sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Porque será ?..


O telemóvel entrou de tal forma, qual prepotência (?), nas nossas Vidas que, hoje, já nos é dificil viver sem tal objecto ...
O telemóvel é útil ?
Claro, sem quaisquer dúvidas.
Se, em tempo, o telemóvel foi uma "moda", agora é um aparelho com e de multiplas funcionalidades: faz e recebe chamadas telefónicas, navegamos na Internet, tiramos fotografias, ouvimos musica, serve de despertador etc, etc ...
Pois, isso, essa "modernidade", não nos acarreta nada de grave.
Será ?
Mas, e se o telemóvel (nos) fizer mal à saúde?
Afirmar que as radiações de um qualquer telemóvel podem compromoter a nossa saúde é algo que, pela sua gravidade, precisa naturalmente de ser provado.
O Professor Girish Kumar, actualmente Catedrático no Indian Institute of Technology em Bombaim, apresentou um extenso relatório onde realça que a utilização excessiva do telemóvel coloca os seus utilizadores "numa situação de risco aumentado, nomeadamente face a doenças como o cancer, tumor no cérebro e muitas outras. Risco que é aumentado no caso de crianças e adolescentes".
É óbvio que não queremos convencer quem quer que seja a deixar de utilizar o telemóvel cuja utilidade ninguém, de boa fé, pode(rá) por em causa.
Importa, contudo, alertar as Pessoas para uma correcta utilização dos telemóveis e, assim, evitar-se consequências por demais desagradáveis.
Ao fim e ao resto, importa é denunciar que esta preocupação com a saúde pública deveria, outrossim e de forma muito mais premente e responsável, ser desenvolvida pelos construtores de telemóveis e, acima de tudo, pelas entidades reguladoras.
Pelo contrário, pouco ou muito pouco de faz nesse sentido.
E até nem nos é muito dificil adivinhar as razões para este "deixar andar" .
Porque será ?

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

domingo, 30 de janeiro de 2011

A indiferença de Davos aos protestos do Cairo

A actualidade dos últimos dias tem sido largamente dominada pelas revoltas populares do Norte de África. Sem qualquer aviso prévio, primeiro na aparentemente inofensiva Tunísia (inofensiva por ser a primeira e pela longa tradição de brandura social), agora no já mais perigoso Egipto (pela dimensão do país, localização geográfica e papel de liderança que assume na geopolítica do mundo árabe), populações em fúria manifestam a sua revolta nas ruas, desta feita não por via das sempre mistificadoras razões de base religiosa específicas desta região, mas contra a insustentável situação social de contínua degradação das suas condições de vida. Na base de tudo e sem grandes surpresas, detecta-se o crescente desemprego que, também por aqui, alastra sem freio, com especial relevo para o de longa duração e o dos jovens. Agravado, é certo, por uma crise alimentar gerada por múltiplos factores (catástrofes ambientais, alterações climáticas, especulação financeira sobre os produtos agrícolas,...).

Ainda é cedo para se poder fazer uma análise ou mesmo um balanço prévio sobre tudo o que está a acontecer na região. Os acontecimentos sucedem-se de forma descontrolada e ameaçam alastrar aos países vizinhos (há notícias de protestos pelo menos também em Marrocos, na sempre instável Argélia, no Iémen,...). O poder responde, como era previsto, de forma brutal, mas os manifestantes não parecem dispostos a desarmar até conseguirem o que os determina nesta luta: a queda do poder instituído e a consequente ‘mudança’ de regimes oligárquicos estabelecidos há décadas, implicando o julgamento das seus responsáveis. Se bem que, por agora ultrapassado pelos acontecimentos, o sempre presente fundamentalismo islâmico não deixa de espreitar a hipótese de aproveitamento do estado deplorável, quase caótico, a que a situação social chegou.

A enorme insatisfação de vidas desaproveitadas, de onde resulta a revolta, parece, por enquanto, focalizada na substituição da classe dirigente, tida como responsável pela situação de miséria actual da esmagadora maioria da população, em contraste com o fausto exibido por aquela, resultado de décadas de sedimentada corrupção. Ora, mais do que explicações baseadas nas circunstâncias – controle social pelo fundamentalismo religioso (islâmico, na circunstância), força do poder militar (o caso do Egipto, na circunstância) - importa aqui, sobretudo, fazer a destrinça entre as especificidades próprias da região e o que se afirma geral ao conjunto da economia mundial.

Com efeito, se por um lado é bem verdade que os poderes instituídos nesta zona do Globo (como noutras, é certo) utilizam o Estado sobretudo em seu proveito próprio, gerando cliques dirigentes que têm vindo a desenvolver níveis de corrupção obscenos (com o beneplácito, se não mesmo o apoio, das ditas democracias ocidentais, apenas empenhadas em preservar o manancial de recursos proporcionado por esses países), por outro, é possível detectar por trás de todas estas manifestações, problemas globais cuja raiz ultrapassa em muito as especificidades sociais, políticas e religiosas da região e se têm espalhado por todo o lado – como a desocupação crescente da população activa, por força da gradual destruição líquida de empregos gerada por ‘esta’ globalização.

Na descrição de um jornalista egípcio ‘as revoltas têm sido em grande medida lideradas por jovens desesperados cansados da falta de oportunidades e da repressão’. Jovens melhor qualificados e cada vez mais informados, sem emprego nem perspectivas de futuro, a quem apenas resta o desespero e a revolta. Sem a almofada que o acesso aos esquemas de segurança social permite e que, por enquanto, tem contribuído para evitar, não obstante alguns indícios ameaçadores, maiores níveis de revolta e de violência entre os jovens europeus. Até quando? O efeito de contágio pode não ficar confinado ao Magrefe e aos países árabes e atravessar, um dia destes, o Mediterrâneo.

Indiferentes aos protestos do Cairo, no Egipto, os banqueiros de Davos, na Suíça, insistem na via da desregulação (a ‘tal’ que conduziu à Crise...) para atingirem maior eficiência nos proveitos – a eficiência pela destruição de empregos que se prolonga na revolta das ruas do Cairo e ameaça alastrar a muitas outras paragens!

Depois de Davos, porém, segue-se mais um Fórum Social Mundial, desta vez em Dakar, a mostrar que é possível – mas bem difícil – construir uma alternativa a esta globalização.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

O discurso da Noite!

O último discurso da noite foi o do vencedor. É da praxe que o vencedor, seja à noite seja de dia, se apresente magnânimo com os vencidos, que esqueça eventuais agravos, procure aproveitar a onda de vitória para virar a página, unir esforços, reganhar a confiança mesmo entre aqueles que para ela não contribuíram. Pelo menos é essa a norma adoptada pelos homens sensatos, nem é preciso convocar os de espírito superior. Mandaria até a simples boa educação. Faz parte, aliás, das regras (não escritas) da democracia.

O discurso do vencedor da Noite, porém, foi tudo menos magnânimo, foi tudo menos sensato. Foi, a vários títulos, muito pouco democrático. A condizer em tudo com o perfil do vencedor: mesquinho, convencido, narcísico, divisionista (‘os meus votantes’... e os outros), vingativo, misógino, contabilista, pretensioso. Revelando aquilo que de facto é, um político (mesmo que diga não o ser) paroquial, falho de visão e de estratégia e, o que é pior, de cultura democrática (não tolera a crítica nem admite o erro), preso dos compromissos assumidos, obcecado pelos seus interesses pessoais e os do seu pequeno círculo de amigos, pois – valha a verdade – a pouco mais alcança a tacanhez (para dizer o mínimo) da sua perspectiva política.

No seu ‘discurso da noite’, o vencedor leu nos resultados uma espécie de plebiscito sobre as acusações de que foi alvo na campanha, considerando-os suficientes para o ilibarem de todas as malfeitorias que lhe atribuíam e lhe lavar a honra e a dignidade ofendidas. Na ocasião, para além do fel derramado sobre os seus adversários (e, na sua boca, caluniadores vencidos), reiterou a promessa (?) de que não abdicará de usar todos os seus poderes (!), de que irá intervir mais na vida política (?) através do que designou por ‘magistratura activa’!!!

Se a isto agregarmos o que já havia dito na campanha quando falou na possibilidade de uma crise política grave; os comentários esparsos que foram sendo atirados ao longo da noite pelos seus apoiantes pretendendo reverter quanto antes os resultados apurados na governação do país – o mais inteligente, no dizer de Soares, parece ter sido Passos Coelho, com um discurso de calculado distanciamento (por um lado, o momento ‘queima’, por outro, convém apresentar-se desinteressado do poder, cai bem...); tudo isso tendo por lastro as fartas e impacientes expectativas dos seus fervorosos prosélitos, bem nutridas por um mês de promessas gordas do candidato, facilmente se adivinha o futuro próximo: maior austeridade na Crise instalada, ataque continuado ao SNS (sob pretexto de mais racionalidade nos gastos), gradual fragilização dos direitos sociais (em especial os do trabalho), degradação contínua das condições económicas,...

Com Sócrates ou sem Sócrates, com Passos ou sem Passos,... preparem-se, está aí o triunfalismo cavaquista. A pedir contas dobradas por tanta crença e tamanha devoção. Assim ficou determinado na Noite do discurso triunfante do, até agora, esfíngico Presidente! E a partir de agora?

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

A cultura do novo capitalismo – III

Onde fica o Estado Social?

A única semelhança entre os programas de Alegre e Cavaco é que, ambos podem ser reduzidos a uma frase, a pouco mais que uma expressão, na prática a um ‘slogan’ de campanha. Mas enquanto o de Cavaco se esgota no endeusamento individualista do seu próprio perfil pessoal – ‘os portugueses conhecem-me’ – agora mais a medo, não vão por aí rebentar mais alguns escândalos que ponham em causa aquilo que se considerava uma fortaleza inexpugnável, a idoneidade do candidato; o de Alegre convoca as energias colectivas num projecto que tem vindo a sofrer fortes ataques por parte do actual poder dominante neoliberal – a defesa do Estado social – tendo como pano de fundo o conflito de prioridades na aplicação dos sempre escassos recursos financeiros públicos.

Não se trata aqui de defender o Estado Social como se fosse o último reduto que ainda subsiste perante a avalanche liberal (ainda que o possa ser verdade). Para além da velha querela entre o Estado opressor e a liberdade individual, entre estatismo e esfera privada, do que se trata mesmo é da defesa de direitos considerados inalienáveis e que merecem uma tutela especial, as mais das vezes consagrados nas constituições nacionais, precisamente por se tratar de áreas essenciais à defesa e promoção da dignidade humana e, porque susceptíveis de exploração económica, sujeitos ao domínio (político, social ou meramente pessoal) dos mais fracos pelos mais poderosos.

Hoje, é certo, ninguém se atreve a contestar a sua necessidade. Daí que a linha de demarcação entre os que assumem na prática o Estado Social e os que apenas proclamam defendê-lo, tem de encontrar-se muito para além da retórica do discurso, detecta-se na coerência da acção concreta de cada um, através da sua história pessoal e dos objectivos que a norteiam. Numa altura em que a palavra de ordem parece ser resistir, Alegre demonstra, pelo seu passado e pela sua história recente, ser o mais capaz de cumprir essa função, de enfrentar a onda liberal que o pretende reduzir ou mesmo desmantelar e assim garantir melhores condições na estruturação de um novo modelo de sociedade.

Gerando, por isso, grandes inimizades mesmo dentro do seu próprio partido. Como foi o caso de Correia de Campos, incapaz de perceber o que efectivamente pode estar em jogo nesta eleição, ou de saber distinguir objectivos políticos de agravos pessoais. Depois de se ter evidenciado como péssimo gestor, enquanto ministro, na condução de um projecto de racionalização do SNS (não está aqui em causa a sua eventual valia intrínseca), aparece agora como político mesquinho e sem visão, preso na emoção primária da sua pequena história pessoal e dos seus ódios de estimação – bem imbuído, diga-se, da cultura ‘cavaquista’. Só isso explica, mais que o elogio a Cavaco, a defesa que faz da estabilidade política como valor superior ao da defesa do Estado Social. Como pretende a direita e, enfim, a cultura do novo capitalismo.

Precisamente a atitude inversa do que se torna exigível para se poderem enfrentar as diferentes crises com que nos confrontamos, financeira, social, moral, cultural,... enfim, uma Crise Global gerada pelas lógicas próprias deste sistema. É aí que a existência e a defesa do Estado Social, nas suas diferentes áreas – saúde, educação, trabalho, a própria justiça,... – se demonstra importante, essencial mesmo à construção de uma alternativa ao actual modelo de sociedade, baseada numa nova cultura democrática. Onde os valores da exigência pessoal e cívica superem os que afirmam a primazia dos benefícios imediatos a qualquer preço (que esta ‘cultura do novo capitalismo’ instituiu), os da sustentabilidade civilizacional sobre os do curto prazo predatório, a solidariedade e a coesão social sobre o individualismo e o salve-se quem puder, a tolerância sobre o fanatismo, a participação sobre a indiferença,...

O que implica uma visão estratégica capaz de delinear, com realismo e a necessária ousadia, as estruturas sociais de uma sociedade mais habilitada a enfrentar o futuro respondendo aos desafios do presente, em domínios vitais para as pessoas como a saúde ou a segurança, a justiça e a educação. Ou tão básicos à coesão social como a organização do trabalho e a garantia do seu acesso a todos os elementos da sociedade. Porque de direitos se trata e não de regalias, como o pensamento liberal teima em praticar – sem a coragem, no entanto, de o proclamar. Porque, enfim, é imprescindível alterar o paradigma económico do actual modelo de desenvolvimento, baseado no crescimento contínuo e é sobre estes pilares que deve assentar a construção de uma alternativa.

Cavaco, fiel ao pensamento liberal, resumir-se-á a proclamar a defesa do Estado Social – mas pouco fará para o proteger.

Alegre, pela sua história, garante lutar pela sua intransigente defesa. E isso é o essencial, por agora.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

A cultura do novo capitalismo – II

Um político ausente da política
– ou a sonolenta superioridade de uma fraude

À medida que a campanha avança e forçado pelos acontecimentos, Cavaco tem vindo a destapar a hirta máscara que normalmente lhe afivela o rosto, a pose entre a vitimização e a ameaça velada, expondo propósitos furtivos sem, contudo, ser capaz de apresentar uma ideia nova, uma proposta definida para um próximo mandato. Ao bom estilo do sonso, manifesta-se, sem pejo nem vergonha, isento de responsabilidades pelo estado da situação actual. Mas logo de seguida, no mesmo sítio, à mesma hora, é capaz de produzir a surpreendente promessa de que ‘tudo farei para alterar esta situação’!

Talvez por isso Cavaco tenha admitido há dias que, no mandato que agora termina, se não andou a dormir, andou pelo menos sonolento. É o que se depreende da afirmação, produzida algures no Alentejo, de que ‘irei exercer a minha magistratura activa (?) com MAIS ATENÇÃO (...) do que no passado’. ‘Com mais atenção’? Mas isso significa que, até agora terá andado algo desatento, que pelo menos era possível ter feito melhor, desde logo ter-se mantido, precisamente... ‘com mais atenção’. Que dizer, por exemplo, da triste figura que fez perante V. Klaus? Para que serve um Presidente ausente?

À parte saber-se se da admitida sonolência deste Presidente adveio algum grande mal ao mundo (à parte o episódio checo, pouco se perdeu com isso, pois de uma sua ‘vigilante’ actuação sairia ainda maior asneira, pela certa), por uma vez – há que reconhecê-lo – Cavaco excedeu-se em honestidade: para quem nunca se engana e raramente tem dúvidas, esta inédita nota de auto-crítica, mesmo que involuntária, garante-lhe, para já, um momento de rara humildade democrática – ou apenas uma nesga de lucidez no meio da sua permanente alucinação de superioridade?

Mas onde é que a enigmática fórmula da ‘magistratura activa’ do esfíngico Presidente irá revelar-se? Que acções, que valores, que objectivos lhe darão conteúdo?

Um bom ensaio pode ter sido o 1ª leilão do ano de dívida pública, ocorrido em ambiente de grande expectativa e de dúvidas sobre o futuro imediato. No final, as condições obtidas (procura e preço) constituíram uma boa notícia – não obstante, a prazo, o preço atingido dever considerar-se insustentável. Ganhar tempo parece, nas circunstâncias actuais, a estratégia possível face ao dilema económico imposto pelo contexto externo: solução global europeia ou desintegração da UE. Mesmo os comentários, a propósito, do Nobel Krugman, são sobretudo dirigidos ao conjunto da Economia Europeia – ou à ausência nesta de uma verdadeira política económica (na sequência, refira-se, das críticas que tem vindo a produzir sobre os caminhos trilhados por ‘esta’ UE).

Pois foi este o momento aproveitado pelo douto prof. Cavaco para, antecipando o fracasso da operação e esperando daí colher outros resultados, ameaçar com a possibilidade de uma crise política – o que, por si só e perante o desfecho da operação, para além da leitura política, não deixa de constituir mais uma prova do brilhantismo da sua competência económica. Em lugar de garante da estabilidade, Cavaco passou a constituir mais um factor de incerteza, ficando a pairar, sem ter a coragem de o afirmar, uma possível dissolução do Parlamento após as eleições. Só ainda não se percebe bem, perante o vazio de ideias que o preenche, o propósito real de tal empreendimento...

Com efeito, das 6 candidaturas é possível encontrar propostas concretas em três delas: Alegre centra-se na defesa do Estado Social, Defensor de Moura apela à regionalização, Coelho visa a luta contra a corrupção instalada no poder. Quanto aos restantes, se a candidatura do PC se inscreve na própria matriz programática do partido, Nobre surge eivado de um purificador espírito messiânico e só o futuro dirá qual o saldo desta aventura e os seus efeitos no projecto que ele personifica. Resta Cavaco, e neste cada dia se torna mais evidente o vazio de ideias e de propostas. No início, bastar-lhe-ia apelar ao estereotipado perfil de cidadão impoluto – 'os portugueses conhecem-me’ – encerrando-se aí todo o seu programa. Agora, porém, após a revelação da sua conexão ao escândalo BPN, mais raramente e a medo...

Arrisco dizer que Cavaco ficará na História como uma das nossas maiores fraudes. Pelas expectativas sebastianistas que gerou, face aos resultados que produziu. Apenas um reduzido grupo de ‘amigos’ sai beneficiado. Dias Loureiro e Oliveira e Costa são o verdadeiro rosto do cavaquismo. Vindos do nada, pretensos ‘self-made-men’ que, a coberto de uma rede que foi sendo montada desde que Cavaco ascendeu ao poder, em 1985, foram construindo impérios de interesses a que ‘souberam’ ligar o nome do próprio Cavaco, não obstante a constante profissão de fé na sua isenção, honestidade e seriedade, no meio de um discurso apolítico, pretensamente acima dos partidos!

É mesmo assim, quanto mais distantes e alheados da política se ‘afirmarem’ os políticos, mais caminho abrem aos interesses económicos. Também aqui é visível a cultura do novo capitalismo! Afinal a cultura política de Cavaco.

domingo, 16 de janeiro de 2011

A cultura do novo capitalismo – I

Um sonso empertigado

Enquanto decorre a campanha presidencial, passa ainda nos cinemas o documentário ‘Inside Job – A verdade da Crise’, um impressionante relato apoiado em depoimentos recolhidos junto de alguns dos principais protagonistas da hecatombe financeira iniciada há cerca de 3 anos. Centrado, como é natural, em Wall Street e nos figurões que se entrincheiram nesta espécie de santuário do culto neoliberal. E por aqui se percebe que as crenças e convicções, o esforço matemático e as equações econométricas utilizadas como argumentação justificativa de suporte à desregulação financeira, apenas servem de muleta à boa realização dos interesses pessoais da plêiade de gurus empertigados e convencidos da sua elevada competência.

Não é possível evitar, no final, uma estranha sensação de frustração e desalento – pela impunidade que alardeiam os principais fautores do descalabro, imunes a qualquer punição (escudados num quadro legal criado para os proteger em situações de aperto) e pela presumida impotência em pôr cobro à tendência política que o causou, de novo dominante e sem oposição consistente no terreno (apenas o debate de ideias em torno dessas opções começa a fazer-se sentir). Não obstante a nota positiva com que termina ao enunciar, apesar do aparente retrocesso, que ‘vale sempre a pena tentar lutar’.

Foi também este sentimento de desalento que ‘animou’ o início da presente campanha presidencial. Alimentado na comprovada dificuldade em apear do poder os responsáveis pelo descalabro actual, tanto a nível interno como externo, dadas as regionais/globais ligações económicas e políticas. Nem os factos acusatórios apontados ao principal responsável nacional por esta situação (como mais antigo e mais proeminente actor da política) parecem ter feito grande mossa na couraça de honestidade fabricada ao longo dos anos de um ídolo que, afinal, como todos os ídolos, se comprova ter pés de barro. O ‘candidato Cavaco’ passeia-se pelo País com o à vontade de quem acredita que a impunidade compensa e até pode ser premiada.

Depois do ‘caso da U. Nova’ – salvo pelo ‘amigo’ Deus Pinheiro; do ‘caso BPN’ – ‘apanhado’, com os ‘amigos’, numa mal explicada e intrincada rede de corrupção (de funestas consequências para os contribuintes), surge agora o ‘caso da Aldeia da Coelha’ – onde, mais uma vez, aparece junto com os ‘amigos’ do BPN, numa trapalhada de terrenos e propriedades que o ‘candidato’ não tem interesse em explicar. Ou ainda, para compor o perfil, o rocambolesco (para dizer o mínimo) episódio das ‘escutas de Belém’! São, seguramente, mais trapalhadadas (e de efeitos muito mais gravosos) do que as que trouxeram Sócrates em polvorosa nos últimos 5 anos!

Desfeito o mito da isenção e honestidade de que o próprio se vangloria, o único valor que parece restar ao ‘candidato Cavaco’ é mesmo o de não trair os ‘amigos’, ainda que reconhecidamente corruptos (Dias Loureiro, Oliveira e Costa,...). Mas aí impõe-se, pelo menos, a dúvida: fá-lo por convicção e amizade ou por mero tacticismo na defesa dos seus interesses pessoais (receio de ser arrastado na queda)?

A pose hirta, a plástica de estadista, o perfil de competência e honestidade ‘acima de qualquer suspeita’, a retórica do ‘homem providencial’, tudo isso concorre para a formatação de um ‘boneco’ artificial, afinal, um sonso insuportavelmente empertigado. À imagem dos convencidos de Wall Street na origem da Crise, Cavaco absorveu bem o espírito do actual poder dominante (manha, insinuação, intriga, obtenção de resultados sem olhar a meios, lamechice q.b.,...), daí ele saber interpretar na perfeição ‘a cultura do novo capitalismo’ (título de um estimulante ensaio do sociólogo norte-americano Richard Sennett, sobre as ‘novas’ relações do trabalho): predomínio do curto sobre o longo prazo, eficácia a qualquer preço, avidez pelo lucro imediato, o martelar das teses sobre a inevitabilidade do real (que impedem qualquer mudança)...

A meio da campanha presidencial, o ‘candidato’ Cavaco presume já ter a eleição ganha, não obstante o confronto da vida real que o persegue. Em contrapartida, Alegre aparece cada vez mais convicto da força daquela mensagem final do filme, de que ‘vale sempre a pena tentar lutar’. Para mudar – ou talvez só agitar – este estado de coisas.
(...)

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Estado(s) de Alma ...


" Ninguém está obrigado a cooperar em
sua própria perda ou em sua própria
escravatura, a Desobediência Civil é
um direito imprescindível de todo o
cidadão ".

(Mahatma Ghandi)

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Carta Aberta a Cavaco ( III) …


Lisboa, 13 de Janeiro de 2011

Olá Cavaco,

Assisti, tal como (te) havia prometido, e com a máxima atenção, à tua prestação televisiva da passada segunda-feira; digo prestação televisiva, dado que, por decoro, e por respeito aos Jornalistas – aos verdadeiros Jornalistas e que, infelizmente, são cada vez menos -, não posso chamar “aquilo” de entrevista.
A funcionária da RTP, a D. Judith, esta, esteve ao seu melhor nível : - prestável !!!
Aliás, e como, de resto, tem sido habitual com a D. Judith quando e sempre que estão em “jogo” alguns dos teus amigos; quem não se lembra(rá), por exemplo, das “entrevistas” que, solicitamente, a D. Judith efectuou a Dias Loureiro, a Duarte Lima e a Alberto João Jardim ???
Mas, enfim, é da tua prestação que (te) quero falar …
Gostei, sobretudo, quando tu, com uma pseudo humildade e uma falsa candura, por mais de uma vez, referiste que:
“ se o Povo Português entender ser merecedor do seu voto e me eleger Presidente da Republica ...”
Foi, acredita, um "momento" chocante …
Não fora, contudo, tudo isso, ser contraditório com o que “apregoas” pelos comícios/jantaradas que promoves pelo País, onde enuncias que queres tudo resolvido à primeira …
E foste ainda mais cândido - diria, mesmo : muito cadinho – nas explicações que (em)prestaste ao/no caso do BPN.
Caro Cavaco,
Tu, lá entendes que deves colocar-te assim como que numa espécie de pedestal e, qual virgem imaculada, manter aquele registo bacoco que, de resto, te é muito peculiar, e refugiares-te em “lugares comuns” para não responderes, de forma clara e inequívoca, às questões que, pertinentemente, (te) têm sido colocadas ...
Então, não é que lendo os Jornais de hoje o BPN e/ou os teus Amigos do BPN voltam a atormentar-te …
Ora, meu caro Cavaco, é preciso ter mesmo azar, senão vejamos :
- no “Destak”, na pag 5, lê-se que “Genro de Cavaco chamado a negociar dívida”, dois meses após a nacionalização do Banco;
- na “Visão”, das pag 31 à 35, é um “fartote” com que é noticiado sobre a Aldeia da Coelha ...
Enfim, não bastava o imbróglio com as acções da SLN e, agora, lá terás que explicar aquilo que a “Visão” de hoje, com plena oportunidade, refere como “O Cavaquistão da Coelha” …
Vou, de viagem, até aos Estados Unidos da América; contudo, regressarei a tempo e horas e por forma a que, com o meu voto, te possa obrigar à segunda volta …
Espero, durante esta minha curta ausência no estrangeiro, que (te) possas explicar – por forma a que (eu) possa perceber – todas estas teias e enredos que vens “orquestrando” com os teus Amigos.
É que, e como deves calcular, múltiplas dúvidas continuam, para mim, a pulular sobre a tua honorabilidade.
Com os melhores cumprimentos,
Carlos Borges Sousa

sábado, 8 de janeiro de 2011

Carta Aberta a Cavaco (II) ...


Praia do Ribatejo, 8 de Janeiro de 2011

Olá Cavaco,

Pelos vistos, a “campanha suja” não deixa de te atormentar; desta feita, até o Expresso, imagine-se, persegue este desiderato …
Pese embora, e de forma intelectualmente muito desonesta, o esforço titânico de alguns dos teus correligionários
( por exemplo : Marques Mendes ) em procurar branquear o “atoleiro” em que te encontras, o “Expresso” - que acabo de comprar, aqui, no remanço da Praia do Ribatejo – até parece que te quer “tramar” …
É caso para dizer-se : cada tiro cada melro …
Afinal, e segundo o Expresso, ficamos a saber que
– quer tu, seja a tua filha – compraram as acções da SLN ( sublinho : “fora de bolsa”) ao valor nominal de 1€ quando, ao que parece e à data, outros, muitos outros as compraram a, pelo menos, 1,8 € …
Ora, e para mim, esta pequena (?) nuance, esta situação de “favor” terá, também e naturalmente, que ser esclarecida.
Cavaco,

Mais uma vez te peço que não sejas cobarde e não te refugies naquele falso pedestal, qual “virgem pura”, em que normalmente de auto-colocas e responde, de forma clara e inequívoca, às questões que (te) têm sido formuladas...
Já agora, diz aos teus correligionários que, embora castanha, a “merda não tem nada a ver com o chocolate” e que o artigo que o Manuel Alegre escreveu para o Expresso, e que “virou” publicidade para o BPP, é um tiro no “escuro”;

ir por aí, isso sim, é que é campanha suja.
O Director do Expresso, Henrique Monteiro, na página 5 do primeiro caderno, confirma a versão de Manuel Alegre.
Segunda- feira, conto telever a tua entrevista.
Estou na expectativa que a jornalista de serviço esteja à altura dos acontecimentos; i.e : que seja tão “acutilante” quanto soube ser com os outros candidatos e, claro, (te) faça as perguntas que, na circunstância, serão oportunas e (in)convenientes.
Espero, assim, e por isso, que tenhas a oportunidade de esclarecer todas as dúvidas que continuam a pairar sobre a tua honorabilidade.
Com os melhores cumprimentos,
Carlos Borges Sousa

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Carta Aberta a Cavaco ...


Olá Cavaco,

Sou assim como que obrigado a escrever-te, uma vez que não terei o “dom” de nascer duas vezes para te provar – a ti – que, e pelo menos no que concerne ao mercado de capitais, sou uma pessoa muito, muitíssimo mais séria do que tu …
Ora, tu que, “fora de/da bolsa”, compraste 105.378 acções da SLN e dois anos depois, em 2003, as vendeste – igualmente “fora de bolsa” - conseguindo uma mais valia efectiva de 140%., enquanto que eu - bronco e estúpido - exactamente no ano de 2003, tive um prejuízo com a/da minha carteira de acções – compradas e vendidas na BVL - de cerca de 47% …
És, assim e como se pode(rá) constatar um gajo muito, muitíssimo esperto …
E, assim e por isso, por esta tua douta esperteza não te armes em vítima; pelo menos para comigo; percebes ???...
Caro Cavaco,
Não convém, de todo e na circunstância, confundir a esperteza com seriedade;
pois, e enquanto não (me) conseguires explicar como é que conseguiste esta choruda mais valia (+140%, tendo eu, em 2003 “perdido” -47% ), não terás quaisquer condições para ser Presidente.
Assim, e por isso, não te refugies cobardemente em (me) remeteres as (tuas) respostas a todas as minhas dúvidas para o sítio da Presidência; pois, ao sítio, já lá “fui” e, este, não esclarece porra nenhuma...
A ganância é uma coisa má; isso aprendeste, tu, na catequese …
Agora, tu, enquanto profissional da política, deverias saber que o crime é bem pior.
Aguardando as (tuas) respostas a todas as questões que, publicamente, te têm sido colocadas, os melhores cumprimentos,
Carlos Borges Sousa

PS - independentemente de tudo isso, da tua (in)conveniente falta de esclarecimento(s), nunca e em quaisquer circunstâncias votaria em ti; para que conste ...
CBS

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

A crise é só para alguns...

A propósito de uma proposta sobre emprego do P. Anselmo Borges
Para não fugir à regra e manter-se viva a tradição, os noticiários desta passagem do ano reproduziram quase à letra os conteúdos dos anos anteriores. Se em alguma coisa diferiram foi nas imagens de uma ainda maior ostentação financeira, num aparente (despropositado?) alarde de um fausto pouco condizente com a actual crise económica! Maiores levantamentos de dinheiro no Multibanco, passagens de ano esgotadas, centros comerciais a abarrotar, vendas de automóveis de topo a disparar,... A tendência para o exacerbado consumo que caracteriza esta época não só se manteve, como parece ter-se acentuado. Mas afinal onde é que está a crise?

É certo que, pontuando o clima de euforia generalizada, vão surgindo também as notícias que assinalam a existência da crise e, se atentarmos bem, até mesmo onde ela se localiza e quem na realidade lhe sofre os efeitos principais. Fábricas e empresas a fechar, despedimentos diários às centenas, relatos de situações dramáticas um pouco por todo o País (objecto frequente de aproveitamento mediático),... parecem não deixar dúvidas. A crise concentra-se no trabalho, mais propriamente na falta dele – nas pessoas que o perderam, ou que a ele ainda não tiveram acesso! Mas ao lado dos que não têm trabalho – pasme-se! – há quem se ‘queixe’ de ter trabalho demais!

A realidade desta crise é, pois, a de que ela apenas atinge de forma drástica uma parte da população trabalhadora, por enquanto ainda uma minoria – os excluídos do trabalho – apesar das ‘beliscaduras’ que vão já aferroando, de forma indirecta (normalmente pela via fiscal), por vezes acentuadamente, a maioria dela. É seguramente sobre os desempregados de todas as origens que mais se fazem sentir os efeitos ‘desta crise’ – sintoma e consequência do verdadeiro problema que a originou: o esgotamento do modelo de crescimento que sustentou, durante décadas, a relativa prosperidade ‘ocidental’.

Nas sociedades actuais, o critério fundamental para aferir o grau de sustentabilidade e equilíbrio sociais é o da empregabilidade, da capacidade demonstrada na manutenção e criação de empregos. Inviabilizado o recurso ao crescimento económico, como até agora, para a promoção de tal desiderato, tenho vindo a insistir em que a solução para a questão do emprego passa por uma melhor distribuição do esforço de trabalhoprimeiro a redução da sua duração actual, depois a sua repartição/redistribuição mais equilibrada. Na sequência, aliás, de múltiplas análises e chamadas de atenção, remontando pelo menos aos idos ‘anos 90’ (cf. V. Forrester, M. Husson,...).

Os enormes ganhos de produtividade alcançados ao longo das últimas décadas, a par das dramáticas consequências laborais da actual crise, exigem uma outra forma de distribuição do esforço de trabalho, melhor adaptada às novas condições tecnológicas, economicamente mais abrangente (porque mais produtiva), socialmente mais inclusiva, politicamente mais democrática. Mas isso significaria uma outra organização do trabalho, implicando uma outra organização social, com efectiva capacidade política sobre o poder económico. Enfim, uma outra realidade política!

Mas, por agora, pretendo apenas registar a convergência – pelo menos ao nível dos resultados pretendidos – com recentes propostas de sectores da Igreja Católica que parecem ter finalmente ‘descoberto’ a necessidade de se proceder a essa redistribuição do tempo de trabalho. Não de um ponto de vista social e político, mas apenas, como porventura lhes compete, apelando à ‘solidariedade individual’, à dimensão ética de cada indivíduo. Foi isso que o Padre Anselmo Borges, que ouço e leio sempre com interesse e as mais das vezes com gosto, há dias veio dizer à televisão: cada pessoa com trabalho deveria ceder parte do tempo de que dispõe a outro(s) dele carecido, por forma a que se consiga uma maior igualdade no esforço e na participação de cada um.

Nas condições políticas actuais, contudo, os resultados desse apelo a uma ‘solidariedade interior’ já só irão ser possíveis através de uma ‘forçada transformação social’. Releva-se, contudo, a sintomática aproximação de objectivos – de terapia tão óbvia, de concretização tão improvável, no imediato! – perante uma realidade social que exige mudanças profundas, sobretudo naquilo que a sustenta e que, paradoxalmente, maior fragilidade vem demonstrando: o emprego.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

FMI (ao vivo/audio) parte 1 ...


Este texto foi escrito - tal como disse o Zé Mário - em Fevereiro de 1979; passaram 32 ( trinta e dois ) anos e estará, conforme pode(rá) constatar muito, muito, muitíssimo desactualizado (?) ...

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

As falsas evidências do senso comum: equívocos ou imposturas? – III

Ironias da História

O ousado descaramento com que agora se culpam os Estados do descalabro financeiro e se mesclam interesses num amalgamado ‘nós’ a puxar ao oportunismo nacionalista, merece ainda, a fechar estes breves comentários sobre equívocos e falsidades que se acobertam sob a capa de evidências ou verdades do senso comum, uma última nota.

Apesar de tudo parecer já ter sido dito sobre o papel contraditório que coube ao Estado assumir na actual crise – primeiro como salvador de um sistema à beira da catástrofe, depois, quase envergonhado, alvo de ataques incontidos por haver gasto ‘em aventuras desnecessárias’ (!) recursos que, afinal, não dispunha – há um aspecto que, a meu ver, não tem sido devidamente destacado. Refiro-me ao facto surpreendente – e algo irónico – de o capitalismo ter sido salvo da sua mais que certa derrocada, em boa medida (ainda que sem uma contabilidade rigorosa) pela ‘mão (quase) invisível’ de um país que, a despeito de todas as incoerências, continua a proclamar-se ‘comunista’!

Com efeito, se ‘esta’ China não existisse ou não tivesse actuado, antes e depois da eclosão da crise, comercial e financeiramente, comprando os produtos e as dívidas dos países capitalistas desenvolvidos, nomeadamente dos EUA, do Japão e da Alemanha, a sucessão de acontecimentos que culminou no Verão de 2008 naquilo que ficou conhecido pela ‘crise do sub-prime’ teria muito previsivelmente precipitado a derrocada do capitalismo, ter-se-ia assistido primeiro ao ‘salve-se quem puder’ – cada país empenhado em defender os seus interesses próprios – e, por fim, ao caos completo.

Ora, o que de objectivo se pode apurar é que tal só foi possível concretizar não pela discutível natureza do seu regime (dito comunista), mas por dispor de um Estado centralizado e forte (um trunfo que se revelou essencial – à parte juízos políticos sobre o seu carácter totalitário! – para gerir e suster os efeitos da crise), capaz, pela dimensão e peso relativo do país na cena internacional, de influenciar as trocas comerciais e alavancar recursos bastantes para ocorrer aos principais focos de perturbação mundiais, tanto de natureza económica como financeira.

Entretanto, a ‘saúde económica’ que se diz bafejar a Alemanha – exibindo enormes vantagens competitivas, assentes na diferenciação tecnológica e organizativa, que lhe permitem ditar no seio da UE, em seu benefício exclusivo, as regras e os tempos de resposta à crise – ameaça esboroar-se, em breve, perante o avanço alucinante que, nesse domínio, a China (e não só) tem vindo a imprimir em todos os sectores económicos. Depois de, na última década, ter arrasado o têxtil e dominado a electrónica, está já a avançar para o assalto final sobre o automóvel, a aeronáutica,...

As transferências de tecnologia – por deslocalização de empresas ou por contrapartida negocial aos apoios concedidos – são mais uma consequência na lógica desta globalização comandada pelo capital financeiro e onde, paradoxalmente (ou talvez não), a China ‘comunista’ adquiriu um poder incontestado. Mercedes e BM’s (ou equiparáveis) importados da China a preços das ‘lojas chinesas’? A Alemanha que se cuide, pois. Breve, breve, irá chegar a sua hora,... quero eu dizer, a dos seus trabalhadores!

Mas se a Alemanha consegue apresentar, por enquanto, uma aparente unidade de interesses entre capital e trabalho, mercê do seu histórico avanço tecnológico, entre nós o aprofundamento da crise tem servido – estranha ironia – para finalmente se exporem, em perspectiva e dimensão mais próximas da realidade, as gritantes disparidades que atravessam a estrutura social portuguesa, tornando cada dia mais ridículo o discurso de um pretenso destino comum ou colectivo – como se não existissem classes e estas não traduzissem realidades sociais bem distintas. Pois que dizer então da ultrajante insistência com que políticos, empresários e comentadores (os mesmos do costume) pretendem amalgamar o jogo de interesses contraditórios numa estranha toada de pendor nacionalista, sempre que se preparam para impor ao país medidas de maior austeridade, que no final apenas sobrecarregam os mais desfavorecidos?

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

(Des)Esperança ...


"Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes,
mas não esqueço de que a minha vida é a maior empresa do mundo.
E que posso evitar que ela vá à falência.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e
se tornar um autor da própria história.
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar
um oásis no recôndito da sua alma.
É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.
É saber falar de si mesmo.
É ter coragem para ouvir um 'não'.
É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.
Pedras no caminho?
Guardo todas, um dia vou construir um castelo..."

(Fernando Pessoa)

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Uma questão de ilusionismo (?) ...


“ … 61 por cento dos 2,2 mil milhões de euros destinados a combater a crise foram parar ao sector bancário”
É – tal como disse uma vez o “outro” – só uma questão de fazer (as) contas …
Dito isto : continuemos, então, com as Boas Festas !!!

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

As falsas evidências do senso comum: equívocos ou imposturas? – II

A maior das imposturas!

A segunda falsa evidência gira em torno do decantado papel da produtividade, já por mais de uma vez aqui abordado – mas nunca por demais evidenciado. Porque da comparação estatística com os valores internacionais equiparáveis, os obtidos internamente saem normalmente a perder, logo se pretende extrair como única conclusão que ‘os trabalhadores portugueses ganham acima do que produzem’, pelo que a solução inevitável (!) para garantir a indispensável competitividade externa passa pela ‘desvalorização/redução dos custos (!!!) laborais, das remunerações’.

À parte o ‘pormenor’, bem elucidativo e ainda há pouco tempo evidenciado por Bruto da Costa, de os rendimentos do trabalho serem considerados um ‘custo’ para a empresa – quando os ganhos do capital se traduzem por ‘benefícios’ – o que mais importa aqui realçar agora é a fraude que se acoberta por detrás desta aparente evidência do senso comum: a escassa (ou menor) produtividade resolve-se sobretudo cortando nos referidos ‘custos’ do trabalho, ou seja, reduzindo os salários (sob formas diversas).

Ora, já por aqui o expressei em diversas vezes, as razões da baixa produtividade nacional não radicam num menor esforço do trabalho, mas antes nos obsoletos processos de gestão e organização empregues na esmagadora maioria das empresas portuguesas. Ainda não há muito tempo referi que ‘a causa da baixa produtividade não está em trabalhar mais, mas em trabalhar melhor, não está em despender mais esforço, mas em reproduzir esse esforço de uma forma mais organizada. O problema é, mesmo, ORGANIZAÇÃO’. O que permite afirmar não serem os trabalhadores em geral os principais responsáveis por esse atavismo nacional que nos penaliza na comparação internacional, pois ‘se a ‘culpa’ é da organização – ou da falta dela – então os ‘culpados’ são, em primeira instância, os... gestores e organizadores, todos os que têm de a formular, planear e aplicar, enfim, os decisores em geral (...)’!

Porque só detectando correctamente as causas da menor produtividade evidenciada em parte significativa das actividades nacionais é possível estabelecer as medidas certas para, em cada caso, a aumentar e assim eliminar as diferenças de competitividade que hoje se verificam para os principais parceiros comerciais do País. E que alimenta o discurso dos que pretendem explicar os atrasos no seu desenvolvimento com base no estafado e falso argumento de que ‘o nível de salários dos portugueses está desfasado do da produtividade’, para justificar a redução salarial (ou tentar a sua desvalorização sob diversas formas), pondo-se eles próprios a salvo de qualquer beliscadura nas suas regalias.

Daí ter adiantado, na sequência do então referido, que ‘os principais responsáveis pela tão persistente e vilipendiada baixa produtividade são os mesmos que a invocam como argumento (dá jeito em momentos como este), para extraírem mais umas migalhas aos milhões de pedintes em que o país se vai transformando... presumidamente por falta dela. Porque de um modo geral são eles que têm governado o país, definido e imposto – dela se servindo – esta ORGANIZAÇÂO: tanto no Estado, como nas empresas, a nível da sociedade global!

Não consta que, após a crise ou por força dela, tenha ocorrido alteração significativa ou sequer algum movimento importante nas remunerações dos gestores, públicos ou privados, sobretudo nos sectores de que se reclama padecerem de baixa produtividade e até nas empresas que apresentam prejuízos de milhões. A esmagadora maioria deles continua a usufruir do mesmo nível de regalias que, em boa medida, contribuiu decisivamente para o descalabro financeiro que conduziu à crise!

E que faz de Portugal o País da UE onde são maiores as desigualdades sociais – com tendência para o seu agravamento!

(...)

sábado, 25 de dezembro de 2010

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

As falsas evidências do senso comum: equívocos ou imposturas? – I

Os equívocos

O actual contexto político, pródigo em incertezas, grande desorientação, muita desilusão e não menor insatisfação, é propício também e talvez por isso, à aceitação fácil das falsas evidências com que os poderes instituídos contam para o eficaz controle dos seus subordinados. Apresentadas sob a forma de raciocínios simplistas e enraizadas na opinião pública por pressão constante dos ‘fazedores de opinião’, fazem parte do esquema mental que nos pretendem incutir de não haver alternativa social às ‘inevitáveis’ soluções do mercado. Tudo é feito, pois, em nome do mercado.

São sobretudo dois os equívocos que vêm pautando o quotidiano das ideias feitas e que mais importa desmontar, até porque deles invariavelmente se extraem consequências ou assentam medidas cuja necessidade se pretende justificar (quando não mesmo impor) como evidências naturais e inevitáveis:

O primeiro pretende que tudo o que acontece de mau no país é da responsabilidade do Governo e, por extensão, do Estado. Isso significaria então que bastaria uma simples mudança do Governo para que tudo mude ou, pelo menos, melhore.

O segundo diz respeito à origem da desgraça: tudo, afinal, se resume às atávicas diferenças de produtividade com os nossos concorrentes ou parceiros. Logo, conclui-se, o que importa é desvalorizar o trabalho tanto quanto for necessário para nos podermos equiparar (ou pelo menos aproximar) aos nossos mais directos competidores.

Cada um destes pontos carece de um pequeno comentário mais.
O papel que o Estado deve desempenhar nas sociedades modernas é, por agora, tema dominante e referência obrigatória nas análises efectuadas sobre as múltiplas questões sociais, ainda que pairando as mais das vezes de forma apenas subliminar, o que demonstra a universalidade da sua pertinência. Invocado seja para se evidenciar a sua necessidade imperiosa ou a sua dimensão desmesurada, para acentuar a imprescindível função regulatória de que se não prescinde (embora em graus diversos) ou a sua asfixiante omnipresença na vida das pessoas. Isso deve-se, antes de mais, ao crescente peso que tem vindo a ganhar sobretudo desde que lhe foram atribuídas as funções sociais, antes reservadas ao estrito âmbito da assistência meramente caritativa (logo, facultativa).

Não admira, pois, que quando se trata de encontrar explicação para o descalabro actual os olhos se virem, invariavelmente, para os responsáveis governamentais tidos, em última análise, como os caucionadores, quando não mesmo os fautores, de todas as desgraças que acontecem. Não deixa de haver algum fundamento nesta simplificação, pois que se firma na perspectiva, afinal bem razoável, de que as escolhas políticas deveriam ter capacidade para impor os seus pontos de vista sobre as restantes componentes da vida, na ilusão de que aos cidadãos-eleitores, através dos seus eleitos, caberia orientar e controlar politicamente os diferentes aspectos sociais, incluindo a economia. Mas não é assim que acontece, como se sabe.

O que a realidade comprova é que a rotatividade dos partidos do centro – PS/PSD (com ou sem o pendura do costume, o CDS) – a que esta democracia nos parece haver condenado, tem-se resumido a gerir, de forma mais ou menos (in)competente e com menos ou mais corrupção, as funções de um Estado cativo de um sistema económico que tudo comanda e que efectivamente governa. Com efeito são os ‘mercados’, mais que quaisquer políticas ou tendências ideológicas, que ditam as soluções a adoptar e as medidas a tomar. Que definem as regras e traçam os limites, que concedem as benesses de uma expansão económica ou impõem os danos das restrições financeiras. Em suma, que elegem os beneficiados e designam os punidos.

Afinal a única verdadeira vantagem desta desengonçada alcatruz reside apenas na periódica substituição da plêiade de serventuários e demais agentes do Estado – vantagem que, nas actuais circunstâncias, está longe de poder ser menosprezada.

(...)

Sem comentários ...


Ora, limite-se a ouvir ... e desfrute, clikando AQUI

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

A verdade ganhará sempre


"Em 1958 o jovem Rupert Murdoch, então proprietário e editor de The News de Adelaide, escreveu: “na corrida entre segredo e verdade, parece inevitável que a verdade ganhe sempre”.
A sua observação talvez reflectisse a revelação do seu pai, Keith Murdoch, de que as tropas australianas estavam a ser sacrificadas desnecessariamente nas costas de Gallipoli por comandantes britânicos incompetentes. Os britânicos tentaram calá-lo, mas Keith Murdoch não se deixou silenciar e os seus esforços levaram ao fim da campanha desastrosa de Gallipoli."

Por Julian Assange, publicado no The Australian
(via: esquerda.net )

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

O bluff da produtividade (?) ...


"Uma tentação imediata do nosso tempo é o desperdício.
Não é só resultado duma invenção constante da oferta que leva ao apetite do consumo, como é, sobretudo, uma forma de aristocracia técnica.
O tecnocrata, novo aristocrata da inteligência artificial, dos números e dos computadores, propõe uma sociedade de dissipação. Propõe-na na medida em que favorece os métodos de maior rendimento e a rapina dos recursos naturais. As hormonas que fazem crescer uma vitela em três meses, as árvores que dão fruto três vezes por ano, tudo obriga a natureza a render mais.
Para quê?
Para que os alimentos se amontoem nas lixeiras e os desperdícios de cozinha ou de vestuário sirvam afinal para descrever o bluff da produtividade"
Agustina Bessa-Luís, in "Dicionário Imperfeito"

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Acontece(u) ...


Traido pelo coração, Carlos Pinto Coelho faleceu ...
Morreu, o Carlos, vivenciando o (seu) ofício, no (de)correr da (sua) profissão de Jornalista.
Carlos Pinto Coelho, foi um Senhor Jornalista, um Homem de (e da) palavra ...
Um Governo do PSD - de triste, muito triste memória - silenciou-lhe a "voz", acabando com o "Acontece", o melhor - de longe - de todos os Programas que, até ver, e do ponto de vista de/da Cultura, se realizaram em Portugal.
Carlos Pinto Coelho, com um estilo muito, muito peculiar, sabia conversar, inquirir e, acima de tudo, rasgar horizontes ...
Acontece(u) que o coração do Carlos, velhaco, e sem qualquer aviso prévio, acabou por lhe tramar ...
Carlos, até sempre !!!

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Ser ou não ser


Qualquer coisa está podre no Reino da Dinamarca.
Se os novos partem e ficam só os velhos
e se do sangue as mãos trazem a marca
se os fantasmas regressam e há homens de joelhos
qualquer coisa está podre no Reino da Dinamarca.

Apodreceu o sol dentro de nós
apodreceu o vento em nossos braços.
Porque há sombras na sombra dos teus passos
há silêncios de morte em cada voz.

Ofélia-Pátria jaz branca de amor.
Entre salgueiros passa flutuando.
E anda Hamlet em nós por ela perguntando
entre ser e não ser firmeza indecisão.

Até quando? Até quando?

Já de esperar se desespera. E o tempo foge
e mais do que a esperança leva o puro ardor.
Porque um só tempo é o nosso. E o tempo é hoje.
Ah se não ser é submissão ser é revolta.
Se a Dinamarca é para nós uma prisão
e Elsenor se tornou a capital da dor
ser é roubar à dor as próprias armas
e com elas vencer estes fantasmas
que andam à solta em Elsenor.

Manuel Alegre

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Pela LIBERDADE, Sempre !!!


QUANDO UMA PORTA SE FECHA... DEZENAS DE JANELAS SE ABREM !!!
Assim, e por enquanto, a Liberdade pode(rá) passar por aqui :
http://savewikileaks.net/another-wikileaks-address/

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

SOS Racismo : 20 anos ...

Hoje, na Cinemateca, às 21h 30m:
. SOS Racismo, 20 Anos de Luta Contra o Racismo .
Documentário de : Bruno Cabral
Seguido de nove curtas-metragens realizadas por Manuel Mozos, Miguel Clara Vasconcelos, Sérgio Brás de Almeida, Raquel Freire, Susana Palmerston, Hugo G., Uncle C., Isabel Pato, João Dias, Tiago Pereira, Mito Elias.
Um resumo de vinte anos de actividade do SOS Racismo, contando a história da associação e relembrando alguns dos seus momentos decisivos.
A sessão prossegue com sete pequenos filmes expressamente realizados para evocar o 20º aniversário do SOS Racismo.

Depois, nos dias 8, 9 e 10 de Dezembro, no "Clube Ferroviário", muita Festa com musica, teatro, poesia etc,etc ...

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

O reservatório inesgotável ( até ver ...) !!!


Diálogo entre Colbert e Mazarino durante o reinado de Luís XIV:
• Colbert: Para encontrar dinheiro, há um momento em que enganar [o contribuinte] já não é possível.
Eu gostaria, Senhor Superintendente, que me explicasse como é que é possível continuar a gastar quando já se está endividado até ao pescoço...

• Mazarino: Se se é um simples mortal, claro está, quando se está coberto de dívidas, vai-se parar à prisão. Mas o Estado... o Estado, esse, é diferente!!! Não se pode mandar o Estado para a prisão. Então, ele continua a endividar-se... Todos os Estados o fazem!
• Colbert: Ah sim? O Senhor acha isso mesmo ? Contudo, precisamos de dinheiro. E como é que havemos de o obter se já criámos todos os impostos imagináveis?
• Mazarino: Criam-se outros.
• Colbert: Mas já não podemos lançar mais impostos sobre os pobres.
• Mazarino: Sim, é impossível.
• Colbert: E então os ricos?
• Mazarino: Os ricos também não. Eles não gastariam mais. Um rico que gasta faz viver centenas de pobres.
• Colbert: Então como havemos de fazer?
• Mazarino: Colbert! Tu pensas como um queijo, como um penico de um doente! Há uma quantidade enorme de gente entre os ricos e os pobres: os que trabalham sonhando em vir a enriquecer e temendo ficarem pobres. É a esses que devemos lançar mais impostos, cada vez mais, sempre mais! Esses, quanto mais lhes tirarmos mais eles trabalharão para compensarem o que lhes tirámos. É um reservatório inesgotável.

( in Le Diable Rouge, de Antoine Rault )

domingo, 5 de dezembro de 2010

Violência das desigualdades, ‘fantasmas’ da burguesia

Um dos ensinamentos básicos da História, para quem estiver disposto a acatá-los, é que a realidade social é sempre mais complexa e dinâmica que os esquemas teóricos onde, por vezes, se tenta encerrá-la. A actual crise e a forma como ela tem sido tratada ao nível da decisão política e dos responsáveis económicos, vem proporcionando exemplos de sobra de como as melhores soluções práticas dificilmente se ajustam às fórmulas contidas nos bem elaborados compêndios universitários.

A economia clássica, como se sabe, teoriza(va) enfaticamente sobre as virtualidades criadoras dos ciclos recessivos: à destruição provocada pelas crises económicas (falências, desemprego,...), sucedia um novo ponto de equilíbrio, uma nova economia, mais dinâmica, mais produtiva, renovada. Isso até à grande crise de 29, que pôs o sistema à beira do colapso. Valeu-lhe, na emergência, um misto de realismo e de ousadia teórica, a acção política de Roosevelt e o pensamento de Keynes, o programa do New Deal e a ambição do Welfare State. Ao paradigma clássico do desenvolvimento natural do ciclo recessivo assente no ajustamento da oferta, Keynes contrapõe a necessidade de estímulos à procura, só possível através da intervenção externa do Estado. Soçobrou a teoria, mas salvou-se a economia e o sistema!

Durante perto de 50 anos prevaleceu o pragmatismo, mesmo quando, na aparência, isso implicava actuar contra a teoria. Até que, ignorando as cautelas impostas por aquela velha máxima, o proselitismo ultraliberal (com nomes e ramificações conhecidas, a sua origem remonta aos anos 30 – Colóquio Walter Lippman, em Paris – e fundação, em 1947, da Societé Mont-Pèlerin), que nunca havia desistido dos princípios teóricos clássicos, impõe os seus pontos de vista. A pouco e pouco foi-se consumando a ruptura do Pacto Social que emerge do pós-guerra – cuja base económica assentava nos princípios keynesianos de desenvolvimento. A inevitável desagregação social subsequente, potencia novas manifestações da violência inscrita nos genes de um sistema regulado pela competição (alimentadas, é certo, por múltiplos outros factores).

Desta acção resultou, em boa medida, a presente crise e a persistência de alguns dos principais impasses económicos e sociais. De entre todos e à cabeça, o grande dilema das sociedades actuais: onde e como ocupar de forma produtiva toda a população. No âmbito das correntes dominantes da economia, a única solução admissível, ainda que de efeitos temporários, passa por se retomarem as medidas de estímulo à procura, por via da intervenção do Estado, tal como propugna a teoria keynesiana para a saída do ciclo recessivo. Mas a resistência a esta perspectiva, por parte do actual poder neoliberal, torna cada vez maior a probabilidade de, no imediato, se aprofundar a catástrofe social e de os seus efeitos se protelarem indefinidamente.

Daí que, comece a equacionar-se e pareça já só fazer sentido uma solução de longo prazo, apenas possível com uma alteração radical da organização social, desde logo no que respeita à forma como o trabalho é encarado: de simples mercadoria em direito pessoal efectivo, tutelado pelo Estado, implicando, nomeadamente, a redução do tempo actual e a sua redistribuição, por forma a permitir-se o pleno emprego das capacidades humanas disponíveis e o acesso de todos, em condições de igualdade, às potencialidades presentes na sociedade. Qualquer outra alternativa não passará de paliativo temporário, destinada a fracassar e a, de forma recorrente, dar lugar a outra,... a mais outra,... Até ao colapso final?

Enquanto isso, não param de ser emitidos sinais inquietantes de um mundo em acelerada desagregação. O que se passa com as actuais guerras entre ‘gangs’ rivais – tenham eles a sofisticação das múltiplas máfias (russas, tríades chinesas ou cartéis da droga) ou o amadorismo ‘romântico’ dos simples ‘gangs’ de bairro – reflecte um pouco a tendência desagregadora para onde se orienta a competição fora do controle do Estado. Ou do espírito subjacente à decantada liberdade individual por trás da iniciativa e criatividade mercantis e dos negócios. O risco da violência descontrolada evoluir para uma situação de desagregação social próxima da anomia não é de todo ficcional...

Precisamente o medo de desagregação social (em resultado da aplicação das receitas liberais) - por potenciar a via revolucionária - renasce entre os mais lúcidos teóricos da burguesia. Remonta-se ao início do séc. XX, para onde somos remetidos pela comparação – exposta no último ‘Prós e Contras’ pelo liberal João Confraria – com o que se passa hoje a nível da desigualdade na distribuição do rendimento, porque ‘nalguns casos, adianta, a percentagem da riqueza que vai para o 1% mais rico da população é semelhante à de então’, ou seja, ao invés de diminuir, tem vindo a aumentar perigosamente! Por trás de uma postura teórica pretensamente asséptica, relembra que o actual nível de desigualdades é, como então, propício a ‘acontecerem coisas terríveis como a revolução russa e o que se lhe seguiu’. E avança explicando que ‘quando a desigualdade atinge níveis que as pessoas consideram insuportáveis ou indecentes, tendem a manifestar-se de forma pouco civilizada (!), embora com o apoio de aparelhos ideológicos mais ou menos estranhos (?). E é isso que temos de evitar’, conclui.

Afinal, a única preocupação por trás da prosápia condoída com que esta gente adorna os discursos sobre a desigualdade (e os seus efeitos) é mesmo e só, hoje e sempre, o ‘fantasma’ da revolução e o papão do comunismo!

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Os Açores e a Segunda Guerra Mundial ...


Eis um filme/documento histórico da chegada dos Ingleses à Ilha Terceira aquando da Segunda Guerra Mundial...
http://www.britishpathe.com/record.php?id=12437

( enviado dos EUA/Boston, por e-mail, pelo meu Amigo Manuel Bonifácio )

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Liberdade


Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.

O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...

Fernando Pessoa

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

GREVE GERAL


Declaramos para todos os efeitos necessários e convenientes que este Blogue está em GREVE.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Amanhã, dia 24 : GREVE GERAL


A Greve é um direito, garante a Constituição e estabelece o Código do Trabalho. Mas o desconhecimento da lei, a precariedade e a chantagem do desemprego trazem dúvidas e receios. Aqui estão as perguntas e as respostas.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Contra a(s) Guerra(s) ...


É uma questão de cidadania e porque, afinal, a Nato só potência a(s) guerra(s) ...

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Concerto anti-NATO


Esta quinta-feira, 18 Novembro, concerto às 21h30 no Largo Camões, em Lisboa, com Terrakota e Mercado Negro.
Por Portugal fora da Nato e a Nato fora de Portugal quando, agora e ademais, se sabe que Portugal é o único país que paga para ter comando da NATO

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

0 (nosso) triste "fado" ...


(clique na imagem para visualizar as legendas)

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

As FALSAS EVIDÊNCIAS do M-E-R-C-A-D-O ...


Falsa evidência n.º 1:
OS MERCADOS FINANCEIROS SÃO EFICIENTES
Falsa evidência n.º 2:
OS MERCADOS FINANCEIROS FAVORECEM O CRESCIMENTO ECONÓMICO
Falsa evidência n.º 3:
OS MERCADOS SÃO BONS JUIZES DO GRAU DE SOLVÊNCIA DOS ESTADOS
Falsa evidência n.º 4:
A SUBIDA ESPECTACULAR DAS DÍVIDAS PÚBLICAS É O RESULTADO DE UM EXCESSO DE DESPESAS
Falsa evidência n.º 5:
É PRECISO REDUZIR AS DESPESAS PARA DIMINUIR A DÍVIDA PÚBLICA
Falsa evidência n.º 6:
A DÍVIDA PÚBLICA TRANSFERE O CUSTO DOS NOSSOS EXCESSOS PARA OS NOSSOS NETOS
Falsa evidência n.º 7:
É PRECISO ASSEGURAR A ESTABILIDADE DOS MERCADOS FINANCEIROS PARA PODER FINANCIAR A DÍVIDA PÚBLICA
Falsa evidência n.º 8:
A UNIÃO EUROPEIA DEFENDE O MODELO SOCIAL EUROPEU
Falsa evidência n.º 9:
O EURO É UM ESCUDO DE PROTECÇÃO CONTRA A CRISE
Falsa evidência n.º 10:
A CRISE GREGA PERMITIU FINALMENTE AVANÇAR PARA UM GOVERNO ECONÓMICO E UMA VERDADEIRA SOLIDARIEDADE EUROPEIA
Conclusão :
DEBATER A POLÍTICA ECONÓMICA, TRAÇAR CAMINHOS PARA REFUNDAR A UNIÃO EUROPEIA
( in Manifesto dos Economistas Aterrorizados; para ler/estudar aqui)

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

‘Os mercados querem drogas e prostitutas’, afirma Krugman

Finalmente, começamos a chamar os ‘bois/boys pelos nomes’, destapando-lhes a carapuça. Aqui mesmo abaixo, Borges de Sousa posta os rostos de alguns deles, mas o movimento estende-se, imparável, por toda a ‘Net’, que todos os dias acrescenta nomes e respectivas sinecuras às listas destes serventuários de um sistema que os sustenta e neles se suporta.

Mas há aqui uma pequena/grande perversidade: é que os ‘bois/boys’ estão longe de constituir um exclusivo partidário, estão longe até de constituir a sua maioria. Por um estranho atavismo, porventura resultante da nossa também atávica dependência do Estado, habituàmo-nos a desancar nos ‘partidos’, por ser mais fácil, por estarem mais expostos nos media, por serem ‘públicos’; aos privados tendemos a perdoar-lhes as extravagâncias, mesmo as de pendor criminoso – fuga aos impostos, práticas pouco éticas, ‘habilidades’ financeiras,... – vá-se lá saber porquê, pois apenas nos não vão aos bolsos directamente...

Com isso esquecemo-nos de que os agora famosíssimos ‘mercados’ são constituídos sobretudo por ‘boys’ e ‘girls’ que nada têm a ver com os partidos, bem pelo contrário, dizem-se mesmo quando não antipartidos, pelo menos pairando acima deles. Olham para estes como organizações obsoletas, enxameadas de oportunistas e arrivistas, no mínimo de uns quantos diletantes empenhados em fazer carreira à custa da papalvice alheia mediante o débito de uns trocadilhos linguísticos em discursos ocos e sem sentido prático, enfim, de obstáculos ao verdadeiro progresso – e não deixam de ter razão em muitas situações.

Progresso que eles, ‘boys’ e ‘girls’ (aqui em sentido lato, não o estritamente partidário, claro) personificam quando se entregam de forma empenhada e criativa às múltiplas engenharias financeiras, quando elaboram ‘científicos’ relatórios económicos onde expõem, sem contradita de espécie alguma, estatísticas e probabilidades sobre o futuro das instituições e dos países; onde peroram sobre ‘evidências’ (!) e ‘inevitabilidades’ (?); onde concluem (sem nunca o afirmarem explicitamente) que todos quantos não pensem desta maneira ou são ignorantes ou estúpidos, mal intencionados e – no fim da lista mas não em último – até perigosos terroristas!

P. Krugman, o Nobel da economia, em recente artigo já destacado pelos ‘Ladrões de Bicicletas’ (e até pela RTPn), expõe-lhes os tiques para os caracterizar de forma exemplar. À pergunta que, por estes dias, mais vezes é feita – afinal, ‘o que é que querem os mercados?’ – transcreve a resposta de um outro 'blog' (The Irish Economy) onde, sem papas na língua, se afirma: ‘os mercados querem dinheiro para droga e prostitutas’. Eis aqui parte da sua explicação:

Most people don’t realize that “the markets” are in reality 22-27 year old business school graduates, furiously concocting chaotic trading strategies on excel sheets and reporting to bosses perhaps 5 years senior to them. In addition, they generally possess the mentality and probably intelligence of junior cycle secondary school students. Without knowledge of these basic facts, nothing about the markets makes any sense—and with knowledge, everything does.” (…)

“Bread and circuses for the masses; cocaine and prostitutes for the markets. This can be looked on a unethical obviously, but since the entire system is unethical, unprincipled and chaotic anyway, why not just exploit that fact to do some good for the nation instead of bankrupting it in an effort to buy new BMWs for unmarried 25 year olds.

Isto é o que dita ‘a consciência de um liberal’, título da coluna que Krugman mantém no ‘The New York Times’ (de onde se extraiu este texto), que já foi também título de livro. É esta ‘consciência liberal’, à americana, que parece faltar a Merkel, Sarkhozy, Cameron ou Barroso, aos líderes de uma Europa que era suposto ser Unida. E que, por herança da ‘velhinha’ Revolução Francesa, surgia ao mundo como o exemplo mais avançado de solidariedade, mas que definha às mãos de títeres medianos, envoltos num estranho ritual autofágico a que os conduziu a obsessão por modelos teóricos que, ao longo da presente crise, provaram todo o seu potencial destrutivo.

Triste, pois, verificar o retrocesso do ideal europeu, que se joga hoje sobretudo entre a defesa do Estado Social e uma qualquer caricatura berlusconiana de ‘boys’ e ‘girls’!

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Liturgia orçamental: Notas à margem do OE11 – III

O Sumo Sacerdote: a tutelar intervenção do FMI

Logo que foram conhecidas as principais orientações do OE/11, percebeu-se, pelos comentários dos analistas do costume, que esta era apenas a 1ª etapa no processo de desmantelamento do Estado Social e que, independentemente das suas sequelas e vicissitudes, iria culminar com a chegada do FMI. Toda a dramatização exposta nos ‘media’, pelos mais diversos e sempre abalizados especialistas, quanto ao ‘abismo’ em que o país está prestes a cair, tem apenas como objectivo fazer ver a inevitabilidade da sua intervenção no curso da política portuguesa, caucionando e até reforçando o aperto financeiro traduzido nas medidas de austeridade impostas à conta do déficit e da dívida pública, desresponsabilizando, deste modo, os políticos internos.

O certo é que ele já cá está, a sua presença tutelar impõe-se mesmo sem necessidade da sua deslocação física. Desempenha o papel do papão que obriga a criancinha a comer a sopa toda. A ameaça não pode ser mais explícita: o nível de restrições exigido pelo descalabro das contas públicas e do endividamento do Estado já só é possível de impor mediante uma intervenção externa, pelo que, nas circunstâncias, concluem, a chamada do FMI é o mal menor... Mas, acrescentam logo, uma eventual intervenção do FMI não se afastará muito das medidas de austeridade propostas no OE, pelo que, reconhecem, o seu papel ‘resumir-se-á’ a tutelar a sua execução, assumindo o odioso dos seus efeitos mais nefastos, aliviando desse fardo os executantes domésticos, PS, PSD e CDS.

O FMI é, assim, o ausente mais presente nas negociações e demais prelecções (envolvendo partidos, especialistas, comentadores,...) em torno deste OE. O tal que corta a despesa pública, mormente a que sustenta a dimensão social do Estado, em nome de uma redução do déficit ditada pelos famigerados mercados (e imposta pelos cânones liberais): não é por acaso que o PSD fez tanta questão na redução da Taxa Social Única, principal fonte de financiamento da Segurança Social, como moeda de troca ao aumento do IVA proposto pelo PS. O propósito já várias vezes explicitado (foi-se o pudor e a vergonha, nem se preocupam em o esconder), destas ignominiosas investidas é mesmo a destruição imediata do que resta do Estado Social, principal empecilho à pureza do modelo liberal e à selecção dos mais capazes!

Exemplo acabado é o do seu novíssimo bonzo, o ‘nosso’ António Borges (e dos ‘hedge funds’, da Goldman Sachs,...), paladino da criativa desregulação financeira e, mesmo depois da crise que esta provocou, avesso a qualquer reforço de regulamentação. Já depois da sua entronização como acólito do Guardião do Templo/FMI, não disfarça um esgar de despeito ao insistir em vulgaridades (ou provocações?) do género: ‘Os portugueses vivem acima das suas possibilidades!’. E já imbuído do seu novo estatuto, com acinte, proclama: ‘Portugal está de joelhos perante o BCE’. Só não acrescenta por que ínvia razão este não pode actuar directamente junto dos governos, preferindo alimentar a especulação dos intermediários bancários num negócio que lhes é altamente proveitoso, tanto quanto de ruinoso para as populações que lhe suportam os efeitos!

A incoerência do actual discurso do PSD – balanceando entre tiradas de arrojado sentido social (por razões de táctica eleitoral) e afirmações de princípio liberais (conforme explicitado na sua recente proposta de revisão constitucional) – não consegue esconder o propósito de, tão rápido quanto o permitirem as circunstâncias (eleitorais, sociais,...), reduzir à expressão mais simples a dimensão do Estado Social, considerado o principal foco da despesa incontrolável do Estado e por isso de manutenção inviável.

Em lugar de se dar início a um movimento no sentido da construção de um modelo alternativo de desenvolvimento capaz de dar resposta aos inúmeros impasses, sobretudo os de cariz económico e laboral, com que as sociedades actuais se debatem, os políticos do ‘centrão’ obstinam-se na gestão do sistema sem o pôr em causa, para isso recorrendo a medidas tapa-buracos e de puro remedeio. Os cortes financeiros anunciados no OE11 estão longe de resolver o problema ou sequer o minimizar, pelo que, afirma-se, não vai bastar a austeridade anunciada, novos cortes irão ser inevitáveis! Onde, pois?

Inevitavelmente no frágil Estado Social! E se no processo da sua destruição, a Sócrates coube abrir o caminho, a Coelho, já se percebeu, não bastará seguir-lhe os passos. Até porque a ele se juntam, em acesa competição, o ‘nosso’ homem no FMI, Cavaco, Portas & C.a,... que tudo farão, de modos diferentes, por lhe fixar o rumo e marcar o ritmo.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

O nosso triste fa(r)do ...


Se, por acaso, quiser ver, com "olhos de ver", os figurantes que alimentam este (nosso) triste fa(r)do, basta(rá) fazer um clique na imagem.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Liturgia orçamental: Notas à margem do OE11 – II

Um Deus Supremo: o paradigma do crescimento contínuo

Um dos aspectos que maior consenso social reúne é o da necessidade de um crescimento económico sustentado, requisito básico para a melhoria das condições de vida (as metas e a forma para o alcançar é que estabelecem as diferenças). Sem esta aparente unanimidade, porventura a base de todo o progresso, colocar-se-ia em risco a manutenção do nosso actual nível de conforto, em especial o conjunto de comodidades que foram sendo geradas e desenvolvidas ao longo da história breve do capitalismo.

Importa, contudo, desfazer desde logo um equívoco. Crescimento económico sustentado não é, como se sabe, a mesma coisa que desenvolvimento sustentado – pode haver crescimento sem que isso se traduza em desenvolvimento, tudo depende da forma como é obtido e utilizado esse crescimento – se bem que ambos sejam usados frequentemente de forma indistinta. Tal confusão apenas aproveita à religião do ‘império do mercado’, pois todo o poder deste é baseado no paradigma do crescimento contínuo, deus supremo a que tudo se subordina, bem patente na ideologia do produtivismo, que impõe produzir sem questionar. Não se ignora que, num mundo em que cerca de 80% da população sofre ainda, por vezes de forma brutal, carências materiais enormes, torna-se difícil explicar que desenvolvimento pode não implicar crescimento (ou até mesmo exigir decrescimento), mas esse é o papel que deve caber à política, enquanto forma superior de organização e direcção social (e a que é suposto subordinar-se a economia), tanto para as opções económicas a tomar (da produção à repartição), como na própria pedagogia a fazer sobre as escolhas adoptadas.

Mesmo a presente (permanente?) discussão em torno do déficit público e da necessidade em o reduzir para os cabalísticos ‘3% europeus’(!) é feita, invariavelmente, tendo como pano de fundo o primado do crescimento económico, referência obrigatória do actual modelo de desenvolvimento (ocidental primeiro, global por fim) e ao qual são atribuídos, definitivamente, insondáveis poderes mágicos servidos por uma alquimia de saberes esotéricos, mas de que depende a vida das pessoas. Da sobrevivência ao conforto, da ocupação ao lazer, até da guerra e da paz, tudo reporta ao nível de crescimento alcançado num determinado momento, tudo remete para esse incontestado modelo baseado na expansão económica contínua – cada vez mais contrariada por esse facto comezinho e óbvio de que os recursos em que assenta não são inesgotáveis...

O pensamento político, que era suposto reflectir sobre múltiplas alternativas, vive aprisionado no dilema do crescimento que apenas conhece as opções por ele mesmo ditadas: crescer, estagnar, reduzir. A ele se subordinam, como é óbvio, todas as decisões e acção políticas, tudo, afinal, gira em torno deste tema essencial, analisado não do ponto de vista da melhoria das condições de vida das pessoas, mas da criação de riqueza, com apropriação pré-definida pelo próprio sistema (a discussão em torno da sua repartição assume sempre papel negligenciável, mesmo sabendo-se não ser este um tema inócuo até do ponto de vista estrito da produção para o mercado).

Aliás, o mínimo reparo ou a mais leve crítica a este estado de coisas, ou qualquer tentativa de se apresentar uma alternativa real, é tido como devaneio irrealista e os seus autores apodados, conforme os casos e os contextos, ora de perigosos subversivos, ora de lunáticos idealistas, sempre como marginais ao essencial dos termos pré-fixados para o debate. As alternativas apresentadas só têm hipótese de serem aceites se respeitarem os limites impostos pelo sistema, o que implica ser apenas possível discutir entre variações de mais ou menos crescimento, entre ritmos mais rápidos ou mais lentos, nunca pôr em causa os mecanismos sociais que o (re)produzem.

Quanto tempo levará ainda a perceber ser impossível manter os ritmos de crescimento impostos pelo dito mercado eficiente? O que é que terá de acontecer para que as pessoas sintam – tal como começam agora a sentir os efeitos perversos do mercado – a necessidade de mudar o seu paradigma de vida, ajustando-o à realidade de um mundo de recursos limitados?

(...)