pouco mais que enfileirar na exigência de uma maior regulação do mercado por parte do Estado. Tarda em os seus representantes mais coerentes (entre os quais naturalmente o Louçã), conseguirem libertar-se do peso do condicionamento mental imposto por 30 anos de domínio liberal absoluto e pela falência do ‘socialismo real’ (apesar de criticado há muito por uma boa parte deles). Mesmo depois de profundamente desacreditado (ou ferido de morte?) pela actual crise, o modelo liberal assente num mercado pretensamente auto-regulado parece manter-se praticamente incólume, dos responsáveis e restantes actores aos propósitos e prática política, onde os discursos e todas as diligências vão no sentido de lhe introduzir as correcções que, dizem, eliminarão as falhas que originaram tudo isto. Agora, como sempre, o sistema prepara-se para, através de algumas mudanças, conseguir que, no final, tudo fique na mesma.

Mas que o não seja com a complacência (no mínimo) da esquerda. Que parece manietada pelo entrelaçado nó górdio em que se transformou o actual descalabro económico, muito por efeito das depreciativas suspeitas tecidas em torno da intervenção pública (tida como serôdia, quase arqueológica), pelo que, até agora, nem sequer ousou avançar com uma medida tão óbvia como a do controle político do sistema financeiro a nível mundial, porventura por pudor ou receio de tal medida ser apodada de filiada no tão negregado e já por demais eviscerado ‘socialismo real’. Certo é que esse controle está já a acontecer, não por proposta inserida em qualquer modelo alternativo, antes sob pressão da própria realidade que todos os dias parece superar os cenários mais sombrios da véspera. Correndo-se o risco, claro, de vir a ser recuperado e integrado no sistema, a seu devido tempo.

Tal como eu o entendo (e, penso, corresponde à sua matriz), o Bloco não é um partido no sentido leninista do conceito, mas um projecto onde convergem diferentes sensibilidades unidas por um propósito comum, a construção de uma sociedade socialista – ele próprio, é certo, rodeado de grandes incertezas sobre a natureza dessa alternativa e, portanto, de difícil conciliação na prática. Mas tem sabido conjugar a intransigente defesa deste ideário com a luta contra todos os sectarismos, o que lhe atribui especiais responsabilidades no conjunto das forças políticas de esquerda. Por isso mesmo os seus objectivos, sobretudo nesta fase histórica, não podem dissociar o trabalho pedagógico de consciencialização crítica, do trabalho político propriamente dito, incluindo o de índole mais eleitoral.

Até porque, em minha opinião, o Bloco não pode resumir-se a pretender ser apenas o refúgio dos episódicos descontentes do PS. Porque se arrisca a ser constituído por um núcleo, pequeno, de militantes fiéis e uma massa, mais ou menos significativa (conforme as conjunturas), de simpatizantes (e eleitores) flutuantes. E a diferença para um projecto mais consistente, capaz de suscitar uma maior fidelização, pode bem residir na clareza da alternativa proposta ao actual modelo social assente no mercado, que não deve pretender ser constituída em torno da ‘velha’ pretensão liberalizante de expurgar os aspectos negativos desse modelo (que tem sido, afinal, a ‘missão histórica’ dos partidos socialistas tradicionais), antes afirmar-se claramente anti-capitalista e de ruptura com o sistema.

Hoje, como nunca, a discussão sobre o conteúdo dessa alternativa impõe-se com urgência.

Eleições nos Açores : hoje, é dia de Votar ...


sábado, 18 de outubro de 2008

Duas mensagens para um projecto?

Na quinta-feira passada (16 de Out.), à noite, assisti a duas intervenções do Francisco Louçã sobre a actual crise. Primeiro na televisão, depois num debate promovido pelo Le Monde Diplomatique. E se trago aqui o assunto é sobretudo por não estar seguro de as mensagens transmitidas nas duas comunicações se poderem sobrepor, ou mesmo de uma poder ser o desenvolvimento da outra. E também porque me permite expressar um pouco aquilo que me parece ser, até à data, a estratégia da esquerda perante a crise e analisá-la criticamente.

Dir-se-á, desde logo, que a táctica comunicacional, atenta a heterogeneidade das duas audiências, aconselharia mensagens diferentes na forma (embora reproduzindo uma orientação comum). A primeira, dirigida a um público muito diversificado e por isso mais moderada, apontando para medidas imediatas e próximas das preocupações das pessoas; a segunda, perante um auditório já motivado pelo tema, permitindo um tratamento mais elaborado e de perspectivas a longo prazo. Contudo, a sensação que retirei destes dois momentos do Louçã é que podem não ser totalmente convergentes (descontando, portanto, o efeito dos públicos e dos meios de comunicação utilizados diferentes).

Explico-me:
– Na entrevista televisiva (não vi os 5 a 10 minutos iniciais), a preocupação do Louçã parece ter sido a de acomodar (ou pelo menos não hostilizar) a onda dominante que pretende sobrevalorizar as causas morais da crise – insistindo na ganância e na fraude dos gestores financeiros – enquadrando, por isso mesmo, a sua saída, em medidas de correcção mais de natureza técnica (maior regulação dos mercados, é certo que com um maior controle político do Parlamento) do que de natureza política, ainda que pondo em evidência a dualidade de comportamentos do Estado perante as vítimas daquela: pressuroso e mãos largas no caso dos financeiros, alheado, por exemplo, no caso dos desempregados com casa própria, de repente impossibilitados, por razões alheias à sua vontade, de cumprirem com os planos de pagamentos acordados.

– No debate do MD, entretanto, as causas da crise vão muito para além da ética dos gestores e entroncam na natureza do próprio sistema capitalista mundial, basicamente num processo de profunda desvalorização do capital, sobretudo financeiro (essencialmente capital fictício, pois nas duas ou três últimas décadas, ele tem sido sustentado pela especulação bolsista com epicentro na ultraliberal América!), conduzindo logicamente à desvalorização do trabalho de cuja sobreexploração se alimenta a sua acumulação. E se assim é, a solução para a crise não passa por mais ou menos regulação e melhores níveis de auditoria das empresas – pois comprova-se que a isenção e independência dos reguladores e auditores é uma falácia destinada a legitimar o poder económico capitalista, precisamente baseado na desregulação do mercado! – passa pela alteração radical da política e, logicamente, do papel do Estado na economia.

É certo que o condicionamento do meio televisivo, face à diversidade dos públicos atingidos, aconselha alguma prudência, até para garantir alguma eficácia da mensagem que se transmite. Penso, no entanto, que a degradação das condições actuais, a nível económico, político e até (ou sobretudo) ideológico, é hoje particularmente propícia à demonstração de que um outro modelo de sociedade se tornou indispensável e, por isso, aconselharia maior ousadia no seu conteúdo. E designadamente uma melhor explicitação (tanto quanto é já hoje possível fazê-lo) dos objectivos e medidas para os atingir.
Como tentarei mostrar em próxima posta.
(...)

Eleições nos Açores : falta 1 dia ...


Por aqui, nos Açores, hoje, é dia de reflexão ...


sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Eleições nos Açores : faltam dois dias ...

«O homem sensato só pensa nas suas inquietações quando julga de interesse fazê-lo; no restante tempo pensa noutras coisas e à noite não pensa em coisa nenhuma.
Não quero dizer que numa grande crise, por exemplo, quando a ruína está iminente, ou quando um homem tem razões para suspeitar que a mulher o atraiçoa, seja possível, a não ser a alguns espíritos excepcionalmente disciplinados, afastar o tormento nos momentos em que nada se pode fazer para o remediar.
Mas é perfeitamente possível afastar as pequenas inquietações de todos os dias, a não ser que seja necessário enfrentá-las.
É surpreendente como a felicidade e a eficiência aumentam quando se cultiva um espírito ordenado que pensa adequadamente no momento preciso em vez de inadequadamente em todos os momentos.
Quando uma decisão difícil tem de ser encontrada, logo que se reúnem todos os dados aplica-se ao assunto a melhor reflexão e decide-se; essa decisão, uma vez tomada, não deve ser corrigida, a não ser que se chegue ao conhecimento de novos factos.
Nada é tão fatigante como a indecisão e nada é tão fútil.»
Bertrand Russell, in «A Conquista da Felicidade»

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Eleições nos Açores : faltam 3 dias ...

«Poderia definir-se o sentido de possibilidade como aquela capacidade de pensar tudo aquilo que também poderia ser e de não dar mais importância àquilo que é do que àquilo que não é. Como se vê, as consequências desta disposição criadora podem ser notáveis; infelizmente, não é raro que façam aparecer como falso aquilo que as pessoas admiram e como lícito aquilo que elas proíbem, ou então as duas coisas como sendo indiferentes. Esses homens do possível vivem, como se costuma dizer, numa trama mais subtil, numa teia de névoa, fantasia, sonhos e conjuntivos; se uma criança mostra tendências destas, acaba-se firmemente com elas, e diz-se que tais pessoas são visionários, sonhadores, fracos, gente que tudo julga saber melhor e em tudo põe defeito.Quando se quer elogiar estes loucos, chama-se-lhes também idealistas, mas é claro que com isso só se alude à sua natureza débil, incapaz de compreender a realidade, ou que a evita por melancolia, uma natureza na qual a falta do sentido de realidade é um verdadeiro defeito. [...]
É a realidade que desperta a possibilidade, e nada seria mais errado do que negar isso. E no entanto, no cômputo global ou em média, as possibilidades serão sempre as mesmas até aparecer alguém para quem uma coisa real não é mais importante do que uma imaginária. É ele que dará às novas possibilidades o seu sentido e a sua finalidade, é ele que as desperta.»
Robert Musil, in «O Homem sem Qualidades»


Nota : esta “postagem” é dedicada a Tod@s e a Cada Um(a) que assistiram, ontem, na RTP/Açores a uma “coisa” que, em tempo de Campanha Eleitoral, pretendia ser uma espécie de debate, e que demonstrou, feliz e cabalmente, e para quem tivesse quaisquer dúvidas, a qualidade da Democracia vivenciada na Região Autónoma dos Açores.
Para quem, ainda e agora, possa ter quaisquer indecisões, eu, pela minha parte, por causa DISTO, votaria em Zuraida Soares, porque tenho a certeza que : nos Açores, o Bloco Faz Falta !!!

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Eleições nos Açores : faltam 4 dias ...

Porque é importante para @s Açorian@s o Voto em Zuraida Soares ?
Porque, nos Açores o Bloco Faz Falta !!!


O Bloco de Esquerda fará no próximo ano, em 2009, dez anos.
É, portanto, um partido jovem, ainda muito jovem e nasceu por uma razão objectiva, por um imperativo de necessidade :
- era preciso esquerda com alternativa(s) …

Nestas Eleições Regionais, em 19 de Outubro, com a eleição de uma representação parlamentar, nada fica(rá) como outrora na Assembleia Regional dos Açores.
Porque, com representação parlamentar, o Bloco de Esquerda/Açores fica(rá) seriamente comprometido e empenhado no sentido de desmontar a “césarista” inevitabilidade do pensamento único.
Tratar-se-á, é certo, de uma tarefa árdua e muito exigente, porquanto a criação dessa alternativa ( de e à esquerda ) terá de mobilizar, de encontrar respostas muito coerentes na oposição ao próximo futuro Governo de Carlos César procurando, por um lado, uma abrangente vivência social contra as desigualdades e as injustiças da maioria da população e, por outro lado, a busca de um pensamento crítico que “invente” respostas, que destrua ideias feitas, que combata este liberalismo reinante.
Sabe-se, sabemo-lo tod@s, que o governo do partido e/ou o partido do governo, i.e.: o PS/Açores e Carlos César já ganharam estas eleições regionais; então, porquê (em)prestar-lhe mais um voto, o Seu voto, contribuindo, assim, para uma maioria ainda mais absolutista ?
Ter-se-á dado conta, certamente, que em época pré-eleitoral, o governo do partido e/ou o partido do governo, i.e. : o Governo Regional do PS/Açores, encetou uma inusitada campanha de operação de propaganda no sentido de “vender” a ideia que, nos Açores, vive-se um oásis de/na governação…
Você, Açorian@, das diversas Ilhas do Arquipélago, consegue, por acaso, descortinar este “tudo vai bem” na Região Autónoma dos Açores ?
Ora, é por tudo isto, e por este Manifesto, que o Bloco de Esquerda/Açores, no dia 19 de Outubro, deve(rá) ser merecedor do Seu voto.
Para que o Bloco de Esquerda/Açores seja, de facto e de direito, uma nova alternativa ( de e à esquerda), uma esquerda de confiança, combativa, imaginativa que, com muita e muita energia, possa afirmar-se no espectro politico dos Açores, no Parlamento Regional.
Para que, no Parlamento Açoriano, o Bloco de Esquerda/Açores, como alternativa ( de e à esquerda ) de confiança, não traga qualquer “sossego” ao próximo futuro Governo Regional.
Porque, no dia 19 de Outubro, todos os Votos contam, não hesites e Vota no Bloco de Esquerda/Açores, Vota em Zuraida Soares.

Porque, nos Açores o Bloco Faz Falta !!!

terça-feira, 14 de outubro de 2008

O Casino, de novo

Nas Bolsas de todo o mundo, às maiores quedas de sempre sucedem-se agora as maiores subidas de sempre, sob efeito das medidas tomadas pelos Governos de todo o mundo, disponibilizando biliões dos recursos que arrecadam de todos os contribuintes para salvar o que apelidam de irresponsabilidade dos gestores. Neste contexto, o apelo de Bush para ‘uma resposta séria à escala mundial’, não passando de mais uma inócua pretensão de liderança, constitui patética demonstração de falta de vergonha.

A dúvida que agora se instala (só agora?) é se esta nebulosa e lastimável conjugação – Bolsas, Governos, contribuintes, gestores – não irá voltar ao que era antes e tudo, afinal, não vá passar de mais um jogo deste estranho casino em que o mercado transformou a economia mundial. É que até aqueles ganhos – poucos – que se admitiam poder resultar da crise, relacionados com a poupança da energia e uma maior moderação nos comportamentos, se encontram agora em risco, com a mensagem transmitida ao consumidor de que, afinal, o susto passou, pode continuar a gastar como antes.

Esquecida a memória, ignorada a razão, restam, como sempre, os interesses. Os de sempre, sobretudo: os da minoria que se serve da ‘ideologia do mercado’ para a defesa dos seus particularíssimos interesses. A esperança, essa, persiste, e reside em que a imensa maioria se tenha mesmo apercebido das piruetas a que a ‘ideologia’ se viu obrigada para salvar o 'mercado’.

Tudo se conjuga, pois, para se ‘voltar ao que era dantes’, para se dar por encerrado este incómodo episódio, para o considerar apenas um hiato na ‘permanente subida aos céus do capitalismo’, para se regressar, portanto – porventura com alguns acertos mais ou menos cosméticos – ao ‘melhor dos mundos’. Amem.

Eleições nos Açores : faltam 5 dias ...

"A ignorância é uma coisa vil, abjecta, indigna, servil, sujeita a inúmeras e violentíssimas paixões. Destes insuportáveis tiranos que são as paixões - e que por ora nos governam alternadamente, ora em conjunto - te libertará a sabedoria, a única liberdade autêntica.
Para chegar à sabedoria, um só caminho e em linha recta; não há que errar, avança em passo firme e constante. Se queres que tudo te esteja sujeito, sujeita-te tu à razão; dirigirás muitos outros, se a ti te dirigir a razão. Ela te dirá o que deves empreender, e que maneira; assim não serás surpreendido pelos acontecimentos.
Tu não podes apontar-me alguém que saiba de que modo começou a querer aquilo que quer.
E porquê?
Porque o comum das pessoas não é levada pela reflexão, mas arrastada por impulsos. A fortuna cai sobre nós não menos vezes do que nós caimos sobre ela.
A indignidade não está em «irmos», mas em «sermos levados», em perguntarmos de súbito, surpreendidos, no meio de um turbilhão de acontecimentos:
«Mas como é que eu vim parar aqui?»
Séneca, in «Cartas a Lucílio»

domingo, 12 de outubro de 2008

O controle ideológico da crise

Por estes dias, o tema que mais atenções – e preocupações – suscita é, de longe a ‘crise internacional’ e as formas de a ultrapassar. Como seria de esperar, a comunicação social concede-lhe largo destaque, obviamente mais concentrada nas audiências do que em contribuir para a sua resolução. Tardam a aparecer alternativas reais à situação actual.

Depois de uma longa gestação, de vários ameaços e não sei quantos avisos, a crise explodiu e parece ter apanhado meio mundo de surpresa (o outro meio, talvez mais, nem se apercebeu de qualquer mudança, pois o seu estado 'natural' é a crise permanente). Passado um primeiro momento de quase aturdimento e de manifesta desorientação, a nível dos responsáveis políticos e dos analistas mais encartados, surpreendidos (e até assustados) com a dimensão atingida, adoptadas as medidas de emergência tidas como indispensáveis – com a proscrita intervenção dos Estados a ser considerada bem vinda – entrou-se na fase das análises pretensamente mais ponderadas, mais informadas, mais técnicas, a pensar porventura já no mais longo prazo.

Não admira, pois, que a toda hora a crise seja tema de debate na generalidade da comunicação social. Mas por mais incrível que pareça, os ‘especialistas’ convidados para estas análises são exactamente os mesmos que no passado apareciam a fazer a apologia do modelo que agora entrou em crise (limito-me aqui a constatar uma evidência factual, sem qualquer juízo de valor, a de que o modelo de mercado está em crise, sem me atrever sequer a afirmar se a crise é passageira ou profunda – embora sobre isso já haja poucas dúvidas – ou se entendo as medidas em discussão para a conter ajustadas ou fora de propósito).

Assistimos então à sistemática repetição dos mesmos comentários, à análise das causas apenas à superfície e a propostas de solução de igual jaez, com a ritual declaração prévia – não vá alguém supor tratar-se de herege na clandestinidade ou, pior ainda, rotundo analfabeto em economia – de profunda convicção e absoluta fidelidade ao mercado (normalmente arvorado no par ‘elegante’ da democracia) e sempre às mesmas conclusões: o que falhou foi a regulação, logo introduza-se mais regulação com melhor controle!

Mas então nestas circunstâncias e apenas de um ponto de vista meramente racional, de simples eficácia nos resultados, não seria mais avisado proporcionar o confronto de verdadeiras alternativas e, para isso, convidar pessoas com concepções e pontos de vista diferentes, porventura antagónicos, por forma a permitir-se alargar o leque das eventuais soluções e saídas para a crise? Não seria até mais inteligente adoptar as regras do método científico na procura da maior objectividade e, depois do que aconteceu, pôr tudo em causa e partir à descoberta da verdade – o que implica alargar o leque das possibilidades até onde for preciso?

Até agora, porém, não vi em nenhum dos debates uma única posição discordante da linha dominante que define o mercado como o par ideal da democracia. Será mesmo?

Respira-se um ar bafiento e maçador nestes debates repetitivos, previsíveis e viciados à partida. Nada de novo acrescentam, servem apenas para justificar posições passadas, prolongar vantagens adquiridas, adiar mudanças inevitáveis. Faz-se sentir sobre os intervenientes, independentemente das boas intenções de alguns, o peso asfixiante da ideologia que em determinado momento chegou mesmo a proclamar o ‘fim da História’, entretanto já desmentido pelo seu próprio autor, o que traz à memória o célebre dito de Mark Twain aos que o davam como morto: ‘as notícias da minha morte são manifestamente exageradas’!

O debate sobre as alternativas reais à desgovernação que nos conduziu à presente situação tarda, pois, a ter lugar, pelo menos a nível público e aberto. Mais uma vez irá ser a realidade a reclamá-lo. E, pelos vistos, não há-de faltar muito. As soluções de dentro do sistema não passam de paliativos e estão em vias de esgotar as suas possibilidades, até agora, como era de prever, sem mostras de grandes melhoras.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

A génese da crise, segundo alguns neoliberais

Têm-se multiplicado, como era de prever, as explicação dos neoliberais para o eclodir da crise actual – que teimam em reduzir à financeira, mas que vai muito para além desta, como já é bem perceptível – na tentativa de sacudirem do capote as suas mais que óbvias responsabilidades. Uma delas, talvez a mais recente, junta, de um lado (na Sic/N) Pedro Ferraz da Costa, o ex-patrão dos patrões, a Eduardo Catroga, o ex-ministro de Cavaco (que já antes, em entrevista ao DN, havia tentado proeza idêntica, num ‘embrulho’ histórico sobre as crises anteriores), no denodado e concertado esforço de investigação pela ‘descoberta’ da génese (é mesmo assim que este último lhe chama) da crise financeira actual!

Apuraram estes dois briosos paladinos da verdade histórica que a explicação remonta, pasmem, a 1999 (só?), quando – e citam um artigo do New York Times de então – a Administração Clinton, na tentativa de democratizar a aquisição de habitação, pressionou o Freddi Mac e o Fannie Mae a concederem crédito às populaçôes hispânica e negra para essa finalidade, daí resultando o já tristemente famoso ‘sub-prime’, o malfadado vírus da crise actual (!).

Caem, assim, por terra as explicações de tipo moralista em que até aqui afanosamente se refugiavam os liberais menos informados (por menos dados a investigações) para não terem que admitir máculas insanáveis no mercado, quando afirmavam – constata-se agora que apressadamente – que a causa deste descalabro tinha a ver com a ganância, a fraude e até a corrupção de alguns gestores financeiros pouco escrupulosos.

Nada disso. A origem da crise, afinal, esteve, mais uma vez, no Estado, a causa última de todas as falhas, definitivamente a explicação suprema para todas as crises! Mesmo quando esse Estado está declaradamente ao serviço e sob dependência do mercado – como era sem sombra de dúvida então o caso – ou quando a ele se recorre em desespero de causa na esperança de se remediar o mal feito e evitar-se o pior – como é de forma ostensiva agora o caso.

As piruetas e malabarismos a que se sujeitam os atarantados neoliberais seriam cómicas não fora a situação ser dramática. Esperemos, a bem da maioria que, como sempre, mais irá sofrer com ela, que a não transformem numa tragicomédia, pois já basta o que aconteceu – e continua a acontecer!

Decididamente estas luminárias, inebriados pela fé no poder mágico (auto-regulador) do mercado, demoram a acordar para a realidade. E quando isso acontecer (mais cedo ou mais tarde vai mesmo acontecer), só esperamos que o acordar deles não coincida com eventuais pesadelos nossos.