domingo, 1 de maio de 2011

1º de Maio


( Para ler o Manifesto : clicar AQUI )

terça-feira, 26 de abril de 2011

O (nosso) fado ...


( nota : clike na imagem para "ver" melhor... )

segunda-feira, 25 de abril de 2011

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Mudar de vida

De repente parece que acordámos para uma realidade que considerávamos afastada, como integrantes do Euro, esse 'clube de ricos e famosos' acima de qualquer perigo ou risco. Havíamos encetado um modo de vida em tudo igual aos dos ditos países tradicionalmente ricos, adquirido hábitos de consumo próprios dos mais abastados, os indicadores de bem estar económico do País ombreavam já com os do topo das tabelas dos mais afortunados. De repente, porém, começam a acusar-nos de consumo excessivo, de esbanjamento de recursos (à mistura com insinuações de corrupção), de gastarmos acima das nossas posses, a apontar-nos como mau exemplo de gestão financeira, de ultrapassarmos perigosamente a capacidade de endividamento.

Durante largos anos, esses acusadores beneficiaram de um modelo de consumo assente no crédito e endividamento crescentes (do Estado e das famílias), prosperaram à custa do inebriamento consumista que dolosamente fomentaram (por forma a compensarem os débeis recursos das famílias) e lhes serviu para alimentar a sua abundância e prosperidade. Sabendo até – uns e outros, valha a verdade – que este modelo iria encaminhar-se, mais cedo ou mais tarde, para o desfecho agora provocado.

À parte a mistificadora pretensão de se tentar meter tudo no mesmo saco com o habitual tratamento do ‘todos nós’ (fazendo crer numa pretensa responsabilidade colectiva e na necessidade de uma igual repartição das restrições), é óbvio que eles acertam quando dizem que estamos a gastar demais, que consumimos acima das nossas possibilidades. É verdade – ‘nós’ e ‘todos os outros’! Ao falarem assim, contudo, pretendem dizer que ‘só nós’ (Portugal) devemos reduzir os níveis de consumo para o deles não correr riscos, que devemos pôr as contas em ordem. À custa, claro, de apertos generalizados que afectam sobremaneira quem já dispõe de menos recursos. Trata-se, naturalmente, apenas de uma parte do problema, a menor na equação global que importa aqui resolver, pois os credores são co-responsáveis pelo descalabro!

Que há diferenças de produtividade? Que uns produzem mais do que outros? É verdade, mas hoje já poucos têm a coragem de afirmar que tal se deve a atávicos vícios de preguiça, que atingiria mais uns países que outros, a maioria já percebeu que o problema se encontra sobretudo ao nível da gestão e organização do trabalho (a par de outros factores, é certo, como a disponibilidade de recursos naturais; ou o modelo de especialização produtiva – que diferencia a Alemanha de Portugal, por exemplo), também aí as receitas que propõem penalizam o lado errado da equação, pois os gestores – os verdadeiros responsáveis pela diferença da produtividade – por uma bizarra teoria de equalização de competências, pagam-se por igual seja qual for a produtividade do sítio em que operam. Quem realmente acaba por pagar essa diferença são os produtores que, afinal, trabalham o mesmo aqui ou na Alemanha – se em condições de organização idênticas.

Todos, afinal, pretendem ignorar o aspecto essencial: deveríamos consumir menos, reduzir o esforço sobre os recursos do planeta. Mais uns do que outros, como é óbvio, porque nesta alhada para onde cada vez mais a Humanidade foi empurrada, a responsabilidade não se distribui de igual modo. Há estratos populacionais (para falar na linguagem cara ao sistema) que mantêm um nível de consumo e sobretudo de desperdício verdadeiramente excessivos, senão mesmo criminosos – o estado a que se chegou autoriza (e impõe) cada vez mais falar-se nestes termos.

Alterar este modo de vida, eis o grande desafio. Reduzir o consumo, evitar o desperdício, travar o crescimento económico, são conceitos anatemizados pelo sistema e, seguramente, pelo comum das pessoas e até a generalidade dos técnicos. A lógica do mercado assim o impõe, pois outro modo de vida iria pôr em risco o princípio que o sustenta e lhe dá sentido, a acumulação contínua. A sobrevivência do sistema, contudo, é feita à custa da delapidação incontrolável dos recursos, da sobrevivência do planeta. Custa a crer a cegueira que empurra a Humanidade para um anunciado abismo, sem capacidade de reacção para lhe pôr termo!

Mas isso já só irá acontecer quando não houver fuga possível, quando as condições assim o obrigarem – quando, provavelmente, for já demasiado tarde!

terça-feira, 12 de abril de 2011

Presidente ou Notário?

O ‘argumento’ e desfecho, há muito anunciados, da mais recente fase da interminável saga da crise global em que nos meteram – o pedido formal de resgate à UE/FMI – teve no inusitado ‘apagão’ ocorrido em Belém um dos seus momentos de eleição. Se não o mais relevante, seguramente um dos mais significativos. A merecer, ainda assim, tímidos protestos nas inúmeras referências dos comentadores de serviço – por pudor, conivência ou receio de melindrarem a instituição!

Tanto no auge da crise política que culminou com o anúncio desse pedido de resgate, como já depois na indispensável gestão do que se lhe segue, por várias vezes as atenções se voltaram para Belém na expectativa de uma palavra, de um gesto, de uma orientação. Afinal, aí reside o único poder unipessoal de toda a estrutura administrativa, capaz, em teoria, de congregar esforços e ultrapassar querelas partidárias. Mas ‘o homem do poder’ manteve, sobre todas as expectativas mais optimistas (os realistas já nada esperam!), a pose hirta e ausente de quem paira sobre os problemas. Com direito até a justificações teóricas de tipo institucional para tal atitude por parte dos seus indefectíveis (‘reserva da nação’, dizem!), malgrado o desconforto evidente com que o tentam fazer!

Na avaliação de tão bizarro comportamento não pode deixar de se cotejar a história dos casos similares ocorridos nas anteriores presidências, todas elas confrontadas com situações idênticas (e bem menos gravosas, pelos vistos). Perante impasses políticos de alguma monta, Eanes decidiu avançar com os designados ‘Governos de iniciativa presidencial’ – e foram três! A Soares coube decidir a recusa de uma solução governativa maioritária e avançar para eleições antecipadas – contra a opinião do seu próprio partido! Sampaio, que havia, num primeiro momento, afrontado o seu próprio partido empossando um governo atípico ainda que legítimo – decidiu depois dissolver a Assembleia e provocar novas eleições.

Na que é considerada a maior crise política das últimas décadas, porém – em resultado de uma grave crise económica e social – ‘este’ Presidente da República, aparentemente (e as aparências aqui fundem-se com a realidade) alheou-se da função e das suas circunstâncias, preferiu deixar correr os acontecimentos, ‘jogando’ (?), porventura, na anulação mútua dos dois principais protagonistas e opositores (entre si e contra si – será este o sentido da sua ‘magistratura activa’?). Quando confrontado (e foi-o várias vezes) refugiou-se nos habituais compromissos burocráticos, esteve ausente das decisões que entretanto houve necessidade de serem tomadas, passeou a sua aparente indiferença pelo País e perante as pessoas. Esperar-se-ia, no mínimo, um sinal, um vislumbre de comando, de que alguém tinha a situação sob controle,... Mas dali, decerto, não!

Este episódio, porém, apenas corrobora e se insere na lógica de actuação da personagem. Cavaco mantém-se igual a si próprio, evidencia a mesmíssima postura que teve perante a provocação do impertinente (ou boçal?) presidente checo: apático, sem reacção, sem saber o que fazer, acossado pelo atrevimento do opositor (agora por graves acontecimentos),... Depois da vergonha que foi esse episódio, quem ainda ousa alimentar expectativas sobre o que possa vir a fazer, em momentos de crise e de verdadeiro aperto, o ‘nosso’ recém eleito ‘homem do leme’?

Um Presidente, objecto de escrutínio universal, para intervir apenas nos actos de registo... não passa de uma inutilidade cara!

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Sobre a crise do trabalho – III

A ‘classe’ dos ‘working richs’

É com a actual crise global e o inevitável aprofundamento das clivagens sociais que o domínio das políticas neoliberais foi segregando que se atinge uma consciência mais aguda e mais generalizada do grau de desigualdade existente nas sociedades actuais. E a linha de demarcação passa, uma vez mais, pelo trabalho, (1) antes de mais, entre os que o têm e os que dele foram excluídos (não interessa agora saber as razões múltiplas para tal situação), (2) depois e sobretudo, dentro dos que o têm, entre produtores/operacionais e executivos, entre a produção e a gestão (aqui se incluindo uma boa parte dos quadros, técnicos e dirigentes, que a prepara e executa). Aprofundam-se, pois, as disparidades dentro do trabalho assalariado, de onde emerge uma elite disposta a tudo para garantir privilégios alcançados. Toda a lógica da ideologia neoliberal se constrói então em torno dessa selecção e da enorme massa de precários que daí resulta – e a sustenta!

Não admira, pois, que seja nessa classe dos ‘WR’ que o sistema recruta a base ideológica que o suporta, constituída pela plêiade de comentadores que todos os dias se (nos) entretém a massacrar a nossa paciência. Ou pela cabalística seita dos analistas de ‘rating’, detentores de misteriosos poderes que lhes permitem continuar a reger a crise que desencadearam – e desse modo a ditar o destino dos países! Que, em tal contexto, se desunham na defesa encarniçada da tese da inevitabilidade do mercado e na matemática das vantagens de este actuar livre de condicionalismos e constrangimentos, pois, afiançam, só o funcionamento automático do mecanismo garante a sua máxima eficiência – pudera, a sua prosperidade assenta na defesa do ‘status quo’! Que debitam a teoria das falhas de mercado, atribuídas à intromissão do Estado na economia, aos excessos do Estado Social,... – com enorme descaramento, sublinhe-se, atentas as intervenções de resgate deste na fuga ao descalabro (ou salvação) do sistema!

Mas não é só no plano ideológico – e, bem entendido, na sua extensão objectiva à liderança da economia, habilmente orientada em proveito próprio – que os ‘WR’ se esmeram e fazem por se distinguir! É sobretudo no plano dos valores que a ‘sua’ tão acrisolada defesa das virtudes do liberalismo económico mais se faz sentir. E aí não creio, a avaliar pelos efeitos práticos mais visíveis da actual crise, que a evolução dos últimos anos tenha sido para melhor, bem pelo contrário. A valorização do individualismo liberal sobrepõe-se à solidariedade social, a prevalência do ganho imediato e fácil ao resultado do esforço sedimentado, a competição agressiva sobre a cooperação solidária, a eficácia que justifica o desperdício irresponsável sobre a sustentabilidade ambiental, a especulação financeira sobre os hábitos de poupança e frugalidade, a ostentação à moderação...

De tudo isto resulta então que não só os ‘WR’ se servem da ideologia para proveito pessoal, como ainda (e ‘pour cause’) a sua acção, decisiva na condução dos destinos do mundo, tende a reduzir o futuro à dimensão das suas ambições pessoais, ao descalabro. Custa a crer, com um tão elevado número de ‘alternativas’ em espera (muitas já a caminho de uma forçada emigração), ainda subsista, por vezes, o estranho argumento do ‘risco de fuga de cérebros’(?) para justificar tão elevadas remunerações.

Pois que fujam então, todos sem excepção, se o que os move é apenas ‘competir por altos salários’! Os resultados dessa ‘abjecta competição’ confundem-se com os da própria crise, pois constituem uma das causas do desastre financeiro que a ela conduziu. Não satisfeitos, procuram agora desesperadamente a salvação no cínico apelo à ‘união nacional’ de esforços, procurando fazer passar a ideia de uma merecida expiação colectiva – porque, dizem, todos têm (as mesmas) culpas no descontrole a que a situação da ‘dívida externa’ chegou!

O descaramento de quem assim procedeu e, alijando responsabilidades, agora sente ter condições para voltar a defender as mesmas receitas, parece mesmo não ter limites! Pior é não se ver no horizonte próximo quem lhes possa pôr freio! – não obstante tímidas (?) tentativas em contrário: o caso da Islândia, o processo às agências de ‘rating’,...

domingo, 10 de abril de 2011

Sobre a crise do trabalho – II


A extensão das desigualdades


O aspecto mais vulgarmente destacado do actual processo de globalização pode muito bem ser o impressionante aumento da riqueza, gerado por efeito da intensificação das relações comerciais e – comprovou-se agora da forma mais dramática – das habilidades criativas de uma gestão financeira sem controle, responsável para já pela destruição de um colossal volume de recursos à escala global.

A crise do ‘sub-prime’, inicialmente passível de ser confinada a um sector específico (imobiliário) e a uma determinada zona do globo (EUA), como já o fora noutras situações e ocasiões (Japão, Extremo Oriente, América do Sul,...) – à partida, portanto, de uma dimensão relativamente modesta à escala planetária – teve o condão, desta feita, de pôr a nu as vulnerabilidades de um sistema financeiro, construído sem freios nem regras, por uma autoproclamada elite de gestores apenas empenhada na maximização do seu proveito pessoal imediato. Capaz de soçobrar na voragem de uma qualquer crise periódica, como a referida, não fora a intervenção e os apoios financeiros maciços dos sempre muito denegridos Estados terem evitado – à custa dos recursos públicos, registe-se – a sua mais que certa e eminente derrocada.


Apenas na aparência, portanto, a riqueza gerada por ‘este’ processo de globalização (de total supremacia do poder financeiro sobre o comercial) consegue evidenciar mais do que realmente é: uma enorme bolha pronta a rebentar à primeira contrariedade, incapaz de resistir ao tempo e às intempéries, tanto as naturais (muito por efeito do desgaste rápido a que os recursos estão a ser sujeitos), como as provocadas por esta liderança que acoberta a acção que desenvolve, essencialmente orientada para o interesse pessoal, na ideologia de um pretenso liberalismo político, posto que reduzido aos seus aspectos económicos.


O que decerto não desaparecerá tão cedo é a desigualdade extrema que resulta de tal processo – e o prolongamento dos seus efeitos na coesão social e na própria democracia. Assiste-se a uma gradual transferência de rendimentos entre países (Norte-Sul), entre grupos sociais e classes profissionais dentro do mesmo país, contribuindo para o aumento, sem paralelo na história do capitalismo, das desigualdades de rendimentos.


Hoje, com a experiência dramática da crise em fundo, já é comum ouvir dizer-se que a globalização, em lugar de contribuir para atenuar as diferenças existentes, acentuou o fosso entre ricos e pobres, como o próprio Secretário Geral do FMI ainda recentemente o admitiu. Este responsável máximo de tão insuspeita organização foi mesmo mais longe ao considerar que à "mundialização do comércio" – normalmente "associada a uma queda das desigualdades" – opõe-se uma "mundialização financeira, que as acentua". Que apenas vem corroborar o que já toda a gente sabe: o enriquecimento de uns poucos é feito à custa da pauperização da maioria.


A severidade da crise e, a pretexto dela, a profundidade da austeridade, acentuaram este confronto, aparentemente contraditório com o quadro de restrições que, numa democracia, seria suposto dever impor-se à generalidade dos cidadãos. Ao lado de privações extremas, não raro deparamos com situações em que nenhuma carência, porventura até uma ainda maior opulência, é possível detectar. No contexto ideológico actual, contudo, qualquer reparo em contrário ou simples estranheza pela magnitude das disparidades, corre de imediato o risco de ser apodado de demagógico e populista. Ou arrasado com o argumento, sempre eficaz, de se tratar da velha e fatal pecha nacional (!), desse tão mesquinho sentimento atávico da inveja pelo sucesso alheio (!!!).


A continuidade deste processo de acumulação, através da brutal transferência de riqueza dos mais pobres para os mais ricos – que, no quadro desta globalização, se afigura difícil de inverter – tem como consequência lógica inevitável (nunca a palavra foi empregue com tanta propriedade!) debilitar a coesão social e abalar os fundamentos da democracia.

(...)

sábado, 9 de abril de 2011

Sobre a crise do trabalho – I

O discurso das ‘inevitabilidades’


Os últimos tempos têm sido particularmente pródigos em factos e acontecimentos mediáticos, autêntico maná para a instalada e sôfrega tribo de analistas e comentadores. Tanto a nível interno – da demissão de Sócrates e subsequente intervenção externa (com a continuada destruição do Estado Social) ao regresso em força do poder das corporações (as ‘várias’ da justiça, a dos militares, a dos professores,...) – como no plano internacional – do imparável descalabro do ‘euro’ (a Grécia funcionou aqui como o Lehmann no desencadear da crise) à imposição à bomba do ‘dogma’ (!) da democracia pelo instalado poder global neoliberal (porquê (só) a Líbia?... então e o Darfur?).


Por mim, dou em tentar alhear-me dos circunstancialismos da conjuntura (por mais importantes que sejam os factos nela ocorridos) para me fixar sobretudo nos aspectos que considero decisivos para o futuro das pessoas e das sociedades onde estas vivem. Dou comigo a pensar, desta feita, nesse estranho mas exemplar fenómeno (porventura natural para a maioria) dos ‘working richs’ (WR). O termo retiro-o da leitura de um pequeno texto (‘Globalização, o pior está para vir’), o conceito há muito que o adoptei e o tenho abordado: a par da extrema precariedade laboral e do crescente desemprego, há quadros que auferem salários obscenos (o mercado assim o exige, dizem), muitos deles, não por acaso, ligados ao descalabro financeiro que provocou a crise global.


Na verdade já não é a primeira vez que aqui trago o tema, ele impõe-se sobre os restantes aspectos da política actual pelo drama que constitui para uma massa crescente de pessoas, a exclusão do direito ao trabalho. Ademais, a lógica instituída que determina a selecção dos que logram obtê-lo, parece querer transmitir aos excluídos – na melhor tradição da tese calvinista da predestinação, que se diz ser uma das origens do ‘espírito’ do capitalismo (?) – o anátema da culpa, de lhes fazer crer serem eles próprios os responsáveis por tal situação, pela preguiça ou falta de ambição que demonstram. E se a alguns é possível apontar o dedo, a esmagadora maioria pura e simplesmente vê-se dele arredado com base apenas na lógica imposta pela doutrina liberal dominante.


Porque o principal efeito do avassalador domínio neoliberal dos últimos 30 anos não se encontra na área económica, mas na social. Mas apesar das convulsões em torno da crise actual apontarem já claramente responsabilidades, o férreo controle ideológico e político da economia mostra não ser ainda o momento de se proceder ao balanço económico destes anos e, sobretudo, do rasto que vai deixar para o futuro (da sustentação ambiental às sequelas psíquicas). Porque, afinal, além dos efeitos na economia, o maior impacto dos cânones liberais revela-se a nível das alterações na estrutura social (na terminologia do sistema, a nível da ‘mobilidade social das escalas de estratificação’).


Acentuam-se cada vez mais as clivagens dentro das sociedades, tanto a nível nacional como mundial, por efeito de uma globalização sem controle político. Logo ressurgem, em tempos de crise (como agora), apelos de pendor nacionalista. ‘Todos devem contribuir para resolver a crise’, ‘a austeridade toca a todos’,... não passam, porém, de slogans agitados com o fim de arregimentar vontades em prol de um suposto esforço colectivo exigido pelos desequilíbrios das contas externas, servem apenas para esconder realidades sociais muito díspares e justificar a aplicação indistinta de uma política de extorsão social.


Um mínimo de objectividade, histórica e sociológica, implica a rejeição de tal discurso assente num pretenso destino colectivo dos povos ou nações: apelar a uma amalgamada identidade cultural visa apenas justificar as desigualdades interclassistas (tidas como naturais e inevitáveis) e a indiscriminada repartição da austeridade. Serve para, de forma obscena e ultrajante, empanturrados comentadores imporem a ideia de que as dificuldades tocam a todos por igual, que se torna inevitável aceitar-se mais austeridade.


Pondo de lado atavismos deslocados, resta-lhes então o recurso à tese da predestinação: para uns, o anátema da azelhice culpada; aos afortunados eleitos – os 'WR', como se verá – a glória dos proveitos arrecadados! Para maior honra e louvor desta ‘globalização feliz’!


(...)

sexta-feira, 8 de abril de 2011

A(s) dinâmica(s) do sistema ...


Entre quem nos governa e quem governa os bancos ... pois que venha o diabo e escolha:
 
 Fernando Ulrich
29 Outubro - "Entrada do FMI em Portugal representa perda de credibilidade"
26 Janeiro - "Portugal não precisa do FMI"
31 Março - "Por que é que Portugal não recorreu há mais tempo ao FMI?"
 
 Santos Ferreira
12 Janeiro - "Portugal deve evitar o FMI"
2 Fevereiro - "Portugal deve fazer tudo para evitar recorrer ao FMI"
4 Abril - "Ajuda externa é urgente e deve pedir-se já"
 
 Ricardo Salgado
25 Janeiro - "Não recomendo o FMI para Portugal"
29 Março - "Portugal pode evitar o FMI"
5 Abril - "É urgente pedir apoio... já"


Eis a dinâmica do sistema - conluio premeditado e programado pela banca - cujas consequências estão à vista e, tanto quanto (me) parece, não se podem contestar (???)...
Será que, ainda assim, há quem acredite que não existe conluio e premeditação em toda esta "encenação" ?
E, ainda, haverá quem tenha dúvidas que quem "paga(rá)" serão as vítimas do costume ?..

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Portugal Agrilhoado


Trata-se de um livro, mais um livro, do Professor Francisco Louçã.
Desta feita, aborda a crise; esta crise que nos assola, a todos...
E, nestes tempos que correm, é mais que oportuno para nos obrigar a pensar que esta crise - ao contrário do que (nos) querem fazer crer - não é necessariamente uma inevitabilidade.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Eu é que sei como ficavas melhor, oh Sócrates ...


Momentos antes de comunicar ao País que este iria ficar ainda mais agrilhoado, eis que o "engenheiro", pedante e vaidoso, estava era preocupado, isso sim, com a sua imagem ...
Eu é que sei como ficavas melhor, oh Sócrates ...

Chantagem ou Democracia ?..

sexta-feira, 1 de abril de 2011

quarta-feira, 30 de março de 2011

quinta-feira, 24 de março de 2011

"Mundo Açoriano"


A partir de hoje, e sob a batuta do Eduardo Jorge Brum, o Jó, está no "ar" o Mundo Açoriano ...

No planeta global em que vivemos, os Açores passaram a não ter limites e a sua imprensa não pode deixar de espelhar essa realidade.
A plataforma digital permite, hoje, o estabelecimento de pontes, em todas as latitudes, com açorianos que um dia partiram e fixaram residência em outras regiões e países; permite recuperar relações de vizinhança que durante anos se haviam per dido; permite estar em contacto com pessoas que, embora não tenham nascido nos Açores, dedicam atenção ao que é nosso.

Se for utopia, não faz mal. Precisamos dela mais do que nunca.

As maiores Felicidades e longa, longa Vida.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Censurado(s) ...


Agora, resta-nos a Todos e Cada Um(a) a vontade de dizer BASTA e aproveitar a oportunidade para que tudo não volte ao mesmo ...

domingo, 20 de março de 2011

sexta-feira, 18 de março de 2011

quarta-feira, 16 de março de 2011

As angústias de uma geração... ou será de uma sociedade?

As inúmeras reacções que a manifestação da designada ‘geração à rasca’ suscitou são – como não podiam deixar de ser! – um curioso reflexo do estado actual da mentalidade dominante. O pensamento ‘correctamente’ alinhado, bem pensante e pouco dado a devaneios (os tempos não estão para aí virados, ‘quem manda são os mercados’... ou a Sr.a Merkel por eles!), não poupou nos adjectivos para classificar o despautério de uma movimentação inorgânica, desenquadrada, sem uma ‘cabeça’ responsável, contando, portanto, apenas com os ‘pés’ (literalmente) dos que decidiram sair à rua para se manifestarem contra uma situação que – malgrado as atentas e venerandas opiniões! – ameaça, ela sim, sair fora de controle e transbordar para além da mera insatisfação, desilusão, angústia, ou mesmo indignação. Quando muito condescendem, vá lá (por uma questão de princípio? ou de aparências?), no direito que todos têm a manifestar-se!

Aproveitam para verberar, na passada, ‘o mau gosto das canções’ (?), subitamente promovidas a hinos de uma causa indefinida e sem objectivos claros, dizem. A esmagadora maioria deles nunca se tinha dado ao trabalho de se pronunciar sobre o gosto musical (mau, bom ou requintado?) das canções que por aí correm, em especial as dos festivais da Eurovisão!!! Mas bastou que as duas eleitas projectassem o enorme mal estar que grassa na juventude (a dos ‘Deolinda’), ou apelasse à luta contra o desânimo (e as suas causas) mesmo que de forma chocarreira e até festiva (a dos ‘Homens da luta’), para os espíritos ‘bem alinhados’ se sobressaltarem e imitirem sinais de grande desconforto.

É de sinais, seguramente, que se trata quando se pretende perscrutar o significado das movimentações que dominaram o último fim de semana. Muito para além dos objectivos concretos que ninguém conseguiu nelas descortinar (e tão pouco alguém se deu ao trabalho de explicitar, simplesmente porque não existiam), o que importa é apreender a razão que levou centenas de milhares de pessoas a ‘incomodarem-se’ a descer à rua sem outra causa senão a de ‘apenas’ gritarem a insatisfação, a angústia e o mal estar que as invade.

Um sinal que devia actuar, então, não apenas como ‘catársis’ colectiva (como alguém a apodou, na tentativa de a desvalorizar!), mas como um alerta para os fundamentos desse profundo mal estar social que alastra a diversos níveis e em diferentes sectores – pois nunca como hoje as expectativas individuais estiveram tão longe de se concretizarem, as promessas políticas com tão frágil aderência à realidade social (promete-se aquilo que se sabe não se poder cumprir nem ser realizável). Um alerta que se expressa sobretudo a nível do trabalho – pois nunca como agora as capacidades técnicas e produtivas da sociedade encontraram tão fraca conformidade na organização social que determina tanto a distribuição do esforço do trabalho, como a sua contrapartida no rendimento criado.

Um sinal que, na sua substância, aponta para causas que não diferem muito das que levaram aos acontecimentos do Norte de África. A explosão social aí verificada tem explicações imediatas (e de aproveitamento mediático fácil...) no carácter fechado dos sistemas políticos lá implantados (regimes autoritários ou mesmo ditatoriais). Mas as motivações essenciais que levaram milhares às ruas a lutar por mudanças, lá como cá, centram-se mais em torno de questões de natureza social que política. E têm a ver essencialmente com uma repartição do trabalho baseada numa selecção competitiva que exclui do designado ‘mercado do trabalho’, todos quantos se não enquadrem ou não se sujeitem (consciente ou inconscientemente) às regras dos ‘donos do mercado’...

O diabo é que, falar de repartição do trabalho, implica necessariamente questionar a organização social que a determina... E o próprio ambiente cultural que daí resulta e a envolve, que afecta até muitas das posições de organizações que se reivindicam da defesa dos trabalhadores.

Tema sempre actual e a que importa voltar. Sempre.

sexta-feira, 11 de março de 2011

quinta-feira, 10 de março de 2011

Censura ...


Hoje, é dia de Moção de Censura.
O Governo e as políticas concretas da Governação irão ser censuradas.
Porque é altura de dizer basta :
- ao aumento do IRS e do IVA;
- ao congelamento das pensões;
- ao fim do abono de família para agregados com mais de 600€;
- à diminuição do subsídio de desemprego;
- às alterações de regras para as prestações sociais;
- aos cortes salarias da função pública;
- aos cortes na Acção Social Escolar e Bolsas no Ensino Superior;
- às privatizações ( ANA, CTT, REN, TAP, Seguros CGD etc;
- ao aumento dos medicamentos e menos comparticipações;
- ao aumento das taxas moderadoras;
- etc ...
- etc ...
- etc ...
Enfim, é altura de dizer basta; porque, com este Governo ... não vamos a lado nenhum !!!
(ler Moção Censura : AQUI )

quarta-feira, 9 de março de 2011

9 de Março ...


Hoje, 9 de Março de 2011, no dia em que toma(rá) posse o 19º Presidente da Republica Portuguesa eu estou de luto ...

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

12 anos ...


Hoje, o Bloco faz 12 anos ...
Ao longo desta dúzia de anos, o Bloco tem (per)corrido o seu caminho e nunca, como agora e nestes tempos que correm, a sua actuação na política Portuguesa foi tão necessária e premente.
Parabéns e longa, muito longa Vida !!!

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Que Futuro ?..


Porque com este Governo não vamos a lado nenhum e a precariedade não pode nem deve ser o futuro, há momentos, nas nossas Vidas, em que temos - Tod@s e Cada Um(a) - que dizer basta !!!
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sábado, 19 de fevereiro de 2011

A censura do pensamento único à moção de censura – II

... xeque aos políticos, aos comentaristas políticos e aos políticos comentaristas!

Percebe-se o tom irritado e a incomodidade que o anúncio da moção de censura do Bloco ao Governo provocou sobretudo por entre aqueles que tinham como certo ser eles a marcar o calendário para a sua apresentação. A notícia alterou-lhes os cálculos e precipitou os acontecimentos, agora vão ser obrigados a exporem-se e a definirem-se mais cedo do que esperavam e lhes era propício (ou a arranjarem desculpas esfarrapadas...), pois deixaram de poder manipular as datas apenas conforme os seus interesses pessoais ou partidários.

Durante muito tempo, perante a desastrosa situação social em que o País se encontra (por opções políticas próprias mas, também, influências alheias), a questão era saber-se quando é que uma moção de censura iria confrontar os responsáveis por tal descalabro. E se, até aí, todos admitiam ela poder acontecer a qualquer momento (comentadores), ou ameaçar desencadeá-la (partidos tradicionais, PSD, CDS, PCP) – a sua concretização dependia apenas do calculismo partidário, às malvas os ‘superiores interesses do País’! – a partir daí a mesma gente, comentadores e partidos, uniram-se para verberar uma posição que qualificam de irresponsável, aventureira, incongruente,... No fim de contas, embora todos a desejassem, ninguém se atrevera a lançá-la! Até agora...

O pensamento politicamente correcto (e até algum desalinhado) apressou-se a condenar a iniciativa, considerando-a (no mínimo) arriscada face à situação de dependência financeira do País, por poder ‘irritar’ ainda mais os sempre susceptíveis mercados! No meio deste alinhamento geral, alguns arriscam apressadas considerações sobre aqueles aspectos da vida real que parecem querer afrontar este estranho unanimismo: o crescente desemprego, a falta de perspectivas (nomeadamente para os jovens), a degradação dos serviços sociais,... A par da manutenção de privilégios corporativos, de remunerações e bónus milionários a gestores, dos benefícios fiscais aos Bancos,... Depressa, porém, retomam a compostura e a ‘normalidade’ do discurso, com receio de perderem credibilidade no meio mediático (ou até, quem sabe, poderem vir a ser considerados... desalinhados). Tudo em nome da estabilidade do País e do receio da ira dos mercados – a que se subordinam reverencialmente!

Não parece que a crítica centrada nos efeitos políticos imediatos de uma moção desta natureza (face à sua demarcação ideológica e dimensão reduzida dos apoios parlamentares) – ineficaz no derrube ao Governo, exposta à detracção pelo momento escolhido, apodada de inconsequente face ao contexto do seu anúncio,... – consiga ilidir a contínua degradação das condições de vida e a crescente insatisfação social. Ou mesmo desvalorizar uma iniciativa política deste tipo no questionamento das medidas para enfrentar a grave crise social. A fronteira entre esta e a eclosão de revoltas populares ameaça ceder, perante a inércia (ou falência?) das alternativas políticas, como o demonstra a contestação que alastra pelo Mundo, incluindo na Europa desenvolvida.

Medir a utilidade de um acto, seja económico ou político, apenas pelo seu resultado imediato (ou mesmo pelos seus efeitos próximos) é cair na armadilha da ideologia do mercado de avaliar tudo pela eficácia, é aceitar, sem as contestar, as regras ditadas pelo pensamento único, a primeira das quais é a inevitabilidade do real – precisamente o domínio do mercado! – de onde decorre a tese da imutabilidade das relações sociais.

Passado o efeito de surpresa deste anúncio e dando-se como certa a sua rejeição, fazem-se já apostas para se saber qual o momento em que o PSD, o partido melhor posicionado e mais interessado na ‘aritmética da coisa’, irá atacar o poder (com ou sem moção de censura), porventura naquele momento em que as políticas (que ele próprio avalizou) se tornem tão insuportáveis que não permitam alternativa à alternância. Até lá, a gestão do tempo que resta, não tenho dúvidas, certamente se regerá pelo aviso de um bem alinhado director de um semanário apelando à não precipitação das hostes laranjas, pois ‘a ideia de que o PSD está ansioso por subir ao poder ser-lhe-á fatal. Mais do que nunca, os sociais-democratas precisam de saber controlar a ansiedade’!!! Desde logo a ânsia, digo eu, de que a execução orçamental desta 'política de ruína' corra mal. Lindo!

E muito edificante, sem dúvida!

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

A censura do pensamento único à moção de censura – I

Moção de censura às políticas...

Todos os comentários produzidos a propósito do anúncio da moção de censura do Bloco ao Governo acentuam, com raras excepções, a ‘aritmética da coisa’. Num sistema que privilegia unicamente a eficácia, o que importa é o resultado final: o Governo cai ou fica? Tudo se resume à dança das cadeiras, pois neste quadro todos dão por assente, quaisquer que sejam os protagonistas, a continuidade, senão até o aprofundamento, das mesmas políticas. O debate não se centra nas políticas e nas suas eventuais alternativas , apenas nos seus executantes e alternantes. Exercício inútil, tacticismo sem futuro, calculismo inconsequente, foram, pois, apenas alguns dos mimos com que tal iniciativa desde o início foi presenteada.

Ao invés, o Bloco, ao centrar a censura nas políticas, mais do que no oportunismo das alternâncias conjunturais, estabeleceu desde logo os termos e pressupostos para a discussão da mesma. Daí que não surpreenda o tom do discurso nas justificações avançadas pelos partidos que já anunciaram a sua rejeição (abstendo-se), mesmo antes de ser conhecido o texto que a fundamenta. Para além do cálculo quanto à oportunidade da sua apresentação, esta mais que previsível reacção decorre tão só da impossibilidade lógica de, os que se identificam e suportam as políticas em causa – executantes ou alternantes – as virem agora condenar.

Deste modo, uma moção de censura que o ‘pensamento dominante’ (a corrente vulgar do pensamento único) desde cedo censurou, apodando-a de ‘maldita’, sob pretexto de inoportuna aos sempre invocados (e muito oportunos!) ‘interesses nacionais’ – esconso onde se acobertam todos os interesses particulares – prepara-se para, muito antes da sua concretização, cumprir o seu papel: o de certificar quem suporta na prática as políticas de austeridade - embora continue a gritar contra elas - o de demonstrar que tais políticas, economicamente recessivas e socialmente discriminatórias, são sustentadas sobretudo pelos dois partidos do centro, PS e PSD (e o seu apêndice CDS).

Talvez então o mais importante dos objectivos que a moção do Bloco visava tenha já sido alcançado com a curiosa mas bem significativa reacção destes partidos à sua apresentação. Tão curiosa que, para o Governo a moção ‘vai ajudar a direita’; para CDS e PSD, pelo contrário, ‘vai ajudar o Governo’! Afinal uns e outros não deixam de ter razão, pois todos eles apoiam a política em curso. O seu único propósito é mesmo, pois, ‘apenas’ mudar os figurantes: todos contra o Governo, mas todos de acordo com as ‘suas’ políticas!

Havia-se instalado no País uma estranha promiscuidade nas críticas a este Governo (muito por culpa da sua própria ambiguidade e do partido que o suporta – socialista de nome, liberal na prática), com a direita frequentemente a assumir posições de esquerda, na mira de capitalizar o descontentamento popular que as medidas de austeridade impostas de acordo com o código neoliberal inevitavelmente provocam. Do lado da esquerda, é certo, nem sempre houve discernimento bastante para evitar tal confusão, para uma demarcação clara. Desta ambiguidade – já ninguém sabia ‘quem era quem’! – se valiam para corroborar a tese da bíblia liberal de que hoje as distinções políticas já não passam pela ‘velha’ divisão entre direita e esquerda, pretendendo-se, com isso, acentuar o dogma da inevitabilidade do mercado e as pretensas soluções técnicas (também inevitáveis!!!) dos planos de austeridade feitos à sua medida.

Para além da oportunidade de um profundo debate em torno dessas políticas, a moção teve, a meu ver, o mérito de (re)estabelecer as fronteiras e uma mais nítida distinção entre os que suportam (fautores e apoiantes) estas ‘políticas de austeridade’ – mesmo dizendo-se contra elas – e todos quantos as desejam combater e as confrontam com ‘opções políticas alternativas’.

Pois se o que verdadeiramente deve ser objecto de censura com esta moção são as políticas, de pouco ou nada vale a simples alternância de protagonistas para as executar.
(...)

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Hoje : Zeca Medeiros na Casa dos Açores em Lisboa


E, eu, infelizmente, não vou poder lá estar ... para poder ver e e ouvir, apreciar o Zeca, o Tom Waits da (minha/nossa) querida Ilha de/da Bruma.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Sim, é possível !!!


Não percebo, sinceramente, o tamanho “sururu” que (de)corre do facto do Bloco de Esquerda, ontem e no sítio certo, na Assembleia da República, ter anunciado que dia 10 de Março p.f. apresenta(rá) uma moção de censura ao Governo.
E, acima de tudo, não percebo a manhosa (sem aspas) argumentação da grande maioria de analistas, paineleiros (assalariados das TV´s), de políticos etc, etc …
“Colossal irresponsabilidade” classificou José Sócrates; “tiros nos pés” alvitrou Vitorino ( o “garrafa”); “grande desilusão” eis o estado de espírito de Carlos César etc, etc …
É que, antes de mais, a apresentação de uma moção de censura é um direito que assiste a qualquer partido com representação parlamentar e, desde 25 de Abril de 1974, já foram apresentadas 19 (dezanove) moções de censura e uma, só uma, em 1987 e no Governo minoritário de Cavaco Silva, foi aprovada.
Ignora-se, propositadamente, que, antes e de forma clara e inequívoca, o Bloco de Esquerda face aos cenários “idílicos” com que o Governo “analisa” o país que, ao que parece, só serão “vivenciados” pelo primeiro-ministro, desafiou o Governo a apresentar uma moção de confiança que, acto contínuo, foi rejeitada pelo “menino de ouro”.
Só, então, e perante a recusa do Governo em apresentar a moção de confiança, é que o Bloco de Esquerda avançou com a moção de censura.
Que, repito : é um direito que lhe assiste.
O Bloco de Esquerda explicou o porquê da (sua) decisão, o que tem sido propositada e olimpicamente escamoteado por todos os analistas.
Há, para esta decisão, uma determinação e três razões :
- responder ao facto do contrato social de solidariedade estar a ser rasgado, destruindo a vida às pessoas;
- a defesa dos desempregados de longa duração, que não só já não têm subsidio de desemprego nem conseguem trabalho
- metade dos trabalhadores vivem em situação totalmente precária, em falsos recibos verdes, em offshore laboral
- impedir e parar as medidas do governo que vem atentando contra a vida das pessoas que estão a ser vítimas deste governo
Estas são, portanto, e em meu entender, razões mais que suficientes para travar as políticas neo-liberais deste PS que, sem vergonha e de há muito, abandonou a (sua) matriz socialista.
Para acabar com as medidas “vendidas” - com muito marketing politico à mistura – como sendo inevitáveis e com a falta de ética que campeia na vida publica.
Agora, é esperar para ver como se comportarão os outros partidos em oposição a este partido dito socialista.
Haja coragem, pois : sim, é possível …

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

A Verdade da(s) mentira(s) …


Assim, por junto, BCP, BPI, BES e Santander Totta, os quatro maiores bancos privados a operar em Portugal, tiveram em 2010 um resultado líquido positivo de 1.430 milhões de euros.
Ganharam, por dia, e por junto, 3,9 milhões de euros.
Em 2009, estes quatro bancos, haviam gerado um resultado líquido de 1.430 milhões de euros ( só : - 10 milhões de euros que em 2010) e, assim, e por isso, pagaram 306 milhões de euros de impostos.
Porém, em 2010, e para um resultado liquido em linha com o de 2009, estes bancos, por junto, pagaram menos 56% que no ano anterior, sendo assim a taxa real de imposto para a banca de apenas 9,4%.
Afinal, e por mais que se esfalfe o Governo e, em particular, o Ministro das Finanças em proclamar declarações de fé (?) que as medidas de austeridade são para todos, o facto é que este Governo soube ( e de que maneira) sacrificar salários e prestações sociais, enquanto que, na prática e como se constata, criou condições objectivas para que a banca não esteja a contribuir com qualquer esforço para o equilíbrio orçamental.
3,9 milhões de euros de lucro por dia : é obra.
O governo, este governo, como se constata é forte com os fracos e fraco, muito fraco com os poderosos.
É a vida; é uma questão de opção ...
Ou melhor : é uma questão de política.
E muito pior : de (uma) política neoliberal.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Porque será ?..


O telemóvel entrou de tal forma, qual prepotência (?), nas nossas Vidas que, hoje, já nos é dificil viver sem tal objecto ...
O telemóvel é útil ?
Claro, sem quaisquer dúvidas.
Se, em tempo, o telemóvel foi uma "moda", agora é um aparelho com e de multiplas funcionalidades: faz e recebe chamadas telefónicas, navegamos na Internet, tiramos fotografias, ouvimos musica, serve de despertador etc, etc ...
Pois, isso, essa "modernidade", não nos acarreta nada de grave.
Será ?
Mas, e se o telemóvel (nos) fizer mal à saúde?
Afirmar que as radiações de um qualquer telemóvel podem compromoter a nossa saúde é algo que, pela sua gravidade, precisa naturalmente de ser provado.
O Professor Girish Kumar, actualmente Catedrático no Indian Institute of Technology em Bombaim, apresentou um extenso relatório onde realça que a utilização excessiva do telemóvel coloca os seus utilizadores "numa situação de risco aumentado, nomeadamente face a doenças como o cancer, tumor no cérebro e muitas outras. Risco que é aumentado no caso de crianças e adolescentes".
É óbvio que não queremos convencer quem quer que seja a deixar de utilizar o telemóvel cuja utilidade ninguém, de boa fé, pode(rá) por em causa.
Importa, contudo, alertar as Pessoas para uma correcta utilização dos telemóveis e, assim, evitar-se consequências por demais desagradáveis.
Ao fim e ao resto, importa é denunciar que esta preocupação com a saúde pública deveria, outrossim e de forma muito mais premente e responsável, ser desenvolvida pelos construtores de telemóveis e, acima de tudo, pelas entidades reguladoras.
Pelo contrário, pouco ou muito pouco de faz nesse sentido.
E até nem nos é muito dificil adivinhar as razões para este "deixar andar" .
Porque será ?

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

domingo, 30 de janeiro de 2011

A indiferença de Davos aos protestos do Cairo

A actualidade dos últimos dias tem sido largamente dominada pelas revoltas populares do Norte de África. Sem qualquer aviso prévio, primeiro na aparentemente inofensiva Tunísia (inofensiva por ser a primeira e pela longa tradição de brandura social), agora no já mais perigoso Egipto (pela dimensão do país, localização geográfica e papel de liderança que assume na geopolítica do mundo árabe), populações em fúria manifestam a sua revolta nas ruas, desta feita não por via das sempre mistificadoras razões de base religiosa específicas desta região, mas contra a insustentável situação social de contínua degradação das suas condições de vida. Na base de tudo e sem grandes surpresas, detecta-se o crescente desemprego que, também por aqui, alastra sem freio, com especial relevo para o de longa duração e o dos jovens. Agravado, é certo, por uma crise alimentar gerada por múltiplos factores (catástrofes ambientais, alterações climáticas, especulação financeira sobre os produtos agrícolas,...).

Ainda é cedo para se poder fazer uma análise ou mesmo um balanço prévio sobre tudo o que está a acontecer na região. Os acontecimentos sucedem-se de forma descontrolada e ameaçam alastrar aos países vizinhos (há notícias de protestos pelo menos também em Marrocos, na sempre instável Argélia, no Iémen,...). O poder responde, como era previsto, de forma brutal, mas os manifestantes não parecem dispostos a desarmar até conseguirem o que os determina nesta luta: a queda do poder instituído e a consequente ‘mudança’ de regimes oligárquicos estabelecidos há décadas, implicando o julgamento das seus responsáveis. Se bem que, por agora ultrapassado pelos acontecimentos, o sempre presente fundamentalismo islâmico não deixa de espreitar a hipótese de aproveitamento do estado deplorável, quase caótico, a que a situação social chegou.

A enorme insatisfação de vidas desaproveitadas, de onde resulta a revolta, parece, por enquanto, focalizada na substituição da classe dirigente, tida como responsável pela situação de miséria actual da esmagadora maioria da população, em contraste com o fausto exibido por aquela, resultado de décadas de sedimentada corrupção. Ora, mais do que explicações baseadas nas circunstâncias – controle social pelo fundamentalismo religioso (islâmico, na circunstância), força do poder militar (o caso do Egipto, na circunstância) - importa aqui, sobretudo, fazer a destrinça entre as especificidades próprias da região e o que se afirma geral ao conjunto da economia mundial.

Com efeito, se por um lado é bem verdade que os poderes instituídos nesta zona do Globo (como noutras, é certo) utilizam o Estado sobretudo em seu proveito próprio, gerando cliques dirigentes que têm vindo a desenvolver níveis de corrupção obscenos (com o beneplácito, se não mesmo o apoio, das ditas democracias ocidentais, apenas empenhadas em preservar o manancial de recursos proporcionado por esses países), por outro, é possível detectar por trás de todas estas manifestações, problemas globais cuja raiz ultrapassa em muito as especificidades sociais, políticas e religiosas da região e se têm espalhado por todo o lado – como a desocupação crescente da população activa, por força da gradual destruição líquida de empregos gerada por ‘esta’ globalização.

Na descrição de um jornalista egípcio ‘as revoltas têm sido em grande medida lideradas por jovens desesperados cansados da falta de oportunidades e da repressão’. Jovens melhor qualificados e cada vez mais informados, sem emprego nem perspectivas de futuro, a quem apenas resta o desespero e a revolta. Sem a almofada que o acesso aos esquemas de segurança social permite e que, por enquanto, tem contribuído para evitar, não obstante alguns indícios ameaçadores, maiores níveis de revolta e de violência entre os jovens europeus. Até quando? O efeito de contágio pode não ficar confinado ao Magrefe e aos países árabes e atravessar, um dia destes, o Mediterrâneo.

Indiferentes aos protestos do Cairo, no Egipto, os banqueiros de Davos, na Suíça, insistem na via da desregulação (a ‘tal’ que conduziu à Crise...) para atingirem maior eficiência nos proveitos – a eficiência pela destruição de empregos que se prolonga na revolta das ruas do Cairo e ameaça alastrar a muitas outras paragens!

Depois de Davos, porém, segue-se mais um Fórum Social Mundial, desta vez em Dakar, a mostrar que é possível – mas bem difícil – construir uma alternativa a esta globalização.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

O discurso da Noite!

O último discurso da noite foi o do vencedor. É da praxe que o vencedor, seja à noite seja de dia, se apresente magnânimo com os vencidos, que esqueça eventuais agravos, procure aproveitar a onda de vitória para virar a página, unir esforços, reganhar a confiança mesmo entre aqueles que para ela não contribuíram. Pelo menos é essa a norma adoptada pelos homens sensatos, nem é preciso convocar os de espírito superior. Mandaria até a simples boa educação. Faz parte, aliás, das regras (não escritas) da democracia.

O discurso do vencedor da Noite, porém, foi tudo menos magnânimo, foi tudo menos sensato. Foi, a vários títulos, muito pouco democrático. A condizer em tudo com o perfil do vencedor: mesquinho, convencido, narcísico, divisionista (‘os meus votantes’... e os outros), vingativo, misógino, contabilista, pretensioso. Revelando aquilo que de facto é, um político (mesmo que diga não o ser) paroquial, falho de visão e de estratégia e, o que é pior, de cultura democrática (não tolera a crítica nem admite o erro), preso dos compromissos assumidos, obcecado pelos seus interesses pessoais e os do seu pequeno círculo de amigos, pois – valha a verdade – a pouco mais alcança a tacanhez (para dizer o mínimo) da sua perspectiva política.

No seu ‘discurso da noite’, o vencedor leu nos resultados uma espécie de plebiscito sobre as acusações de que foi alvo na campanha, considerando-os suficientes para o ilibarem de todas as malfeitorias que lhe atribuíam e lhe lavar a honra e a dignidade ofendidas. Na ocasião, para além do fel derramado sobre os seus adversários (e, na sua boca, caluniadores vencidos), reiterou a promessa (?) de que não abdicará de usar todos os seus poderes (!), de que irá intervir mais na vida política (?) através do que designou por ‘magistratura activa’!!!

Se a isto agregarmos o que já havia dito na campanha quando falou na possibilidade de uma crise política grave; os comentários esparsos que foram sendo atirados ao longo da noite pelos seus apoiantes pretendendo reverter quanto antes os resultados apurados na governação do país – o mais inteligente, no dizer de Soares, parece ter sido Passos Coelho, com um discurso de calculado distanciamento (por um lado, o momento ‘queima’, por outro, convém apresentar-se desinteressado do poder, cai bem...); tudo isso tendo por lastro as fartas e impacientes expectativas dos seus fervorosos prosélitos, bem nutridas por um mês de promessas gordas do candidato, facilmente se adivinha o futuro próximo: maior austeridade na Crise instalada, ataque continuado ao SNS (sob pretexto de mais racionalidade nos gastos), gradual fragilização dos direitos sociais (em especial os do trabalho), degradação contínua das condições económicas,...

Com Sócrates ou sem Sócrates, com Passos ou sem Passos,... preparem-se, está aí o triunfalismo cavaquista. A pedir contas dobradas por tanta crença e tamanha devoção. Assim ficou determinado na Noite do discurso triunfante do, até agora, esfíngico Presidente! E a partir de agora?

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

A cultura do novo capitalismo – III

Onde fica o Estado Social?

A única semelhança entre os programas de Alegre e Cavaco é que, ambos podem ser reduzidos a uma frase, a pouco mais que uma expressão, na prática a um ‘slogan’ de campanha. Mas enquanto o de Cavaco se esgota no endeusamento individualista do seu próprio perfil pessoal – ‘os portugueses conhecem-me’ – agora mais a medo, não vão por aí rebentar mais alguns escândalos que ponham em causa aquilo que se considerava uma fortaleza inexpugnável, a idoneidade do candidato; o de Alegre convoca as energias colectivas num projecto que tem vindo a sofrer fortes ataques por parte do actual poder dominante neoliberal – a defesa do Estado social – tendo como pano de fundo o conflito de prioridades na aplicação dos sempre escassos recursos financeiros públicos.

Não se trata aqui de defender o Estado Social como se fosse o último reduto que ainda subsiste perante a avalanche liberal (ainda que o possa ser verdade). Para além da velha querela entre o Estado opressor e a liberdade individual, entre estatismo e esfera privada, do que se trata mesmo é da defesa de direitos considerados inalienáveis e que merecem uma tutela especial, as mais das vezes consagrados nas constituições nacionais, precisamente por se tratar de áreas essenciais à defesa e promoção da dignidade humana e, porque susceptíveis de exploração económica, sujeitos ao domínio (político, social ou meramente pessoal) dos mais fracos pelos mais poderosos.

Hoje, é certo, ninguém se atreve a contestar a sua necessidade. Daí que a linha de demarcação entre os que assumem na prática o Estado Social e os que apenas proclamam defendê-lo, tem de encontrar-se muito para além da retórica do discurso, detecta-se na coerência da acção concreta de cada um, através da sua história pessoal e dos objectivos que a norteiam. Numa altura em que a palavra de ordem parece ser resistir, Alegre demonstra, pelo seu passado e pela sua história recente, ser o mais capaz de cumprir essa função, de enfrentar a onda liberal que o pretende reduzir ou mesmo desmantelar e assim garantir melhores condições na estruturação de um novo modelo de sociedade.

Gerando, por isso, grandes inimizades mesmo dentro do seu próprio partido. Como foi o caso de Correia de Campos, incapaz de perceber o que efectivamente pode estar em jogo nesta eleição, ou de saber distinguir objectivos políticos de agravos pessoais. Depois de se ter evidenciado como péssimo gestor, enquanto ministro, na condução de um projecto de racionalização do SNS (não está aqui em causa a sua eventual valia intrínseca), aparece agora como político mesquinho e sem visão, preso na emoção primária da sua pequena história pessoal e dos seus ódios de estimação – bem imbuído, diga-se, da cultura ‘cavaquista’. Só isso explica, mais que o elogio a Cavaco, a defesa que faz da estabilidade política como valor superior ao da defesa do Estado Social. Como pretende a direita e, enfim, a cultura do novo capitalismo.

Precisamente a atitude inversa do que se torna exigível para se poderem enfrentar as diferentes crises com que nos confrontamos, financeira, social, moral, cultural,... enfim, uma Crise Global gerada pelas lógicas próprias deste sistema. É aí que a existência e a defesa do Estado Social, nas suas diferentes áreas – saúde, educação, trabalho, a própria justiça,... – se demonstra importante, essencial mesmo à construção de uma alternativa ao actual modelo de sociedade, baseada numa nova cultura democrática. Onde os valores da exigência pessoal e cívica superem os que afirmam a primazia dos benefícios imediatos a qualquer preço (que esta ‘cultura do novo capitalismo’ instituiu), os da sustentabilidade civilizacional sobre os do curto prazo predatório, a solidariedade e a coesão social sobre o individualismo e o salve-se quem puder, a tolerância sobre o fanatismo, a participação sobre a indiferença,...

O que implica uma visão estratégica capaz de delinear, com realismo e a necessária ousadia, as estruturas sociais de uma sociedade mais habilitada a enfrentar o futuro respondendo aos desafios do presente, em domínios vitais para as pessoas como a saúde ou a segurança, a justiça e a educação. Ou tão básicos à coesão social como a organização do trabalho e a garantia do seu acesso a todos os elementos da sociedade. Porque de direitos se trata e não de regalias, como o pensamento liberal teima em praticar – sem a coragem, no entanto, de o proclamar. Porque, enfim, é imprescindível alterar o paradigma económico do actual modelo de desenvolvimento, baseado no crescimento contínuo e é sobre estes pilares que deve assentar a construção de uma alternativa.

Cavaco, fiel ao pensamento liberal, resumir-se-á a proclamar a defesa do Estado Social – mas pouco fará para o proteger.

Alegre, pela sua história, garante lutar pela sua intransigente defesa. E isso é o essencial, por agora.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

A cultura do novo capitalismo – II

Um político ausente da política
– ou a sonolenta superioridade de uma fraude

À medida que a campanha avança e forçado pelos acontecimentos, Cavaco tem vindo a destapar a hirta máscara que normalmente lhe afivela o rosto, a pose entre a vitimização e a ameaça velada, expondo propósitos furtivos sem, contudo, ser capaz de apresentar uma ideia nova, uma proposta definida para um próximo mandato. Ao bom estilo do sonso, manifesta-se, sem pejo nem vergonha, isento de responsabilidades pelo estado da situação actual. Mas logo de seguida, no mesmo sítio, à mesma hora, é capaz de produzir a surpreendente promessa de que ‘tudo farei para alterar esta situação’!

Talvez por isso Cavaco tenha admitido há dias que, no mandato que agora termina, se não andou a dormir, andou pelo menos sonolento. É o que se depreende da afirmação, produzida algures no Alentejo, de que ‘irei exercer a minha magistratura activa (?) com MAIS ATENÇÃO (...) do que no passado’. ‘Com mais atenção’? Mas isso significa que, até agora terá andado algo desatento, que pelo menos era possível ter feito melhor, desde logo ter-se mantido, precisamente... ‘com mais atenção’. Que dizer, por exemplo, da triste figura que fez perante V. Klaus? Para que serve um Presidente ausente?

À parte saber-se se da admitida sonolência deste Presidente adveio algum grande mal ao mundo (à parte o episódio checo, pouco se perdeu com isso, pois de uma sua ‘vigilante’ actuação sairia ainda maior asneira, pela certa), por uma vez – há que reconhecê-lo – Cavaco excedeu-se em honestidade: para quem nunca se engana e raramente tem dúvidas, esta inédita nota de auto-crítica, mesmo que involuntária, garante-lhe, para já, um momento de rara humildade democrática – ou apenas uma nesga de lucidez no meio da sua permanente alucinação de superioridade?

Mas onde é que a enigmática fórmula da ‘magistratura activa’ do esfíngico Presidente irá revelar-se? Que acções, que valores, que objectivos lhe darão conteúdo?

Um bom ensaio pode ter sido o 1ª leilão do ano de dívida pública, ocorrido em ambiente de grande expectativa e de dúvidas sobre o futuro imediato. No final, as condições obtidas (procura e preço) constituíram uma boa notícia – não obstante, a prazo, o preço atingido dever considerar-se insustentável. Ganhar tempo parece, nas circunstâncias actuais, a estratégia possível face ao dilema económico imposto pelo contexto externo: solução global europeia ou desintegração da UE. Mesmo os comentários, a propósito, do Nobel Krugman, são sobretudo dirigidos ao conjunto da Economia Europeia – ou à ausência nesta de uma verdadeira política económica (na sequência, refira-se, das críticas que tem vindo a produzir sobre os caminhos trilhados por ‘esta’ UE).

Pois foi este o momento aproveitado pelo douto prof. Cavaco para, antecipando o fracasso da operação e esperando daí colher outros resultados, ameaçar com a possibilidade de uma crise política – o que, por si só e perante o desfecho da operação, para além da leitura política, não deixa de constituir mais uma prova do brilhantismo da sua competência económica. Em lugar de garante da estabilidade, Cavaco passou a constituir mais um factor de incerteza, ficando a pairar, sem ter a coragem de o afirmar, uma possível dissolução do Parlamento após as eleições. Só ainda não se percebe bem, perante o vazio de ideias que o preenche, o propósito real de tal empreendimento...

Com efeito, das 6 candidaturas é possível encontrar propostas concretas em três delas: Alegre centra-se na defesa do Estado Social, Defensor de Moura apela à regionalização, Coelho visa a luta contra a corrupção instalada no poder. Quanto aos restantes, se a candidatura do PC se inscreve na própria matriz programática do partido, Nobre surge eivado de um purificador espírito messiânico e só o futuro dirá qual o saldo desta aventura e os seus efeitos no projecto que ele personifica. Resta Cavaco, e neste cada dia se torna mais evidente o vazio de ideias e de propostas. No início, bastar-lhe-ia apelar ao estereotipado perfil de cidadão impoluto – 'os portugueses conhecem-me’ – encerrando-se aí todo o seu programa. Agora, porém, após a revelação da sua conexão ao escândalo BPN, mais raramente e a medo...

Arrisco dizer que Cavaco ficará na História como uma das nossas maiores fraudes. Pelas expectativas sebastianistas que gerou, face aos resultados que produziu. Apenas um reduzido grupo de ‘amigos’ sai beneficiado. Dias Loureiro e Oliveira e Costa são o verdadeiro rosto do cavaquismo. Vindos do nada, pretensos ‘self-made-men’ que, a coberto de uma rede que foi sendo montada desde que Cavaco ascendeu ao poder, em 1985, foram construindo impérios de interesses a que ‘souberam’ ligar o nome do próprio Cavaco, não obstante a constante profissão de fé na sua isenção, honestidade e seriedade, no meio de um discurso apolítico, pretensamente acima dos partidos!

É mesmo assim, quanto mais distantes e alheados da política se ‘afirmarem’ os políticos, mais caminho abrem aos interesses económicos. Também aqui é visível a cultura do novo capitalismo! Afinal a cultura política de Cavaco.

domingo, 16 de janeiro de 2011

A cultura do novo capitalismo – I

Um sonso empertigado

Enquanto decorre a campanha presidencial, passa ainda nos cinemas o documentário ‘Inside Job – A verdade da Crise’, um impressionante relato apoiado em depoimentos recolhidos junto de alguns dos principais protagonistas da hecatombe financeira iniciada há cerca de 3 anos. Centrado, como é natural, em Wall Street e nos figurões que se entrincheiram nesta espécie de santuário do culto neoliberal. E por aqui se percebe que as crenças e convicções, o esforço matemático e as equações econométricas utilizadas como argumentação justificativa de suporte à desregulação financeira, apenas servem de muleta à boa realização dos interesses pessoais da plêiade de gurus empertigados e convencidos da sua elevada competência.

Não é possível evitar, no final, uma estranha sensação de frustração e desalento – pela impunidade que alardeiam os principais fautores do descalabro, imunes a qualquer punição (escudados num quadro legal criado para os proteger em situações de aperto) e pela presumida impotência em pôr cobro à tendência política que o causou, de novo dominante e sem oposição consistente no terreno (apenas o debate de ideias em torno dessas opções começa a fazer-se sentir). Não obstante a nota positiva com que termina ao enunciar, apesar do aparente retrocesso, que ‘vale sempre a pena tentar lutar’.

Foi também este sentimento de desalento que ‘animou’ o início da presente campanha presidencial. Alimentado na comprovada dificuldade em apear do poder os responsáveis pelo descalabro actual, tanto a nível interno como externo, dadas as regionais/globais ligações económicas e políticas. Nem os factos acusatórios apontados ao principal responsável nacional por esta situação (como mais antigo e mais proeminente actor da política) parecem ter feito grande mossa na couraça de honestidade fabricada ao longo dos anos de um ídolo que, afinal, como todos os ídolos, se comprova ter pés de barro. O ‘candidato Cavaco’ passeia-se pelo País com o à vontade de quem acredita que a impunidade compensa e até pode ser premiada.

Depois do ‘caso da U. Nova’ – salvo pelo ‘amigo’ Deus Pinheiro; do ‘caso BPN’ – ‘apanhado’, com os ‘amigos’, numa mal explicada e intrincada rede de corrupção (de funestas consequências para os contribuintes), surge agora o ‘caso da Aldeia da Coelha’ – onde, mais uma vez, aparece junto com os ‘amigos’ do BPN, numa trapalhada de terrenos e propriedades que o ‘candidato’ não tem interesse em explicar. Ou ainda, para compor o perfil, o rocambolesco (para dizer o mínimo) episódio das ‘escutas de Belém’! São, seguramente, mais trapalhadadas (e de efeitos muito mais gravosos) do que as que trouxeram Sócrates em polvorosa nos últimos 5 anos!

Desfeito o mito da isenção e honestidade de que o próprio se vangloria, o único valor que parece restar ao ‘candidato Cavaco’ é mesmo o de não trair os ‘amigos’, ainda que reconhecidamente corruptos (Dias Loureiro, Oliveira e Costa,...). Mas aí impõe-se, pelo menos, a dúvida: fá-lo por convicção e amizade ou por mero tacticismo na defesa dos seus interesses pessoais (receio de ser arrastado na queda)?

A pose hirta, a plástica de estadista, o perfil de competência e honestidade ‘acima de qualquer suspeita’, a retórica do ‘homem providencial’, tudo isso concorre para a formatação de um ‘boneco’ artificial, afinal, um sonso insuportavelmente empertigado. À imagem dos convencidos de Wall Street na origem da Crise, Cavaco absorveu bem o espírito do actual poder dominante (manha, insinuação, intriga, obtenção de resultados sem olhar a meios, lamechice q.b.,...), daí ele saber interpretar na perfeição ‘a cultura do novo capitalismo’ (título de um estimulante ensaio do sociólogo norte-americano Richard Sennett, sobre as ‘novas’ relações do trabalho): predomínio do curto sobre o longo prazo, eficácia a qualquer preço, avidez pelo lucro imediato, o martelar das teses sobre a inevitabilidade do real (que impedem qualquer mudança)...

A meio da campanha presidencial, o ‘candidato’ Cavaco presume já ter a eleição ganha, não obstante o confronto da vida real que o persegue. Em contrapartida, Alegre aparece cada vez mais convicto da força daquela mensagem final do filme, de que ‘vale sempre a pena tentar lutar’. Para mudar – ou talvez só agitar – este estado de coisas.
(...)

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Estado(s) de Alma ...


" Ninguém está obrigado a cooperar em
sua própria perda ou em sua própria
escravatura, a Desobediência Civil é
um direito imprescindível de todo o
cidadão ".

(Mahatma Ghandi)

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Carta Aberta a Cavaco ( III) …


Lisboa, 13 de Janeiro de 2011

Olá Cavaco,

Assisti, tal como (te) havia prometido, e com a máxima atenção, à tua prestação televisiva da passada segunda-feira; digo prestação televisiva, dado que, por decoro, e por respeito aos Jornalistas – aos verdadeiros Jornalistas e que, infelizmente, são cada vez menos -, não posso chamar “aquilo” de entrevista.
A funcionária da RTP, a D. Judith, esta, esteve ao seu melhor nível : - prestável !!!
Aliás, e como, de resto, tem sido habitual com a D. Judith quando e sempre que estão em “jogo” alguns dos teus amigos; quem não se lembra(rá), por exemplo, das “entrevistas” que, solicitamente, a D. Judith efectuou a Dias Loureiro, a Duarte Lima e a Alberto João Jardim ???
Mas, enfim, é da tua prestação que (te) quero falar …
Gostei, sobretudo, quando tu, com uma pseudo humildade e uma falsa candura, por mais de uma vez, referiste que:
“ se o Povo Português entender ser merecedor do seu voto e me eleger Presidente da Republica ...”
Foi, acredita, um "momento" chocante …
Não fora, contudo, tudo isso, ser contraditório com o que “apregoas” pelos comícios/jantaradas que promoves pelo País, onde enuncias que queres tudo resolvido à primeira …
E foste ainda mais cândido - diria, mesmo : muito cadinho – nas explicações que (em)prestaste ao/no caso do BPN.
Caro Cavaco,
Tu, lá entendes que deves colocar-te assim como que numa espécie de pedestal e, qual virgem imaculada, manter aquele registo bacoco que, de resto, te é muito peculiar, e refugiares-te em “lugares comuns” para não responderes, de forma clara e inequívoca, às questões que, pertinentemente, (te) têm sido colocadas ...
Então, não é que lendo os Jornais de hoje o BPN e/ou os teus Amigos do BPN voltam a atormentar-te …
Ora, meu caro Cavaco, é preciso ter mesmo azar, senão vejamos :
- no “Destak”, na pag 5, lê-se que “Genro de Cavaco chamado a negociar dívida”, dois meses após a nacionalização do Banco;
- na “Visão”, das pag 31 à 35, é um “fartote” com que é noticiado sobre a Aldeia da Coelha ...
Enfim, não bastava o imbróglio com as acções da SLN e, agora, lá terás que explicar aquilo que a “Visão” de hoje, com plena oportunidade, refere como “O Cavaquistão da Coelha” …
Vou, de viagem, até aos Estados Unidos da América; contudo, regressarei a tempo e horas e por forma a que, com o meu voto, te possa obrigar à segunda volta …
Espero, durante esta minha curta ausência no estrangeiro, que (te) possas explicar – por forma a que (eu) possa perceber – todas estas teias e enredos que vens “orquestrando” com os teus Amigos.
É que, e como deves calcular, múltiplas dúvidas continuam, para mim, a pulular sobre a tua honorabilidade.
Com os melhores cumprimentos,
Carlos Borges Sousa

sábado, 8 de janeiro de 2011

Carta Aberta a Cavaco (II) ...


Praia do Ribatejo, 8 de Janeiro de 2011

Olá Cavaco,

Pelos vistos, a “campanha suja” não deixa de te atormentar; desta feita, até o Expresso, imagine-se, persegue este desiderato …
Pese embora, e de forma intelectualmente muito desonesta, o esforço titânico de alguns dos teus correligionários
( por exemplo : Marques Mendes ) em procurar branquear o “atoleiro” em que te encontras, o “Expresso” - que acabo de comprar, aqui, no remanço da Praia do Ribatejo – até parece que te quer “tramar” …
É caso para dizer-se : cada tiro cada melro …
Afinal, e segundo o Expresso, ficamos a saber que
– quer tu, seja a tua filha – compraram as acções da SLN ( sublinho : “fora de bolsa”) ao valor nominal de 1€ quando, ao que parece e à data, outros, muitos outros as compraram a, pelo menos, 1,8 € …
Ora, e para mim, esta pequena (?) nuance, esta situação de “favor” terá, também e naturalmente, que ser esclarecida.
Cavaco,

Mais uma vez te peço que não sejas cobarde e não te refugies naquele falso pedestal, qual “virgem pura”, em que normalmente de auto-colocas e responde, de forma clara e inequívoca, às questões que (te) têm sido formuladas...
Já agora, diz aos teus correligionários que, embora castanha, a “merda não tem nada a ver com o chocolate” e que o artigo que o Manuel Alegre escreveu para o Expresso, e que “virou” publicidade para o BPP, é um tiro no “escuro”;

ir por aí, isso sim, é que é campanha suja.
O Director do Expresso, Henrique Monteiro, na página 5 do primeiro caderno, confirma a versão de Manuel Alegre.
Segunda- feira, conto telever a tua entrevista.
Estou na expectativa que a jornalista de serviço esteja à altura dos acontecimentos; i.e : que seja tão “acutilante” quanto soube ser com os outros candidatos e, claro, (te) faça as perguntas que, na circunstância, serão oportunas e (in)convenientes.
Espero, assim, e por isso, que tenhas a oportunidade de esclarecer todas as dúvidas que continuam a pairar sobre a tua honorabilidade.
Com os melhores cumprimentos,
Carlos Borges Sousa

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Carta Aberta a Cavaco ...


Olá Cavaco,

Sou assim como que obrigado a escrever-te, uma vez que não terei o “dom” de nascer duas vezes para te provar – a ti – que, e pelo menos no que concerne ao mercado de capitais, sou uma pessoa muito, muitíssimo mais séria do que tu …
Ora, tu que, “fora de/da bolsa”, compraste 105.378 acções da SLN e dois anos depois, em 2003, as vendeste – igualmente “fora de bolsa” - conseguindo uma mais valia efectiva de 140%., enquanto que eu - bronco e estúpido - exactamente no ano de 2003, tive um prejuízo com a/da minha carteira de acções – compradas e vendidas na BVL - de cerca de 47% …
És, assim e como se pode(rá) constatar um gajo muito, muitíssimo esperto …
E, assim e por isso, por esta tua douta esperteza não te armes em vítima; pelo menos para comigo; percebes ???...
Caro Cavaco,
Não convém, de todo e na circunstância, confundir a esperteza com seriedade;
pois, e enquanto não (me) conseguires explicar como é que conseguiste esta choruda mais valia (+140%, tendo eu, em 2003 “perdido” -47% ), não terás quaisquer condições para ser Presidente.
Assim, e por isso, não te refugies cobardemente em (me) remeteres as (tuas) respostas a todas as minhas dúvidas para o sítio da Presidência; pois, ao sítio, já lá “fui” e, este, não esclarece porra nenhuma...
A ganância é uma coisa má; isso aprendeste, tu, na catequese …
Agora, tu, enquanto profissional da política, deverias saber que o crime é bem pior.
Aguardando as (tuas) respostas a todas as questões que, publicamente, te têm sido colocadas, os melhores cumprimentos,
Carlos Borges Sousa

PS - independentemente de tudo isso, da tua (in)conveniente falta de esclarecimento(s), nunca e em quaisquer circunstâncias votaria em ti; para que conste ...
CBS

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

A crise é só para alguns...

A propósito de uma proposta sobre emprego do P. Anselmo Borges
Para não fugir à regra e manter-se viva a tradição, os noticiários desta passagem do ano reproduziram quase à letra os conteúdos dos anos anteriores. Se em alguma coisa diferiram foi nas imagens de uma ainda maior ostentação financeira, num aparente (despropositado?) alarde de um fausto pouco condizente com a actual crise económica! Maiores levantamentos de dinheiro no Multibanco, passagens de ano esgotadas, centros comerciais a abarrotar, vendas de automóveis de topo a disparar,... A tendência para o exacerbado consumo que caracteriza esta época não só se manteve, como parece ter-se acentuado. Mas afinal onde é que está a crise?

É certo que, pontuando o clima de euforia generalizada, vão surgindo também as notícias que assinalam a existência da crise e, se atentarmos bem, até mesmo onde ela se localiza e quem na realidade lhe sofre os efeitos principais. Fábricas e empresas a fechar, despedimentos diários às centenas, relatos de situações dramáticas um pouco por todo o País (objecto frequente de aproveitamento mediático),... parecem não deixar dúvidas. A crise concentra-se no trabalho, mais propriamente na falta dele – nas pessoas que o perderam, ou que a ele ainda não tiveram acesso! Mas ao lado dos que não têm trabalho – pasme-se! – há quem se ‘queixe’ de ter trabalho demais!

A realidade desta crise é, pois, a de que ela apenas atinge de forma drástica uma parte da população trabalhadora, por enquanto ainda uma minoria – os excluídos do trabalho – apesar das ‘beliscaduras’ que vão já aferroando, de forma indirecta (normalmente pela via fiscal), por vezes acentuadamente, a maioria dela. É seguramente sobre os desempregados de todas as origens que mais se fazem sentir os efeitos ‘desta crise’ – sintoma e consequência do verdadeiro problema que a originou: o esgotamento do modelo de crescimento que sustentou, durante décadas, a relativa prosperidade ‘ocidental’.

Nas sociedades actuais, o critério fundamental para aferir o grau de sustentabilidade e equilíbrio sociais é o da empregabilidade, da capacidade demonstrada na manutenção e criação de empregos. Inviabilizado o recurso ao crescimento económico, como até agora, para a promoção de tal desiderato, tenho vindo a insistir em que a solução para a questão do emprego passa por uma melhor distribuição do esforço de trabalhoprimeiro a redução da sua duração actual, depois a sua repartição/redistribuição mais equilibrada. Na sequência, aliás, de múltiplas análises e chamadas de atenção, remontando pelo menos aos idos ‘anos 90’ (cf. V. Forrester, M. Husson,...).

Os enormes ganhos de produtividade alcançados ao longo das últimas décadas, a par das dramáticas consequências laborais da actual crise, exigem uma outra forma de distribuição do esforço de trabalho, melhor adaptada às novas condições tecnológicas, economicamente mais abrangente (porque mais produtiva), socialmente mais inclusiva, politicamente mais democrática. Mas isso significaria uma outra organização do trabalho, implicando uma outra organização social, com efectiva capacidade política sobre o poder económico. Enfim, uma outra realidade política!

Mas, por agora, pretendo apenas registar a convergência – pelo menos ao nível dos resultados pretendidos – com recentes propostas de sectores da Igreja Católica que parecem ter finalmente ‘descoberto’ a necessidade de se proceder a essa redistribuição do tempo de trabalho. Não de um ponto de vista social e político, mas apenas, como porventura lhes compete, apelando à ‘solidariedade individual’, à dimensão ética de cada indivíduo. Foi isso que o Padre Anselmo Borges, que ouço e leio sempre com interesse e as mais das vezes com gosto, há dias veio dizer à televisão: cada pessoa com trabalho deveria ceder parte do tempo de que dispõe a outro(s) dele carecido, por forma a que se consiga uma maior igualdade no esforço e na participação de cada um.

Nas condições políticas actuais, contudo, os resultados desse apelo a uma ‘solidariedade interior’ já só irão ser possíveis através de uma ‘forçada transformação social’. Releva-se, contudo, a sintomática aproximação de objectivos – de terapia tão óbvia, de concretização tão improvável, no imediato! – perante uma realidade social que exige mudanças profundas, sobretudo naquilo que a sustenta e que, paradoxalmente, maior fragilidade vem demonstrando: o emprego.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

FMI (ao vivo/audio) parte 1 ...


Este texto foi escrito - tal como disse o Zé Mário - em Fevereiro de 1979; passaram 32 ( trinta e dois ) anos e estará, conforme pode(rá) constatar muito, muito, muitíssimo desactualizado (?) ...