sábado, 17 de abril de 2010

O impertinente e a esfinge

No episódio checo do ‘confronto’ dos déficits entre os dois países (?), não sei o que mais censurar: se a pesporrente provocação (ainda que em tons melífluos, quase dengosos!) do ultra-vaidoso presidente checo – trazendo à baila, da forma mais impertinente, um tema melindroso e passível de múltiplas abordagens; se a esfíngica reacção (hirta e distante, como é seu timbre, de quem, afinal, só ali estava de passagem – para ver a paisagem?) do ‘quase ausente’ presidente português – de boca aberta (é a sua imagem de marca) e sem capacidade de resposta!

A explicação posterior, frouxa e tardia, em jeito de desculpas para a insolente atitude do checo Vaclav Klaus, não passou disso mesmo, de desculpas! Tardias e... sem jeito! Porque, no mínimo, exigia-se ao português Cavaco, que reagisse na hora, mais que não fosse para frisar – diplomaticamente, bem entendido – que ‘o outro’ nada tinha a ver com isso (por não pertencer à ‘zona do euro’, nem sequer entra na constituição do pacote financeiro acordado para auxiliar a Grécia, no âmbito do designado ‘mecanismo europeu de assistência’!).

Um Presidente que não sabe responder à letra e na hora a provocações, venham elas de onde vierem, não serve para... Presidente. Não é o meu Presidente!

sexta-feira, 16 de abril de 2010

"Açoriano Oriental" - 175 anos ...


O "Açoriano Oriental" (AO) é um periódico de Ponta Delgada, um jornal de referência da imprensa Açoriana.
Hoje, comemora 175 anos de vida, uma longa vida ... e é, assim e por isso, o mais antigo jornal português e o segundo da Europa.
A todos quanto, ao longo de todos estes anos, 175 anos, todos os dias, fizeram e fazem o jornal “acontecer”, os (meus) votos sinceros das maiores felicidades e longa, longa Vida.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Leituras sobre a Crise do Sistema – III

‘Velhas’ soluções para os ‘novos’ problemas de sempre: a redução do tempo de trabalho – ou uma alternativa decente para se sair da Crise

Um dos argumentos invariavelmente invocado para se contrariar a mudança (qualquer mudança!), é o da inevitabilidade das coisas. ‘A realidade é o que é’, afirmam definitivos, imperialmente convictos uns, dobrados à resignação outros. Qualquer tentativa de contestar esta afirmação, de propor alternativas ao ‘statu quo’ existente, é de imediato apostrofada, por uns e outros, de... irrealista, utópica, irresponsável!

Este é, também, o argumento que sustenta a opinião de que nada pode ser feito no que respeita ao tema em análise, uma vez que, adiantam, assim o impõe a globalização. Esta opinião, contudo – e felizmente – não é generalizada. Os que consideram ser possível contrariá-la não são ainda em número – e não têm a força – suficiente para poderem inverter a situação actual, mas sabem que podem contar com um aliado poderoso e determinante neste processo, a própria evolução da realidade. Torna-se impossível travar, pelo menos a longo prazo, o aprofundamento das condições objectivas (técnicas e sociais) que sustentam e deverão garantir uma gradual libertação do tempo de trabalho e a sua redistribuição/partilha (política) mais igualitária.

É isso mesmo que defende, num texto já não muito recente (1996, Miséria do Capital), Michel Husson, ao afirmar que ‘a redução generalizada do tempo de trabalho é o eixo de uma saída igualitária da crise social’. A este propósito, é bom ter presente que, aquilo que acabou por explodir nos finais de 2008, com o ‘quase’ colapso do sistema financeiro e o seu prolongamento na crise económica e social, levou anos, décadas, a preparar. As condições que propiciaram ‘esta crise’ foram sendo, ao longo desses anos, denunciadas, de forma mais ou menos constante (e até consensual), por muitos analistas (a esmagadora maioria da área da esquerda, é certo), pelo que se alguma dúvida subsistia sobre o assunto, ela resumia-se ao momento da sua eclosão e, em menor grau, à magnitude das suas consequências (em boa medida dependente daquele momento e da capacidade de reacção dos poderes públicos).

Ora, a actualidade desse ‘velho’ texto (retomando o tema deste comentário) perante a contínua degradação das condições laborais, em risco de ‘explodirem’, não poderia ser mais flagrante: ‘A redução do tempo de trabalho (...) só abre caminho com lentidão e dificuldade, porque o conteúdo concreto que pode assumir é um desafio aberto ao debate social. Seria de resto mais justo considerar que há, de qualquer maneira, redução do tempo de trabalho e que a questão é saber como ela se processa. Esta redução pode efectuar-se de forma excluidora (há quem trabalhe muito, e até de mais, ao passo que outros são impedidos de aceder ao emprego) ou de maneira igualitária, por uma redução uniforme e generalizada que permita a todas e a todos trabalhar menos’.

Já por diversas vezes abordei o assunto neste ‘blog’ e, devo sublinhar, sem me socorrer do apoio deste texto para chegar praticamente às mesmas conclusões. Há pelo menos 10 anos na minha biblioteca pessoal, por lá ‘dormia’ (como tantos outros, confesso-o), a aguardar oportunidade. Que aconteceu agora, ao ser atraído para o autor (por referências bibliográficas mais recentes, claro) pelos ‘Ladrões de Bicicletas’. Se refiro isto é apenas para destacar o que, parecendo uma coincidência, é antes o resultado lógico a que chega qualquer pessoa que decida, de forma isenta e objectiva, debruçar-se e reflectir um pouco sobre o assunto. Pois se até eu lá cheguei...

E, já agora, outra ‘curiosa’ coincidência! Depois de afirmar que ‘é perfeitamente legítimo raciocinar sobre a “partilha do trabalho”, (...)’ Husson acrescenta que ‘faz sentido construir um indicador sobre a “duração uniforme de trabalho que garanta o pleno emprego”, que se obtém dividindo o volume de trabalho pela população activa’. Parte, depois, para o cálculo do número de horas semanais que, nas condições produtivas da França de então (o livro, recorde-se, é de 1996), poderiam garantir o pleno emprego, para concluir que ‘será da ordem de 32 horas por semana em 2000’. Há precisamente 1 ano (Abril/09), eu referia aqui que ‘nem sequer se exige imaginação para adiantar propostas que permitam concretizar essa mais que indispensável redistribuição do tempo de trabalho. Afinal, nada disto é inédito: bastaria retomar-se a tendência de redução da ‘jornada’ de trabalho manifestada ao longo da curta história do capitalismo – aprofundada no período keynesiano com as designadas semanas ‘inglesa’ primeiro, ‘americana’ depois; interrompida com o advento do neoliberalismo de Teatcher e Reagan – agora, por hipótese, para as 30 horas semanais (passível de múltiplas variantes)’. Tratava-se apenas de uma ‘hipótese’, claro, mas... não andei muito longe!

Os mecanismos de decisão que comandam a realidade social não se regem pela lógica da razão, apenas pela força dos interesses (esta é a única objectividade admitida). Mas é exactamente no emaranhado complexo dos interesses que se deve procurar a explicação para os aparentes bloqueios que infernizam a vida das pessoas. Também por isso, continuar a seguir este texto de M. Husson afigura-se um exercício útil e muito actual, tanto mais que os cálculos a que procede têm o mérito de desmontar tecnicamente os estafados argumentos neoliberais escudados na produtividade, competitividade, contexto europeu,... E com ele concluir que, afinal, tudo se reduz a uma ‘opção de sociedade fundamental’, pois ‘a questão não é tanto saber se é necessário ou não reduzir o tempo de trabalho, mas saber como se fará esta redução: seja de maneira discriminatória, privando alguns de um pleno acesso ao emprego, e particularmente as mulheres, remetidas ao tempo parcial, seja, pelo contrário, repartindo de maneira igualitária os benefícios de uma progressão global da produtividade’.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

7 ...


7, isso mesmo ...
7, 7 pontos : duas vitórias e um empate, é o que faz falta para animar a malta; dito de outra forma, são 7 os pontos necessários e suficientes para que o BENFICA seja Campeão …
7, 7 jogos são quantos os que, o BENFICA, leva de seguida e vencidos na Liga …
7, o número da camisola de Cardozo, por enquanto e só, o melhor marcador da Liga …
7, a unidade de 59.317, o número de espectadores que, ontem e contando comigo, estivemos na Catedral ...
7, a unidade de 67, quanto o número de pontos que, por enquanto, o BENFICA, detém na Liga ...
7, a unidade de 67, quanto o número de golos que, por enquanto, o BENFICA marcou nesta Liga...
7, agora a 7 pontos, é procurar, tanto quanto possível, fazer a melhor gestão da (nossa) ansiedade … e esperar pelo BENFICA Campeão …
Eu, sinceramente, acredito
!!!

PS – um tal de “ministro” é, virou e agora, Director de Futebol; em meu entender, e muito sinceramente, merecia mais e melhor a Agremiação Leonina.

domingo, 11 de abril de 2010

Leituras sobre a Crise do Sistema – II

Contributos para um diagnóstico da Crise: o desmantelamento do Contrato Social

O capitalismo caracteriza-se por um enorme e historicamente inédito desenvolvimento das forças produtivas. É o resultado do extraordinário aumento da produtividade conseguido na base de uma extrema divisão social do trabalho (responsável também pela progressiva alienação do homem – mas isso já seria outra ‘história’) no âmbito do que se designa por ‘organização científica do trabalho’ – do taylorismo/fordismo (e Fayol,...) às modernas técnicas de gestão e à prevalência da tecnoestrutura sobre a detenção do capital nas principais decisões das empresas.

Este desenvolvimento, porém, só teve condições para se concretizar com a gradual implantação das ‘sociedades de consumo’. Com efeito, a enorme capacidade produtiva disponível a partir de técnicas do trabalho cada vez mais sofisticadas (e onde se incluem as inovações tecnológicas), só fazia sentido económico – no quadro de domínio do mercado capitalista – se a oferta dos produtos entretanto saídos das linhas de produção encontrasse uma procura solvente, se existisse um verdadeiro poder aquisitivo para os consumir. E isso, como a sucessão dos acontecimentos da Grande Depressão dos anos 30 do séc. XX se encarregaria de demonstrar (de forma, aliás, bem dramática), só se tornou possível dotando de poder aquisitivo um número crescente de trabalhadores/consumidores, viabilizando o ‘consumo de massas’.

Assim, dos escombros provocados pela Grande Depressão emergem sobretudo dois instrumentos estratégicos, complementares, que virão a revelar-se decisivos na construção da prosperidade do Ocidente, conhecida como os ‘trinta gloriosos anos’ (do final da Guerra a meados dos anos 70):
- A regulação do mercado, em resultado directo das condições que conduziram à Grande Depressão (uma espécie de ajuste de contas com o passado, por forma a evitar-se a sua repetição), com a imposição de um conjunto de normas de funcionamento estabelecendo limites à liberdade de actuação dos operadores económicos e abrindo caminho a uma intervenção crescente do Estado na vida económica;
- O contrato social, alternativa ao modelo liberal para a superação da crise, em que os trabalhadores e as suas organizações sindicais, a troco da renúncia ao controlo dos processos produtivos (equivalente à sua integração no sistema, por contraponto com o período anterior de permanentes lutas pelo poder político), asseguram, através da negociação contratual, estabilidade de emprego, actualizações salariais, acesso ao consumo massificado.

Modelo complementado por uma política social (universalização dos direitos sociais – saúde, educação, protecção no desemprego, pensões de reforma), assegurada por uma política fiscal fortemente progressiva de taxação dos impostos directos e dos lucros e património. Do ‘mercado selvagem’ dos primórdios do capitalismo, dominado pelo liberalismo económico sem regras, passa-se, assim, ao ‘mercado regulado’ do capitalismo maduro, dominado pelo modelo ‘social-democrata’, ou simplesmente ‘modelo social’.

Este modelo, responsável pelos já referidos ’30 gloriosos anos’ com a difusão maciça das inefáveis delícias do progresso capitalista, começa a evidenciar sintomas de esgotamento ainda na década de 70, que se acentuam e o faz entrar em crise com a chegada ao poder de Teatcher e Reagan (anos 80), parece hibernar com Clinton e Miterrand (anos 90), entra em claro retrocesso com Bush e Blair (primeira década do séc. XXI) e ameaça ruir no pós-crise do ‘sub-prime’ – não obstante a esperança protagonizada pela chegada de Obama ao poder nos EUA!

Esta aparente reviravolta – iniciada com a ‘saga’ da desregulação económica, prolongada no desmantelamento do Contrato Social – mais não traduz que o processo de adaptação do capital às novas condições de produção proporcionadas pela globalização: é possível produzir o mesmo com menos recursos. Por um lado, a evolução da divisão social do trabalho determinou a passagem da mecanização à automação e informatização, gerando uma capacidade produtiva imensamente superior à obtida na vigência do Contrato Social: com cada vez menos trabalhadores é possível produzir cada vez mais produtos, a automação substitui o trabalho manual sobretudo nas operações muito repetitivas. Por outro, recorrendo à deslocalização das empresas para zonas onde o trabalho (ainda) tem custos menores e sobretudo é menos exigente. O crescente desemprego é ‘apenas’ a consequência óbvia da destruição do ‘modelo social’!

A este propósito vale a pena uma ‘vista de olhos’ ao 1º cap. de um outro título recente (Nov.09), ‘Inquérito ao capitalismo realmente existente’, de Joaquim Jorge Veiguinha, onde algumas destas ideias e muitas outras são desenvolvidas para (nos) dar sentido à História. Para, compreendendo-a, se tentar encontrar alternativas que dêem sentido à Vida!
(...)

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Leituras sobre a Crise do Sistema – I

As origens ‘remotas’ da Crise: o processo de desregulação do mercado

Na longa tradição das audições levadas a cabo pelo Congresso norte-americano, ainda a actual crise económica não havia atingido o seu auge e já tinham sido chamados a depor alguns dos principais responsáveis pela regulação dos mercados financeiros, com vista a apurar o papel dos Reguladores Federais na eclosão daquela. Em Outubro de 2008, quando essas audições começaram, perante a perspectiva do colapso do sistema (a ameaça pairou no ar após a falência do Lehman’s, em Setembro), havia a percepção de que os abusos detectados por trás da hecatombe financeira se deviam, antes de mais, a falhas de regulação dos mercados. Importava apurar, nestas circunstâncias, a quem cabia a responsabilidade por tais falhas.

Cedo se percebeu, porém, que as responsabilidades, mais do que atribuir-se a pessoas em concreto, atingiam todo um sistema de organização baseado numa ideologia. Como posteriormente iria sintetizar Stiglitz: ‘A verdade é que a maioria dos erros individuais se reduz apenas a um só: à fé de que os mercados se autorregulam e que o papel do Governo deve ser mínimo’. Ou, tal como evidenciado logo no início das audições pelo senador Henry Waxman, que as conduziu: ‘Desde há muito tempo que a ideologia venceu a governança. Os nossos reguladores, em vez de regularem, facilitaram. A sua crença na sabedoria dos mercados foi infinita. A sua oração passou a ser: a regulação governamental é um erro e o mercado é infalível’.

Retiro estes excertos de um texto recente onde se faz a história exemplar deste período crítico do tempo presente. E onde, na sequência desta citação, se sintetiza o essencial das alterações normativas que, sob o pretexto da ‘modernização financeira do sistema’ num quadro de funcionamento globalizado e culminando o processo de desregulação encetado no início dos anos 80 na era Reagan-Teatcher, mais contribuíram para o descalabro económico que pôs o mundo à beira do colapso.

De acordo com o mesmo texto, ‘Waxman, nesta curta intervenção, refere-se à desconstrução do quadro regulador da era de Roosevelt, através da construção de um quadro desregulador que foi sendo produzido nestes trinta anos de neoliberalismo, usando três instrumentos fundamentais. Primeiro: em 1999, a revogação da lei que regulava o sistema financeiro, conhecida por Glass-Steagall Act (que, basicamente, estabelecia os limites de actuação entre bancos comerciais e de investimento, e entre a banca e a actividade seguradora), que foi substituída pela Gramm-Leach-Bliley Act (também conhecida por Lei de Modernização dos Serviços Financeiros), com o argumento de que o estado norte-americano, no dizer dos promotores da mudança, não poderia estar a viver vestido como um adulto e protegido como uma criança’.

Para abreviar este relato, seguem-se, logo em 2000, ‘a modificação das regras de funcionamento dos mercados de produtos derivados’, em 2004, ‘a eliminação das regras prudenciais para os grandes bancos de investimento, a net value rule (as reservas de caixa), com o argumento de que estes sabiam proteger-se tão bem que não precisavam de cláusulas reguladoras’ e, já em 2007, ‘a eliminação da regra uptick que condicionava as vendas a descoberto’.

O certo é que toda a construção ideológica neoliberal dos últimos 30 anos – baseada na primazia absoluta da regulação automática (ou autorregulação) do Mercado e utilizada para justificar o desmantelamento do edifício regulador erguido por Roosevelt em resposta à Grande Depressão de 29-32 – foi posta em causa pela sucessão de acontecimentos que culminaram naquele Outono de 2008 e por isso não surpreendeu ter parecido soçobrar perante as questões colocadas nas audições do Congresso. Não obstante as contradições da frágil e precária situação actual, a evolução posterior da crise viria a comprovar ser prematuro falar de colapso do sistema.

Vale a pena, pois, continuar a ler ‘A Crise da Economia Global’, título recente (Nov.2009) de Júlio Mota, Luís Lopes e Margarida Antunes (docentes na Fac. Econ. da Univ. Coimbra), para melhor se perceber o contexto em que a crise ocorreu. Que explica o ‘modo como ocorreu’, não ‘porque ocorreu’. Pois isso implicaria uma análise às próprias estruturas do sistema.

Sem prejuízo de se considerar este tema alguma vez esgotado, vale a pena, então, tentar-se uma aproximação às causas profundas que determinaram a crise.

(...)

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Música Celestial …


O vento consome-se.
Deleita massacres mensagens atlânticas com orquestras de mil e tal violinos.
É o ciclone a enraizar invernias cuspido das latitudes as muitas sinfonias.
O berço.
O arpão no rasgo das rotas
caça o maestro dono da ilha.
Da casa.
Leva o tecto do mar.
O bafo das cagarras.
O desafino.
Levamos nos olhos o transporte.
A carícia das mãos no corpo da rocha.
A baleeira no canal à deriva.
O vento consome-se com.
Some-se.
Deleita massacres mensagens atlânticas
com orquestras de mil e tal violinos.
O esqueleto do mar
rocha abaixo sem estaleiro.
Que vai ser disto ?
Outra vez o rumo a destruir
o leme e o cardume no colo do xaile.
Outra vez
outra voz
a promessa adiada.


Sidónio Bettencourt

quarta-feira, 7 de abril de 2010

As Invisíveis Iluminações ...


Há lugares de simples encantamentos,
onde ferventes pulsam claridades.
Como quem diz uma chávena de café,
fumegante, sobre o tampo da mesa.
Ao lado o jornal,
desprendendo a desordenada
pulsação do mundo.
Ligeiro, o roçar dum vestido pela porta,
um seco troar de tamancos
logo a seguir, imensamente antigo.
A Tabacaria Açoriana era às vezes
um leve cair de folhas, quase cego,
de exaltação.
Os primeiros pingos de chuva, por assim dizer.
Ou o negro xaile que tombava sobre o jornal
aberto, abril ou um doce instantâneo de junho,
uma dessas solidões repentinas, ao virar da página.
Os lugares são irremediavelmente,
a luminiscência das circunstâncias.
Águas que através de uma voz
se tocam, ecoantes.
Como se de entre duas pedras
invictas brotassem.

( Eduardo Bettencourt Pinto )

terça-feira, 6 de abril de 2010

‘Incógnito perigo... novos desastres...’ – de novo, os ‘velhos do Restelo’?

Acabado de regressar, deparo logo com a ‘polémica’ (via ‘Ladrões de Bicicletas’). Antes de mais, peço desculpa pela falta de originalidade do título, pois de tão óbvio, merecia pelo menos o esforço de um outro mais actual a condizer. Mas por mais voltas que dê, o retorno à velha e gasta alegoria oferece-se irrecusável, pois parece talhada para este caso: o ‘choradinho’ que o motiva – vertido em forma de "Manifesto por uma Nova Política Energética em Portugal", ou ‘Manifesto dos 33’ – tem um objectivo manhoso e é preciso estar atento (como já evidenciado por outros comentários sobre o assunto). De um lado o incansável ‘lobby’ nuclear, do outro o novo e fogoso líder do PSD. É demasiada coincidência para ser apenas isso, uma coincidência.

Além disso, a alusão aos ‘velhos do Restelo’ tem ainda a vantagem de estabelecer o paralelo com os ‘Descobrimentos’ – operação imensamente acima dos recursos do país e, não obstante, fez-se e com sucesso! Correspondeu até, apesar de todos os ‘velhos do Restelo’ (lá está!), ao período mais influente da nossa História (com todos os excessos cometidos, mesmo quando vistos à luz da época).

Numa altura em que se acentua a necessidade de se equacionarem alternativas estáveis às energias fósseispor razões do esgotamento dos recursos e por preocupações com o ambiente – a única ideia consistente deste manifesto (mais um) é a de que a política de apoio às renováveis é ‘uma aberração económica’, pois a aposta nestas é... cara (e, acrescentam, ‘suportada pelo consumidor’, com isso procurando demagogicamente colher o apoio de todos os pagantes). Restará então, por exclusão de partes, a energia nuclear – coisa que os ‘33’, nesta fase, ainda não se atrevem a explicitar, muito menos a propor. Que, no ponto da tecnologia actual, não responde nem a um nem a outro daqueles dois problemas, uma vez que se firma em recursos escassos não renováveis e arrasta riscos ambientais porventura ainda mais sérios de resolver a longo prazo (para além de toda a propaganda em contrário).

Tudo isto porque o tempo dos grandes projectos energéticos, daqueles que podem gerar muiiiiiito dinheiro, está a esgotar-se. As tendências actuais apontam na direcção da microgeração, tão micro quanto o pode ser o consumidor final, sejam os indivíduos ou as empresas – a tecnologia não está longe de o conseguir (até com participação de investigadores portugueses, por exemplo da U. Nova de Lisboa). Se estas tendências não forem travadas por interesses particulares (que, note-se, tudo farão para não perderem esta importante fonte de receitas), o consumidor tenderá a transformar-se no seu próprio produtor, num prazo que se espera então não muito longínquo (no início tudo dependerá dos apoios oficiais, é aqui que bate o ponto). Ainda que o não seja para ‘amanhã’, há que começar a criar as condições para o tornar possível. A recente agitação que sacudiu o sector teve o mérito, por entre os inúmeros alertas emitidos, de despertar um reforçado surto tecnológico na área da energia.

E é por verem essa oportunidade a esvair-se à medida que o tempo passa que agora ensaiam este pífio mas agoirento grito de alma contra a ‘política das energias renováveis’. Repare-se que eles não se atrevem a pôr em causa a ‘utilidade’ das energias renováveis. Por agora apenas arriscam contestar a política seguida para as incentivar, com base nos desgastados argumentos da ‘eficiência económica’a mesma eficiência que pôs o planeta à beira da catástrofe ambiental, o mesmo quadro de referências que colocou o mundo próximo do colapso financeiro (o ‘grupo nuclear’ – não resisto ao trocadilho fácil – destes ‘33’ é, não por acaso, bem conhecido doutras andanças)!

Por estas alturas é fácil ‘bater’ no Governo e nas suas políticas. E até nem seria difícil encontrar pontos criticáveis na actual política energética (do plano de barragens, aos próprios incentivos criados para a microgeração). Mas ao ‘exigirem uma avaliação técnica e económica, independente e credível, da política energética nacional, de forma a ter em conta todas as alternativas energéticas actualmente disponíveis’, estes ‘33’ indefectíveis manifestantes apontam, afinal, em que sentido?

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Uma questão de "sentimento"...

Ainda sinto os pés no terreiro
Onde os meus avós bailavam o pezinho
A bela Aurora e a Sapateia
É que nas veias corre-me basalto negro
E na lembrança vulcões e terramotos
Refrão:
Por isso é que eu sou das ilhas de bruma
Onde as gaivotas vão beijar a terra
(REPETE-SE)
Se no olhar trago a dolência das ondas
O olhar é a doçura das lagoas
É que trago a ternura das hortênsias
No coração a ardência das caldeiras.
É que nas veias corre-me basalto negro
No coração a ardência das caldeiras
O mar imenso me enche a alma
E tenho verde, tanto verde a indicar-me a esperança.
(Autor: Manuel Ferreira)

PS - é sempre assim; sempre que se aproxima uma estada na Ilha, na minha Ilha de S. Miguel, dá-me para o "sentimento"; porque será ?

sábado, 3 de abril de 2010

Uma questão de oportunidade ...


«Se retirássemos ao judaísmo os seus profetas e ao cristianismo todos os acrescentos posteriores aos ensinamentos de Cristo, em especial os do clero, ficaríamos com uma doutrina capaz de curar todo o mal da humanidade.
É dever de todo o homem de boa vontade lutar, no seu pequeno raio de acção e na medida em que lhe for possível, para que esses ensinamentos de tão grande humanidade se convertam numa força viva. Se ele lograr que os seus honestos esforços nesse sentido não sejam esmagados sob os pés dos seus contemporâneos, poderá considerar-se um homem afortunado e afortunada a comunidade em que está inserido.»
Albert Einstein, in «Como Vejo a Ciência a Religião e o Mundo»

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Uma questão de memória …


«Um dia, aproximadamente por esta mesma época, fui de excursionista a Mafra.
Tinha nascido na Azinhaga, vivia em Lisboa, e agora, quem sabe se por um cúmplice aceno dos fados, uma piscadela de olhos que então ninguém podia poderia decifrar, levavam-me a conhecer o lugar onde, mais de cinquenta anos depois, se decidiria, de maneira definitiva, o meu futuro como escritor.
(…) Dessa breve viagem (não entrámos no convento, apenas visitámos a basílica) não guardo a mais viva lembrança que a de uma estátua de S. Bartolomeu colocada, e aí continua, na segunda capela ao lado esquerdo de quem entra, a que chamam, creio, em linguagem litúrgica, o lado do Evangelho.
Andando eu, pela minha pouca idade, tão falto de informação sobre o mundo das estátuas e sendo a luz que havia na capela tão escassa, o mais provável seria que não me tivesse apercebido de que o desgraçado do Bartolomeu estava esfolado se não fosse a parlenga do guia e a eloquência complacente do seu gesto ao apontar as pregas da pele flácida (ainda que de mármore) que o pobre martirizado sustinha nas suas próprias mãos.
Um horror. No Memorial do Convento não se fala de S. Bartolomeu, mas é possível que a recordação daquele angustioso instante estivesse à espreita na minha cabeça quando, aí pelo ano de 1980 ou 1981, contemplando uma vez mais a pesada mole do palácio e as torres da basílica, disse às pessoas que me acompanhavam:
«Um dia gostaria de meter isto dentro de um romance.»
«Não juro, digo só que é possível.»

José Saramago
, in «As Pequenas Memórias»

segunda-feira, 29 de março de 2010

Uma questão de liberdade(s) ?..

" ... és livre se podes afastar-te dos homens, sem que te obrigue a procurá-los a necessidade do dinheiro, ou a necessidade gregária, ou o amor, ou a glória, ou a curiosidade, que no silêncio e na solidão não podem ter alimento.
Se te é impossível viver só, nasceste escravo.
Podes ter todas as grandezas do espírito, todas da alma:
és um escravo nobre, ou um servo inteligente: não és livre.

E não está contigo a tragédia, porque a tragédia de nasceres assim não é contigo, mas do Destino para si somente.

Ai de ti, porém, se a opressão da vida, ela própria, te força a seres escravo.
Ai de ti, se, tendo nascido liberto, capaz de te bastares e de te separares, a penúria te força a conviveres.
Essa sim, é a tua tragédia, e a que trazes contigo.

Nascer liberto é a maior grandeza do homem, o que faz o ermitão humilde superior aos reis, e aos deuses mesmo, que se bastam pela força, mas não pelo desprezo dela.”

Fernando Pessoa, in «Livro do Desassossego»

segunda-feira, 22 de março de 2010

quarta-feira, 17 de março de 2010

Uma questão de arbítrio(s) ….

" ... Um homem é dotado de livre arbítrio e de três maneiras: em primeiro lugar, era livre quando quis esta vida; agora não pode evidentemente rescindi-la, pois ele não é o que a queria outrora, excepto na medida em que completa a sua vontade de outrora, vivendo.
Em segundo lugar, é livre pelo facto de poder escolher o caminho desta vida e a maneira de o percorrer.
Em terceiro lugar, é livre pelo facto de na qualidade daquele que vier a ser de novo um dia, ter a vontade de se deixar ir custe o que custar através da vida e de chegar assim a ele próprio e isso por um caminho que pode sem dúvida escolher, mas que, em todo o caso, forma um labirinto tão complicado que toca nos menores recantos desta vida.
São esses os três aspectos do livre arbítrio que, por se oferecerem todos ao mesmo tempo formam apenas um e de tal modo que não há lugar para um arbítrio, quer seja livre ou servo."
Franz Kafka - in «Meditações»

quinta-feira, 11 de março de 2010

A propósito, mais uma vez, da produtividade nacional - III

‘Agarrem-me senão eu fujo!’

À parte a resposta às interrogações formuladas no comentário anterior – só por si merecedoras de aprofundamento em pelo menos outros tantos comentários – importa por ora expressar, em complemento de tudo o que ficou dito a propósito deste tema da produtividade nacional, a estranheza pela recorrência com que determinada asserção, atirada em tom de desafio, é produzida tão impunemente.

É vulgar ouvir afirmar-se que a justificação para os desníveis remuneratórios praticados em Portugal visa evitar a ‘fuga de quadros’, acrescentando-se de imediato que ‘a competência paga-se’ e, por isso, o risco que se corre, caso essas competências não sejam devidamente ‘blindadas’ (ou seja, ‘mimadas’ com as mordomias mais obscenas!), é o de os mais competentes poderem ser atraídos por chorudos contratos com que lhes acenam do exterior. ‘Agarrem-me senão eu fujo!’, parecem desafiar, sustentando assim não passarem tais benesses, em face do incorrido risco de uma deserção tão a contragosto (?), apenas de aparentes (porventura até baratos) desmandos.

Pintado assim o cenário, é só esperar que a maior parte dos totós indígenas engulam (sem grandes engulhos...) tamanha boçalidade e aceitem a desconformidade de tais prebendas como se se tratasse de uma fatalidade: caso se verificasse a debandada, então ocorreria o caos, instalar-se-ia a miséria, os maiores opróbrios atingiriam o já tão martirizado povo português! O que justificaria (dados de Manuel António Pina, JN, 24/10/08) que “os portugueses comuns (os que têm trabalho) ganhem pouco mais de metade do que se ganha na zona euro”, enquanto os ‘competentíssimos’ dos nossos gestores se pagam, em média, acima 55% dos suecos e finlandeses (uns bigorrilhas!), ou 22,5% dos franceses (uns pindéricos!).

Haja decoro! Depois do que atrás se disse sobre a qualidade dos ‘nossos queridos gestores’ – com base nos resultados à vista de todos – apetece mesmo dizer: pois que fujam, deixá-los ir embora e... que não voltem mais! O saldo entre as suas apregoadas capacidades e a realidade sentida pela maioria é tão negativo que me atreveria a acrescentar: a sua fuga não só não constituiria qualquer perda, como até poderia traduzir-se numa salutar benção. É que a par de uma tendencial recondução da escala remuneratória média para níveis financeiramente mais sustentáveis e socialmente mais decentes (e menos insultuosos), abrir-se-ia a oportunidade de tantos outros que vêm as suas capacidades bloqueadas por tais crânios, poderem demonstrar que, afinal, são tão ou mais competentes que os que ameaçam fugir para o exterior no encalço de tais miragens.

Temo, contudo, que tal nunca venha a suceder, pela simples razão de que tais ameaças – que não passam disso mesmo, de ameaças – dificilmente algum dia se concretizarão. E é pena, pois assim mais facilmente o país se iria libertando de uma cultura de ‘arrivismo ganancioso’ que lhe vem tolhendo as potencialidades e o impede, seja qual for o sistema económico, de procurar construir uma sociedade mais equilibrada, civilizada e próspera, menos dependente das várias formas de servidão – incluindo a que se acoita na ideologia dos falsos interesses comuns amalgamados em tiradas como a mais recente de Belmiro de Azevedo quando afirma que ‘o país não se pode armar em rico’(...) somos um país pobre’. Qual país? O dele ou o da caixa do Continente a recibos verdes?!!!

Ou de contribuir para a formação de alternativas às estafadas e comprovadamente ruinosas soluções neoliberais responsáveis pela CRISE. Acima de todas a indispensável – e inevitável – reorganização laboral, em torno da redução do tempo de trabalho, o dado central (não o único) a partir do qual será possível equacionar a resolução do problema do emprego (ou do desemprego) – assunto já aqui por várias vezes abordado, mas a que importa voltar sempre, pois constitui um dos elementos estruturantes na resolução da CRISE.

Até lá, dramas humanos continuarão a ocorrer perante a crescente insensibilidade da opinião pública manipulada pelo poder político apostado em reduzir o problema a um mero controle estatístico. E, alheia aos dramas, a CRISE continuará inexoravelmente a aprofundar-se!

segunda-feira, 8 de março de 2010

A propósito, mais uma vez, da produtividade nacional - II

Os porquês: e onde, para além de organização, se alude a ‘certas culturas’

Depois do que se expôs antes, dir-se-á então que o mais importante é mesmo investir na educação, na formação, na investigação (na inovação tecnológica, em novos métodos e processos,...). Mas não foi isso que se fez nos últimos (pelo menos) 25 anos? Com financiamentos do Estado a taxas iguais (ou mesmo superiores) às da maioria dos países europeus? E nem por isso os resultados deixam de ser modestos? Que dizer, então, do desperdício que representa manter milhares de jovens recém-licenciados no desemprego ou em actividades sem qualquer exigência de qualificação? Ou da contradição de potenciais quadros desaproveitados num país que se diz carecido deles?

Desde logo, ninguém ousará contestar que boa parte da responsabilidade a apurar neste processo reside na forma como esses investimentos são feitos – prioridades mal definidas, corrupção,... (mais um problema de gestão e de quem decide), resultando na falta de qualidade do ensino e da investigação produzidos. Contudo, a explicação não deve ser procurada apenas na ‘baixa qualificação dos recursos’, pois também aqui as comparações externas dos ‘nossos’ gestores, quando colocados lá fora em condições idênticas às de cá de dentro, não nos situam muito fora dos padrões internacionais.

Resta, pois, tentar procurar no próprio modelo de organização social (incluindo na componente económica) uma explicação mais cabal das causas deste atavismo nacional – a endémica baixa produtividade lusa. A violência da actual crise apenas veio expor, acentuando os seus efeitos humanos de uma forma estrondosa e dramática, aquilo que há muito se sabia ser insustentável e que era manter por muito mais tempo um ‘modelo de especialização produtiva’ baseado preferencialmente em actividades pouco qualificadas e de baixos salários. A prolongada aposta num modelo mal protegido tecnologicamente (portanto mais vulnerável à concorrência externa...), mas que, em contrapartida, permitia lucros rápidos, apenas demonstra a natureza retrógrada, porque desfasada da realidade e do progresso, dos responsáveis por tais opções, antes de mais dos empresários – do capital no seu conjunto.

O aprofundamento desta questão levar-nos-ia porventura a interrogar a razão deste comportamento aparentemente tão idiossincrático por parte das nossas elites nacionais (pelo menos no confronto com algumas das suas congéneres europeias), antes de mais os empresários (como gostam de se ouvir intitular), e estes contando com o inestimável apoio dos políticos. E a resposta pode bem conduzir-nos (?) a uma estranha mescla histórica em que se conjuga o tão decantado espírito aventureiro do tempo das navegações (em que o principal móbil sempre foi a obtenção rápida de riquezas fáceis através do comércio ou mesmo da pilhagem), com a repressão inquisitorial a que concomitantemente foram sujeitas as mentes de então (e que perdura ainda em muitas manifestações actuais). Hipóteses a investigar, claro, na busca de uma explicação que tente apurar as razões, objectivas e subjectivas, de um comportamento tão diferenciado das restantes elites europeias, não obstante todas elas actuarem, servindo-se, sob o pano de fundo de um sistema que, na sua essência, é o mesmo.

Não havendo, de facto, nenhuma diferença substancial, o certo é que ‘uns’ vivem de forma bem mais desafogada do que ‘outros’. Pena, pois, que as decisões que nos afectam não atinjam só aqueles que as tomam, antes arrastem no fragor da queda todos quantos – afinal homens e mulheres de carne e osso! – eles se servem para atingir os seus propósitos e o exclusivismo de vidas tão requintadas.

Porque, no final, uma interrogação geral começa já a pairar no ar, acusadora: onde estão os efeitos da crise para alguns? Onde está, antes de mais, a CRISE para os que a provocaram e dela se serviram? Ou, ainda – e talvez se descubra aqui a ponta do novelo que nos poderia conduzir à solução do problema – porque é que nos pretendem fazer crer que os remédios para a crise estão, afinal, nas causas que a determinaram?

(...)

Dia Internacional da Mulher : 100 anos ...

Cem anos passam desde que Clara Zetkin propôs o dia 8 de Março como Dia Internacional da Mulher, na II Conferência Internacional de Mulheres Socialistas.

Muitas histórias se contam sobre a origem deste dia e muitas lutas importantes se seguiram.

O Esquerda.net publica um dossier com o relato e a análise destes acontecimentos.Ler Mais

( via : www.esquerda.net )

domingo, 7 de março de 2010

quinta-feira, 4 de março de 2010

A propósito, mais uma vez, da produtividade nacional - I

Os quês: por aqui se fala de mandriões e de mandões!

Volta e meia regressa à cena política e mediática a discussão sobre a produtividade nacional. Esta persistente recorrência do tema não surge por acaso, visa objectivos bem definidos, invariavelmente procurando perante a opinião pública justificar a aplicação de ‘políticas de correcção’(!), eufemismo com que se pretende apresentar como inevitável uma maior contenção nos rendimentos do trabalho.

Não admira, pois, que o assomo de qualquer nova onda na crise económica, faça ressurgir, agora e sempre, a explicação da falta de competitividade da economia portuguesa perante as suas congéneres europeias (é este o espaço em que se integra, até aqui nada de mais), dado o nosso atávico desnível neste domínio. O argumento é invocado, claro, para se concluir que, (1) se a produtividade do trabalho nacional é baixa, (2) é porque os custos da respectiva componente laboral no PIB são comparativamente muito elevados, (3) logo, a solução, inevitável, passa por se reduzirem esses custos – por baixar/depreciar o trabalho (a começar pelo salário)!

Vai-se tornando cansativo, frustrante, deprimente mesmo, o insistente relambório de que as causas de todos os males do país radicam na sua baixa produtividade, o que visa essencialmente justificar as políticas de constante desvalorização do trabalho – a única variável ‘tolerada’ pelo mercado para proceder aos indispensáveis ajustamentos externos, seja nas contas nacionais ou nas empresas, por via da redução salarial ou da precariedade do emprego!

Pondo de lado o facto (por vezes decisivo) da competitividade de um país não depender apenas da produtividade, vale a pena ‘perder’ algum tempo a reflectir sobre o contributo dessa (sempre decisiva) componente na criação da riqueza nacional, o trabalho. Desde logo para a formulação da pergunta sacramental: se a baixa produtividade continua a manter-se como uma pecha peçonhenta que deprime o país e afasta o maná dos investimentos externos (entre outras bem-vindas bem-aventuranças), a que se deve? Uma resposta imediata, quase por reflexo, aponta, acusadora, os ‘mandriões dos trabalhadores’ em geral (com honrosas excepções, concede-se!), todos reivindicam direitos ninguém está disposto a cumprir obrigações, gente disposta a fazer o mínimo mas a exigir o máximo e... “assim não vamos lá”, rematam, peremptórios!

Mas... quais trabalhadores? Os mesmos que, lá fora, num qualquer país estrangeiro, nas mais diversas situações e funções, se esforçam e dão muito bem conta do recado (não alinho nem vou ao ponto de afirmar serem dos melhores do mundo, basta-me que sejam iguais), mas quando em idênticas situações, cá dentro, produzem muito menos e não passam de uns... ‘calões’?

Decididamente algo aqui não bate certo. E daí que desde logo haja de esclarecer-se: a causa da baixa produtividade não está em trabalhar mais, mas em trabalhar melhor, não está em despender mais esforço, mas em reproduzir esse esforço de uma forma mais organizada. O problema é, mesmo, ORGANIZAÇÃO. E se a ‘culpa’ é da organização – ou da falta dela – então os ‘culpados’ são, em primeira instância, os... gestores e organizadores, todos os que têm de a formular, planear e aplicar, enfim, os decisores em geral – não são apenas ‘mandões’ na política ou nas empresas, eles ‘mandam’ também na produtividade!

Afinal os principais responsáveis pela tão persistente e vilipendiada baixa produtividade são os mesmos que a invocam como argumento (dá jeito em momentos como este), para extraírem mais umas migalhas aos milhões de pedintes em que o país se vai transformando... presumidamente por falta dela. Porque de um modo geral são eles que têm governado o país, definido e imposto – dela se servindo – esta ORGANIZAÇÂO: tanto no Estado, como nas empresas, a nível da sociedade global!

Sobre que elaboram, então – de que se queixam, enfim – os cerca de ‘200 opinion-makers’ (talvez nem tantos!) que ‘fazem’ a opinião pública nacional – para depois ‘falarem’ em nome dela (se afirmam traduzir o pensamento da maioria!) – quando apontam a ‘baixa produtividade nacional’ como a origem de todos os problemas?

(...)

quarta-feira, 3 de março de 2010

A resposta para a crise …

De facto, e em meu entender, a austeridade não é - nem pode(rá) ser - a única resposta para a crise …
Leia aqui o último Esquerda
( e aqui os últimos Jornais do Esquerda )

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

A ‘independência’ da informação dependente

Se alguma utilidade é possível, para já, vislumbrar nesse confuso processo à volta das ‘escutas’ – e muito em especial das sequelas em curso na Assembleia da República – ela é a de ter posto às claras uma tão estranha quão, agora finalmente e sem qualquer pudor, alardeada promiscuidade entre o jornalismo dito ‘independente’ e o poder económico na comunicação social. Para além do natural e inevitável condicionamento financeiro da actividade jornalística e da informação em geral. Ou até da ‘velha’ apetência do poder económico para o controle da comunicação social, seja pela rentabilidade financeira que o potencial da actividade perspectiva, seja por razões ideológicas de manipulação da opinião pública na defesa de quaisquer interesses de grupo, empresarias ou políticos.

Nas audições a decorrer na Assembleia da República tendo em vista apurar alegadas ameaças sobre a liberdade de informação, os depoimentos dos 4 primeiros jornalistas aí ouvidos – de alguns dos principais grupos empresariais dos ‘media’ nacionais – são bem reveladores (para além de deprimentes!) das ‘preocupações’ que dominam o sector:

* José Manuel Fernandes, ex-director do ‘Público’, garante não ser pressionável e, na passada, afiança nunca ter havido qualquer interferência do Grupo Sonae de Belmiro de Azevedo na linha editorial do jornal por este detido; já o poder político, em contrapartida, parece querer asfixiar tanta independência encaminhando a publicidade sob seu controle, ‘apenas’ para os órgãos de comunicação social ‘amigos’.

* Mário Crespo, da ‘SIC’– o mais encomiástico nos elogios – igualmente garante não ser pressionável e, entoando em tons barrocos (como é seu timbre) loas eternas ao Grupo Impresa de Francisco Balsemão, testemunha fé inabalável na total independência deste grupo empresarial; sabe-se, entretanto, da repisada crítica do grupo à publicidade na TV pública, retirando quota publicitária aos operadores privados.

* Felícia Cabrita, do ‘SOL’, para não fugir à regra, garante não ser pressionável e, no balanço, presta homenagem à sociedade que detém o jornal (a luso-angolana Newshold, Joaquim Coimbra do PSD,...) por haver impedido a liquidação financeira deste projecto por parte do poder político do PS, que, por ínvias portas e escuras travessas, usou das suas ‘influências’ para o silenciar, impondo o corte dos apoios bancários a que, pelos vistos, se sentia com direito(?).

* António Costa, do ‘Diário Económico’, garante não ser pressionável (não foi excepção) e, para variar, assegura que em momento algum o poder económico – o Grupo Ongoing de Nuno Vasconcellos – condicionou ou tentou a ingerência na orientação do jornal, contrariando as afirmações da véspera de José Manuel Fernandes ao insinuar alegadas mudanças no seu alinhamento depois da compra pelo grupo e desvalorizando os telefonemas de políticos (por mais alinhado com a ‘situação’?).

E os depoimentos dos operadores dos restantes grupos (Controlinveste, Cofina,...), afinam pelo mesmo registo, que se pode resumir em: cada umgarante não ser pressionável’, todos enaltecem a isenção da ‘sua’ entidade económica (de que dependem) por, afiançam, não se ingerir nas questões editoriais (embora desconfiem da alheia, a competição assim o determina!). Acentuam, ainda, o papel que o Estado desempenha na sobrevivência das empresas, por via do financiamento ou da publicidade sob seu controle (directo ou indirecto). Tanta independência tem um custo...!

As ligações entre os interesses económicos, o poder político e a comunicação social são cada vez mais entrosadas, mas por demais opacas, ou mesmo promíscuas. Uma coisa parece agora mais clara: a total dependência económica do ‘jornalismo independente’! O sucesso (ou a sobrevivência) dos grupos de ‘media’ une jornalistas e accionistas no propósito central de ‘construírem’ um produto informativo vendável (as ‘audiências’!). A informação concorre com a publicidade para o sucesso financeiro das empresas e isso determina, mais que quaisquer outros critérios, o conteúdo da actividade jornalística. Reduzida a mais uma mercadoria, presa nos mecanismos que asseguram a absolutização das lógicas do mercado, a informação dos ‘valores’ (!) pouco ou nada tem a ver com princípios e regras, com verdade, rigor e objectividade – apenas e só com cifrões!

À parte tímidas tentativas de estabelecer e aprofundar estas ‘ligações perigosas’ (BE, PCP, até o PS), o assunto não irá seguramente motivar o interesse dos deputados tanto como as picardias em torno do enredo mediático das escutas! Não são elas, afinal, que alimentam as 'vendas/audiências'?

Mais uma oportunidade perdida! E já escasseia pachorra para tanta intriga!

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Zeca Afonso, Sempre !!!

A 23 de Fevereiro de 1987, em pleno Inverno mas no Outono da vida, morreu Zeca Afonso.
Num leito anónimo do Hospital de Setúbal, pelas 3 horas da madrugada, morreu o cantor, morreu o amigo, morreu o companheiro, morreu o Zeca.
Relembrar o Zeca hoje é mais que tudo isto. É, sobretudo, lembrar as suas últimas palavras: "Não posso parar".

Por isso empunhamos a tua bandeira porque a luta continua, serena e firme, contigo bem vivo junto de nós, Zeca Afonso.
Veja aqui o vídeo “Tributo a Zeca Afonso”:

domingo, 21 de fevereiro de 2010

O caçador caçado – ou a culpa é do mensageiro?

A equipa de jogadores, técnicos, médicos, roupeiros e não sei quem mais do FCPorto – só lá faltou mesmo o mandante... – pela boca do seu 3º guarda-redes, protagonizaram, ontem, sábado, 20 de Fevereiro de 2010, uma dramática manifestação de (aparente) unidade, lançando um já habitual (vindo de quem vem) ‘grito de guerra’, dirigido contra ‘incertos’. Incertos, entenda-se, apenas no discurso pronunciado, porque todos conhecem, sem que tivessem sido nomeados, os destinatários implícitos de tão furibunda raiva: directamente, a justiça desportiva (especialmente o presidente do Comissão Disciplinar da Liga, o juiz Ricardo Costa); acima de tudo e de todos, o ódio de estimação do arqui-rival SLBenfica, tido como o beneficiário, senão mesmo o instigador – mancomunado (!) com o referido Juiz – desta assim considerada bem urdida tramóia para prejudicar o Dragão!

O caso segue-se ao conhecimento, esta semana, dos castigos disciplinares impostos aos jogadores Hulk e Sapunaru, na sequência dos acontecimentos (leia-se, cenas de murros e pancadaria) ocorridos no já célebre Túnel da Luz (célebre por ser, talvez para fazer jus ao nome, o mais iluminado e... visível!) e protagonizados, entre outros, por aqueles dois jogadores. A tese baseia-se na teoria da provocação, que assim serve para ilibar, quiçá transformar em inocentes vítimas, os autores dos desacatos e da violência (provavelmente até o jogador Fernando, intérprete de furiosa sapatada na ‘provocatória’ manga de acesso ao relvado, poderá assim ser considerado) e que, conforme as imagens documentam (mas, pelos vistos, não podem servir para incriminar, vá-se lá saber porquê...), não se reduzem aos únicos dois agora castigados.

Primeira conclusão, pois – a questão chave: já então (à data dos factos) funcionava a união do grupo, como gostam de sublinhar, pois poucos (quem, afinal?) escaparam a ‘molhar a sopa’ na destemperada cena trauliteira que as imagens documentam (até a sua veracidade tentaram pôr em causa, ‘que tinham sido manipuladas, a sequência não se percebia, blá-blá-blá...’). Porque o que mais (lhes) importa é mesmo a defesa do castelo ameaçado, a união do grupo contra o resto do mundo, a utilização de todos os meios sejam eles quais forem, porque os fins justificam tudo.

Segunda conclusão – a questão séria: independentemente da prova dos factos constante do acórdão que justifica as penas, da indisciplina e violência perpetrada por energúmenos com as costas quentes (as imagens, para além de todas as interpretações, não mentem), a ‘habilidade’ está, em primeiro lugar, em desvalorizar os actos praticados, depois, em saber cavalgar a onda de descrédito da justiça, civil e desportiva, afrontar as suas instituições, na sequência do que, aliás, se vai vendo em outros campos onde a bola não entra em jogo. Sobre os actos praticados e a sua condenação, ao menos como acção pedagógica para os jovens a que gostam de se apresentar como exemplos (!!!), nem uma palavra, branqueamento absoluto.

Terceira conclusão - a questão caricata: todo este processo que agora conheceu este desfecho resulta da aplicação de uma norma disciplinar objecto de alteração recente, aprovada pela Assembleia Geral da Liga – com o voto favorável do FCP e a abstenção do SLB. Das motivações que conduziram a tal alteração e à disparidade dos dois votos pouco ou nada se sabe. Mas não custa a crer, pelo passado de guerrilha instituído (estou convencido, já o referi antes, com claro prejuízo político no caso da ‘regionalização’) que o intuito do concordante fosse ‘armadilhar’ o terreno ao rival. O resultado, contudo, foi exactamente o contrário: o caçador acabou por cair na sua própria armadilha.

Seja como for e exactamente por haverem concordado com tal alteração, afinal de que se queixam eles, agora?
A menos que a história, aqui, seja outra, aquela do mensageiro... É isso, concordam com a mensagem, o mensageiro é que a não sabe transmitir. Mate-se, pois, o mensageiro!
Em qualquer caso, um espectáculo deprimente e pouco abonatório dos seus intérpretes.

Catástrofe



Se alguém tem dificuldade em perceber as consequências das Alterações Climáticas, medite nestas imagens. O Governo Regional da Madeira, e o Funchal em particular, devem estar cientes que este tipo de acontecimentos poderá ocorrer com maior frequência que no passado, devido às Alterações Climáticas. Como explicava Anthimio de Azevedo a Madeira está numa zona de transição (confluência de massas de ar quente e ar frio que podem levar a nuvens com 11 kms de altitude!) Este foi um fenómeno extremo num Inverno já de si extraordinariamente chuvoso ( ver aqui também). Como explica este artigo, uma atmosfera e um oceano mais quentes aceleram o ciclo hidrológico aumentando o vapor de água que circula na atmosfera, ou seja, há mais água na atmosfera que cairá nalgum sítio com redobrada violência:

«The fact that the oceans are warmer now than they were, say, 30 years ago, means there’s about, on average, 4 percent more water vapor lurking around over the oceans than there was, say, in the 1970s.»

Por isso é urgente uma monitorização detalhada da actual ocupação do território em sitios críticos, para que isto não volte a ter no futuro a dimensão que se vê.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Percepções e realidades: o discurso do preocupado

Agora já sei, por saber firmado, a razão de nunca ter aderido a um partido político. Finalmente compreendi esta propensão para me manter independente, não me sujeitando a qualquer disciplina partidária. Bem, compreender não é o termo mais apropriado, pois compreender já eu tinha conseguido antes, tratou-se mais de uma confirmação, uma espécie de ‘prova factual’ reflectida através de um jogo de espelhos, a ‘evidência externa’ que (me) parecia faltar.

Foi ao ouvir na ‘tvi24’ (17Fev.) a deputada Rita Rato do PCP a repetir, vezes sem conta, que se encontrava ‘preocupada’, que esta minha ‘percepção’ (palavra também muito em voga, v.g., o Moniz ex-TVI, para extrair conclusões definitivas das ‘escutas’) se tornou mais consciente (e consistente). Ainda mal tinha começado a falar e já as expressões ‘estou preocupada...’; ‘estou muito preocupada...’, ‘eu já estava preocupada, mas agora fiquei ainda mais preocupada...’(!!!), lhe saíam ritmicamente da boca de forma tão insistente – quase mecânica – que o motivo de tanta preocupação ia passando despercebido. E o que é que motivava, afinal, tamanha preocupação numa ‘miúda’ de 27 anos (acabados de fazer)? As ameaças à liberdade de expressão e informação, que o dito caso das ‘escutas’ alegadamente configurava!

Dou comigo a pensar: ainda bem que tão ‘preocupada’ rapariga (perdão, ‘Excelência’, trata-se de uma deputada da nação!) não viveu antes do 25Abril, pois com a falta de liberdades que então legalmente imperava, a preocupação tinha derivado em angústia, a angústia em obsessão e... sabe-se o que acontece às obsessões, na melhor das hipóteses acabam no psiquiatra. A avaliar pelo automatismo matraqueado das expressões de preocupação, no caso dela dificilmente na cadeia, que era o destino mais provável de então e o foi, por isso mesmo, de tantos ‘camaradas’ seus, é justo recordá-lo e tê-lo sempre presente!

E, no decurso, dou comigo a concluir que tão excessiva dramatização acaba por se tornar contraproducente, pois alerta para que alguma coisa aqui soa a falso. De um modo geral, o discurso do preocupado tem o mérito de expor o vazio do conteúdo político das mensagens que o suportam. Mas também revela o enclausuramento implícito no processo de interiorização das normas e propostas partidárias a que se subordinam, as mais das vezes de forma inconsciente, todos os que aceitam entrar nessa lógica, por vezes – eis a questão! – a despeito ou em confronto mesmo com a própria realidade.

Ora eu também tenho em casa uma ‘miúda’ muito preocupada. Quase até da mesma idade. Mas, ao contrário da jovem deputada do PCP, a sua preocupação prende-se com coisas bem mais prosaicas, aquelas coisas que, no entanto, determinam a vida das pessoas, que marcam o seu futuro, afinal uma preocupação que atinge 3 a 4 milhões de portugueses (1,2 directamente, mais os pais, cônjuges,...) – a precariedade do trabalho, os malfadados recibos verdes, o confisco dos direitos laborais,... Eu sei, uma preocupação não impede a outra, muito menos a substitui (e, já agora, também sei que, para a resolução de um tal problema, as condições de êxito, no plano meramente interno, são escassas, ela exige uma acção concertada a nível internacional).

Este será, aliás, estou certo (também aqui não pretendo ser injusto), outro motivo de grande preocupação para a deputada Rita Rato que, se confrontada com tal flagelo, seguramente reagiria com tanta ou mais veemência do que o fez neste debate, a propósito do tema que lhe coube em sorte discutir em público... em nome do partido. E é aqui que bate o ponto - porque de tal modo imbuída do espírito partidário que, arrisco a dizer, a sua maior preocupação era, muito para além da expressamente manifestada, apresentar-se em sintonia, bem ‘afinada’ com as posições assumidas pelo partido sobre o tema em análise.

Perante o deprimente espectáculo que as ‘escutas’ têm proporcionado, distraindo mais que discutindo e, o que é mais grave, desviando as atenções dos problemas que importa resolver, de uma coisa estou certo: não consigo alinhar nem com a uniformidade situacionista manifestada do lado do governo (e do PS, claro) na defesa de posições no mínimo ‘trapalhonas’ (e eivadas de suspeitosos arreganhos), nem com a uniformidade oposicionista unida num espúrio conúbio assente no propósito central - e inútil - de apearem o ‘trapalhão’ (ou ‘vilão’, ainda não se sabe).

Decididamente, manter a independência, perante esta deplorável disputa partidária centrada na dramatização mediática das sensações (preocupações, percepções,...) e alienada da realidade, ainda continua a ser a forma mais saudável de fazer política!

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Máxima do aposentado....

A mulher pergunta com sarcasmo ao marido reformado :

"Que pensas fazer hoje?"

Ele responde:

"Nada."

Diz ela:

"Isso foi o que fizeste ontem!"

Ao que ele, o aposentado, acrescenta :


"Sim, mas ainda não acabei."


( Enviado por e-mail pelo VSN)

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

domingo, 14 de fevereiro de 2010

O que e que nós somos ?

“ O Português é hoje um expatriado
no seu próprio país.
Somos uma nação, não uma pátria;
somos um agregado humano
sem aquela alma colectiva
que constitui uma Pátria.
Somos … Sei lá o que nós somos ?
Sabe alguém o que nós somos ?
Sabe alguém o que nós somos,
salvo o lugar por onde
um cataclismo vai passar ? “


Fernando Pessoa - “Carta a um Herói Estúpido” ( 1915)

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Uma mini-crise na Crise (mas bem elucidativa!)

Talvez a principal ilação a extrair da recente ‘mini-crise na Crise’ por que passaram (ainda não acabou...) os depreciativamente denominados PIGS, provocada pelos ataques especulativos primeiro à Grécia, depois a Portugal e, em menor escala, à Espanha, é a de que a União Europeia – que se pretende seja, antes de mais, uma União Monetária – está longe de ser uma realidade estável. Um ataque especulativo idêntico seria completamente impossível de acontecer, por exemplo, a qualquer Estado isolado dos que integram os EUA (para falar apenas de um País onde mais imperam as regras do liberalismo económico, mas com grande tradição autonómica - veja-se o caso da Califórnia, cronicamente endividada), sem que o FED ripostasse de imediato.

Ora o que se verificou é que só agora o BCE parece dar mostras de querer fazer o mesmo no caso da Grécia, declarando-se disponível para o apoio financeiro exigido pela lógica das uniões monetárias. Demorou a reagir, permitiu que o risco alastrasse a outros Estados mais sensíveis e vulneráveis (como é manifestamente o caso de Portugal e da Espanha), de certo modo consentiu e foi conivente com os ataques especulativos perpetrados contra os interesses desses Estados. Como seria de prever, o resultado concomitante dessa alteração de posição foi, não obstante a sua adopção tardia permitir uma leitura óbvia sobre o estado ‘desta União’, o de estender os seus efeitos positivos aos países da UE mais expostos à crise: de imediato o risco da dívida portuguesa abrandou, o custo do dinheiro baixou!

Como, aliás, tem sido bastas vezes sublinhado nos ‘Ladrões de Bicicletas’ (bem mais habilitados do que eu para o afirmar), o problema está num processo inacabado de suporte à própria moeda única, nomeadamente pela (quase, na prática) ausência de políticas comuns a nível orçamental e fiscal. Aproveito, então, para de lá retirar esta citação do The Observer: “Para sobreviver, a união monetária tem de se transformar numa união política. Se isto não acontecer, é provável que ocorra uma implosão e uma mudança para uma Europa a duas velocidades.” O seu autor, Gerard Lyons, ‘chief economist’ no Standard Chartered, chama ainda a atenção para o facto de uniões monetárias terem colapsado por não terem sido acompanhadas pela união fiscal. E o conhecido Nouriel Roubini, professor de economia na universidade Stern School of Business at New York, acrescenta aquilo que já paira na mente de muita gente, a possibilidade mesmo da saída da União de alguns dos seus membros!

Para se evitar a repetição de crises forjadas para proveito exclusivo dos mesmos (especuladores) de sempre, das duas uma, portanto: ou a União actua com coerência e em bloco, ou se acaba de vez com a especulação! O que – nas condições actuais da União, por um lado, deste sistema que (se) alimenta (d)a especulação, por outro – não passa, em qualquer dos casos, de uma impossibilidade.

Resta-nos, até ver, continuar sujeitos às nefastas consequências de um dilema insolúvel!

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

O triste estado do Estado …

Acabo de ver e ouvir, estupefacto, a entrevista de Noronha do Nascimento à RTP.
Fiquei com a triste sensação que este senhor, por tudo aquilo que vi e ouvi - e que, por inerência de funções, é a quarta figura do Estado -, não tem, em meu entender, qualquer perfil para continuar à frente do Supremo Tribunal de Justiça.
Quanto mais para este senhor continuar a ser a quarta figura do Estado …
Pode ser – quem sabe (?) - se com um Alka-Seltzer ( 324 mg de ácido acetilsalicílico, 1625 mg de bicarbonato de sódio e 965 mg de ácido cítrico ) me ajude a debelar esta minha triste sensação de que "isto" - do Estado - está mesmo a bater bem lá no(s) fundo(s) …
Enfim :
- triste estado a que chegou o (meu) Estado !!!

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

O próximo futuro ...

Dedicado, com carinho, a Tod@s as/os Amig@s Sportinguintas ...

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

(In)Tolerância ...

Um sujeito estava a colocar flores no túmulo de um parente, quando vê um chinês a colocar um prato de arroz na lápide ao lado.
Ele vira-se para o chinês e pergunta :

- Desculpe, mas o senhor acha mesmo que o seu defunto virá comer o arroz?

E o chinês responde:

- Sim, e geralmente à mesma hora que o seu vem cheirar as flores...!!!


Respeitar as opções do(s) outro(s), em quaisquer circunstâncias , é uma das maiores virtudes que um ser humano pode(rá) ter.


É que quando se pensa que se sabe todas as respostas, vem a Vida e muda todas as perguntas ...

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Tinariwen - Música Touareg...

... e a história da luta pela identidade de um povo. Excelente!

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Os tempos que correm ...

«Convencidos da vida há-os, afinal, por toda a parte, em todos (e por todos) os meios.
Eles estão convictos da sua excelência, da excelência das suas obras e manobras (as obras justificam as manobras), de que podem ser, se ainda não são, os melhores, os mais em vista.
Praticam, uns com os outros, nada de genuinamente indecente: apenas um espelhismo lisonjeador.
Além de espectadores, o convencido precisa de irmãos-em-convencimento. Isolado, através de quem poderia continuar a convencer-se, a propagar-se?
(…) No corre-que-corre, o convencido da vida não é um vaidoso à toa.
Ele é o vaidoso que quer extrair da sua vaidade, que nunca é gratuita, todo o rendimento possível.
Nos negócios, na política, no jornalismo, nas letras, nas artes.
Para quem o sabe observar, para quem tem a pachorra de lhe seguir a trajectória, o convencido da vida farta-se de cometer «gaffes».
Não importa: o caminho é em frente e para cima.
A pior das «gaffes», além daquelas, apenas formais, que decorrem da sua ignorância de certos sinais ou etiquetas de casta, de classe, e que o inculcam como um arrivista, um «parvenu», a pior das «gaffes» é o convencido da vida julgar-se mais hábil manobrador do que qualquer outro.
Daí que não seja tão raro como isso ver um convencido da vida fazer plof e descer, liquidado, para as profundas.
Se tiver raça, pôr-se-á, imediatamente, a «refaire surface».
Cá chegado, ei-lo a retomar, metamorfoseado ou não, o seu propósito de se convencer da vida – da sua, claro – para de novo ser, com toda a plenitude, o convencido da vida que, afinal… sempre foi.»
Alexandre O’Neill, in «Uma Coisa em Forma de Assim»

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

A (des)propósito ...

“…Trocadas as descomposturas preliminares, sobre a questão da fazenda,decide-se que é indispensável, ainda mais uma vez, recorrer ao crédito, e faz-se novo empréstimo.
No dia seguinte averigua-se, por cálculos cheios de engenho aritmético que para pagar os encargos do empréstimo do ano anterior não há outro remédio senão recorrer ainda maisuma vez ao país e cria-se um novo imposto.
Fazem-se empréstimos para suprir o imposto, criam-se impostos para pagar os empréstimos, tornam-se a fazer empréstimos para atalhar os desvios do imposto para o pagamento dos juros, e neste interessante círculo vicioso, mas ingénuo, o deficit - por uma estranha birra, admissível num ser teimoso, mas inexplicável num mero saldo negativo, em uma não-existência - aumenta sempre através das contribuições intermitentes com que se destinam a extingui-lo, já o empréstimo contraído, já o imposto cobrado…
Pela parte que lhe respeita, o país espera.
O quê?
O momento em que pela boa razão de não haver mais coisa que se colecte, porque está colectado tudo, deixe de haver quem empreste por não haver mais quem pague."
Ramalho Ortigão, in Farpas ( em : 1882)

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

A propósito de/do carácter …

“ O carácter é constituído por um agregado de elementos afectivos aos quais se sobrepõem, mesclando-se muito pouco a eles, alguns elementos intelectuais. São sempre os primeiros que dão ao indivíduo a sua verdadeira personalidade. Sendo numerosos os elementos afectivos, a sua associação formará variados elementos: activos, contemplativos apáticos, sensitivos, etc. Cada um deles actuará diferentemente sob a acção dos mesmos excitantes.Os agregados constitutivos do carácter podem ser fortemente ou, ao contrário, fracamente cimentados. Aos agregados sólidos correspondem as individualidades fortes, que se mantêm não obstante as variações de meio e de circunstâncias. Aos agregados mal cimentados correspondem as mentalidades moles, incertas e mutáveis. Elas modificar-se-iam a cada instante sob as influências mais insignificantes se certas necessidades da vida quotidiana não as orientassem, como as margens de um rio canalizam o seu curso.Por mais estável que seja o carácter, permanece sempre ligado, no entanto, ao estado dos nossos órgãos. Uma nevralgia, um reumatismo, uma perturbação intestinal, transformam o júbilo em melancolia, a bondade em maldade, a vontade em indolência. Napoleão, doente em Warteloo, já não era Napoleão. César, dispéptico, não teria, sem dúvida, transposto o Rubicon.”
Gustave Le Bon - «As Opiniões e as Crenças»

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

A tecnologia …

“ A tecnologia que inunda o mundo de hoje, e a ciência que a serviu, não o invadem apenas na parte exterior do homem mas ainda os seus domínios interiores.
Assim o que daí foi expulso não deixou apenas o vazio do que o preenchia, mas substituiu-o pelo que marcasse a sua presença.
O mais assinalável dessa presença é por exemplo um computador.
Mas será a obra transaccionável por um parafuso? “
Vergílio Ferreira, in “Escrever”