quarta-feira, 9 de junho de 2010

'Privatize-se o ar!'

Não resisto a transcrever, com a devida vénia, um comentário a uma posta do Daniel Oliveira, no ‘Arrastão’, a propósito das declarações recentes de Daniel Bessa – tido como de esquerda porque, um dia, fez parte, durante uns meses, do governo do ‘esquerdista’ Guterres! – defendendo a privatização da Saúde e da Educação como forma de resolver a crise da dívida (!):

«Privatize-se tudo, privatize-se o mar e o céu, privatize-se a água e o ar, privatize-se a justiça e a lei, privatize-se a nuvem que passa, privatize-se o sonho, sobretudo se for diurno e de olhos abertos. E finalmente, para florão e remate de tanto privatizar, privatizem-se os Estados, entregue-se por uma vez a exploração deles a empresas privadas, mediante concurso internacional. Aí se encontra a salvação do mundo… e, já agora, privatize-se também a puta que os pariu a todos.» José Saramago – (Cadernos de LanzaroteDiário III – pag. 148)

«Passávamos já à última fase, não? O resto está mais ou menos feito», conclui o comentador.

Sob pretexto de pretender resolver ‘a crise da dívida’, o capitalismo, perfilado por trás de um neoliberalismo cada vez menos escondido nos seus propósitos, perdeu toda a vergonha e deixou de disfarçar. O objectivo é mesmo, já ninguém o contesta, a destruição do Estado Social! Prepara-se o ataque final ao que resta dos serviços públicos – pelo menos os que, explorados até ao cêntimo, garantam alguma margem de valor, algum lucro! Irá sobrar ainda alguma coisa? Ou, dito de outro modo, alguma coisa que gere valor consegue escapar às leis do mercado, à fúria do lucro?

segunda-feira, 7 de junho de 2010

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Isto promete acabar mal! – II

Os limites do modelo exportador de crescimento – e desta globalização

Nos meses imediatos a Outubro de 2008, para evitar o risco sistémico de uma crise que ameaçava alastrar sem controle, foram lançados pela generalidade dos Estados programas de apoio financeiro de dimensão nunca vista. Ouviram-se então algumas vozes interrogar como reagiria a economia no momento da retirada desses apoios e quem afinal iria pagar todos aqueles milhares de milhões (!) que, de repente, surgiam do nada. Mais cedo do que se previra, sem surpresas como se esperava, aí está a resposta às duas questões, convergindo no sentido histórico de sempre: violento ‘ajustamento orçamental’, com sobrecarga nos mais desfavorecidos! Os efeitos esperados irão seguramente contribuir para evidenciar que as alternativas de solução propostas pelo sistema se encontram já fora de prazo!

Desde que se concluiu, sem margem para dúvidas – e também sem surpresas! – que as promessas feitas pelo G20 no calor da crise não eram mais do que isso, meras promessas, foram vários os alertas oriundos de diferentes lados a prever que o pior da crise financeira ainda estaria para vir. Sem necessidade de sair do quadro de referências do sistema, relembro os constantes ‘recados’ de Stiglitz sobre o curso do Euro e o (in)consequente rumo ‘desta’ UE; o já aqui abordado ensaio de Santiago Becerra – o premonitório ‘O crash de 2010’; ou as recentes declarações de Jaques Attali em entrevista à Euronews, onde afirma que ‘a crise está apenas a começar’, após observar que ‘os bancos continuam a especular como antes (...), nada mudou num sistema que está totalmente nas mãos do mercado financeiro internacional’.

Contrariando a tónica das políticas postas em prática na UE – de comprovados efeitos desastrosos, a nível económico e social, para todos os países que a integram – Attali, defensor de uma outra alternativa (curiosamente melhor ‘compreendida’ pelos EUA de Obama!), avança o que considera dever ser feito para atacar a turbulência na zona Euro, provocada pelo disparo das ‘dívidas soberanas’ (!), ao defender que ‘a única solução é a do crescimento para a redução da dívida'. Mas acrescenta que, para se evitar a catástrofe enquanto a retoma do crescimento não chega, é preciso ‘emprestar de modo credível’, adiantando ser a União Europeia a única a poder fazê-lo. E, já agora, sobre o efeito desta crise na construção do futuro da Europa: ‘Hoje vemos como uma evidência que a moeda única não pode existir sem uma política fiscal e orçamental. Não é possível.’

Contudo, também a solução para a crise através do incentivo ao crescimento económico parece seriamente comprometida, dadas as condições objectivas de funcionamento actual do modelo de desenvolvimento nas sociedades centradas no mercado – bem expresso no paradigma ‘subprime’ (‘engenharia financeira’ sobre crédito fácil e barato!). A não aplicação de algumas medidas essenciais – como é a ausência de uma política orçamental e fiscal europeia – pode vir a revelar-se fatal. Ou tão só a sua aplicação fora de tempo.

Mas pelo menos uma vantagem, para já, pode ter tido esta crise global, ela permitiu ver com maior clareza a natureza contraditória desta globalização, ao demonstrar os limites deste modelo de desenvolvimento que a suporta, baseado generalizadamente no crescimento do sector exportador. Porque assente na capacidade aquisitiva solvente algures no planeta – nos destinos dos produtos, ou seja, na capacidade de absorção/importação dos mercados consumidores – este modelo é posto em causa sempre que falha alguma das bases que sustenta essa capacidade – os rendimentos disponíveis das famílias ou o recurso ao crédito para os obter (ou as duas em simultâneo, como é agora o caso).

A enorme crise de confiança que se abateu sobre o crédito e as instituições que o gerem, não só fragiliza o sistema financeiro a nível global, como denota o esgotamento gradual desta via como forma de se compensar a crescente debilidade do poder aquisitivo dos consumidores – o suporte real deste modelo de desenvolvimento – por força da cada vez maior diferenciação na repartição dos rendimentos. Nestas condições, a impossibilidade do aumento do consumo pela via da expansão do crédito surge, pois, como limite objectivo à dinamização do tecido económico e ao crescimento, como forma de se sair da crise. E se esta era já, para muitos, a solução que se perfilava como derradeira (após a falência real da protagonizada pela UE)...

Ora, é precisamente na altura em que o recurso ao crédito se contrai ou até desaparece (seja pelo preço, seja pelo risco), que vai ser exigido um esforço suplementar ao orçamento das famílias pelos Estados (todos os Estados) para resolverem a crise... financeira!

É por isso que as palavras dos três autores citados (a par das de muitos outros) soam de forma tragicamente lúcida – ainda que pouco adiantem para a solução. Apenas um ‘isto promete acabar mal, mesmo!

Porque a solução, essa, só mesmo fora de um sistema centrado no mercado – na Globalização dos mercados! – ‘substituído’ pela política como centro da organização social – o princípio para uma outra globalização. Mas isso já daria mesmo outra ‘história’.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Isto promete acabar mal! – I

Um modo de vida assente na extorsão

Primeiro foi a crise do sub-prime. Pelo menos a origem próxima, a que é mais fácil de responsabilizar pela maioria dos males de que a economia actualmente se queixa. De repente esta entidade abstracta, a economia – pela via do mercado – ganhou estatuto equivalente ao dos seres sensíveis, não só se queixa, como gosta e valoriza, não gosta e penaliza, tem aversão (!)... enfim, tem alma – ‘os mercados são sensíveis’, ouve-se constantemente!

Mas uma crise, como qualquer outra coisa da vida, não começa assim, de repente. Prepara-se, tem antecedentes, surge num determinado enquadramento, há (e houve) condições que a tornaram possível... e a prolongam. Porque se o discurso dominante do pensamento único (expresso de forma maquinal – quantas vezes, insuportavelmente enfatuada! – por um qualquer jovem acabado de formatar por uma qualquer escola de economia) foi fácil em diagnosticar as causas próximas da Crise e, não obstante a virulência dos seus inusitados efeitos, a augurar-lhe um fim mais ou menos próximo (os mais cautelosos aventuravam-se então até ao médio prazo), o certo é que ninguém já arrisca hoje uma previsão para o seu termo. Passado a euforia inicial que se seguiu à forma como reagiu à injecção dos apoios governamentais por todo o mundo, a persistência na orientação que a determinou e que, afirmam, a vai ultrapassar (?), apenas tem contribuído, como era fácil de prever, para a sua ampliação.

Certo é que o mal-estar social, durante muito tempo controlado, ameaça agora tornar-se insuportável – da Grécia a Portugal, por toda a Europa, de repente obrigada a pagar uma crise que cada vez se vai desenhando mais profunda e, ao mesmo tempo, mais perceptível nas suas causas, mas resistente à assunção das respectivas consequências. As informações constantes sobre as enormes disparidades de rendimento, contribuem para acentuar esta sensação. Por via dos média tradicionais (escritos e audiovisuais) ou da incontrolável internet, os cidadãos vão-se apercebendo da profundidade das dificuldades, mas, ao mesmo tempo, de quem as provoca e as pretende perpetuar..., daí retirando benefícios pessoais.

Já não é mais possível ignorar que o mundo se transformou, quase de repente – muito por obra das tecnologias da informação – num lugar onde se torna cada vez mais difícil passar despercebido (pessoas e factos), num imenso repositório de queixas contra abusos e percepcionadas injustiças, numa caixa de ressonância onde de forma contraditória mas gradual se vai refinando uma consciência colectiva dando mostras de um apurado sentido de equidade, num laboratório onde se reinventa a solidariedade e se experimenta a cidadania.

Multiplicam-se na Net as informações, petições, abaixo assinados e muitos comentários sobre as escandalosas práticas comerciais de empresas de referência (Instituições Financeiras, à cabeça), por confronto com as chorudas benesses auferidas pelo reduzidíssimo grupo de pessoas que as controla e se atribui, em nome do que designam por ‘criação de valor para o accionista’ (!), mas também em benefício próprio, o poder de extorsão sobre as pessoas – não há outro termo para designar a ‘legal’ imposição de condições aos consumidores, assim obrigados a alimentar esta cáfila, para além de toda a pretensa regulação – por via de um modo de vida assente no crédito fácil e barato, ‘imposto’ por sofisticadas técnicas de marketing e o apoio domesticado do poder dos média!

Este edifício ameaça agora ruir. Em Outubro de 2008, a direita conservadora não teve pruridos em aderir à filosofia do Estado intervencionista, contra todos os princípios até aí professados, para impedir a falência do sistema financeiro à escala global. Seja por razões ideológicas ou por defesa de interesses próprios, o pragmatismo revelado naquela situação de aperto depressa regrediu ao fundamentalismo na origem próxima da crise, deixando sobrepor-se a ganância à razão, com isso ameaçando ‘devorar’ a galinha dos ovos de ouro. O pagamento das dívidas contraídas para salvar os bancos em dificuldades, é agora exigido aos mesmos que têm alimentado a sua fortuna – mas os bolsos estão exauridos, o risco de crédito (do país e das pessoas) descontrolado! Enfim, a receita para o desastre!

(...)

segunda-feira, 31 de maio de 2010

"A austeridade conduz ao desastre"


Joseph Stiglitz é conhecido pela sua postura crítica sobre as principais instituições financeiras internacionais, o pensamento único, a globalização e o monetarismo.
Numa entrevista ao jornal francês Le Monde, falou sobre a sua análise da crise do euro
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Ler mais …
(Via : www.esquerda.net )

domingo, 30 de maio de 2010

Afinal, é tão fácil apanhar um mentiroso …


Segundo o Público de hoje, o gabinete de José Sócrates divulgou uma nota – devidamente replicada pela imprensa - informando que Chico Buarque pretendia conhecer o primeiro ministro de Portugal, aquando da visita deste ao Brasil.
E, para o efeito, lá se deslocou José Sócrates a casa de Chico Buarque;
registe-se que : devidamente acompanhado de um fotógrafo para registar o “boneco” para a posteridade …
Porém, Chico Buarque desmentiu de forma clara, categórica e inequívoca o primeiro ministro de Portugal.
Afinal, fora José Socrates que pretendera conhecer Chico Buarque.
Enfim, mais uma trapalhada, uma das múltiplas e variadas trapalhadas desta inefável criatura que, ainda e agora, é primeiro ministro de Portugal.
Enfim, lá reza o ditado que : é mais fácil apanhar um mentiroso ...

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Modelos económicos, ausência de política – II

Entre as opções de mercado e as opções políticas – onde fica a democracia?

Assiste-se hoje à imposição mediática de um ‘pensamento único’ globalizado, em torno de uma pressuposta inevitabilidade (?) do mercado – deste modo arvorado em intocável eminência sagrada dos nossos dias – por pretensa ausência de uma alternativa social (credível, acrescentam). Tal não obsta, contudo, ao persistente desenvolvimento histórico de duas formas principais de encarar a condução das sociedades:

· de um lado, hegemónicos e esmagadores, os que afirmam o predomínio absoluto do mercado enquanto mecanismo automático de regulação económica, portanto, neutro relativamente aos diferentes interesses em presença, carecendo, em consequência, de ‘rédea solta’ para poder manifestar toda a sua eficácia e isenção (!);
· do outro, ultraminoritários e muito dispersos, os que, face aos resultados actuais, defendem a necessidade de uma alternativa social global ao domínio do mercado, a começar pela aceitação do princípio básico que deve enformar as sociedades, da subordinação da economia – logo, do mercadoà política, e não o contrário, como acontece hoje. Que se expressam de múltiplas maneiras, ainda que sem um rumo muito definido: da ‘economia social’ à ‘economia sustentável’, das teorias ecológicas às teorias do decrescimento económico ou do pós-desenvolvimento, ou ainda às várias correntes marxistas, altermundialistas,...

É certo que nem o mais liberal dos prosélitos do predomínio do mercado se atreve, hoje, a defender a sua total liberalização, prescindindo de alguma ‘regulamentação deste regulador’ (?), afinal a opção por uma maior ou menor regulação é que posiciona o espectro político actual, da direita à esquerda dita socialista (ou social-democrata) – todos coligados na defesa do que já se designa por ‘nova economia de mercado’ (!), a da fase do hipercapitalismo (pelo domínio global e absoluto). A realidade, porém, vem demonstrando as dificuldades ou mesmo a impossibilidade de se colocarem travões a tal mecanismo, de se conseguir, desde logo e para além de todas as pias declarações em contrário, que um modelo económico baseado no mercado possa actuar subordinado ao poder político.

Ainda que involuntariamente, isso mesmo acaba de ser reconhecido pela líder do principal país da UE. Perante o agravamento da instabilidade financeira e depois das promessas não cumpridas feitas há quase dois anos no mais aceso do calor da crise, Angela Merkel lembrou agora, numa conferência sobre regulação financeira, o que então foi proclamado pelos líderes do G-20 sobre a necessidade de reforma da regulação e supervisão. E acrescenta (não sem algum cinismo): ‘As pessoas questionam-se: que poderes ainda têm os políticos?’ Eis, de facto, a questão essencial... para a qual ‘estaUE não tem capacidade de resposta!

Nem podia ter no quadro actual. A aposta crescente num suposto ‘mercado regulado’, surge como uma terceira via entre o liberalismo puro (ou selvagem) e o intervencionismo estatal duro (ou totalitário), ou seja, a tentativa de se estabelecer um controlo indirecto através de uma pretensa regulação independente. Esta alternativa acredita na existência de leis económicas naturais idênticas às leis da física, cabendo aos especialistas a tarefa de as interpretarem e aplicarem à realidade social, e aos reguladores o papel de corrigirem as designadas ‘falhas do mercado’. A política é substituída pela técnica (a dos especialistas e a dos reguladores) e ela própria reduzida a mera técnica na aplicação destas pretensas leis naturais.

Ora, a solução para os problemas do mercado não passa apenas pela sua regulação técnica, mas pelo seu controle essencialmente político, ou seja, pela capacidade que a sociedade conseguir demonstrar em dotar este nível – a política – dos instrumentos adequados de supremacia sobre a economia e não o contrário, como acontece hoje. Insistir apenas na via de regulação do mercado, significa a aceitação implícita, ao arrepio do que teoricamente todos apregoam, da supremacia do económico, por via do mercado, sobre o político – em última análise, do predomínio dos interesses privados sobre o interesse geral ou público.

A avaliar pelas muitas ‘desordens’ que grassam no mundo – do descontrolado terrorismo às obscenas desigualdades sociais,... – a organização social que as segrega (e de que se alimenta) não é, não deve, não pode continuar a ser um “modelo” de sociedade! Mas pretender substituí-lo por um outro baseado na forma ou dimensão das empresas é, no mínimo, despropositado e limitativo do que realmente deve ser considerado um modelo económico.

As mudanças exigidas – e inevitáveis! – dificilmente se resumirão, reafirma-se, à opção pela dimensão das empresas ou dos empreendimentos, entre o apoio às ‘grandes obras públicas’ ou às ‘PME’s’ – elas têm de ser bem mais profundas! Enquanto isso, vão perdurando e fazendo o seu caminho tais equívocos,... encobrindo o alcance real dos verdadeiros pressupostos!

Uns vão bem e outros mal; porque será ???

quarta-feira, 26 de maio de 2010

O(s) Bandalho(s) ...


"Haverá sempre um grupo de bandalhos que
causa o opróbrio a uma nação;
mas alevantar-se-á contra ele uma minoria de homens de bem.
Serão estes, talvez, injuriados;
nunca serão escarnecidos pelo futuro."

( Alexandre Herculano, in Opúsculos )

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Modelos económicos, ausência de política

I - Equívocos e pressupostos

De forma recorrente, o tema vem à baila. De forma mais insistente agora, com a discussão do PEC (depois de revisto e muito aumentado!). A propósito das designadas ‘grandes opções económicas’ nele contidas – a opção essencial, de natureza política, é a de saber quem irá pagar a factura da crise provocada por um capitalismo desgovernado/desregulado! – invariavelmente as posições tanto do PSD como do CDS/PP, acolitadas pela do esfíngico Presidente, questionam o ‘modelo económico’ seguido pelo governo do PS. Fazem-no, contudo, desfocando o problema do essencial, resvalam para uma vertente que, no mínimo, lhe é lateral. Ao pretenderem contrapor a sua política à do Governo, procurando demonstrar que o ‘modelo económico’ proposto por este é errado, acentuam que a tónica se centra nas grandes obras públicas – e no investimento do Estado – ao invés de sê-lo nas Pequenas e Médias Empresas – e no investimento privado!!!

Havendo aqui uma aparência de verdade (essencial para tornar credível a mensagem), subsiste, contudo, uma grande confusão em tudo isto, a que a política económica do próprio governo PS (e da social-democracia em geral) não é alheia. Porque ao privilegiar os mecanismos do mercado (com mais ou menos regulação, conforme o momento assim o ‘aconselhe’ ou ‘exija’), a gestão política de uma significativa ‘carteira de obras públicas’ (destinada, em última análise, a ser satisfeita pelos privados do mercado), tem aberto historicamente a porta a relações de promiscuidade e de favores duvidosos, de que a corrupção é a sua face mais visível. Ainda que isso de modo algum seja específico deste Governo – em regra, ‘a esfera pública tende a parecer um mercado político em que se exerce a concorrência sem peias dos interesses particulares’, lê-se em recente título de Gilles Lipovetsky e Jean Serroy (‘A Cultura-Mundo’) – o certo é que, com o PS, é a esquerda toda que, sobretudo neste domínio específico, ‘parece’ contaminada pela sua acção!

Mas isto, apesar da sua inquestionável importância, serve apenas para desviar as atenções do essencial que deve ser analisado quando se fala em ‘modelo económico’, pela influência deste no desenvolvimento e bem-estar das sociedades. É privilegiar neste debate a forma em detrimento do conteúdo. Até porque as duas opções não são incompatíveis, muito menos excludentes. Coexistem qualquer que seja o modelo. Porque um ‘modelo económico’, base para o desenvolvimento, define-se pelas grandes linhas políticas (sempre, mesmo quando o não parece) que orientam a actividade produtiva do país, quer a nível da fixação das suas áreas e prioridades de actuação, como em termos da repartição da riqueza gerada – neste sentido, a dimensão das empresas não passa de mera estratégia ou meio para se atingirem objectivos, esses sim precisamente estabelecidos por um autêntico modelo económico!

Percebe-se a intenção da direita nesta questão, a discussão está longe de ser meramente semântica. Porque ela esconde a verdadeira razão que leva os partidos dessa ala política a desencadeá-la – sem a designarem pelo verdadeiro nome. O que está em causa é o ataque ao papel que os poderes públicos, expresso num governo político legitimado, deve desempenhar no controle e desenvolvimento da economia (essencial ao bom desempenho das funções sociais), é a desvalorização das funções económicas do Estado em benefício de uma pretensa liberdade económica dos particulares. O que se pretende, no fim de contas, é varrer a política da economia, deixando a organização desta inteiramente entregue e dependente do ‘livre jogo do mercado’, o mesmo é dizer, dos interesses privados, tidos pela ideologia liberal como mais eficientes (logo, também menos corruptos ou passíveis de o ser) na gestão económica.

Estes os pressupostos políticos que se pretendem dissimular por trás de conceitos (aparentemente) técnicos, no mínimo equívocos. A realidade social, porém, mais que todas as concepções ou polémicas, se encarregará de esclarecer e ditar os contornos do modelo económico do futuro. Mas uma coisa pode desde já adiantar-se: dificilmente o essencial desse modelo incidirá sobre a falsa opção entre ‘grandes obras públicas’ e PME’s!
(...)

sexta-feira, 21 de maio de 2010

O discurso ‘patriótico’ de ataque à crise

Temosque mudar radicalmente de vida. O “nosso” nível de vida vai baixar por uns tempos’. Palavras proferidas pelo Presidente da Caixa Geral de Depósitos em recente reunião de banqueiros, sintetizando, aliás, o consenso geral estabelecido entre tão selecta assembleia.

Esta súbita ânsia de ‘colectivização’ revelada pelo conjunto de comentadores que a toda a hora se pronunciam sobre ‘as duras mas inevitáveis’ (!) medidas internas para reduzir a pressão dos ‘mercados’ devido ao risco da dívida da República – amalgamando interesses, caldeando dificuldades, coligando necessidades, confundindo as obscenas remunerações de banqueiros e outros gestores, com o salário médio dos portugueses – visa um propósito, mas é totalmente destituída de objectividade.

Que sentido faz, com efeito, para o português médio – cujo salário ronda os 850€ mensais! – coligar-se com Faria de Oliveira, o autor da frase, ou com o mais badalado António Mexia, numa cruzada pela salvação da Pátria (!), quando o rendimento destes vale largas dezenas (nalguns casos centenas) daquele salário?

Porque é que, por estas alturas, surge sempre o discurso ‘patriótico’ do toque a reunir por parte dos comentadores do costume, que obriga os mais pobres a fazer sacrifícios e os mais ricos a abdicar, quando muito, de alguma futilidade, porventura de menos uma aplicação financeira em qualquer ‘off-shore’?

A confusão deliberada com que os ‘nossos comentadores nos querem convencer da necessidade de medidas que pesam no bolso da maioria do costume, mas apenas belisca a minoria de sempre, serve só e bem os interesses desta!

Piores que os comentadores, só mesmo os especialistas financeiros (economistas e outros), sempre a debitar palpites, a traçar diagnósticos, a ditar receitas. Que, afinal, se resumem à velha solução do mais ‘celebrado’ especialista financeiro que o país teve (e teve-o por mais de 40 anos!), prestidigitador de fancaria, com fama de saneador mas ganha à custa da habilidade manhosa do corte para metade das remunerações dos funcionários públicos!!! O ex-ministro das finanças de Cavaco, Eduardo Catroga, é o mais recente farsante da molhada dos que, agora, advogam o recurso a idênticas mezinhas, sugerindo cortes nos rendimentos dos ‘outros’ – os deles há muito que os têm bem seguros! – como solução milagreira (!) para o aperto actual.

É isso. Quando a política é dominada por especialistas...

Helena Pinto: "quantos pobres cabem num submarino?"

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Especuladores à solta …


Quando rebentou a crise financeira, ouvimos promessas de reformas.
“Nada vai ficar como dantes”, repetiam Obama, Angela Merkel, Sócrates ou Durão Barroso.
Dois anos depois, vemos que era tudo mentira : os especuladores nunca tiveram tanto poder como agora.
Nos últimos meses, o seu alvo tem sido o euro.
Como a bolsa anda mal, os especuladores apostam na desvalorização da moeda única através do ataque à dívida pública dos países mais vulneráveis.
Quanto maior for o risco de bancarrota do país, mais se valorizam os seguros da dívida detidos pelos especuladores.
A Grécia foi primeiro, Portugal está agora sob ataque. Mas os governos que se queixam dos especuladores devem ser os primeiros acusados.
Foram eles que deram liberdade de acção aos abutres do mercado.
A Europa liberal envelheceu obcecada com a moeda única.
Agora, com o euro em risco de ruína, fica à vista que o “europeísmo” dos negócios gez da União Europeia um projecto anémico e dominado pelo egoísmo das elites de cada país.
É necessária uma resposta coordenada da União Europeia e a criação de mecanismos de solidariedade entre os países-membros.
A principal potência económica, a Alemanha, domina hoje o Banco Central Europeu em nome do controlo da inflacção.
Esta prioridade é errada e tem alimentado a crise.
É absurda a situação criada nesta crise financeira, os Estados financiaram os bancos privados com juros baixos.
Depois, os mesmos Estados foram pedir dinheiro emprestado, a juros altos, aos mesmos bancos que antes salvaram.
Para desarmar os mercados especulativos, a Europa deve criar uma agência de notação pública e independente, que avalie as finanças públicas com rigor e transparência.
E o Banco Central Europeu deve poder financiar os Estados, em vez de os deixar à mercê dos tubarões da alta finança.
Entretanto, e até ver, os especuladores continuam à solta ...

(Via : Jornal do Bloco)

quarta-feira, 19 de maio de 2010

A Selecção do BES/Carlos Queirós ...


A Selecção do BES/Carlos Queirós lá está, na Covilhã, a preparar a campanha Sul-Africana …
A mim, pouco me importa a pusilanimidade decisória de Carlos Queirós quanto à Selecção de Portugal.
Não me interessa, tão pouco me apoquenta.
Tenho o meu próprio “feeling”; vai ser um desastre …
Entretanto, Carlos Queirós, em entrevista, lá adiantou que :
“a Costa do Marfim é grande candidata às meias-finais”
Ora, como no Grupo de Portugal, e para além da Costa do Marfim, também consta o Brasil, considerando o “feeling” do Seleccionador, a Selecção do BES/Carlos Queirós, e na melhor das hipóteses, pode(rá) ter o terceiro lugar mais que garantido …
Nada mau para um dos mais bem pagos Treinadores de Selecção que, para mim, e até prova em contrário, será indiscutivelmente o melhor Treinador do Mundo e arredores...
Adjunto, treinador-adjunto, claro !!!
É obra !!!

terça-feira, 18 de maio de 2010

Mentiroso !!!


Deambulei, desde 30 de Abril e durante alguns dias, algures e pelos Estados Unidos da América, e desliguei-me - propositadamente – de Portugal ... e Portugal desligou-se de mim; excepção, claro, a tudo quanto se passava com o Benfica que, e no entretanto, virou o que deve ser : Campeão !!!
Regressado, e retomando a (minha) normalidade, não sou surpreendido; bem pelo contrário …
O Socialismo, ou melhor: este “socialismo” e com este PS, não tem, continua a não ter como valor estruturante a igualdade.
José Sócrates, com o seu (dele) “socialismo moderno”, esqueceu deliberada, propositada e definitivamente os humilhados e ofendidos …
E, se dúvidas houvesse, bastou ver/escutar José Sócrates, ao seu melhor nível, monocórdico, nesta entrevista/propaganda na RTP.
Tudo é ruim com este Sócrates.
Tudo é mau com este Sócrates; é o inglês, o espanhol, o tango, as casas, as promessas, as contas, etc, etc, etc ...
E para além do mais, e o que é grave, José Sócrates é um grande mentiroso !!!

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Dia Mundial de Luta Contra a Homofobia e Transfobia


Hoje, decorrem dezassete anos em que a Organização Mundial da Saúde (OMS) decidiu retirar a homossexualidade da lista de doenças mentais.
Foi, seguramente, uma data histórica que convém registar e comemorar.
Hoje, 17 de Maio, pode(rá) ser uma data histórica para a luta dos direitos de todos os homossexuais Portugueses, isto se Cavaco Silva tiver a coragem de promulgar a lei aprovada em Fevereiro que permite o casamento de pessoas do mesmo sexo.
Será que Cavaco Silva, pela beatitude que se lhe (re)conhece, o fará ?
Mais logo, depois das 20h15m, já o saberemos …
Eu, por mim, não tenho grande(s) esperança(s) …
Oxalá, e desta feita, esteja enganado em relação a Cavaco !!!


Em tempo : tenho que ser justo. Desta feita, no que concerne a esta matéria, e pese a "redonda" argumentação de Cavaco, enganei-me;
ou melhor : fui enganado por Cavaco !!!

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Objectivas manipulações, mercados isentos... – a religião da extorsão

A liturgia do mercado evidenciou, nos últimos dias, uma agitação invulgar. Tanto fervor é bem capaz de pôr em causa as suas próprias estruturas. A ‘Crise’ de que todos falam – mas que ainda só tocou alguns (nomeadamente os desempregados) – trouxe já algumas novidades com impacto geral, por via das alterações introduzidas nas rotinas informativas a que ‘voluntariamente’ nos sujeitamos. Sucedem-se os comentários, as notícias, os debates sobre a dita, num tal frenesim mediático que traz os envolvidos num autêntico virote, saltitando de estação em estação, desdobrando-se em declarações e pareceres, invariavelmente apresentados como ‘rigorosamente técnicos’!!! Contudo, neste mundo pretensamente avesso a qualquer ponta de ideologia (?), a regra é a contradita, os volte-faces noticiosos sucedem-se com inusitada frequência, na área financeira, económica ou política, o que hoje se afirma como verdade, amanhã confirma-se como... mentira!

O último mês tem sido, deste ponto de vista, verdadeiramente paradigmático. Ficará conhecido, porventura, como o mês dos ‘ataques especulativos dos mercados ao Euro’, desencadeados a partir do seu há muito sinalizado elo mais fraco, a Grécia, continuados nas restantes tradicionais frágeis economias do Sul da Europa, primeiro Portugal, depois a Espanha, para mais tarde perfila-se então a Itália – os famigerados PIGS, na depreciativa gíria de quantos gravitam em torno do que, em termos respeitosamente religiosos (por temor da punição divina), se designa por... mercados! Por trás da aparente (misteriosa!) objectividade dos movimentos dos mercados, porém, vislumbram-se de forma cada vez mais nítida os reais interesses e maquinações dos verdadeiros acólitos desta – mais uma – sinistra religião!

Ao que parece, de acordo com o relato da Visão desta semana (6 de Maio/10), numa operação devidamente planeada (palavra proscrita da terminologia neoliberal), em Fevereiro deste ano, terá havido um jantar, em Manhattan, ‘onde vários especuladores concertaram estratégias para fazer cair a pique o euro’. Entre os promotores, encontrava-se Steven Cohen, fundador da SAC Capital Advisers (mais um ‘hedge fund’), que junta à fama de especulador e de coleccionador de arte, a de filantropo e homem de muita caridade junto dos pobres de Nova Iorque(!) – descarada forma de manipulação feita, objectivamente, à conta da obscena extorsão dos trabalhadores dos países sujeitos à acção especulativa, pois são eles, em última análise, a pagar sempre a factura final das aventuras destas vampirescas criaturas sedentas de sangue (a imagem faz o seu curso, mesmo entre os mais indefectíveis sequazes do mercado)!

A história atribulada destes dias é por demais conhecida, os seus resultados também: o sucesso de especuladores como Steven Cohen, irá traduzir-se, nos próximos tempos, no agravamento das condições de vida dos trabalhadores gregos, portugueses, espanhóis,... A estratégia delineada no referido jantar de Manhattan contou certamente com as hesitações e a falta de concertação política dos países que constituem a UE, seus aliados objectivos. Durante longos dias assistiu-se aos sucessivos ataques orquestrados pelas agências de ‘rating’. Até ao último fim-de-semana, quando os líderes da UE chegaram a acordo para a constituição de um fundo de emergência para apoio aos países em dificuldades financeiras, no valor astronómico de 750 mil milhões de euros! Os ‘mercados bolsistas’ reagiram em conformidade, impulsionando os títulos das Bolsas Europeias (e por arrasto, as de outros pontos do Globo), para máximos de 2 anos. Parecia afastada, finalmente, a ameaça de erosão contínua das economias mais frágeis da zona euro sujeitas – por efeito da sua própria vulnerabilidade, acrescida da decretada pelas agências de ‘rating’ – a esses ataques especulativos.

Pura ilusão! A Moody’s depressa se encarregou de fazer regressar tudo ‘à normalidade’. Ainda os títulos bolsistas negociavam em forte alta e já esta peça-chave da especulação anunciava a intenção (?) de, dentro de três meses (??), poder vir a reduzir a notação do País (???). E a Bolsa, mais uma vez, reagiu em conformidade, desvalorizando fortemente. Os analistas explicarão depois que, tecnicamente, a Bolsa apenas ‘corrigiu dos fortes ganhos do dia anterior’!

Certo é que, neste sobe e desce aparentemente desgovernado, entre a alta forte e a forte queda, uns poucos ganham muitos milhões, os muitos milhões arredados deste selectivo ‘jogo’ nele perdem os seus magros tostões. Não por culpa própria, mas por múltiplas responsabilidades alheias. Mas com isso se vai erodindo, ainda que sem o pretender, a própria base de que se alimenta, no final, a especulação!

domingo, 9 de maio de 2010

Campeões !!!


Estou, desde 30 de Abril, por aqui, nos EUA.
Assim, e por isso, acompanhei estas últimas duas jornadas da Liga à "distância"...
Hoje, após o apito final do arbitro, fui festejar; para a rua, aqui, em Fall River, onde me encontro e se não visse - com os meus próprios olhos – não acreditava, tal a festa que, por aqui, se fez com vista à comemoração do 32º. Campeonato.
É, assim, a grandeza do BENFICA !!!

sábado, 8 de maio de 2010

Nos últimos dias, o verdadeiro ‘momento’ do capitalismo

Nos últimos dias vem-se assistindo à mobilização de todo o aparato litúrgico do ‘mercado’ – numa operação equivalente à da ‘viagem do Papa a Fátima’ – contra o que se considera ser o sacrilégio da intromissão do Estado na economia, por via das designadas ‘Grandes Obras Públicas’. Feita, claro, em nome do saneamento financeiro do País, para não agravar a dívida pública, por estes dias objecto de enorme exploração especulativa (e não menos mediática). Cumpre-se a interminável ‘Via Sacra’ dos sempre inevitáveis comentários de políticos, advogados, jornalistas e outros colunistas, dos sempre fundamentados pareceres de economistas, arquitectos, empreiteiros e demais engenheiros, do sempre esfíngico presidente e até do eterno putativo ‘rei’, todos perorando para além do que a respectiva formação ou experiência recomendaria em tal causa, de repente investidos pelos media no sacrossanto papel de especialistas na matéria.

Não que a opinião de todos e de cada um não possa – não deva – ser exposta, mas desde que o seja apenas enquanto... opinião. Pretende-se, contudo, fazer passar a ideia de se tratar de apreciações meramente técnicas que não admitem alternativa... técnica - qualquer outra solução só por razões ideológicas ou políticas. Mas é mesmo de opções políticas que aqui se trata, mais que de opções técnicas, ainda que estas apareçam agora envoltas em piedosas intenções sobre o não agravamento da despesa e da dívida pública, procurando-se assim desviar as atenções do essencial, o de servirem o objectivo de se concluir o desmantelamento do Modelo Social – que passa, desde logo, pela retirada completa do Estado da vida económica. Quando o principal problema do país dos últimos 10 anos (responsável em boa parte pelo elevado déficit das contas públicas) se centra no crescimento económico – no âmbito das prioridades definidas pelo próprio sistema – na ausência de investimento privado capaz de relançar a actividade produtiva vir contestar-se qualquer esforço público nesse sentido, parece, no mínimo descabido. Mas isso já daria pano para outros lençóis...

Nos últimos dias acentuou-se ainda mais a percepção de que sobre nós paira – e impera – essa entidade misteriosa e dominadora, omnipresente e implacável, quase asfixiante no condicionamento de todas as decisões da vida colectiva (‘sedenta de sangue’, ouviu-se até...): ‘os mercados’! ‘O mercado é soberano’, ‘os mercados gostam’ (ou ‘não gostam’!), ‘o mercado teme’..., são algumas das expressões antropomórficas com que se tenta pintar uma realidade que parece completamente fora do controle das autoridades públicas. Entregues a essa entidade abstracta, com poderes de divindade justiceira, as sociedades perderam qualquer capacidade democrática de decidirem sobre os seus destinos e o dos seus povos.

Por trás dessa entidade abstracta, é certo, perfila-se toda uma plêiade de sociedades, fundações e demais organizações, suportada por uma misteriosa cáfila de analistas e gestores, homens sem rosto, acólitos de uma tão estranha quanto perniciosa liturgia, sem se saber muito bem onde acabam os poderes da divindade e começam as malfeitorias dos seus serventuários. Qualquer veleidade de controle democrático destas instâncias, esbarra na arrogância de um discurso ideológico arvorado em ‘Tábuas da Lei’ da actualidade, de uma lei refutada de forma categórica pelos irredutíveis acontecimentos da ‘Crise’. Passado o susto inicial, porém, tudo parece retornar à normalidade imposta por esse moderno ‘bezerro de ouro’!

Bem elucidativa a explicação, adiantada até por fervorosos acólitos domésticos desse aparato litúrgico, de que o arrastar dos pés’ da Srª Merkel na questão da Grécia, se deveu ao medo de contrariar o povo – a votos numa eleição regional! É isso: o que conta é o interesse imediato, o mais importante é o próximo acontecimento, o receio de uma eventual derrota nas eleições. Sobrepõe-se a vantagem imediata vislumbrada no momento presente a todos os efeitos negativos que a manutenção da actual vaga especulativa sobre alguns dos membros do Euro, inevitavelmente, implicará também para a Alemanha,... a mais longo prazo!

Os últimos dias acabaram, pois, por evidenciar, se dúvidas havia, a verdadeira natureza deste sistema: a primazia do interesse imediato (o lucro, por ex.)! Porque o capitalismo é isto: vive do momento, não olha para o futuro. Como mais uma vez ficou comprovado: das ‘obras públicas’ que visam preparar o futuro (a discussão sobre a bondade intrínseca de cada uma delas encontra-se inquinada desde o início), ao deliberado arrastar da solução para a Grécia.

Porque, verdadeiramente, o futuro (longínquo) não interessa ao capitalismo, só o instanteo momento – conta: tanto na política, como na economia, como no ambiente,... Porque é este, afinal, o verdadeiro pasto da especulação – e o 'ambiente' mais propício aos predadores que nela se (e a) suportam.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Uma questão de peso ...


Segundo um estudo acerca da Prevalência do Excesso de Peso e Obesidade em Portugal ficamos a saber que, de facto, os Portugueses têm peso a mais.

São números arreliadores, uma vez que 43,5% dos portugueses têm um peso acima do normal;
- 11,2% sofrem de obesidade
- 32,3% têm excesso de peso
Mas, o problema é que 56,9% da população portuguesa com excesso de peso e um terço dos obesos não têm consciência deste facto; pelo contário, pensam que estão no peso ideal.

Reconfirma-se, assim e com mais este estudo, que os problemas de peso têm uma correspondência directa com os hábitos alimentares.
Veja com atenção o contributo de Jamie Olivier sobre esta temática ...
(para legendagem : clicar em subtitulo )

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Passos para um país ainda mais fracturado ...


" Diz-se por aí que o PSD tem um líder com um projecto "liberal" que não quer o Estado nos negócios.
Na realidade, Passos Coelho é mais uma prova de que o liberalismo nacional está hoje reduzido a uma ficção económica que esconde mal a verdadeira aposta política no esvaziamento e enfraquecimento do sector público, transformando-o em campo para novos negócios.

Num contexto em que aumenta a pressão parasitária dos grupos económicos cada vez mais desesperados para que se opere uma transferência massiva de recursos públicos para mãos privadas, o PSD tenta ultrapassar o PS no desvelo com que serve a nossa lumpemburguesia.

O Serviço Nacional de Saúde ou a escola pública são demasiado apetitosos para serem geridos numa lógica de bem comum e de direitos sociais. A retórica da "liberdade de escolha" disfarça mal a aposta na construção de mercados, usando o financiamento público nestas áreas. O resultado é conhecido: maior desigualdade no acesso a estes bens, balcanização da sua provisão, corrosão da ética do serviço público e maiores custos de monitorização. (...) "

Por : João Rodrigues, in Jornal "I" / ( Ler mais ...)

domingo, 25 de abril de 2010

Uma ‘corrupção’ nunca vem só!

Domingos Névoa viu-se absolvido, na Relação, do crime de corrupção em que fora condenado na 1ª instância – absolvido, não obstante o tribunal dar como provados os factos que o incriminavam e haviam fundamentado a primeira condenação, submetida então a recurso.

Os indícios deste inconcebível desfecho há muito que vinham sendo anunciados. O mais recente – e bem revelador – reporta-se à pantomina jurídica em que acabou condenado por difamação (!) o denunciante do corruptor ofendido! Já havia comentado antes por aqui, a propósito deste processo, tratar-se de um caso exemplar do estado ‘desta’ justiça, pois que “apenas admitir-se que ‘alguém’ possa ser condenado por chamar corrupto a ‘alguém’ condenado por corrupção (!!!), é só por si razão bastante para o descrédito de um sistema judicial que tal promove (magistrados) e aceita fazê-lo (juízes)”. Pelos vistos o descrédito é ainda muito mais profundo!

Perante tamanha desconformidade entre os factos provados e a sentença proferida – quaisquer que sejam as razões (ou malabarismos?) processuais invocados por tão inquestionável (?) instância –, perante a monstruosidade ética (e racional) que configura e o precedente assim aberto, o rol de sucessivos manifestos atropelos ao simples bom senso, até o desconforto que parece estar a provocar entre os próprios pares do ilustre síndico que assim achou por bem proceder, será abusivo concluir-se que quem tenta corromper uma vez (facto provado nas duas instâncias, sublinhe-se!), é capaz de o tentar duas ou três? E se assim for...

Denunciar e combater a corrupção, a todos os níveis – em democracia não há, não pode haver, ‘bezerros de oiro’! – é também uma forma de se cumprir Abril!

25 de Abril, sempre !!!


36 anos depois do 25 de Abril de 1974, convém não olvidar que a crise é um acto político; uma consequência política dos governos, de todos os governos que nos têm (des)governado, em rotativismo, em alternância e sem a coragem da procura de alternativas consequentes.
Este não é o país que, sinceramente, esperava depois de ter “acontecido” Abril.
Mas, porque o 25 de Abril (de 1974), esse, foi do MFA e dos Portugueses é, assim, e por isso “que essa merda vai mudar”; tem que mudar …
É, tão só, uma questão de tempo, de perseverança e de vontade(s)…
Viva o 25 de Abril; o de 1974, Sempre !..

sábado, 24 de abril de 2010

Se ...


1, isso mesmo : 1, 1 ponto ... é o necessário e suficiente para que o Benfica seja Campeão, se, esta noite e tal como espero, faça aquilo que lhe compete: Vencer !!!

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Hoje : Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor



Desde 1996, e por decisão da UNESCO, que o Dia Mundial do Livro é comemorado.
Trata-se de uma data simbólica para a literatura, já que, segundo os vários calendários, neste dia faleceram importantes escritores como Cervantes e Shakespeare.

"Um livro é um mudo que fala, um surdo que responde,
um cego que guia, um morto que vive."

 
Padre António Vieira

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Hoje : Dia Mundial da Terra ...


"O capitalismo é sinónimo de inanição, o capitalismo é sinónimo de desigualdade, é sinónimo de destruição da mãe Terra.
Ou morre o capitalismo, ou morre a Terra.
(...) Reunimo-nos aqui com a visão compartilhada de que as coisas não andam bem, que nosso planeta está doente, consequências do sistema capitalista, que tenta converter tudo em mercadoria.
(...) Nós, povos que habitamos o Planeta Terra temos todo o direito, ético e moral, para dizer que o inimigo central é o sistema capitalista, que busca ganhar o máximo possível promovendo o crescimento sem limites"


Evo Morales, Presidente da Bolivia, na Conferência de Cochabamba
(Via : Esquerda.net ) Ler mais ...

quarta-feira, 21 de abril de 2010

A máquina e suas “peças” …


“ O futebol não tem fórmulas infalíveis.
Está totalmente afastada a ideia que uma equipa ganhe ou perca por causa do seu sistema táctico.
Como pode ele ser tão importante se, ao longo dos tempos, já ganharam campeonatos sistemas tão diferentes, antagónicos mesmo?
O segredo está sempre na sua sábia utilização.
Não o colocar à frente dos jogadores mas também não deixar que ele fique dependente dos jogadores.
As duas ideias desta última frase parecem impossíveis de conciliar.
Antigamente, a astúcia de um treinador estava sobretudo em encontrar o seu onze e base e mantê-lo.
Hoje, maior astúcia estará naquela que muda mais e o rendimento da equipa permanece.
Ambas as opiniões são verdadeiras.
O Benfica e os passos de Jesus na Luz esta época (construção e manutenção da equipa) são uma prova disso.
Nos diferentes sentidos.
Ao longo da época, solidificou um onze base muito forte, automatizado sem perder criatividade."


Luis Freitas Lobo, in "Planeta do Futebol"

PS - este Post/Citação é dedicado, com todo o prazer e o maior gosto, a todos os meus Amigos que, ainda e agora, de forma reiterada e capciosa continuam a denegrir o Benfica; ora, constatem, vejam/leiam o óbvio e deixem-se lá de m-e-r-d-a-s !!!

segunda-feira, 19 de abril de 2010

4, 4 pontos … e o muito e intenso colinho !!!


4, 4 pontos é, agora, quantos os que faltam para animar a malta; que é como quem diz:
- para o BENFICA ser CAMPEÃO ...
Ontem, em Coimbra, perante 21.742 espectadores – ainda assim, e pese o especulativo preço dos bilhetes, muito mais que as lotações de Académica x SCP e Académica x FCP … juntas , o BENFICA lá fez aquilo que lhe competia :
- vencer o encontro … e, assim, continuar a acreditar que o Campeonato é, cada vez mais, possível.
Neste Campeonato, de muito e intenso colinho, por enquanto, e até ver, o BENFICA tem:
- 22 vitórias em 27 jornadas
- 70 golos marcados
- 16 golos sofridos
Agora, só faltam três jornadas, somente três jogos, e o BENFICA só tem, mesmo e só, (de)corridos que são 10 encontros sem conhecer o sabor de quaisquer derrotas, que continuar nesta senda vitoriosa … e conseguir, ao e pelo menos, 4 pontos.
Com muito denodo, muita humildade e, acima de tudo, com muito colinho …
Isso mesmo, com muito colinho : com a presença entusiástica dos seus adeptos, sócios e simpatizantes, como tem acontecido em todo e qualquer estádio desse país …
4, 4 pontos e muito, muito colinho !!!

E, assim, com muito e intenso colinho, o BENFICA será Campeão !!!

domingo, 18 de abril de 2010

As (minhas) incongruências …


Ontem, lá fomos, eu e o João Tiago, meu sobrinho, decididos e à Catedral, proceder ao levantamento dos nossos “dorsais” com vista à (nossa) participação na 5ª Corrida do Sport Lisboa e Benfica …
Porém, hoje, mesmo e antes de me levantar da cama e antes e mesmo do despertador começar a trabalhar, (pre)sentia que uma chuvada se abatia sobre Lisboa …
Constatada a impiedosa intempérie, numa manifesta provocação da natureza contra uma Organização do BENFICA, ainda assim comecei os preparativos para (per)correr os 10 Kms que me estariam destinados;
tomei duche, o pequeno almoço, equipei-me a rigor, liguei para casa do João Tiago – não fora, este, continuar a “chonar” - e estava, mesmo, (pre)disposto a participar … como, de resto, exigia a minha condição de Benfiquista militante.
Contudo, saído de casa, bem protegido da chuva e de guarda chuva em riste, acabei por borregar …
O João Tiago, este, lá foi – como bom Benfiquista que se preza de ser - de abalada, rumo ao ponto de partida, tendo, entretanto e já, chegado à meta com o tempo, belíssimo tempo de 58'59'', segundo acaba de me informar por SMS.
Eu, agora e envergonhado, aqui estou a tentar “digerir” a minha incongruência …
Já não me basta(va), a mim, BENFIQUISTA, ter conduzido, algures nos EUA e em Massachusetts, um Jeep com o símbolo do Sporting …
Ora, com tantas e tamanhas incongruências, é caso para (me) interrogar :
- que mais me irá acontecer ???

sábado, 17 de abril de 2010

O impertinente e a esfinge

No episódio checo do ‘confronto’ dos déficits entre os dois países (?), não sei o que mais censurar: se a pesporrente provocação (ainda que em tons melífluos, quase dengosos!) do ultra-vaidoso presidente checo – trazendo à baila, da forma mais impertinente, um tema melindroso e passível de múltiplas abordagens; se a esfíngica reacção (hirta e distante, como é seu timbre, de quem, afinal, só ali estava de passagem – para ver a paisagem?) do ‘quase ausente’ presidente português – de boca aberta (é a sua imagem de marca) e sem capacidade de resposta!

A explicação posterior, frouxa e tardia, em jeito de desculpas para a insolente atitude do checo Vaclav Klaus, não passou disso mesmo, de desculpas! Tardias e... sem jeito! Porque, no mínimo, exigia-se ao português Cavaco, que reagisse na hora, mais que não fosse para frisar – diplomaticamente, bem entendido – que ‘o outro’ nada tinha a ver com isso (por não pertencer à ‘zona do euro’, nem sequer entra na constituição do pacote financeiro acordado para auxiliar a Grécia, no âmbito do designado ‘mecanismo europeu de assistência’!).

Um Presidente que não sabe responder à letra e na hora a provocações, venham elas de onde vierem, não serve para... Presidente. Não é o meu Presidente!

sexta-feira, 16 de abril de 2010

"Açoriano Oriental" - 175 anos ...


O "Açoriano Oriental" (AO) é um periódico de Ponta Delgada, um jornal de referência da imprensa Açoriana.
Hoje, comemora 175 anos de vida, uma longa vida ... e é, assim e por isso, o mais antigo jornal português e o segundo da Europa.
A todos quanto, ao longo de todos estes anos, 175 anos, todos os dias, fizeram e fazem o jornal “acontecer”, os (meus) votos sinceros das maiores felicidades e longa, longa Vida.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Leituras sobre a Crise do Sistema – III

‘Velhas’ soluções para os ‘novos’ problemas de sempre: a redução do tempo de trabalho – ou uma alternativa decente para se sair da Crise

Um dos argumentos invariavelmente invocado para se contrariar a mudança (qualquer mudança!), é o da inevitabilidade das coisas. ‘A realidade é o que é’, afirmam definitivos, imperialmente convictos uns, dobrados à resignação outros. Qualquer tentativa de contestar esta afirmação, de propor alternativas ao ‘statu quo’ existente, é de imediato apostrofada, por uns e outros, de... irrealista, utópica, irresponsável!

Este é, também, o argumento que sustenta a opinião de que nada pode ser feito no que respeita ao tema em análise, uma vez que, adiantam, assim o impõe a globalização. Esta opinião, contudo – e felizmente – não é generalizada. Os que consideram ser possível contrariá-la não são ainda em número – e não têm a força – suficiente para poderem inverter a situação actual, mas sabem que podem contar com um aliado poderoso e determinante neste processo, a própria evolução da realidade. Torna-se impossível travar, pelo menos a longo prazo, o aprofundamento das condições objectivas (técnicas e sociais) que sustentam e deverão garantir uma gradual libertação do tempo de trabalho e a sua redistribuição/partilha (política) mais igualitária.

É isso mesmo que defende, num texto já não muito recente (1996, Miséria do Capital), Michel Husson, ao afirmar que ‘a redução generalizada do tempo de trabalho é o eixo de uma saída igualitária da crise social’. A este propósito, é bom ter presente que, aquilo que acabou por explodir nos finais de 2008, com o ‘quase’ colapso do sistema financeiro e o seu prolongamento na crise económica e social, levou anos, décadas, a preparar. As condições que propiciaram ‘esta crise’ foram sendo, ao longo desses anos, denunciadas, de forma mais ou menos constante (e até consensual), por muitos analistas (a esmagadora maioria da área da esquerda, é certo), pelo que se alguma dúvida subsistia sobre o assunto, ela resumia-se ao momento da sua eclosão e, em menor grau, à magnitude das suas consequências (em boa medida dependente daquele momento e da capacidade de reacção dos poderes públicos).

Ora, a actualidade desse ‘velho’ texto (retomando o tema deste comentário) perante a contínua degradação das condições laborais, em risco de ‘explodirem’, não poderia ser mais flagrante: ‘A redução do tempo de trabalho (...) só abre caminho com lentidão e dificuldade, porque o conteúdo concreto que pode assumir é um desafio aberto ao debate social. Seria de resto mais justo considerar que há, de qualquer maneira, redução do tempo de trabalho e que a questão é saber como ela se processa. Esta redução pode efectuar-se de forma excluidora (há quem trabalhe muito, e até de mais, ao passo que outros são impedidos de aceder ao emprego) ou de maneira igualitária, por uma redução uniforme e generalizada que permita a todas e a todos trabalhar menos’.

Já por diversas vezes abordei o assunto neste ‘blog’ e, devo sublinhar, sem me socorrer do apoio deste texto para chegar praticamente às mesmas conclusões. Há pelo menos 10 anos na minha biblioteca pessoal, por lá ‘dormia’ (como tantos outros, confesso-o), a aguardar oportunidade. Que aconteceu agora, ao ser atraído para o autor (por referências bibliográficas mais recentes, claro) pelos ‘Ladrões de Bicicletas’. Se refiro isto é apenas para destacar o que, parecendo uma coincidência, é antes o resultado lógico a que chega qualquer pessoa que decida, de forma isenta e objectiva, debruçar-se e reflectir um pouco sobre o assunto. Pois se até eu lá cheguei...

E, já agora, outra ‘curiosa’ coincidência! Depois de afirmar que ‘é perfeitamente legítimo raciocinar sobre a “partilha do trabalho”, (...)’ Husson acrescenta que ‘faz sentido construir um indicador sobre a “duração uniforme de trabalho que garanta o pleno emprego”, que se obtém dividindo o volume de trabalho pela população activa’. Parte, depois, para o cálculo do número de horas semanais que, nas condições produtivas da França de então (o livro, recorde-se, é de 1996), poderiam garantir o pleno emprego, para concluir que ‘será da ordem de 32 horas por semana em 2000’. Há precisamente 1 ano (Abril/09), eu referia aqui que ‘nem sequer se exige imaginação para adiantar propostas que permitam concretizar essa mais que indispensável redistribuição do tempo de trabalho. Afinal, nada disto é inédito: bastaria retomar-se a tendência de redução da ‘jornada’ de trabalho manifestada ao longo da curta história do capitalismo – aprofundada no período keynesiano com as designadas semanas ‘inglesa’ primeiro, ‘americana’ depois; interrompida com o advento do neoliberalismo de Teatcher e Reagan – agora, por hipótese, para as 30 horas semanais (passível de múltiplas variantes)’. Tratava-se apenas de uma ‘hipótese’, claro, mas... não andei muito longe!

Os mecanismos de decisão que comandam a realidade social não se regem pela lógica da razão, apenas pela força dos interesses (esta é a única objectividade admitida). Mas é exactamente no emaranhado complexo dos interesses que se deve procurar a explicação para os aparentes bloqueios que infernizam a vida das pessoas. Também por isso, continuar a seguir este texto de M. Husson afigura-se um exercício útil e muito actual, tanto mais que os cálculos a que procede têm o mérito de desmontar tecnicamente os estafados argumentos neoliberais escudados na produtividade, competitividade, contexto europeu,... E com ele concluir que, afinal, tudo se reduz a uma ‘opção de sociedade fundamental’, pois ‘a questão não é tanto saber se é necessário ou não reduzir o tempo de trabalho, mas saber como se fará esta redução: seja de maneira discriminatória, privando alguns de um pleno acesso ao emprego, e particularmente as mulheres, remetidas ao tempo parcial, seja, pelo contrário, repartindo de maneira igualitária os benefícios de uma progressão global da produtividade’.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

7 ...


7, isso mesmo ...
7, 7 pontos : duas vitórias e um empate, é o que faz falta para animar a malta; dito de outra forma, são 7 os pontos necessários e suficientes para que o BENFICA seja Campeão …
7, 7 jogos são quantos os que, o BENFICA, leva de seguida e vencidos na Liga …
7, o número da camisola de Cardozo, por enquanto e só, o melhor marcador da Liga …
7, a unidade de 59.317, o número de espectadores que, ontem e contando comigo, estivemos na Catedral ...
7, a unidade de 67, quanto o número de pontos que, por enquanto, o BENFICA, detém na Liga ...
7, a unidade de 67, quanto o número de golos que, por enquanto, o BENFICA marcou nesta Liga...
7, agora a 7 pontos, é procurar, tanto quanto possível, fazer a melhor gestão da (nossa) ansiedade … e esperar pelo BENFICA Campeão …
Eu, sinceramente, acredito
!!!

PS – um tal de “ministro” é, virou e agora, Director de Futebol; em meu entender, e muito sinceramente, merecia mais e melhor a Agremiação Leonina.

domingo, 11 de abril de 2010

Leituras sobre a Crise do Sistema – II

Contributos para um diagnóstico da Crise: o desmantelamento do Contrato Social

O capitalismo caracteriza-se por um enorme e historicamente inédito desenvolvimento das forças produtivas. É o resultado do extraordinário aumento da produtividade conseguido na base de uma extrema divisão social do trabalho (responsável também pela progressiva alienação do homem – mas isso já seria outra ‘história’) no âmbito do que se designa por ‘organização científica do trabalho’ – do taylorismo/fordismo (e Fayol,...) às modernas técnicas de gestão e à prevalência da tecnoestrutura sobre a detenção do capital nas principais decisões das empresas.

Este desenvolvimento, porém, só teve condições para se concretizar com a gradual implantação das ‘sociedades de consumo’. Com efeito, a enorme capacidade produtiva disponível a partir de técnicas do trabalho cada vez mais sofisticadas (e onde se incluem as inovações tecnológicas), só fazia sentido económico – no quadro de domínio do mercado capitalista – se a oferta dos produtos entretanto saídos das linhas de produção encontrasse uma procura solvente, se existisse um verdadeiro poder aquisitivo para os consumir. E isso, como a sucessão dos acontecimentos da Grande Depressão dos anos 30 do séc. XX se encarregaria de demonstrar (de forma, aliás, bem dramática), só se tornou possível dotando de poder aquisitivo um número crescente de trabalhadores/consumidores, viabilizando o ‘consumo de massas’.

Assim, dos escombros provocados pela Grande Depressão emergem sobretudo dois instrumentos estratégicos, complementares, que virão a revelar-se decisivos na construção da prosperidade do Ocidente, conhecida como os ‘trinta gloriosos anos’ (do final da Guerra a meados dos anos 70):
- A regulação do mercado, em resultado directo das condições que conduziram à Grande Depressão (uma espécie de ajuste de contas com o passado, por forma a evitar-se a sua repetição), com a imposição de um conjunto de normas de funcionamento estabelecendo limites à liberdade de actuação dos operadores económicos e abrindo caminho a uma intervenção crescente do Estado na vida económica;
- O contrato social, alternativa ao modelo liberal para a superação da crise, em que os trabalhadores e as suas organizações sindicais, a troco da renúncia ao controlo dos processos produtivos (equivalente à sua integração no sistema, por contraponto com o período anterior de permanentes lutas pelo poder político), asseguram, através da negociação contratual, estabilidade de emprego, actualizações salariais, acesso ao consumo massificado.

Modelo complementado por uma política social (universalização dos direitos sociais – saúde, educação, protecção no desemprego, pensões de reforma), assegurada por uma política fiscal fortemente progressiva de taxação dos impostos directos e dos lucros e património. Do ‘mercado selvagem’ dos primórdios do capitalismo, dominado pelo liberalismo económico sem regras, passa-se, assim, ao ‘mercado regulado’ do capitalismo maduro, dominado pelo modelo ‘social-democrata’, ou simplesmente ‘modelo social’.

Este modelo, responsável pelos já referidos ’30 gloriosos anos’ com a difusão maciça das inefáveis delícias do progresso capitalista, começa a evidenciar sintomas de esgotamento ainda na década de 70, que se acentuam e o faz entrar em crise com a chegada ao poder de Teatcher e Reagan (anos 80), parece hibernar com Clinton e Miterrand (anos 90), entra em claro retrocesso com Bush e Blair (primeira década do séc. XXI) e ameaça ruir no pós-crise do ‘sub-prime’ – não obstante a esperança protagonizada pela chegada de Obama ao poder nos EUA!

Esta aparente reviravolta – iniciada com a ‘saga’ da desregulação económica, prolongada no desmantelamento do Contrato Social – mais não traduz que o processo de adaptação do capital às novas condições de produção proporcionadas pela globalização: é possível produzir o mesmo com menos recursos. Por um lado, a evolução da divisão social do trabalho determinou a passagem da mecanização à automação e informatização, gerando uma capacidade produtiva imensamente superior à obtida na vigência do Contrato Social: com cada vez menos trabalhadores é possível produzir cada vez mais produtos, a automação substitui o trabalho manual sobretudo nas operações muito repetitivas. Por outro, recorrendo à deslocalização das empresas para zonas onde o trabalho (ainda) tem custos menores e sobretudo é menos exigente. O crescente desemprego é ‘apenas’ a consequência óbvia da destruição do ‘modelo social’!

A este propósito vale a pena uma ‘vista de olhos’ ao 1º cap. de um outro título recente (Nov.09), ‘Inquérito ao capitalismo realmente existente’, de Joaquim Jorge Veiguinha, onde algumas destas ideias e muitas outras são desenvolvidas para (nos) dar sentido à História. Para, compreendendo-a, se tentar encontrar alternativas que dêem sentido à Vida!
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sexta-feira, 9 de abril de 2010

Leituras sobre a Crise do Sistema – I

As origens ‘remotas’ da Crise: o processo de desregulação do mercado

Na longa tradição das audições levadas a cabo pelo Congresso norte-americano, ainda a actual crise económica não havia atingido o seu auge e já tinham sido chamados a depor alguns dos principais responsáveis pela regulação dos mercados financeiros, com vista a apurar o papel dos Reguladores Federais na eclosão daquela. Em Outubro de 2008, quando essas audições começaram, perante a perspectiva do colapso do sistema (a ameaça pairou no ar após a falência do Lehman’s, em Setembro), havia a percepção de que os abusos detectados por trás da hecatombe financeira se deviam, antes de mais, a falhas de regulação dos mercados. Importava apurar, nestas circunstâncias, a quem cabia a responsabilidade por tais falhas.

Cedo se percebeu, porém, que as responsabilidades, mais do que atribuir-se a pessoas em concreto, atingiam todo um sistema de organização baseado numa ideologia. Como posteriormente iria sintetizar Stiglitz: ‘A verdade é que a maioria dos erros individuais se reduz apenas a um só: à fé de que os mercados se autorregulam e que o papel do Governo deve ser mínimo’. Ou, tal como evidenciado logo no início das audições pelo senador Henry Waxman, que as conduziu: ‘Desde há muito tempo que a ideologia venceu a governança. Os nossos reguladores, em vez de regularem, facilitaram. A sua crença na sabedoria dos mercados foi infinita. A sua oração passou a ser: a regulação governamental é um erro e o mercado é infalível’.

Retiro estes excertos de um texto recente onde se faz a história exemplar deste período crítico do tempo presente. E onde, na sequência desta citação, se sintetiza o essencial das alterações normativas que, sob o pretexto da ‘modernização financeira do sistema’ num quadro de funcionamento globalizado e culminando o processo de desregulação encetado no início dos anos 80 na era Reagan-Teatcher, mais contribuíram para o descalabro económico que pôs o mundo à beira do colapso.

De acordo com o mesmo texto, ‘Waxman, nesta curta intervenção, refere-se à desconstrução do quadro regulador da era de Roosevelt, através da construção de um quadro desregulador que foi sendo produzido nestes trinta anos de neoliberalismo, usando três instrumentos fundamentais. Primeiro: em 1999, a revogação da lei que regulava o sistema financeiro, conhecida por Glass-Steagall Act (que, basicamente, estabelecia os limites de actuação entre bancos comerciais e de investimento, e entre a banca e a actividade seguradora), que foi substituída pela Gramm-Leach-Bliley Act (também conhecida por Lei de Modernização dos Serviços Financeiros), com o argumento de que o estado norte-americano, no dizer dos promotores da mudança, não poderia estar a viver vestido como um adulto e protegido como uma criança’.

Para abreviar este relato, seguem-se, logo em 2000, ‘a modificação das regras de funcionamento dos mercados de produtos derivados’, em 2004, ‘a eliminação das regras prudenciais para os grandes bancos de investimento, a net value rule (as reservas de caixa), com o argumento de que estes sabiam proteger-se tão bem que não precisavam de cláusulas reguladoras’ e, já em 2007, ‘a eliminação da regra uptick que condicionava as vendas a descoberto’.

O certo é que toda a construção ideológica neoliberal dos últimos 30 anos – baseada na primazia absoluta da regulação automática (ou autorregulação) do Mercado e utilizada para justificar o desmantelamento do edifício regulador erguido por Roosevelt em resposta à Grande Depressão de 29-32 – foi posta em causa pela sucessão de acontecimentos que culminaram naquele Outono de 2008 e por isso não surpreendeu ter parecido soçobrar perante as questões colocadas nas audições do Congresso. Não obstante as contradições da frágil e precária situação actual, a evolução posterior da crise viria a comprovar ser prematuro falar de colapso do sistema.

Vale a pena, pois, continuar a ler ‘A Crise da Economia Global’, título recente (Nov.2009) de Júlio Mota, Luís Lopes e Margarida Antunes (docentes na Fac. Econ. da Univ. Coimbra), para melhor se perceber o contexto em que a crise ocorreu. Que explica o ‘modo como ocorreu’, não ‘porque ocorreu’. Pois isso implicaria uma análise às próprias estruturas do sistema.

Sem prejuízo de se considerar este tema alguma vez esgotado, vale a pena, então, tentar-se uma aproximação às causas profundas que determinaram a crise.

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quinta-feira, 8 de abril de 2010

Música Celestial …


O vento consome-se.
Deleita massacres mensagens atlânticas com orquestras de mil e tal violinos.
É o ciclone a enraizar invernias cuspido das latitudes as muitas sinfonias.
O berço.
O arpão no rasgo das rotas
caça o maestro dono da ilha.
Da casa.
Leva o tecto do mar.
O bafo das cagarras.
O desafino.
Levamos nos olhos o transporte.
A carícia das mãos no corpo da rocha.
A baleeira no canal à deriva.
O vento consome-se com.
Some-se.
Deleita massacres mensagens atlânticas
com orquestras de mil e tal violinos.
O esqueleto do mar
rocha abaixo sem estaleiro.
Que vai ser disto ?
Outra vez o rumo a destruir
o leme e o cardume no colo do xaile.
Outra vez
outra voz
a promessa adiada.


Sidónio Bettencourt

quarta-feira, 7 de abril de 2010

As Invisíveis Iluminações ...


Há lugares de simples encantamentos,
onde ferventes pulsam claridades.
Como quem diz uma chávena de café,
fumegante, sobre o tampo da mesa.
Ao lado o jornal,
desprendendo a desordenada
pulsação do mundo.
Ligeiro, o roçar dum vestido pela porta,
um seco troar de tamancos
logo a seguir, imensamente antigo.
A Tabacaria Açoriana era às vezes
um leve cair de folhas, quase cego,
de exaltação.
Os primeiros pingos de chuva, por assim dizer.
Ou o negro xaile que tombava sobre o jornal
aberto, abril ou um doce instantâneo de junho,
uma dessas solidões repentinas, ao virar da página.
Os lugares são irremediavelmente,
a luminiscência das circunstâncias.
Águas que através de uma voz
se tocam, ecoantes.
Como se de entre duas pedras
invictas brotassem.

( Eduardo Bettencourt Pinto )

terça-feira, 6 de abril de 2010

‘Incógnito perigo... novos desastres...’ – de novo, os ‘velhos do Restelo’?

Acabado de regressar, deparo logo com a ‘polémica’ (via ‘Ladrões de Bicicletas’). Antes de mais, peço desculpa pela falta de originalidade do título, pois de tão óbvio, merecia pelo menos o esforço de um outro mais actual a condizer. Mas por mais voltas que dê, o retorno à velha e gasta alegoria oferece-se irrecusável, pois parece talhada para este caso: o ‘choradinho’ que o motiva – vertido em forma de "Manifesto por uma Nova Política Energética em Portugal", ou ‘Manifesto dos 33’ – tem um objectivo manhoso e é preciso estar atento (como já evidenciado por outros comentários sobre o assunto). De um lado o incansável ‘lobby’ nuclear, do outro o novo e fogoso líder do PSD. É demasiada coincidência para ser apenas isso, uma coincidência.

Além disso, a alusão aos ‘velhos do Restelo’ tem ainda a vantagem de estabelecer o paralelo com os ‘Descobrimentos’ – operação imensamente acima dos recursos do país e, não obstante, fez-se e com sucesso! Correspondeu até, apesar de todos os ‘velhos do Restelo’ (lá está!), ao período mais influente da nossa História (com todos os excessos cometidos, mesmo quando vistos à luz da época).

Numa altura em que se acentua a necessidade de se equacionarem alternativas estáveis às energias fósseispor razões do esgotamento dos recursos e por preocupações com o ambiente – a única ideia consistente deste manifesto (mais um) é a de que a política de apoio às renováveis é ‘uma aberração económica’, pois a aposta nestas é... cara (e, acrescentam, ‘suportada pelo consumidor’, com isso procurando demagogicamente colher o apoio de todos os pagantes). Restará então, por exclusão de partes, a energia nuclear – coisa que os ‘33’, nesta fase, ainda não se atrevem a explicitar, muito menos a propor. Que, no ponto da tecnologia actual, não responde nem a um nem a outro daqueles dois problemas, uma vez que se firma em recursos escassos não renováveis e arrasta riscos ambientais porventura ainda mais sérios de resolver a longo prazo (para além de toda a propaganda em contrário).

Tudo isto porque o tempo dos grandes projectos energéticos, daqueles que podem gerar muiiiiiito dinheiro, está a esgotar-se. As tendências actuais apontam na direcção da microgeração, tão micro quanto o pode ser o consumidor final, sejam os indivíduos ou as empresas – a tecnologia não está longe de o conseguir (até com participação de investigadores portugueses, por exemplo da U. Nova de Lisboa). Se estas tendências não forem travadas por interesses particulares (que, note-se, tudo farão para não perderem esta importante fonte de receitas), o consumidor tenderá a transformar-se no seu próprio produtor, num prazo que se espera então não muito longínquo (no início tudo dependerá dos apoios oficiais, é aqui que bate o ponto). Ainda que o não seja para ‘amanhã’, há que começar a criar as condições para o tornar possível. A recente agitação que sacudiu o sector teve o mérito, por entre os inúmeros alertas emitidos, de despertar um reforçado surto tecnológico na área da energia.

E é por verem essa oportunidade a esvair-se à medida que o tempo passa que agora ensaiam este pífio mas agoirento grito de alma contra a ‘política das energias renováveis’. Repare-se que eles não se atrevem a pôr em causa a ‘utilidade’ das energias renováveis. Por agora apenas arriscam contestar a política seguida para as incentivar, com base nos desgastados argumentos da ‘eficiência económica’a mesma eficiência que pôs o planeta à beira da catástrofe ambiental, o mesmo quadro de referências que colocou o mundo próximo do colapso financeiro (o ‘grupo nuclear’ – não resisto ao trocadilho fácil – destes ‘33’ é, não por acaso, bem conhecido doutras andanças)!

Por estas alturas é fácil ‘bater’ no Governo e nas suas políticas. E até nem seria difícil encontrar pontos criticáveis na actual política energética (do plano de barragens, aos próprios incentivos criados para a microgeração). Mas ao ‘exigirem uma avaliação técnica e económica, independente e credível, da política energética nacional, de forma a ter em conta todas as alternativas energéticas actualmente disponíveis’, estes ‘33’ indefectíveis manifestantes apontam, afinal, em que sentido?

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Uma questão de "sentimento"...

Ainda sinto os pés no terreiro
Onde os meus avós bailavam o pezinho
A bela Aurora e a Sapateia
É que nas veias corre-me basalto negro
E na lembrança vulcões e terramotos
Refrão:
Por isso é que eu sou das ilhas de bruma
Onde as gaivotas vão beijar a terra
(REPETE-SE)
Se no olhar trago a dolência das ondas
O olhar é a doçura das lagoas
É que trago a ternura das hortênsias
No coração a ardência das caldeiras.
É que nas veias corre-me basalto negro
No coração a ardência das caldeiras
O mar imenso me enche a alma
E tenho verde, tanto verde a indicar-me a esperança.
(Autor: Manuel Ferreira)

PS - é sempre assim; sempre que se aproxima uma estada na Ilha, na minha Ilha de S. Miguel, dá-me para o "sentimento"; porque será ?

sábado, 3 de abril de 2010

Uma questão de oportunidade ...


«Se retirássemos ao judaísmo os seus profetas e ao cristianismo todos os acrescentos posteriores aos ensinamentos de Cristo, em especial os do clero, ficaríamos com uma doutrina capaz de curar todo o mal da humanidade.
É dever de todo o homem de boa vontade lutar, no seu pequeno raio de acção e na medida em que lhe for possível, para que esses ensinamentos de tão grande humanidade se convertam numa força viva. Se ele lograr que os seus honestos esforços nesse sentido não sejam esmagados sob os pés dos seus contemporâneos, poderá considerar-se um homem afortunado e afortunada a comunidade em que está inserido.»
Albert Einstein, in «Como Vejo a Ciência a Religião e o Mundo»

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Uma questão de memória …


«Um dia, aproximadamente por esta mesma época, fui de excursionista a Mafra.
Tinha nascido na Azinhaga, vivia em Lisboa, e agora, quem sabe se por um cúmplice aceno dos fados, uma piscadela de olhos que então ninguém podia poderia decifrar, levavam-me a conhecer o lugar onde, mais de cinquenta anos depois, se decidiria, de maneira definitiva, o meu futuro como escritor.
(…) Dessa breve viagem (não entrámos no convento, apenas visitámos a basílica) não guardo a mais viva lembrança que a de uma estátua de S. Bartolomeu colocada, e aí continua, na segunda capela ao lado esquerdo de quem entra, a que chamam, creio, em linguagem litúrgica, o lado do Evangelho.
Andando eu, pela minha pouca idade, tão falto de informação sobre o mundo das estátuas e sendo a luz que havia na capela tão escassa, o mais provável seria que não me tivesse apercebido de que o desgraçado do Bartolomeu estava esfolado se não fosse a parlenga do guia e a eloquência complacente do seu gesto ao apontar as pregas da pele flácida (ainda que de mármore) que o pobre martirizado sustinha nas suas próprias mãos.
Um horror. No Memorial do Convento não se fala de S. Bartolomeu, mas é possível que a recordação daquele angustioso instante estivesse à espreita na minha cabeça quando, aí pelo ano de 1980 ou 1981, contemplando uma vez mais a pesada mole do palácio e as torres da basílica, disse às pessoas que me acompanhavam:
«Um dia gostaria de meter isto dentro de um romance.»
«Não juro, digo só que é possível.»

José Saramago
, in «As Pequenas Memórias»