quarta-feira, 28 de julho de 2010

Tempos inquietantes - III

A História sem futuro

A polémica em torno das propostas saídas do bornal de ideias feitas do PSD, pode ter pelo menos o mérito de estimular a discussão sobre alguns dos temas que mais contribuem para a comprovada e cada vez mais profunda insatisfação dos portugueses pela política. Sobretudo aqueles temas que mais se prendem com essas propostas, em especial os que respeitam aos direitos sociais, à segurança no trabalho e ao emprego em geral. A questão está em saber se devemos insistir nas mesmas fórmulas e receitas que conduziram o mundo até aqui – incluindo à crise actual – ou se, por outro lado, convirá antes parar, reflectir e inflectir o rumo e tentar outro sentido, outras saídas.

Que não haja ilusões: a discussão em torno das saídas para a crise irá centrar-se, no imediato, entre os que, maioritários (pelo menos ao nível dos governos europeus) advogam o aprofundamento das tendências liberalizantes, persistindo, por isso mesmo, na via da desregulamentação da economia (na utopia de um encontro com a ‘pureza’ do sistema!) e as propostas mais realistas de pendor keynesiano (já salvaram ‘esse’ sistema do colapso uma vez), apostando no esforço financeiro do sector público como forma de compensar as denominadas ‘debilidades dos privados’ (!) em tempo de crise aguda.

Utopia liberal ou realismo keynesiano, contudo, configuram uma falsa alternativa, pois ambos apostam no esgotado paradigma do crescimento contínuo. Não obstante, a disputa entre as duas principais vias baseadas no mercado arrastar-se-á seguramente ainda por algumas décadas, as necessárias até o ânimo das pessoas sucumbir à dura realidade. Entretanto manter-se-á, incólume, a aplicação das receitas por eles advogadas, em doses que variarão conforme se forem alternando no poder.

Curiosamente, é da mui liberal América que surgem as críticas mais contundentes às liberais políticas dos governos europeus na condução da economia em tempo de crise. Em recente entrevista à Visão (15Jul2010), James K. Galbraith, keynesiano convicto, veio recordar que a crise é ‘o resultado da desregulamentação e da falta de supervisão do sector financeiro’, no âmbito de ‘uma política assumida e deliberada para promover uma mais rápida expansão do crédito e maior crescimento económico de curto prazo’. E por isso lamenta que, para enfrentar a crise, os governos estejam a ‘retomar o caminho da desregulamentação e diminuição do peso do Estado’, como é exemplo ‘o ataque ao Estado-Providência em curso na Europa’. Como no caso, afinal, da proposta de revisão constitucional apresentada pelo PSD.

No fim de contas, a tónica, em ambos – liberais ou keynesianos – manter-se-á, inabalável, na discussão das vias para o crescimento – e no modo de o atingir mais rapidamente. À margem, pois, da que mais importaria promover, a das alternativas a este modelo de desenvolvimento que arrasta o mundo para um irreversível esgotamento de recursos. No sentido da construção de um modelo global alternativo, naturalmente a partir da ponderação das diferentes áreas e sectores sociais.

No domínio do trabalho, por exemplo, valerá a pena insistir nas políticas que se sabe esgotadas e incapazes de relançar o emprego, não obstante as promessas nunca cumpridas dos actores principais da alternância na gestão do mercado (de uns e outros, indistintamente) – porque centradas no também já esgotado modelo do crescimento económico?

Ou, pelo contrário, procurar perceber a razão da actual destruição de postos de trabalho, para além mesmo da crise, ela própria também parte deste problema – para se tentarem novas fórmulas, porventura até novos princípios de organização social, que permitam a inclusão de todos e não apenas de uma parte que se assume como privilegiada por ‘apenas’ ter acesso... a um trabalho cada vez mais residual?

Transformar a inquietação dos tempos em ‘tempos interessantes’ – eis, pois, o desafio!

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Tempos inquietantes - II

A ideologia do relativismo

O enquadramento ideológico que produz a proposta do PSD de revisão constitucional, origina e explica, igualmente, outras manifestações perturbadoras e bem sintomáticas do estado actual do debate das ideias, dominado mais pelo relativismo ético (a base do pragmatismo), que pelo individualismo liberal (não obstante o papel deste no discurso mediático). Porque é da conjugação destes dois elementos – relativismo/pragmatismo e liberalismo – que se constrói o ambiente ideológico propício ao domínio absoluto do mercado: a ausência de qualquer ideologia ou, o que dá no mesmo, o liberalismo reduzido à sua componente económica – o clássico ‘laissez-faire’.

É sabido que em tempos de crise florescem as mais diversas tendências, desvios e confusões. O desespero impede o discernimento e, nestas circunstâncias, facilmente o obscurantismo substitui o realismo, afinal é possível até encontrar a solução para a crise nas causas que a determinaram!!! Difícil é, por vezes, distinguir em que campo elas se situam ou a que grupo elas pertencem, as tradicionais referências de esquerda e direita manifestam-se insuficientes ou mesmo inadequadas ao seu correcto enquadramento. Destrinçar as falsas críticas – cujo objectivo é sobretudo o de camuflar os verdadeiros propósitos dos seus fautores – das que relevam da reflexão sobre a experiência e a vida; distinguir os consensos impostos – como é o caso do ‘mercado livre’ – dos que buscam na diversidade soluções alternativas, não se afigura tarefa simples.

A par da atenção redobrada que se exige nesta permanente demarcação entre o cálculo político (ou ideológico) e os factos concretos, impõe-se a denúncia das situações mais ofensivas da realidade (presente e histórica). Tanto nos ‘media’ tradicionais como nos diferentes locais da internet, amiúde deparamos com casos inquietantes. Onde se detectam velhos fantasmas, à mistura com novas ameaças. Das mais perigosas incursões – porque implicam a quebra de valores universais – às pouco mais que inúteis ou de efeitos estéreis – porque desfasadas da realidade. Longe de ajudarem a construir alternativas, contribuem para o adensamento da confusão das ideias, em benefício exclusivo da ‘ideologia do mercado’. Como é o caso dos dois exemplos seguintes.

De forma recorrente desponta a tese de que ‘o Holocausto nunca existiu’, com base na discussão de que os 6 milhões de judeus que se diz terem sido mortos pelos nazis são manifestamente exagerados. Da discussão do número parte-se para a negação do facto. Ora o Holocausto não se define pela quantidade de mortos que provocou, mas pela natureza do programa posto em marcha com vista ao extermínio – ao genocídio – de um povo, no caso o judeu, idêntico a outros, é certo, que ocorreram ao longo do séc. XX, ainda que sem idêntico mediatismo. O que os judeus do Estado de Israel depois fizeram com o capital de apoio ganho junto da opinião pública pelo então ocorrido, isso já é outra história que de modo algum justifica a tese do ‘negacionismo’.

O outro exemplo é mais complexo porque mais obscuro nos seus propósitos. Reporta-se a uma cada vez mais insistente crítica ao sistema bancário, tido (e bem) como o centro de decisão que conduziu à Crise, qualificado, enfim, de intermediário financeiro parasita – o que já representa um juízo limitado sobre a natureza tanto da função bancária como do próprio mercado. Se, por um lado, a Banca exerce o papel charneira nas relações entre todos os agentes que operam no mercado (determinante, pois, no processo de valorização da mercadoria), contudo é ao modelo social que organiza essas relações e ao seu paradigma de desenvolvimento que importa assacar as maiores responsabilidades: o modelo baseado no mercado e o paradigma do crescimento económico contínuo.

Apontar a actividade de intermediação bancária como a única (ou mesmo a principal) causa da Crise actual (e, note-se, sem qualquer referência à desregulação financeira...), torna-se um exercício inútil, porque desfasado da realidade, mas perigoso, ao desfocar a atenção do essencial: a urgência na mudança do paradigma de desenvolvimento que impõe o crescimento contínuo, suporte do mercado. É, de algum modo, descortinar um bode expiatório destinado à expiação para sossego dos espíritos dependentes de liturgias laicas. É, enfim, culpar o instrumento, poupando o artista que o toca. Como há 70 anos, num gesto repetido ao longo de séculos, os nazis fizeram com os judeus para justificarem, perante a sociedade alemã da época, as suas próprias insuficiências. Com os resultados que se conhecem.

No fim de contas, a quem interessa uma ideologia assente na mistificação dos factos? Quem mais aproveita com a aparente (?) distorção da realidade?
(...)

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Tempos inquietantes - I

A política das aparências

Já aqui me referi a ‘Tempos Interessantes’, um ainda recente livro do talvez maior historiador vivo, Eric Hobsbawm, com o subtítulo de ‘Uma vida no Século XX’, situando a época a que se referem estas suas notáveis memórias. De um tempo em que sobravam referências para identificar as lutas e os ideais que as motivavam, em que as ideologias enquadravam a acção dos homens – e o seu empenho não era movido apenas pelo cálculo dos interesses imediatos.

A propósito de alguns episódios e indícios equívocos, senão mesmo perigosos, tomo então de empréstimo, adaptada, a fórmula utilizada no título de Hobsbawm. Para com ela tentar enquadrar e melhor compreender certos acontecimentos, aparentemente dispersos e sem ligação, no fundo, porém, comungando da mesma lógica que torna tão inquietantes estes tempos: a apregoada necessidade de aprofundamento da lógica do mercado, em plena crise... provocada pelo mercado – contra tudo, pois, o que racionalmente seria expectável.

A começar no episódio que ultimamente mais tem concentrado as atenções e os comentários políticos: a proposta social-democrata de revisão constitucional. Já se percebeu que a actual direcção do PSD, para além de um reforçado e muito generoso estado de graça que lhe foi proporcionado pelos condicionalismos existentes – crise global, governação PS, anteriores direcções do PSD,... – actua em dois planos: calculisticamente vai aguardando que o poder lhe caia nas mãos a partir do mero desgaste das diversas frentes, em especial a da desastrosa frente política interna; enquanto isso, vai procedendo a experimentalismos de vária ordem a ver como reagem os destinatários, políticos ou simples cidadãos.

A polémica em torno da revisão constitucional, numa altura em que, perante as óbvias prioridades ditadas pela crise, nada apontaria para a urgência de tal discussão, mais parece enquadrar-se em estratégias de distracção política para desvio de atenções de outros cenários mais comprometedores (viabilização dos PECs, discussão do próximo OE,...), talhada a jeito dos propósitos liberais que animam a actual liderança PSD. Por isso avança com uma espúria proposta de aumento dos poderes presidenciais – contra a história do seu próprio partido, lembrou Santana Lopes! – mas com os olhos postos no mais apetecido pacote social: privatização de serviços públicos e liberalização dos despedimentos!

Pode bem acontecer que essa seja a moeda de troca numa eventual futura negociação sobre as matérias a rever e que, chegado o momento de se ceder em alguma coisa, isso aconteça no acessório para que o essencial passe – e o essencial é, com toda a certeza, na óptica liberal, a alteração do actual conceito constitucional de direitos sociais (saúde, educação, trabalho,...) – pretendendo substituir direitos por regalias.

A opinião expressa por Ângelo Correia (criador, tutor, mentor,... do actual líder do PSD), em artigo assinado no CM de 20 de Jul., desfaz quaisquer dúvidas a este respeito, ao centrar toda a sua argumentação sobre revisão constitucional nas alterações em torno da componente social, afirmando, por exemplo, que ‘uma constituição democrática (...) reconhece a impossibilidade de manutenção de regras de gratuitidade’, que considera ‘uma quimera’. Sintomaticamente, nem por uma vez se refere à componente política da proposta sobre o tão propalado reforço dos poderes presidenciais!

A mera formulação de tal proposta é, só por si, inquietante e teve como efeito imediato uma generalizada rejeição nos mais diversos sectores da sociedade – incluindo no seio do próprio PSD. Mas também já se percebeu que esta direcção não joga apenas no imediato e as suas acções visam efeitos de mais longo prazo. É certamente calculada uma eventual perda de intenções de voto momentânea, os seus dirigentes afanam-se em semear agora, porque esperam colher no futuro.

Resta então saber até onde ‘este’ PS vai resistir e conter a dinâmica liberalizante que a suporta – para além da que ele próprio, a despeito das bravatas mediáticas, na prática há muito pôs em marcha!
(...)

segunda-feira, 5 de julho de 2010

A globalização sem política

Talvez o maior mérito do recente episódio em torno da operação de compra da Vivo brasileira, com o Estado português a inviabilizar o negócio pela utilização da ‘golden share’, tenha sido alertar (mais uma vez) para a debilidade do poder político perante o domínio absoluto do mercado. As opiniões domésticas dos ‘inevitáveis’ especialistas e dos ‘inefáveis’ comentadores, foram praticamente unânimes (com ligeiras dissonâncias): o Estado fez bem em intervir, mas tratou-se de um gesto votado ao fracasso, pouco mais que simbólico e quase quixotesco, perante o ‘diktat’ de Bruxelas (desta feita apoiado no ‘isento’ Tribunal do Luxemburgo) sobre o inviolável princípio comunitário da livre circulação de capitais.

No fundo, o que se pretende traduzir, é que a lógica do mercado não pode ser contrariada por qualquer interferência externa, política ou outra, no seu normal desenvolvimento, sob pena das mais terríveis consequências – de que as eventuais penalizações por incumprimento ou transgressão das normas comunitárias sobre a concorrência constituirão o menor dos males. Aparentemente, pois, nada mudou com a crise, nem o susto de uma derrocada do sistema parece ter amedrontado o poder económico e político, o qual, logo que ultrapassados os apertos financeiros, se apressou a retomar – e a aprofundar! – o sentido de uma mais completa desregulação/ liberalização dos mercados. Na lógica deste contexto, a intervenção do Estado é tida como essencial para salvar os mercados da derrocada por eles provocada, mas considerada prejudicial quando lhes exige a correspondente responsabilidade social!

Na realidade, porém, a actual crise (permanente?) surge na sequência e em resultado da tentativa de aplicação, ao longo dos últimos trinta anos, do princípio da auto-regulação dos mercados e da exclusão do Estado – e da política – da vida económica, tornando-se cada vez mais evidentes dois aspectos essenciais que lhe estão associados.

O primeiro diz respeito ao declínio da hegemonia do capital financeiro – ou da financeirização da economia – de que o ‘sub-prime’ foi apenas a manifestação exterior de uma crise há muito anunciada. Não obstante na aparência tudo sugerir o reforço dessa hegemonia, com o sistema a procurar no aprofundamento da desregulação margem de manobra para se perpetuar, o certo é que os sintomas de degradação acentuam-se e as crises sucedem-se umas às outras: à crise financeira (e de confiança no sistema bancário) sobrevem a crise económica (falências em cadeia, desemprego,...), a crise social, a crise da dívida,...

O segundo reporta-se ao esgotamento do actual modo de produção, com a formação e o desenvolvimento de vários impasses sistémicos, de natureza económica, tecnológica e até sociológica. O principal efeito revela-se ao nível da actividade ocupacional, com o sistema cada vez mais manietado e impotente para resolver a grande questão do mundo actual: como gerir a ocupação laboral e aproveitar o tempo das pessoas. Ao enorme incremento da produtividade (fruto do progresso técnico), responde, não com melhor distribuição dos benefícios daí resultantes, mas com a compressão salarial e a imposição da desregulação laboral – condição para a sua sobrevivência. Recua assim aos seus próprios primórdios: a lei da força substitui, de novo, a força da lei!

Ainda não é possível vislumbrar, no quadro do sistema ou fora dele, uma alternativa ao actual estado de coisas e ao desmoronamento social que ameaça ampliar-se e progredir. O ‘antecipado’ epílogo do caso ‘PT-Vivo-Telefonica’ reveste apenas um carácter simbólico mas bem elucidativo da natureza da política europeia e das expectativas em torno ‘desta’ democracia. A mais que previsível condenação do Tribunal do Luxemburgo às ‘golden shares’ virá tão só confirmar que a UE, não obstante todas as declarações em contrário, se mantém fiel à lógica que conduziu às crises sucessivas – crise permanente? – em que o mundo dito desenvolvido mergulhou desde há pelo menos dois anos – e de que, tão cedo, não sairá delas!

Não parece despropositado, então, voltar agora a relembrar o ‘Crash de 2010’, um curioso título já antes aqui citado. Para além da premonição de que o pior da crise acontecerá precisamente no Verão de 2010 (!), o mais importante é a chamada de atenção do seu autor, o catalão Santiago Becerra, para a crise sistémica instalada e para algumas das possíveis soluções, num mundo onde a prioridade se deve centrar em ajustar as necessidades aos recursos disponíveiso que exige a crescente mediação da política na vida social, com a subordinação do mercado à democracia!

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Uma questão de "relação" ...


Salvo seja a comparação, até parece a "relação" de Carlos Queirós enquanto e como treinador principal das equipas das quais tem sido "timoneiro" ... uma vez que, e enquanto treinador-adjunto, será provavelmente um dos melhores do mundo ...

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Pois ...


«Privatize-se tudo, privatize-se o mar e o céu, privatize-se a água e o ar, privatize-se a justiça e a lei, privatize-se a nuvem que passa, privatize-se o sonho, sobretudo se for diurno e de olhos abertos.
E, finalmente, para florão e remate de tanto privatizar, privatizem-se os Estados, entregue-se por uma vez a exploração deles a empresas privadas, mediante concurso internacional.
Aí se encontra a salvação do mundo...
E, já agora, privatize-se também a puta que os pariu a todos».

José Saramago, in «Cadernos de Lanzarote – Diário III», pág. 148

domingo, 20 de junho de 2010

‘É a luta de classes, estúpido!’

Mais uma vez os patrões indígenas – meros peões na luta global das grandes corporações empresariais – ‘sentem’ que é este o momento oportuno para exigirem do Governo novas medidas legislativas que lhes permitam intensificar a exploração do trabalho/acumulação do capital. À boleia de uma proposta partidária de idêntico propósito, ‘soprada’ por Bruxelas(!), insistem na necessidade de uma maior ‘flexibilização das leis laborais’, ou seja, solicitam autorização (!) para despedirem legalmente sem restrições!

Depois da desregulação financeira – que permitiu o regabofe liberal na origem da actual crise e que, pelos vistos, de nada aproveitou e assim vai continuar; da progressiva destruição do Estado Social – tido como prestador de regalias e não como garante de direitos, logo esbanjador do dinheiro dos contribuintes em inúteis e incompetentes; resta agora completar o modelo ultraliberal com a imposição da total precarização laboral – exclusão de quaisquer direitos de protecção sobre o trabalho, com o regresso à lei da selva contratual, expondo o trabalhador às arbitrariedades dos ‘empregadores’, os que detêm o poder efectivo nas sociedades actuais.

A extrema e cada vez mais generalizada degradação das condições de prestação do trabalho a prazo (o equivalente, na actualidade, à dependência gerada, no passado, pelos sistemas de escravatura), a par do aumento das disparidades de rendimentos, torna a situação social cada vez mais explosiva. Que irá contribuir, mais cedo ou mais tarde, para o recrudescer das ‘velhas’ lutas de classes, tão ‘velhas’ como as sociedades humanas organizadas. ‘Adormecidos’ durante décadas, por obra e graça da hegemonia das teorias keynesianas e do modelo social-democrata – que conseguiram anestesiar as vontades e retardar a mudança social – os conflitos ameaçam agora irromper com violência, não obstante as condições sociais serem muito diferentes das dos séc. XIX e XX, a nível da estrutura de classes, do modo de vida e das próprias formas de luta.

Por agora, empurrados pela necessidade ou tomados pela ousadia, retiram-se as máscaras, desvanecem-se os subterfúgios, surge com maior nitidez a divergência inconciliável dos interesses em presença. Sem pudor, os detentores do poder assumem pretender uma maior liberdade na gestão da precariedade do trabalho, um controle sem limites do ‘mercado laboral’ – peça estratégica desse mecanismo global imposto para dirigir as sociedades! Confiados em que o outro lado, sofrendo o grosso dos efeitos punitivos de uma crise que não provocou e, por enquanto, incapaz de se organizar para lhes fazer frente (receio de perder o pouco que lhe resta?...), permaneça numa ‘acomodada expectativa’.

No âmago de uma crise económica e social marcada pela incerteza e pela insegurança, que ameaça pôr tudo em causa, o que mais se sente e ganha relevo é a ausência de uma alternativa segura ao modelo que a ela conduziu. Mas para além de todos os jogos e manipulações partidárias de escasso ou nulo conteúdo político, pressente-se o desespero de quem descrê da capacidade do poder público (e dos seus representantes eleitos) em encontrar soluções práticas e viáveis, em centrar-se na regulação democrática da realidade social, por demasiado dependente da inevitabilidade do ‘poder soberano dos mercados’.

Pois é a altura de recordar que, por trás destas manifestações, destas expressões exteriores de força – mais ofensivas de um lado, ‘apenas’ (?) resistentes do outro – encontra-se uma realidade mais profunda. Capaz de a qualquer momento explodir e tudo alterar. É tempo de proclamar que, depois da economia, o que se encontra subjacente a esta crise... ‘é a luta de classes, estúpido!

sexta-feira, 18 de junho de 2010

A(s) Vuvuzela(s) ...

Eis, para quem não conhece, a origem da Vuvuzela ...
E agora, ainda vão continuar a "assoprar" a corneta e, assim, engordar os lucros da Galp ?..

terça-feira, 15 de junho de 2010

Uma questão de "crença" ...


Depois de ter empatado a 0-0, o treinador da Selecção do BES, um dos mais bem pagos do Mundo, acusou a Costa do Marfim de ter uma postura demasiado defensiva.
«É sempre assim quando de um lado está uma equipa com vontade de ganhar e outra interessada em defender. Frente a uma equipa completamente fechada atrás da linha da bola, as coisas ficam um pouco mais difíceis»
O que (nos) dirá, a criatura, depois de jogar com a Selecção da Coreia do Norte ?..

domingo, 13 de junho de 2010

O regabofe ...


Pronto.
Começou o regabofe ...
Enquanto estamos distraídos com futebolada(s), ao menos não nos preocupamos com outras "coisas" ...
Eu, e muito sinceramente, o que desejo é que nenhum Jogador do BENFICA se lesione e que entrem de férias o mais cedo e depressa possíveis ...
De todo o modo, aqui vai o
Calendário do Mundial 2010

quarta-feira, 9 de junho de 2010

'Privatize-se o ar!'

Não resisto a transcrever, com a devida vénia, um comentário a uma posta do Daniel Oliveira, no ‘Arrastão’, a propósito das declarações recentes de Daniel Bessa – tido como de esquerda porque, um dia, fez parte, durante uns meses, do governo do ‘esquerdista’ Guterres! – defendendo a privatização da Saúde e da Educação como forma de resolver a crise da dívida (!):

«Privatize-se tudo, privatize-se o mar e o céu, privatize-se a água e o ar, privatize-se a justiça e a lei, privatize-se a nuvem que passa, privatize-se o sonho, sobretudo se for diurno e de olhos abertos. E finalmente, para florão e remate de tanto privatizar, privatizem-se os Estados, entregue-se por uma vez a exploração deles a empresas privadas, mediante concurso internacional. Aí se encontra a salvação do mundo… e, já agora, privatize-se também a puta que os pariu a todos.» José Saramago – (Cadernos de LanzaroteDiário III – pag. 148)

«Passávamos já à última fase, não? O resto está mais ou menos feito», conclui o comentador.

Sob pretexto de pretender resolver ‘a crise da dívida’, o capitalismo, perfilado por trás de um neoliberalismo cada vez menos escondido nos seus propósitos, perdeu toda a vergonha e deixou de disfarçar. O objectivo é mesmo, já ninguém o contesta, a destruição do Estado Social! Prepara-se o ataque final ao que resta dos serviços públicos – pelo menos os que, explorados até ao cêntimo, garantam alguma margem de valor, algum lucro! Irá sobrar ainda alguma coisa? Ou, dito de outro modo, alguma coisa que gere valor consegue escapar às leis do mercado, à fúria do lucro?

segunda-feira, 7 de junho de 2010

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Isto promete acabar mal! – II

Os limites do modelo exportador de crescimento – e desta globalização

Nos meses imediatos a Outubro de 2008, para evitar o risco sistémico de uma crise que ameaçava alastrar sem controle, foram lançados pela generalidade dos Estados programas de apoio financeiro de dimensão nunca vista. Ouviram-se então algumas vozes interrogar como reagiria a economia no momento da retirada desses apoios e quem afinal iria pagar todos aqueles milhares de milhões (!) que, de repente, surgiam do nada. Mais cedo do que se previra, sem surpresas como se esperava, aí está a resposta às duas questões, convergindo no sentido histórico de sempre: violento ‘ajustamento orçamental’, com sobrecarga nos mais desfavorecidos! Os efeitos esperados irão seguramente contribuir para evidenciar que as alternativas de solução propostas pelo sistema se encontram já fora de prazo!

Desde que se concluiu, sem margem para dúvidas – e também sem surpresas! – que as promessas feitas pelo G20 no calor da crise não eram mais do que isso, meras promessas, foram vários os alertas oriundos de diferentes lados a prever que o pior da crise financeira ainda estaria para vir. Sem necessidade de sair do quadro de referências do sistema, relembro os constantes ‘recados’ de Stiglitz sobre o curso do Euro e o (in)consequente rumo ‘desta’ UE; o já aqui abordado ensaio de Santiago Becerra – o premonitório ‘O crash de 2010’; ou as recentes declarações de Jaques Attali em entrevista à Euronews, onde afirma que ‘a crise está apenas a começar’, após observar que ‘os bancos continuam a especular como antes (...), nada mudou num sistema que está totalmente nas mãos do mercado financeiro internacional’.

Contrariando a tónica das políticas postas em prática na UE – de comprovados efeitos desastrosos, a nível económico e social, para todos os países que a integram – Attali, defensor de uma outra alternativa (curiosamente melhor ‘compreendida’ pelos EUA de Obama!), avança o que considera dever ser feito para atacar a turbulência na zona Euro, provocada pelo disparo das ‘dívidas soberanas’ (!), ao defender que ‘a única solução é a do crescimento para a redução da dívida'. Mas acrescenta que, para se evitar a catástrofe enquanto a retoma do crescimento não chega, é preciso ‘emprestar de modo credível’, adiantando ser a União Europeia a única a poder fazê-lo. E, já agora, sobre o efeito desta crise na construção do futuro da Europa: ‘Hoje vemos como uma evidência que a moeda única não pode existir sem uma política fiscal e orçamental. Não é possível.’

Contudo, também a solução para a crise através do incentivo ao crescimento económico parece seriamente comprometida, dadas as condições objectivas de funcionamento actual do modelo de desenvolvimento nas sociedades centradas no mercado – bem expresso no paradigma ‘subprime’ (‘engenharia financeira’ sobre crédito fácil e barato!). A não aplicação de algumas medidas essenciais – como é a ausência de uma política orçamental e fiscal europeia – pode vir a revelar-se fatal. Ou tão só a sua aplicação fora de tempo.

Mas pelo menos uma vantagem, para já, pode ter tido esta crise global, ela permitiu ver com maior clareza a natureza contraditória desta globalização, ao demonstrar os limites deste modelo de desenvolvimento que a suporta, baseado generalizadamente no crescimento do sector exportador. Porque assente na capacidade aquisitiva solvente algures no planeta – nos destinos dos produtos, ou seja, na capacidade de absorção/importação dos mercados consumidores – este modelo é posto em causa sempre que falha alguma das bases que sustenta essa capacidade – os rendimentos disponíveis das famílias ou o recurso ao crédito para os obter (ou as duas em simultâneo, como é agora o caso).

A enorme crise de confiança que se abateu sobre o crédito e as instituições que o gerem, não só fragiliza o sistema financeiro a nível global, como denota o esgotamento gradual desta via como forma de se compensar a crescente debilidade do poder aquisitivo dos consumidores – o suporte real deste modelo de desenvolvimento – por força da cada vez maior diferenciação na repartição dos rendimentos. Nestas condições, a impossibilidade do aumento do consumo pela via da expansão do crédito surge, pois, como limite objectivo à dinamização do tecido económico e ao crescimento, como forma de se sair da crise. E se esta era já, para muitos, a solução que se perfilava como derradeira (após a falência real da protagonizada pela UE)...

Ora, é precisamente na altura em que o recurso ao crédito se contrai ou até desaparece (seja pelo preço, seja pelo risco), que vai ser exigido um esforço suplementar ao orçamento das famílias pelos Estados (todos os Estados) para resolverem a crise... financeira!

É por isso que as palavras dos três autores citados (a par das de muitos outros) soam de forma tragicamente lúcida – ainda que pouco adiantem para a solução. Apenas um ‘isto promete acabar mal, mesmo!

Porque a solução, essa, só mesmo fora de um sistema centrado no mercado – na Globalização dos mercados! – ‘substituído’ pela política como centro da organização social – o princípio para uma outra globalização. Mas isso já daria mesmo outra ‘história’.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Isto promete acabar mal! – I

Um modo de vida assente na extorsão

Primeiro foi a crise do sub-prime. Pelo menos a origem próxima, a que é mais fácil de responsabilizar pela maioria dos males de que a economia actualmente se queixa. De repente esta entidade abstracta, a economia – pela via do mercado – ganhou estatuto equivalente ao dos seres sensíveis, não só se queixa, como gosta e valoriza, não gosta e penaliza, tem aversão (!)... enfim, tem alma – ‘os mercados são sensíveis’, ouve-se constantemente!

Mas uma crise, como qualquer outra coisa da vida, não começa assim, de repente. Prepara-se, tem antecedentes, surge num determinado enquadramento, há (e houve) condições que a tornaram possível... e a prolongam. Porque se o discurso dominante do pensamento único (expresso de forma maquinal – quantas vezes, insuportavelmente enfatuada! – por um qualquer jovem acabado de formatar por uma qualquer escola de economia) foi fácil em diagnosticar as causas próximas da Crise e, não obstante a virulência dos seus inusitados efeitos, a augurar-lhe um fim mais ou menos próximo (os mais cautelosos aventuravam-se então até ao médio prazo), o certo é que ninguém já arrisca hoje uma previsão para o seu termo. Passado a euforia inicial que se seguiu à forma como reagiu à injecção dos apoios governamentais por todo o mundo, a persistência na orientação que a determinou e que, afirmam, a vai ultrapassar (?), apenas tem contribuído, como era fácil de prever, para a sua ampliação.

Certo é que o mal-estar social, durante muito tempo controlado, ameaça agora tornar-se insuportável – da Grécia a Portugal, por toda a Europa, de repente obrigada a pagar uma crise que cada vez se vai desenhando mais profunda e, ao mesmo tempo, mais perceptível nas suas causas, mas resistente à assunção das respectivas consequências. As informações constantes sobre as enormes disparidades de rendimento, contribuem para acentuar esta sensação. Por via dos média tradicionais (escritos e audiovisuais) ou da incontrolável internet, os cidadãos vão-se apercebendo da profundidade das dificuldades, mas, ao mesmo tempo, de quem as provoca e as pretende perpetuar..., daí retirando benefícios pessoais.

Já não é mais possível ignorar que o mundo se transformou, quase de repente – muito por obra das tecnologias da informação – num lugar onde se torna cada vez mais difícil passar despercebido (pessoas e factos), num imenso repositório de queixas contra abusos e percepcionadas injustiças, numa caixa de ressonância onde de forma contraditória mas gradual se vai refinando uma consciência colectiva dando mostras de um apurado sentido de equidade, num laboratório onde se reinventa a solidariedade e se experimenta a cidadania.

Multiplicam-se na Net as informações, petições, abaixo assinados e muitos comentários sobre as escandalosas práticas comerciais de empresas de referência (Instituições Financeiras, à cabeça), por confronto com as chorudas benesses auferidas pelo reduzidíssimo grupo de pessoas que as controla e se atribui, em nome do que designam por ‘criação de valor para o accionista’ (!), mas também em benefício próprio, o poder de extorsão sobre as pessoas – não há outro termo para designar a ‘legal’ imposição de condições aos consumidores, assim obrigados a alimentar esta cáfila, para além de toda a pretensa regulação – por via de um modo de vida assente no crédito fácil e barato, ‘imposto’ por sofisticadas técnicas de marketing e o apoio domesticado do poder dos média!

Este edifício ameaça agora ruir. Em Outubro de 2008, a direita conservadora não teve pruridos em aderir à filosofia do Estado intervencionista, contra todos os princípios até aí professados, para impedir a falência do sistema financeiro à escala global. Seja por razões ideológicas ou por defesa de interesses próprios, o pragmatismo revelado naquela situação de aperto depressa regrediu ao fundamentalismo na origem próxima da crise, deixando sobrepor-se a ganância à razão, com isso ameaçando ‘devorar’ a galinha dos ovos de ouro. O pagamento das dívidas contraídas para salvar os bancos em dificuldades, é agora exigido aos mesmos que têm alimentado a sua fortuna – mas os bolsos estão exauridos, o risco de crédito (do país e das pessoas) descontrolado! Enfim, a receita para o desastre!

(...)

segunda-feira, 31 de maio de 2010

"A austeridade conduz ao desastre"


Joseph Stiglitz é conhecido pela sua postura crítica sobre as principais instituições financeiras internacionais, o pensamento único, a globalização e o monetarismo.
Numa entrevista ao jornal francês Le Monde, falou sobre a sua análise da crise do euro
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(Via : www.esquerda.net )

domingo, 30 de maio de 2010

Afinal, é tão fácil apanhar um mentiroso …


Segundo o Público de hoje, o gabinete de José Sócrates divulgou uma nota – devidamente replicada pela imprensa - informando que Chico Buarque pretendia conhecer o primeiro ministro de Portugal, aquando da visita deste ao Brasil.
E, para o efeito, lá se deslocou José Sócrates a casa de Chico Buarque;
registe-se que : devidamente acompanhado de um fotógrafo para registar o “boneco” para a posteridade …
Porém, Chico Buarque desmentiu de forma clara, categórica e inequívoca o primeiro ministro de Portugal.
Afinal, fora José Socrates que pretendera conhecer Chico Buarque.
Enfim, mais uma trapalhada, uma das múltiplas e variadas trapalhadas desta inefável criatura que, ainda e agora, é primeiro ministro de Portugal.
Enfim, lá reza o ditado que : é mais fácil apanhar um mentiroso ...

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Modelos económicos, ausência de política – II

Entre as opções de mercado e as opções políticas – onde fica a democracia?

Assiste-se hoje à imposição mediática de um ‘pensamento único’ globalizado, em torno de uma pressuposta inevitabilidade (?) do mercado – deste modo arvorado em intocável eminência sagrada dos nossos dias – por pretensa ausência de uma alternativa social (credível, acrescentam). Tal não obsta, contudo, ao persistente desenvolvimento histórico de duas formas principais de encarar a condução das sociedades:

· de um lado, hegemónicos e esmagadores, os que afirmam o predomínio absoluto do mercado enquanto mecanismo automático de regulação económica, portanto, neutro relativamente aos diferentes interesses em presença, carecendo, em consequência, de ‘rédea solta’ para poder manifestar toda a sua eficácia e isenção (!);
· do outro, ultraminoritários e muito dispersos, os que, face aos resultados actuais, defendem a necessidade de uma alternativa social global ao domínio do mercado, a começar pela aceitação do princípio básico que deve enformar as sociedades, da subordinação da economia – logo, do mercadoà política, e não o contrário, como acontece hoje. Que se expressam de múltiplas maneiras, ainda que sem um rumo muito definido: da ‘economia social’ à ‘economia sustentável’, das teorias ecológicas às teorias do decrescimento económico ou do pós-desenvolvimento, ou ainda às várias correntes marxistas, altermundialistas,...

É certo que nem o mais liberal dos prosélitos do predomínio do mercado se atreve, hoje, a defender a sua total liberalização, prescindindo de alguma ‘regulamentação deste regulador’ (?), afinal a opção por uma maior ou menor regulação é que posiciona o espectro político actual, da direita à esquerda dita socialista (ou social-democrata) – todos coligados na defesa do que já se designa por ‘nova economia de mercado’ (!), a da fase do hipercapitalismo (pelo domínio global e absoluto). A realidade, porém, vem demonstrando as dificuldades ou mesmo a impossibilidade de se colocarem travões a tal mecanismo, de se conseguir, desde logo e para além de todas as pias declarações em contrário, que um modelo económico baseado no mercado possa actuar subordinado ao poder político.

Ainda que involuntariamente, isso mesmo acaba de ser reconhecido pela líder do principal país da UE. Perante o agravamento da instabilidade financeira e depois das promessas não cumpridas feitas há quase dois anos no mais aceso do calor da crise, Angela Merkel lembrou agora, numa conferência sobre regulação financeira, o que então foi proclamado pelos líderes do G-20 sobre a necessidade de reforma da regulação e supervisão. E acrescenta (não sem algum cinismo): ‘As pessoas questionam-se: que poderes ainda têm os políticos?’ Eis, de facto, a questão essencial... para a qual ‘estaUE não tem capacidade de resposta!

Nem podia ter no quadro actual. A aposta crescente num suposto ‘mercado regulado’, surge como uma terceira via entre o liberalismo puro (ou selvagem) e o intervencionismo estatal duro (ou totalitário), ou seja, a tentativa de se estabelecer um controlo indirecto através de uma pretensa regulação independente. Esta alternativa acredita na existência de leis económicas naturais idênticas às leis da física, cabendo aos especialistas a tarefa de as interpretarem e aplicarem à realidade social, e aos reguladores o papel de corrigirem as designadas ‘falhas do mercado’. A política é substituída pela técnica (a dos especialistas e a dos reguladores) e ela própria reduzida a mera técnica na aplicação destas pretensas leis naturais.

Ora, a solução para os problemas do mercado não passa apenas pela sua regulação técnica, mas pelo seu controle essencialmente político, ou seja, pela capacidade que a sociedade conseguir demonstrar em dotar este nível – a política – dos instrumentos adequados de supremacia sobre a economia e não o contrário, como acontece hoje. Insistir apenas na via de regulação do mercado, significa a aceitação implícita, ao arrepio do que teoricamente todos apregoam, da supremacia do económico, por via do mercado, sobre o político – em última análise, do predomínio dos interesses privados sobre o interesse geral ou público.

A avaliar pelas muitas ‘desordens’ que grassam no mundo – do descontrolado terrorismo às obscenas desigualdades sociais,... – a organização social que as segrega (e de que se alimenta) não é, não deve, não pode continuar a ser um “modelo” de sociedade! Mas pretender substituí-lo por um outro baseado na forma ou dimensão das empresas é, no mínimo, despropositado e limitativo do que realmente deve ser considerado um modelo económico.

As mudanças exigidas – e inevitáveis! – dificilmente se resumirão, reafirma-se, à opção pela dimensão das empresas ou dos empreendimentos, entre o apoio às ‘grandes obras públicas’ ou às ‘PME’s’ – elas têm de ser bem mais profundas! Enquanto isso, vão perdurando e fazendo o seu caminho tais equívocos,... encobrindo o alcance real dos verdadeiros pressupostos!