segunda-feira, 8 de março de 2010

A propósito, mais uma vez, da produtividade nacional - II

Os porquês: e onde, para além de organização, se alude a ‘certas culturas’

Depois do que se expôs antes, dir-se-á então que o mais importante é mesmo investir na educação, na formação, na investigação (na inovação tecnológica, em novos métodos e processos,...). Mas não foi isso que se fez nos últimos (pelo menos) 25 anos? Com financiamentos do Estado a taxas iguais (ou mesmo superiores) às da maioria dos países europeus? E nem por isso os resultados deixam de ser modestos? Que dizer, então, do desperdício que representa manter milhares de jovens recém-licenciados no desemprego ou em actividades sem qualquer exigência de qualificação? Ou da contradição de potenciais quadros desaproveitados num país que se diz carecido deles?

Desde logo, ninguém ousará contestar que boa parte da responsabilidade a apurar neste processo reside na forma como esses investimentos são feitos – prioridades mal definidas, corrupção,... (mais um problema de gestão e de quem decide), resultando na falta de qualidade do ensino e da investigação produzidos. Contudo, a explicação não deve ser procurada apenas na ‘baixa qualificação dos recursos’, pois também aqui as comparações externas dos ‘nossos’ gestores, quando colocados lá fora em condições idênticas às de cá de dentro, não nos situam muito fora dos padrões internacionais.

Resta, pois, tentar procurar no próprio modelo de organização social (incluindo na componente económica) uma explicação mais cabal das causas deste atavismo nacional – a endémica baixa produtividade lusa. A violência da actual crise apenas veio expor, acentuando os seus efeitos humanos de uma forma estrondosa e dramática, aquilo que há muito se sabia ser insustentável e que era manter por muito mais tempo um ‘modelo de especialização produtiva’ baseado preferencialmente em actividades pouco qualificadas e de baixos salários. A prolongada aposta num modelo mal protegido tecnologicamente (portanto mais vulnerável à concorrência externa...), mas que, em contrapartida, permitia lucros rápidos, apenas demonstra a natureza retrógrada, porque desfasada da realidade e do progresso, dos responsáveis por tais opções, antes de mais dos empresários – do capital no seu conjunto.

O aprofundamento desta questão levar-nos-ia porventura a interrogar a razão deste comportamento aparentemente tão idiossincrático por parte das nossas elites nacionais (pelo menos no confronto com algumas das suas congéneres europeias), antes de mais os empresários (como gostam de se ouvir intitular), e estes contando com o inestimável apoio dos políticos. E a resposta pode bem conduzir-nos (?) a uma estranha mescla histórica em que se conjuga o tão decantado espírito aventureiro do tempo das navegações (em que o principal móbil sempre foi a obtenção rápida de riquezas fáceis através do comércio ou mesmo da pilhagem), com a repressão inquisitorial a que concomitantemente foram sujeitas as mentes de então (e que perdura ainda em muitas manifestações actuais). Hipóteses a investigar, claro, na busca de uma explicação que tente apurar as razões, objectivas e subjectivas, de um comportamento tão diferenciado das restantes elites europeias, não obstante todas elas actuarem, servindo-se, sob o pano de fundo de um sistema que, na sua essência, é o mesmo.

Não havendo, de facto, nenhuma diferença substancial, o certo é que ‘uns’ vivem de forma bem mais desafogada do que ‘outros’. Pena, pois, que as decisões que nos afectam não atinjam só aqueles que as tomam, antes arrastem no fragor da queda todos quantos – afinal homens e mulheres de carne e osso! – eles se servem para atingir os seus propósitos e o exclusivismo de vidas tão requintadas.

Porque, no final, uma interrogação geral começa já a pairar no ar, acusadora: onde estão os efeitos da crise para alguns? Onde está, antes de mais, a CRISE para os que a provocaram e dela se serviram? Ou, ainda – e talvez se descubra aqui a ponta do novelo que nos poderia conduzir à solução do problema – porque é que nos pretendem fazer crer que os remédios para a crise estão, afinal, nas causas que a determinaram?

(...)

Dia Internacional da Mulher : 100 anos ...

Cem anos passam desde que Clara Zetkin propôs o dia 8 de Março como Dia Internacional da Mulher, na II Conferência Internacional de Mulheres Socialistas.

Muitas histórias se contam sobre a origem deste dia e muitas lutas importantes se seguiram.

O Esquerda.net publica um dossier com o relato e a análise destes acontecimentos.Ler Mais

( via : www.esquerda.net )

domingo, 7 de março de 2010

quinta-feira, 4 de março de 2010

A propósito, mais uma vez, da produtividade nacional - I

Os quês: por aqui se fala de mandriões e de mandões!

Volta e meia regressa à cena política e mediática a discussão sobre a produtividade nacional. Esta persistente recorrência do tema não surge por acaso, visa objectivos bem definidos, invariavelmente procurando perante a opinião pública justificar a aplicação de ‘políticas de correcção’(!), eufemismo com que se pretende apresentar como inevitável uma maior contenção nos rendimentos do trabalho.

Não admira, pois, que o assomo de qualquer nova onda na crise económica, faça ressurgir, agora e sempre, a explicação da falta de competitividade da economia portuguesa perante as suas congéneres europeias (é este o espaço em que se integra, até aqui nada de mais), dado o nosso atávico desnível neste domínio. O argumento é invocado, claro, para se concluir que, (1) se a produtividade do trabalho nacional é baixa, (2) é porque os custos da respectiva componente laboral no PIB são comparativamente muito elevados, (3) logo, a solução, inevitável, passa por se reduzirem esses custos – por baixar/depreciar o trabalho (a começar pelo salário)!

Vai-se tornando cansativo, frustrante, deprimente mesmo, o insistente relambório de que as causas de todos os males do país radicam na sua baixa produtividade, o que visa essencialmente justificar as políticas de constante desvalorização do trabalho – a única variável ‘tolerada’ pelo mercado para proceder aos indispensáveis ajustamentos externos, seja nas contas nacionais ou nas empresas, por via da redução salarial ou da precariedade do emprego!

Pondo de lado o facto (por vezes decisivo) da competitividade de um país não depender apenas da produtividade, vale a pena ‘perder’ algum tempo a reflectir sobre o contributo dessa (sempre decisiva) componente na criação da riqueza nacional, o trabalho. Desde logo para a formulação da pergunta sacramental: se a baixa produtividade continua a manter-se como uma pecha peçonhenta que deprime o país e afasta o maná dos investimentos externos (entre outras bem-vindas bem-aventuranças), a que se deve? Uma resposta imediata, quase por reflexo, aponta, acusadora, os ‘mandriões dos trabalhadores’ em geral (com honrosas excepções, concede-se!), todos reivindicam direitos ninguém está disposto a cumprir obrigações, gente disposta a fazer o mínimo mas a exigir o máximo e... “assim não vamos lá”, rematam, peremptórios!

Mas... quais trabalhadores? Os mesmos que, lá fora, num qualquer país estrangeiro, nas mais diversas situações e funções, se esforçam e dão muito bem conta do recado (não alinho nem vou ao ponto de afirmar serem dos melhores do mundo, basta-me que sejam iguais), mas quando em idênticas situações, cá dentro, produzem muito menos e não passam de uns... ‘calões’?

Decididamente algo aqui não bate certo. E daí que desde logo haja de esclarecer-se: a causa da baixa produtividade não está em trabalhar mais, mas em trabalhar melhor, não está em despender mais esforço, mas em reproduzir esse esforço de uma forma mais organizada. O problema é, mesmo, ORGANIZAÇÃO. E se a ‘culpa’ é da organização – ou da falta dela – então os ‘culpados’ são, em primeira instância, os... gestores e organizadores, todos os que têm de a formular, planear e aplicar, enfim, os decisores em geral – não são apenas ‘mandões’ na política ou nas empresas, eles ‘mandam’ também na produtividade!

Afinal os principais responsáveis pela tão persistente e vilipendiada baixa produtividade são os mesmos que a invocam como argumento (dá jeito em momentos como este), para extraírem mais umas migalhas aos milhões de pedintes em que o país se vai transformando... presumidamente por falta dela. Porque de um modo geral são eles que têm governado o país, definido e imposto – dela se servindo – esta ORGANIZAÇÂO: tanto no Estado, como nas empresas, a nível da sociedade global!

Sobre que elaboram, então – de que se queixam, enfim – os cerca de ‘200 opinion-makers’ (talvez nem tantos!) que ‘fazem’ a opinião pública nacional – para depois ‘falarem’ em nome dela (se afirmam traduzir o pensamento da maioria!) – quando apontam a ‘baixa produtividade nacional’ como a origem de todos os problemas?

(...)

quarta-feira, 3 de março de 2010

A resposta para a crise …

De facto, e em meu entender, a austeridade não é - nem pode(rá) ser - a única resposta para a crise …
Leia aqui o último Esquerda
( e aqui os últimos Jornais do Esquerda )

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

A ‘independência’ da informação dependente

Se alguma utilidade é possível, para já, vislumbrar nesse confuso processo à volta das ‘escutas’ – e muito em especial das sequelas em curso na Assembleia da República – ela é a de ter posto às claras uma tão estranha quão, agora finalmente e sem qualquer pudor, alardeada promiscuidade entre o jornalismo dito ‘independente’ e o poder económico na comunicação social. Para além do natural e inevitável condicionamento financeiro da actividade jornalística e da informação em geral. Ou até da ‘velha’ apetência do poder económico para o controle da comunicação social, seja pela rentabilidade financeira que o potencial da actividade perspectiva, seja por razões ideológicas de manipulação da opinião pública na defesa de quaisquer interesses de grupo, empresarias ou políticos.

Nas audições a decorrer na Assembleia da República tendo em vista apurar alegadas ameaças sobre a liberdade de informação, os depoimentos dos 4 primeiros jornalistas aí ouvidos – de alguns dos principais grupos empresariais dos ‘media’ nacionais – são bem reveladores (para além de deprimentes!) das ‘preocupações’ que dominam o sector:

* José Manuel Fernandes, ex-director do ‘Público’, garante não ser pressionável e, na passada, afiança nunca ter havido qualquer interferência do Grupo Sonae de Belmiro de Azevedo na linha editorial do jornal por este detido; já o poder político, em contrapartida, parece querer asfixiar tanta independência encaminhando a publicidade sob seu controle, ‘apenas’ para os órgãos de comunicação social ‘amigos’.

* Mário Crespo, da ‘SIC’– o mais encomiástico nos elogios – igualmente garante não ser pressionável e, entoando em tons barrocos (como é seu timbre) loas eternas ao Grupo Impresa de Francisco Balsemão, testemunha fé inabalável na total independência deste grupo empresarial; sabe-se, entretanto, da repisada crítica do grupo à publicidade na TV pública, retirando quota publicitária aos operadores privados.

* Felícia Cabrita, do ‘SOL’, para não fugir à regra, garante não ser pressionável e, no balanço, presta homenagem à sociedade que detém o jornal (a luso-angolana Newshold, Joaquim Coimbra do PSD,...) por haver impedido a liquidação financeira deste projecto por parte do poder político do PS, que, por ínvias portas e escuras travessas, usou das suas ‘influências’ para o silenciar, impondo o corte dos apoios bancários a que, pelos vistos, se sentia com direito(?).

* António Costa, do ‘Diário Económico’, garante não ser pressionável (não foi excepção) e, para variar, assegura que em momento algum o poder económico – o Grupo Ongoing de Nuno Vasconcellos – condicionou ou tentou a ingerência na orientação do jornal, contrariando as afirmações da véspera de José Manuel Fernandes ao insinuar alegadas mudanças no seu alinhamento depois da compra pelo grupo e desvalorizando os telefonemas de políticos (por mais alinhado com a ‘situação’?).

E os depoimentos dos operadores dos restantes grupos (Controlinveste, Cofina,...), afinam pelo mesmo registo, que se pode resumir em: cada umgarante não ser pressionável’, todos enaltecem a isenção da ‘sua’ entidade económica (de que dependem) por, afiançam, não se ingerir nas questões editoriais (embora desconfiem da alheia, a competição assim o determina!). Acentuam, ainda, o papel que o Estado desempenha na sobrevivência das empresas, por via do financiamento ou da publicidade sob seu controle (directo ou indirecto). Tanta independência tem um custo...!

As ligações entre os interesses económicos, o poder político e a comunicação social são cada vez mais entrosadas, mas por demais opacas, ou mesmo promíscuas. Uma coisa parece agora mais clara: a total dependência económica do ‘jornalismo independente’! O sucesso (ou a sobrevivência) dos grupos de ‘media’ une jornalistas e accionistas no propósito central de ‘construírem’ um produto informativo vendável (as ‘audiências’!). A informação concorre com a publicidade para o sucesso financeiro das empresas e isso determina, mais que quaisquer outros critérios, o conteúdo da actividade jornalística. Reduzida a mais uma mercadoria, presa nos mecanismos que asseguram a absolutização das lógicas do mercado, a informação dos ‘valores’ (!) pouco ou nada tem a ver com princípios e regras, com verdade, rigor e objectividade – apenas e só com cifrões!

À parte tímidas tentativas de estabelecer e aprofundar estas ‘ligações perigosas’ (BE, PCP, até o PS), o assunto não irá seguramente motivar o interesse dos deputados tanto como as picardias em torno do enredo mediático das escutas! Não são elas, afinal, que alimentam as 'vendas/audiências'?

Mais uma oportunidade perdida! E já escasseia pachorra para tanta intriga!

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Zeca Afonso, Sempre !!!

A 23 de Fevereiro de 1987, em pleno Inverno mas no Outono da vida, morreu Zeca Afonso.
Num leito anónimo do Hospital de Setúbal, pelas 3 horas da madrugada, morreu o cantor, morreu o amigo, morreu o companheiro, morreu o Zeca.
Relembrar o Zeca hoje é mais que tudo isto. É, sobretudo, lembrar as suas últimas palavras: "Não posso parar".

Por isso empunhamos a tua bandeira porque a luta continua, serena e firme, contigo bem vivo junto de nós, Zeca Afonso.
Veja aqui o vídeo “Tributo a Zeca Afonso”:

domingo, 21 de fevereiro de 2010

O caçador caçado – ou a culpa é do mensageiro?

A equipa de jogadores, técnicos, médicos, roupeiros e não sei quem mais do FCPorto – só lá faltou mesmo o mandante... – pela boca do seu 3º guarda-redes, protagonizaram, ontem, sábado, 20 de Fevereiro de 2010, uma dramática manifestação de (aparente) unidade, lançando um já habitual (vindo de quem vem) ‘grito de guerra’, dirigido contra ‘incertos’. Incertos, entenda-se, apenas no discurso pronunciado, porque todos conhecem, sem que tivessem sido nomeados, os destinatários implícitos de tão furibunda raiva: directamente, a justiça desportiva (especialmente o presidente do Comissão Disciplinar da Liga, o juiz Ricardo Costa); acima de tudo e de todos, o ódio de estimação do arqui-rival SLBenfica, tido como o beneficiário, senão mesmo o instigador – mancomunado (!) com o referido Juiz – desta assim considerada bem urdida tramóia para prejudicar o Dragão!

O caso segue-se ao conhecimento, esta semana, dos castigos disciplinares impostos aos jogadores Hulk e Sapunaru, na sequência dos acontecimentos (leia-se, cenas de murros e pancadaria) ocorridos no já célebre Túnel da Luz (célebre por ser, talvez para fazer jus ao nome, o mais iluminado e... visível!) e protagonizados, entre outros, por aqueles dois jogadores. A tese baseia-se na teoria da provocação, que assim serve para ilibar, quiçá transformar em inocentes vítimas, os autores dos desacatos e da violência (provavelmente até o jogador Fernando, intérprete de furiosa sapatada na ‘provocatória’ manga de acesso ao relvado, poderá assim ser considerado) e que, conforme as imagens documentam (mas, pelos vistos, não podem servir para incriminar, vá-se lá saber porquê...), não se reduzem aos únicos dois agora castigados.

Primeira conclusão, pois – a questão chave: já então (à data dos factos) funcionava a união do grupo, como gostam de sublinhar, pois poucos (quem, afinal?) escaparam a ‘molhar a sopa’ na destemperada cena trauliteira que as imagens documentam (até a sua veracidade tentaram pôr em causa, ‘que tinham sido manipuladas, a sequência não se percebia, blá-blá-blá...’). Porque o que mais (lhes) importa é mesmo a defesa do castelo ameaçado, a união do grupo contra o resto do mundo, a utilização de todos os meios sejam eles quais forem, porque os fins justificam tudo.

Segunda conclusão – a questão séria: independentemente da prova dos factos constante do acórdão que justifica as penas, da indisciplina e violência perpetrada por energúmenos com as costas quentes (as imagens, para além de todas as interpretações, não mentem), a ‘habilidade’ está, em primeiro lugar, em desvalorizar os actos praticados, depois, em saber cavalgar a onda de descrédito da justiça, civil e desportiva, afrontar as suas instituições, na sequência do que, aliás, se vai vendo em outros campos onde a bola não entra em jogo. Sobre os actos praticados e a sua condenação, ao menos como acção pedagógica para os jovens a que gostam de se apresentar como exemplos (!!!), nem uma palavra, branqueamento absoluto.

Terceira conclusão - a questão caricata: todo este processo que agora conheceu este desfecho resulta da aplicação de uma norma disciplinar objecto de alteração recente, aprovada pela Assembleia Geral da Liga – com o voto favorável do FCP e a abstenção do SLB. Das motivações que conduziram a tal alteração e à disparidade dos dois votos pouco ou nada se sabe. Mas não custa a crer, pelo passado de guerrilha instituído (estou convencido, já o referi antes, com claro prejuízo político no caso da ‘regionalização’) que o intuito do concordante fosse ‘armadilhar’ o terreno ao rival. O resultado, contudo, foi exactamente o contrário: o caçador acabou por cair na sua própria armadilha.

Seja como for e exactamente por haverem concordado com tal alteração, afinal de que se queixam eles, agora?
A menos que a história, aqui, seja outra, aquela do mensageiro... É isso, concordam com a mensagem, o mensageiro é que a não sabe transmitir. Mate-se, pois, o mensageiro!
Em qualquer caso, um espectáculo deprimente e pouco abonatório dos seus intérpretes.

Catástrofe



Se alguém tem dificuldade em perceber as consequências das Alterações Climáticas, medite nestas imagens. O Governo Regional da Madeira, e o Funchal em particular, devem estar cientes que este tipo de acontecimentos poderá ocorrer com maior frequência que no passado, devido às Alterações Climáticas. Como explicava Anthimio de Azevedo a Madeira está numa zona de transição (confluência de massas de ar quente e ar frio que podem levar a nuvens com 11 kms de altitude!) Este foi um fenómeno extremo num Inverno já de si extraordinariamente chuvoso ( ver aqui também). Como explica este artigo, uma atmosfera e um oceano mais quentes aceleram o ciclo hidrológico aumentando o vapor de água que circula na atmosfera, ou seja, há mais água na atmosfera que cairá nalgum sítio com redobrada violência:

«The fact that the oceans are warmer now than they were, say, 30 years ago, means there’s about, on average, 4 percent more water vapor lurking around over the oceans than there was, say, in the 1970s.»

Por isso é urgente uma monitorização detalhada da actual ocupação do território em sitios críticos, para que isto não volte a ter no futuro a dimensão que se vê.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Percepções e realidades: o discurso do preocupado

Agora já sei, por saber firmado, a razão de nunca ter aderido a um partido político. Finalmente compreendi esta propensão para me manter independente, não me sujeitando a qualquer disciplina partidária. Bem, compreender não é o termo mais apropriado, pois compreender já eu tinha conseguido antes, tratou-se mais de uma confirmação, uma espécie de ‘prova factual’ reflectida através de um jogo de espelhos, a ‘evidência externa’ que (me) parecia faltar.

Foi ao ouvir na ‘tvi24’ (17Fev.) a deputada Rita Rato do PCP a repetir, vezes sem conta, que se encontrava ‘preocupada’, que esta minha ‘percepção’ (palavra também muito em voga, v.g., o Moniz ex-TVI, para extrair conclusões definitivas das ‘escutas’) se tornou mais consciente (e consistente). Ainda mal tinha começado a falar e já as expressões ‘estou preocupada...’; ‘estou muito preocupada...’, ‘eu já estava preocupada, mas agora fiquei ainda mais preocupada...’(!!!), lhe saíam ritmicamente da boca de forma tão insistente – quase mecânica – que o motivo de tanta preocupação ia passando despercebido. E o que é que motivava, afinal, tamanha preocupação numa ‘miúda’ de 27 anos (acabados de fazer)? As ameaças à liberdade de expressão e informação, que o dito caso das ‘escutas’ alegadamente configurava!

Dou comigo a pensar: ainda bem que tão ‘preocupada’ rapariga (perdão, ‘Excelência’, trata-se de uma deputada da nação!) não viveu antes do 25Abril, pois com a falta de liberdades que então legalmente imperava, a preocupação tinha derivado em angústia, a angústia em obsessão e... sabe-se o que acontece às obsessões, na melhor das hipóteses acabam no psiquiatra. A avaliar pelo automatismo matraqueado das expressões de preocupação, no caso dela dificilmente na cadeia, que era o destino mais provável de então e o foi, por isso mesmo, de tantos ‘camaradas’ seus, é justo recordá-lo e tê-lo sempre presente!

E, no decurso, dou comigo a concluir que tão excessiva dramatização acaba por se tornar contraproducente, pois alerta para que alguma coisa aqui soa a falso. De um modo geral, o discurso do preocupado tem o mérito de expor o vazio do conteúdo político das mensagens que o suportam. Mas também revela o enclausuramento implícito no processo de interiorização das normas e propostas partidárias a que se subordinam, as mais das vezes de forma inconsciente, todos os que aceitam entrar nessa lógica, por vezes – eis a questão! – a despeito ou em confronto mesmo com a própria realidade.

Ora eu também tenho em casa uma ‘miúda’ muito preocupada. Quase até da mesma idade. Mas, ao contrário da jovem deputada do PCP, a sua preocupação prende-se com coisas bem mais prosaicas, aquelas coisas que, no entanto, determinam a vida das pessoas, que marcam o seu futuro, afinal uma preocupação que atinge 3 a 4 milhões de portugueses (1,2 directamente, mais os pais, cônjuges,...) – a precariedade do trabalho, os malfadados recibos verdes, o confisco dos direitos laborais,... Eu sei, uma preocupação não impede a outra, muito menos a substitui (e, já agora, também sei que, para a resolução de um tal problema, as condições de êxito, no plano meramente interno, são escassas, ela exige uma acção concertada a nível internacional).

Este será, aliás, estou certo (também aqui não pretendo ser injusto), outro motivo de grande preocupação para a deputada Rita Rato que, se confrontada com tal flagelo, seguramente reagiria com tanta ou mais veemência do que o fez neste debate, a propósito do tema que lhe coube em sorte discutir em público... em nome do partido. E é aqui que bate o ponto - porque de tal modo imbuída do espírito partidário que, arrisco a dizer, a sua maior preocupação era, muito para além da expressamente manifestada, apresentar-se em sintonia, bem ‘afinada’ com as posições assumidas pelo partido sobre o tema em análise.

Perante o deprimente espectáculo que as ‘escutas’ têm proporcionado, distraindo mais que discutindo e, o que é mais grave, desviando as atenções dos problemas que importa resolver, de uma coisa estou certo: não consigo alinhar nem com a uniformidade situacionista manifestada do lado do governo (e do PS, claro) na defesa de posições no mínimo ‘trapalhonas’ (e eivadas de suspeitosos arreganhos), nem com a uniformidade oposicionista unida num espúrio conúbio assente no propósito central - e inútil - de apearem o ‘trapalhão’ (ou ‘vilão’, ainda não se sabe).

Decididamente, manter a independência, perante esta deplorável disputa partidária centrada na dramatização mediática das sensações (preocupações, percepções,...) e alienada da realidade, ainda continua a ser a forma mais saudável de fazer política!

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Máxima do aposentado....

A mulher pergunta com sarcasmo ao marido reformado :

"Que pensas fazer hoje?"

Ele responde:

"Nada."

Diz ela:

"Isso foi o que fizeste ontem!"

Ao que ele, o aposentado, acrescenta :


"Sim, mas ainda não acabei."


( Enviado por e-mail pelo VSN)

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

domingo, 14 de fevereiro de 2010

O que e que nós somos ?

“ O Português é hoje um expatriado
no seu próprio país.
Somos uma nação, não uma pátria;
somos um agregado humano
sem aquela alma colectiva
que constitui uma Pátria.
Somos … Sei lá o que nós somos ?
Sabe alguém o que nós somos ?
Sabe alguém o que nós somos,
salvo o lugar por onde
um cataclismo vai passar ? “


Fernando Pessoa - “Carta a um Herói Estúpido” ( 1915)

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Uma mini-crise na Crise (mas bem elucidativa!)

Talvez a principal ilação a extrair da recente ‘mini-crise na Crise’ por que passaram (ainda não acabou...) os depreciativamente denominados PIGS, provocada pelos ataques especulativos primeiro à Grécia, depois a Portugal e, em menor escala, à Espanha, é a de que a União Europeia – que se pretende seja, antes de mais, uma União Monetária – está longe de ser uma realidade estável. Um ataque especulativo idêntico seria completamente impossível de acontecer, por exemplo, a qualquer Estado isolado dos que integram os EUA (para falar apenas de um País onde mais imperam as regras do liberalismo económico, mas com grande tradição autonómica - veja-se o caso da Califórnia, cronicamente endividada), sem que o FED ripostasse de imediato.

Ora o que se verificou é que só agora o BCE parece dar mostras de querer fazer o mesmo no caso da Grécia, declarando-se disponível para o apoio financeiro exigido pela lógica das uniões monetárias. Demorou a reagir, permitiu que o risco alastrasse a outros Estados mais sensíveis e vulneráveis (como é manifestamente o caso de Portugal e da Espanha), de certo modo consentiu e foi conivente com os ataques especulativos perpetrados contra os interesses desses Estados. Como seria de prever, o resultado concomitante dessa alteração de posição foi, não obstante a sua adopção tardia permitir uma leitura óbvia sobre o estado ‘desta União’, o de estender os seus efeitos positivos aos países da UE mais expostos à crise: de imediato o risco da dívida portuguesa abrandou, o custo do dinheiro baixou!

Como, aliás, tem sido bastas vezes sublinhado nos ‘Ladrões de Bicicletas’ (bem mais habilitados do que eu para o afirmar), o problema está num processo inacabado de suporte à própria moeda única, nomeadamente pela (quase, na prática) ausência de políticas comuns a nível orçamental e fiscal. Aproveito, então, para de lá retirar esta citação do The Observer: “Para sobreviver, a união monetária tem de se transformar numa união política. Se isto não acontecer, é provável que ocorra uma implosão e uma mudança para uma Europa a duas velocidades.” O seu autor, Gerard Lyons, ‘chief economist’ no Standard Chartered, chama ainda a atenção para o facto de uniões monetárias terem colapsado por não terem sido acompanhadas pela união fiscal. E o conhecido Nouriel Roubini, professor de economia na universidade Stern School of Business at New York, acrescenta aquilo que já paira na mente de muita gente, a possibilidade mesmo da saída da União de alguns dos seus membros!

Para se evitar a repetição de crises forjadas para proveito exclusivo dos mesmos (especuladores) de sempre, das duas uma, portanto: ou a União actua com coerência e em bloco, ou se acaba de vez com a especulação! O que – nas condições actuais da União, por um lado, deste sistema que (se) alimenta (d)a especulação, por outro – não passa, em qualquer dos casos, de uma impossibilidade.

Resta-nos, até ver, continuar sujeitos às nefastas consequências de um dilema insolúvel!

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

O triste estado do Estado …

Acabo de ver e ouvir, estupefacto, a entrevista de Noronha do Nascimento à RTP.
Fiquei com a triste sensação que este senhor, por tudo aquilo que vi e ouvi - e que, por inerência de funções, é a quarta figura do Estado -, não tem, em meu entender, qualquer perfil para continuar à frente do Supremo Tribunal de Justiça.
Quanto mais para este senhor continuar a ser a quarta figura do Estado …
Pode ser – quem sabe (?) - se com um Alka-Seltzer ( 324 mg de ácido acetilsalicílico, 1625 mg de bicarbonato de sódio e 965 mg de ácido cítrico ) me ajude a debelar esta minha triste sensação de que "isto" - do Estado - está mesmo a bater bem lá no(s) fundo(s) …
Enfim :
- triste estado a que chegou o (meu) Estado !!!

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

O próximo futuro ...

Dedicado, com carinho, a Tod@s as/os Amig@s Sportinguintas ...

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

(In)Tolerância ...

Um sujeito estava a colocar flores no túmulo de um parente, quando vê um chinês a colocar um prato de arroz na lápide ao lado.
Ele vira-se para o chinês e pergunta :

- Desculpe, mas o senhor acha mesmo que o seu defunto virá comer o arroz?

E o chinês responde:

- Sim, e geralmente à mesma hora que o seu vem cheirar as flores...!!!


Respeitar as opções do(s) outro(s), em quaisquer circunstâncias , é uma das maiores virtudes que um ser humano pode(rá) ter.


É que quando se pensa que se sabe todas as respostas, vem a Vida e muda todas as perguntas ...

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Tinariwen - Música Touareg...

... e a história da luta pela identidade de um povo. Excelente!

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Os tempos que correm ...

«Convencidos da vida há-os, afinal, por toda a parte, em todos (e por todos) os meios.
Eles estão convictos da sua excelência, da excelência das suas obras e manobras (as obras justificam as manobras), de que podem ser, se ainda não são, os melhores, os mais em vista.
Praticam, uns com os outros, nada de genuinamente indecente: apenas um espelhismo lisonjeador.
Além de espectadores, o convencido precisa de irmãos-em-convencimento. Isolado, através de quem poderia continuar a convencer-se, a propagar-se?
(…) No corre-que-corre, o convencido da vida não é um vaidoso à toa.
Ele é o vaidoso que quer extrair da sua vaidade, que nunca é gratuita, todo o rendimento possível.
Nos negócios, na política, no jornalismo, nas letras, nas artes.
Para quem o sabe observar, para quem tem a pachorra de lhe seguir a trajectória, o convencido da vida farta-se de cometer «gaffes».
Não importa: o caminho é em frente e para cima.
A pior das «gaffes», além daquelas, apenas formais, que decorrem da sua ignorância de certos sinais ou etiquetas de casta, de classe, e que o inculcam como um arrivista, um «parvenu», a pior das «gaffes» é o convencido da vida julgar-se mais hábil manobrador do que qualquer outro.
Daí que não seja tão raro como isso ver um convencido da vida fazer plof e descer, liquidado, para as profundas.
Se tiver raça, pôr-se-á, imediatamente, a «refaire surface».
Cá chegado, ei-lo a retomar, metamorfoseado ou não, o seu propósito de se convencer da vida – da sua, claro – para de novo ser, com toda a plenitude, o convencido da vida que, afinal… sempre foi.»
Alexandre O’Neill, in «Uma Coisa em Forma de Assim»

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

A (des)propósito ...

“…Trocadas as descomposturas preliminares, sobre a questão da fazenda,decide-se que é indispensável, ainda mais uma vez, recorrer ao crédito, e faz-se novo empréstimo.
No dia seguinte averigua-se, por cálculos cheios de engenho aritmético que para pagar os encargos do empréstimo do ano anterior não há outro remédio senão recorrer ainda maisuma vez ao país e cria-se um novo imposto.
Fazem-se empréstimos para suprir o imposto, criam-se impostos para pagar os empréstimos, tornam-se a fazer empréstimos para atalhar os desvios do imposto para o pagamento dos juros, e neste interessante círculo vicioso, mas ingénuo, o deficit - por uma estranha birra, admissível num ser teimoso, mas inexplicável num mero saldo negativo, em uma não-existência - aumenta sempre através das contribuições intermitentes com que se destinam a extingui-lo, já o empréstimo contraído, já o imposto cobrado…
Pela parte que lhe respeita, o país espera.
O quê?
O momento em que pela boa razão de não haver mais coisa que se colecte, porque está colectado tudo, deixe de haver quem empreste por não haver mais quem pague."
Ramalho Ortigão, in Farpas ( em : 1882)

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

A propósito de/do carácter …

“ O carácter é constituído por um agregado de elementos afectivos aos quais se sobrepõem, mesclando-se muito pouco a eles, alguns elementos intelectuais. São sempre os primeiros que dão ao indivíduo a sua verdadeira personalidade. Sendo numerosos os elementos afectivos, a sua associação formará variados elementos: activos, contemplativos apáticos, sensitivos, etc. Cada um deles actuará diferentemente sob a acção dos mesmos excitantes.Os agregados constitutivos do carácter podem ser fortemente ou, ao contrário, fracamente cimentados. Aos agregados sólidos correspondem as individualidades fortes, que se mantêm não obstante as variações de meio e de circunstâncias. Aos agregados mal cimentados correspondem as mentalidades moles, incertas e mutáveis. Elas modificar-se-iam a cada instante sob as influências mais insignificantes se certas necessidades da vida quotidiana não as orientassem, como as margens de um rio canalizam o seu curso.Por mais estável que seja o carácter, permanece sempre ligado, no entanto, ao estado dos nossos órgãos. Uma nevralgia, um reumatismo, uma perturbação intestinal, transformam o júbilo em melancolia, a bondade em maldade, a vontade em indolência. Napoleão, doente em Warteloo, já não era Napoleão. César, dispéptico, não teria, sem dúvida, transposto o Rubicon.”
Gustave Le Bon - «As Opiniões e as Crenças»

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

A tecnologia …

“ A tecnologia que inunda o mundo de hoje, e a ciência que a serviu, não o invadem apenas na parte exterior do homem mas ainda os seus domínios interiores.
Assim o que daí foi expulso não deixou apenas o vazio do que o preenchia, mas substituiu-o pelo que marcasse a sua presença.
O mais assinalável dessa presença é por exemplo um computador.
Mas será a obra transaccionável por um parafuso? “
Vergílio Ferreira, in “Escrever”

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

As (minhas) contradições ...

Ora, e como se não (me) bastasse ter insónias e ser fraco de espírito, então não é que, hoje, e durante hora e meia, vou torcer pelo Sporting !!!
Com tantas e tamanhas contradições; triste saga a minha :
- que mais me irá acontecer ???

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

O êxodo dos gestores do BES …

( Hipotético carro transportando para estrangeiro gestores afectados com esta “diatribe” governamental )
“Esta taxação atinge muita gente dentro do BES, não só gestores de topo e poderemos ter gente muito valiosa a sair do país para ir trabalhar para outro”
( disse Ricardo Salgado durante um almoço promovido pela Associação Industrial Portuguesa - Confederação Empresarial (AIP-CE), em Lisboa ).

Não fiz, não faço, nem façarei !..

Disse o Presidente que não faz declarações sobre a vida dos partidos, acrescentando:

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Candidato independente, Presidente incómodo!

Ouviu-se no último ‘Quadratura do círculo’ (esse mesmo, o do inamovível, do vitalício Pacheco Pereira!) o argumento decisivo à defesa, embora a contragosto, da candidatura de Manuel Alegre à Presidência da República. Como (quase) sempre, ‘cheguei’ tarde ao programa, a cerca de 5 minutos do seu termo, mais precisamente ao minuto 45, marcava o relógio da SIC/N. A tempo de escutar Lobo Xavier (outro dos residentes, ainda longe da ‘eternidade’ do Pacheco, mas para lá caminha), afirmar que ‘este’ candidato, pela sua personalidade, ‘irá ser sempre um problema, para o PS e para o BE’, evidenciando assim (ainda que de forma ínvia e não propositada) a maior independência deste face aos diferentes actores e potenciais suportes da sua candidatura – aquilo que, afinal, faz a força de um Presidente da República, a sua isenção partidária.

Já não bastavam os mais de um milhão e 100 mil votos obtidos nas anteriores presidenciais, à margem de qualquer apoio e estrutura partidárias, faltava agora a prova de que este tipo de apoios (já certo o do Bloco, previsível o do PS) podem vir a demonstrar-se contraproducentes – mas para os apoios! Aviso que surge quase em jeito de recomendação, como quem diz: ‘Cuidado, este candidato não é de confiança, é independente’! Faz lembrar a celebrizada boca do ‘Coelhone’ inúmeras vezes glosada no ‘Contra Informação’, ao manifestar a ‘sua’ falta de confiança em todos os que não fossem filiados (ou arregimentados?) no PS: ‘estes independentes são muito imprevisíveis’!

Este súbito desvelo com que a direita parece querer olhar pelos interesses da esquerda seria deveras enternecedor, não fora tão denunciado, pois não consegue esconder os propósitos que a anima. Porque, logo a seguir, os dois (Xavier e Pacheco) mal conseguiram disfarçar o incómodo pela disponibilidade manifestada por Alegre para se candidatar (até agora é ao que se resume a sua candidatura), ao afirmarem que se Cavaco Silva tinha dúvidas para avançar como candidato, essas dúvidas desvaneceram-se perante tal anúncio. O que não deixa de ser curioso e particularmente sintomático por parte de quem, momentos antes, formulara tantas cautelas em resultado da ‘independência’ do candidato, sem perder o ensejo de manifestar sobranceiro desdém pela fragilidade da candidatura.

É que, depois do burlesco (ou pretensioso?) dramatismo que rodeou o episódio do ‘Estatuto dos Açores’; da pantomina montada em torno das ‘escutas’ (género ‘gato escondido com o rabo de fora’); das ‘tiradas técnicas’ a envolver mal disfarçados apoios políticos tão do agrado dos seus apaniguados; das insuportáveis manifestações de falta de gosto (aquela delambida ‘cena’ das vaquinhas a caminho da ordenha! – embora gostos não se discutam!) e de cultura (o que já é mais grave!) – só faltava mesmo que nos saísse um Presidente independente, ainda por cima prezando a cultura, que é coisa que vai escasseando e faz muita falta!
(Cultura? Quem precisa dela?)

Haverá tempo para se voltar ao assunto, pois ele ainda só agora começou. Para já fica apenas o breve registo da disponibilidade manifestada por um candidato independente que a direita se apressou já a apresentar como incómodo à esquerda!
Hum...!

A (minha) fraqueza de espírito …

Eu, declaro para todos os efeitos – necessários e convenientes - que tenho conduzido este Jeep ( da fotografia e cuja matricula é : SCP 1) algures, e por aqui, nos EUA ...
Começo, assim e por isso, a ficar seriamente preocupado comigo mesmo, sendo que continuo fiel ao Glorioso, do qual sou Sócio, Titular de Cativo/Fundador e Accionista da SAD do Benfica.
Afinal, tudo não passou, mesmo e só , de uma “fraqueza de espírito” devidamente patrocinada pelo meu Amigo, o Luís Melim, o (meu) anfitrião e fanático Sportinguista !!!

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

As insónias …

Têm sido múltiplas as vezes que tenho visitado os Estados Unidos da América mas nunca, e como desta feita, havia tido tantas e tamanhas insónias …
Eu que, felizmente, nunca fui dado a tais anomalias.
Associei, no entanto, esta perturbação ao facto desta ser uma viagem algo diferente de todas as outras :
- vim acompanhado e regressarei sozinho …
Enfim, assim quis o destino – ou lá o que isso, do destino, possa ser – que a minha filha fique, algures e por aqui, a prosseguir estudos …
Mas, analisando as razões e os porquês de tantas e tamanhas insónias, acabei por chegar à simples conclusão que, afinal, o único responsável por tal anomalia só pode(rá) ser, mesmo, o meu simpático anfitrião … que é, nem mais nem menos, um refinado Sportinguista …
Então, não é que o meu velho e bom Amigo, o Luís Melim, me pôs a dormir num quarto em que uma das paredes está decorada (?) com tantos e múltiplos cachecóis do SCP ?..
Ora, para mim, Benfiquista confesso, tal decoração (?) só poderia, mesmo, resultar nisso :
- em perturbação !!!

sábado, 23 de janeiro de 2010

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Da tragédia à farsa, uma história que se repete (2)

Da tragédia lusa à farsa mundial

Estes factos recentes – outros certamente se seguirão... – que parecem enquadrar um bem afinado coro de cassandras, não surgem agora por acaso. Seria de esperar, no entanto, que diagnósticos tão próximos e que prognosticam eminentes catástrofes, resultassem na imediata explicitação de medidas concretas para reverter a 'explosiva situação' em que o país se encontra. Mas para além de partilharem todos a opinião comum de que ‘as grandes obras públicas’ devem ser travadas – a única proposta concreta que ousam adiantar – o que sobra deste conjunto de posições tidas por cívicas, esgota-se no propósito obsessivo da contenção do déficit público. Muito além do que aconselharia um saudável equilíbrio das contas públicas.

Desde logo se diga que – e sem recurso a qualquer teoria da cabala, ela não é precisa aqui para nada, pois o coro já antes se manifestava afinado sem precisar de ensaios – o que está em causa, é retornar à mesma linha de rumo abalada e, por momentos, parecendo interrompida pela crise. Ledo engano, ‘abalada’ e ‘interrompida’ apenas na aparência, porque passado o susto, refeitos os prejuízos pelo ‘monstro’ Estado – por conta de quem se exorcizam todos os demónios que impedem a doce felicidade do homem (garantida pela fidelidade à já atrás referida ortodoxia neoliberal), mas a quem logo se recorre em caso de fera aflição – tudo então parece retomar o modo ‘normal’ da vida!

À margem destes propósitos e movimentações, importa então acentuar, também aqui, o falso dilema em que se pretende aprisionar a iniciativa do Estado, impedindo-o de intervir na economia, sob pretexto de uma elevada dívida pública (bem desmontado nos ‘blogs’ da especialidade: Ladrões de Bicicletas, O valor das Ideias,...). Pois esse é seguramente o modo mais rápido de se cair na depressão económica e, na sequência, na ‘instabilidade social’ (elevado desemprego, contracção forte da procura interna, degradação das condições de vida da população,...), insustentável a longo prazo, como parece ser o tempo esperado para a situação de emergência social e económica, com que se passou a designar o tempo desta crise.

O verdadeiro dilema, entretanto, não passa ‘apenas’ e sobretudo pela maior ou menor capacidade financeira do Estado, mas por opções políticas condicionadas por esta organização social – de que o Estado é garante – vitais para o actual modo de vida e para o futuro das sociedades. Que, na esfera económica, passam pelo urgente questionamento do paradigma do crescimento contínuo, impondo-se uma completa inversão das políticas de gestão dos recursos: humanos (política laboral apostada em garantir o acesso ao trabalho); materiais (política produtiva visando uma alocação estratégica dos investimentos, da produção básica à especialização produtiva, o acesso generalizado à tecnologia,...); da conservação (política ambiental voltada para a sustentabilidade); da distribuição (política retributiva, assegurando uma melhor repartição da riqueza). Sem esquecer a origem imediata da crise na desenfreada desregulamentação com que se pretendeu ‘eliminar’ o Estado da vida económica.

Muitos, pois, com mais competência na matéria, o vêm afirmando: colocar o investimento em alternativa ao déficit não parece constituir opção política válida, desde logo atendendo às condições específicas do momento presente em que se impõe acudir a toda a envolvente da crise actual – porque importa actuar antes de mais na busca de soluções para atenuar as suas consequências (já que, quanto às causas que a determinaram e à forma de lhes responder...). Mas tão pouco constitui, sequer, alternativa real, pois na verdade o que se tem verificado é que a obsessão do déficit ao longo de toda a década passada serviu sobretudo de argumento para:

- impedir uma política de investimentos públicos – indispensável para reduzir um pouco a fragilidade da posição económica do país e das suas estruturas, da baixa qualificação (sobretudo em gestão e organização, principal pecha do atávico déficit de produtividade), à dependência energética (principal causa do estrutural desequilíbrio comercial);
- ‘emagrecer’ a política social – reduzindo os já muito atrofiados benefícios básicos concedidos, com isso contribuindo para aumentar as desigualdades e as gritantes disparidades do rendimento;
- impor uma política fiscal especialmente adaptada para servir as grandes empresas – sob pretexto de pretender evitar a fuga de capitais, quando não mesmo de beneficiar as PME’s.

Falar agora do déficit para continuar a impedir-se o investimento e a condicionarem-se as restantes políticas, já não é apenas uma tragédia, é mais a continuação da farsa. A nível global!

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Da tragédia à farsa, uma história que se repete (1)

Da tragédia grega à farsa lusa

Primeiro foi o PR, na mensagem de Ano Novo, ao falar da possibilidade de o país cair numa ‘situação explosiva’. Depois, o estudo de um dos principais bancos, ‘ameaçou’ com a entrada numa ‘trajectória explosiva’. Até as declarações à saída do Palácio de Belém de ‘um-cidadão- que-pediu-para-ser-recebido-pelo-Presidente-da-República’ (foi essa a qualidade invocada por João Salgueiro!!) para lhe manifestar preocupação pelo ‘discurso cor-de-rosa’ do Governo, por contraponto com a séria ameaça do ‘exemplo’ da Grécia!!! Já antes se tinham ouvido os alertas lançados pelo Governador do Banco de Portugal. Pelo caminho, as diversas agências de notação internacional – as mesmas na origem da crise e dos avales que a precipitaram – falando de ‘morte lenta’ e ameaçando (sem aspas) rever em baixa o ‘rating’ da dívida pública portuguesa caso não sejam tomadas medidas para baixar o déficit das contas públicas – procurando, por esta via, redimir a sua própria credibilidade?

As conclusões do estudo do BPI, apresentado com pompa e circunstância pelo presidente do Banco, de que ‘a dívida pública entrará em trajectória explosiva caso não se adoptem medidas de redução da despesa pública’, resultam num exercício vistoso, mas de utilidade dúbia. Desde logo, qual o valor real de projecções efectuadas para 2040, a mais de 30 (!) anos? Será que os seus promotores terão estimado o impacto dos fenómenos e imprevistos que poderão/deverão acontecer ao longo das próximas três décadas, a avaliar tão só pelo que ocorreu nas duas que as antecederam? Qual, pois, o verdadeiro sentido de um estudo elaborado com base em dados de partida – recursos, tecnologia, ambiente, política,... – que se sabe arrastarem uma dinâmica tal que seguramente não serão os dados de chegada? E – mais importante ainda – quais as prioridades políticas por trás dos déficits que conduziram a este nível da dívida?

Feitas as contas, não pode excluir-se que este tipo de exercícios, sob a diáfana capa da sempre conveniente ‘neutralidade empresarial’ ou técnica, prossiga propósitos políticos (partidários mesmo, afinal tudo é político!). Semelhantes ao que motivou aquele conjunto de empresários promotores do estudo sobre o aeroporto de Lisboa, que levou à sua transferência da Ota para Alcochete (opção no mínimo discutível – pelo menos na perspectiva de João Cravinho e outros, baseados em critérios de ordenamento do território – mas não vou por aí, por mim basta que ‘ele’ saia de Lisboa, por razões ambientais e de segurança!). Alguém acredita que o fizeram ‘apenas’ por nobres razões altruístas ou filantrópicas? Ou, dito de outro modo, alguém pode garantir que o interesse público ficou assim melhor defendido?

No mesmo tom surge agora este estudo numa altura em que a grande opção a tomar na área económica, com implicações imediatas no OE/2010, parece centrar-se nas ‘grandes obras públicas’: aeroporto, TGV, auto-estradas,... Estes são, aliás, os únicos factos relevantes, a concretizar no futuro, introduzidos no modelo estatístico que serviu de base ao estudo e donde se retiram as conclusões que corroboram a visão catastrofista do PR na sua mensagem de Ano Novo. Não será, pois, abusivo concluir-se vir reforçar a oposição (PR incluído) às ditas obras públicas. Pelo efeito, dizem, de agravamento do já muito elevado nível de endividamento do País que os investimentos para tal necessários irão provocar, sem evidência clara de se tratar de obras com retorno seguro dos financiamentos envolvidos. Tanto mais que, rematam, aí mesmo à porta, o exemplo da Grécia, na eminência de um ‘blackout’ financeiro internacional, precisamente pelos níveis insustentáveis da sua dívida!

É certo que a dívida pública consolidada (contando com a das empresas públicas) atingiu níveis elevados e preocupantes (não são só os PR que podem usar a palavra!) e, portanto, estas tomadas de posição deveriam considerar-se um aviso no sentido de alguma prudência na despesa (incluindo a de se avaliarem bem os benefícios das ditas ‘grandes obras públicas’). Que não haja ilusões, porém: estes avisos têm sobretudo como finalidade justificar e preparar o ‘consenso’ nos partidos do centro para a adopção de medidas (de imediato no OE/10) que, de acordo com os parâmetros da ‘normalidade’ imposta pela ortodoxia neoliberal, visem a contenção da despesa pública (e o consequente desagravamento da dívida). O que, neste enquadramento político, significa maior agravamento das condições de vida das pessoas (seja por via das restrições nas prestações directas do Estado, seja indirectamente através da degradação das prestações sociais). A surpresa de Fernando Ulrich aos reparos de Sócrates às conclusões deste estudo é, deste ponto de vista, por demais elucidativa...

(...)

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Ano Novo, velhas utopias (2)

A utopia conservadora contra o progresso

Por estes dias, porém, a utopia que mais se tem imposto ao País é a utopia conservadora, a que tudo aposta na manutenção, ‘a ferro e fogo’, da ‘moral e dos bons costumes’ como única via para a felicidade do homem. Porque para os seus prosélitos, não basta a defesa racional dos seus pontos de vista, exige-se a sua imposição aos ‘infiéis’ (pelo recurso aos meios condizentes com cada época – desde a tortura e até a guerra,... ao referendo). Por eles ainda hoje existiriam escravos, a inquisição, a mulher arredada do voto e subordinada ao ‘chefe de família’, a exclusão dos católicos ao divórcio civil, a penalização do aborto, a superioridade do ‘homem branco’,... Porque todas estas causas foram, nos seus respectivos tempos e diversificados lugares, objecto de furiosas campanhas idênticas às que, hoje, são desencadeadas contra o ‘casamento entre pessoas do mesmo género’.

O derradeiro argumento ouvido da boca da arvorada promotora destas ‘causas’ (na questão do aborto, agora no casamento homossexual,...), é que deve auscultar-se a opinião das pessoas sobre este assunto através de referendo, enquanto expressão da democracia participativa (!!), uma vez que – pasme-se! – a democracia representativa mostra-se esgotada (!!!). De uma assentada pugna-se pela ‘moral e os bons costumes’, esgrimindo no próprio campo da esquerda política (avessa, por natureza, ao reaccionarismo de tais causas) conceitos que lhe são caros.

A caricatura com que a D. Isilda Pegado não tem pejo de tratar a ‘democracia participativa’, recorrendo ao reducionismo canhestro da sua equivalência à consulta referendária de âmbito nacional (distante, por exemplo, das consultas locais sobre assuntos concretos de interesse para as populações), junta-se assim à estratégia oportunista de apostar num referendo por sabê-lo ganho à partida, devido ao peso do apoio explícito das ‘igrejas’ – ademais, sobre a manutenção de discriminações em direitos fundamentais de minorias sociológicas. Ora, num país que se afirma de coração católico (por tradição e mentalidade), mesmo que de alma pouco praticante... O ‘pormenor’ de não vir a ser vinculativo, por não atingir quase de certo os 50% de votantes exigidos, pouco afectaria a estratégia.

A luta pela urgente transformação social – também ela, de algum modo, uma utopia em permanente ‘actualização’ – passa, e muito, pela queda de todas as formas de discriminação, mesmo a que se acoita no sacrossanto e inviolável castelo da ‘moral e dos bons costumes’. Por isso também a de mais difícil trato, porque envolve entranhados preconceitos e sedimentadas falsas verdades absolutas. Tarefa sempre inacabada, como ainda agora se provou: a lei agora aprovada no Parlamento sobre o casamento entre pessoas do mesmo género, exclui, para já, o direito a adoptar pelos casais assim constituídos. Idiossincrasias (ou fragilidades?) de uma democracia com dificuldade em se afirmar plenamente?

Ainda assim, o passo dado demonstra-se determinante no objectivo de acrescentar um pouco mais de felicidade a uns poucos – sem precisar de beliscar a de mais ninguém. Trata-se, afinal, da primeira e mais universal utopia do Homem, a que atravessa toda a sua História! Porque é a felicidade, no fim de contas, através do grau de satisfação global e geral conseguido (global na abrangência dos aspectos, geral pela inclusão do maior número de elementos), que marca e caracteriza o progresso das sociedades.

Tarefa sempre inacabada, repito, mas indispensável para se prepararem as condições, mentais e materiais, com que se constrói a dinâmica do Progresso.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Ano Novo, velhas utopias (1)

Ideais universalistas contra os fundamentalismos exclusivistas

Nesta altura do ano temos por salutar hábito transmitir uns aos outros o desejo de uma vida melhor, por vezes mesmo sabendo-o de difícil ou mesmo impossível realização. Fazemo-lo, em regra, por convicção (ainda que por conta da tradição), esperando com esse gesto fortalecer a ‘boa onda’ gerada pela longa cadeia de votos formulados em torno de desígnios tão sublimes quanto difíceis de prosseguir (no seu conjunto e sem discriminações), como o são a paz, a saúde, a amizade, a solidariedade, a prosperidade,... Desígnios que afinal constituem a mais velha e universal utopia da Humanidade, a que mais sensibiliza e tem mobilizado o Homem, qualquer que seja o sítio, o momento ou as circunstâncias. Que atravessa religiões, ideologias, simples movimentos filantrópicos. Na busca, em suma, da felicidade de todos. O generalizado acordo na sua aceitação, porém, não consegue evitar complacentes sorrisos caso alguém se proponha a sua realização global. Afinal utopia é isso mesmo, representa um ideal de sociedade, um modelo alternativo às sofridas condições da existência, mas dificilmente se adapta à realidade concreta.

Esta é a utopia que agrega sem discriminar nem excluir. Que não atiça proselitismos porque, em lugar de se constituir contra alguém, faz da vida a sua única religião. Que pretende acrescentar, sem que isso implique reduzir nada a ninguém. Ao contrário de outras que, eivadas de um espírito sectário de cariz religioso ou ideológico, apostam no interesse egoísta, na exclusão do ‘outro’ e na discriminação da diferença.

O fundamentalista islâmico faz o que faz, incluindo actos terroristas, porque acredita poder vir a realizar, através desses actos, a ‘sua’ utopia, a de rumar aos céus onde o esperam largas dezenas de virgens e uma eternidade de... felicidade! O fundamentalista liberal alimenta, também ele, uma utopia, o sonho da ‘sua’ imensa liberdade individual, cujos limites seriam ditados apenas pela liberdade dos outros. Felicidade pessoal, pois, mas à custa do sacrifício de muitos!

Mas enquanto a realização da utopia islâmica é transposta para ‘uma outra vida’, a celestial, a da utopia individualista pretende ser realizável já nesta, na terrena. E isso porque a base de partida é essencialmente diferente: a utopia individualista impregna o capitalismo dominante, a utopia islâmica domina povos humilhados e explorados. Se alguma vez esta situação se invertesse, talvez pudéssemos então assistir à adaptação terrena da teoria religiosa das virgens e, em contrapartida, ao ressurgimento do abominável terrorismo por entre as incensadas hostes liberais (já nem seria facto inédito!).

A formulação da utopia individualista é, por si só, uma impossibilidade prática, já que as zonas de fronteira entre as liberdades de cada um são tão sensíveis que o potencial de conflitos e a sua resolução implica a existência prévia de um critério ou a intervenção de um terceiro com capacidade e aceitação nas partes para, de forma isenta, se poder regulamentar e dirimir conflitos. Daí a visceral aversão dos ‘liberais’ ao Estado e às suas instituições, dado ser ele que, por regra, detém esse poder arbitral.

Entre o exclusivismo discriminatório proposto pelas utopias fundamentalistas (de cariz religioso, ideológico ou outro) e o universalismo dos ideais que, pelo menos por esta altura, todos os anos revisitamos, a escolha não parece difícil de fazer. Pelo menos para os ‘homens de boa vontade’. E mesmo que seja apodada de utópica!

(...)

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Feliz 2010 !!!

Se o Calendário não estiver enganado, mais logo, às zero horas, entramos em 2010.
Pois, e para 2010, os Votos de muita Solidariedade, Amor, Amizade, Saúde, Paz, Pão, Habitação ... e muitas Lutas e outras tantas Vitórias !!!

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

O dilema civilizacional que condiciona o emprego

Há qualquer coisa de perverso nas políticas económicas desenvolvidas por todo o Mundo para fazer face à crise, pois aquilo que todos parecem encarar como solução incontornável para lhe fazer frente, afinal demonstra-se, a longo prazo e nas condições actuais de funcionamento das sociedades (que já por mais de uma vez abordei), ser a fonte dos problemas com que presentemente se confrontam.

A maior preocupação actual dos governos de todo o Mundo, pelo menos nos discursos públicos, é a de procurarem criar empregos para fazerem face aos destruídos pela crise. Desdobram-se em esforços na elaboração de programas e na busca de investimentos, públicos e privados, tendo em vista apoiar as empresas, esperando, por via destas, impulsionar o emprego. Uma das áreas que tem vindo a ser mais estimulada nesses programas económicos, elaborados um pouco por toda a parte para combater o desemprego – uma séria ameaça à estabilidade social! – é, a par da educação e da formação profissional, a de promoverem a investigação, como forma de se ‘inventarem’ novos empregos. Ainda agora, em França, o governo de Sarkozy anunciou aquilo que a imprensa designou por um ‘megaplano de investimentos’, precisamente orientado nesse sentido: ele é, ‘apenas’, o maior das últimas décadas!

Por detrás destes programas a convicção de que só será possível ultrapassar a crise se forem criadas/inventadas novas ocupações económicas capazes de suprir os empregos desaparecidos, que todos consideram já definitivamente extintos. O objectivo é, invariavelmente, ganhar posições na competitividade externa, descobrindo, produzindo e comercializando aquilo que ainda ninguém antes se tinha lembrado de fazer – preencha ou não funcionalidades socialmente úteis (desde que venda...!). Esperando, deste modo, ficar até melhor defendidos para as próximas crises...

A importância estratégica destas prioridades não oferece contestação, sejam quais forem as circunstâncias ou as situações, tanto no presente como também já no passado, em Portugal como na França ou na China, ainda que ganhem especial acuidade agora face à pressão social que resulta dos níveis generalizados de desemprego. Com a natural especificidade geográfica e histórica de cada situação concreta. Mas a lógica que explica a razão de ser de tais opções, inserida na dinâmica de progresso que acompanha o homem, determina também, como resultado natural dos desenvolvimentos técnicos conseguidos, a consequente redução do esforço humano aplicado no trabalho.

Contudo, a realidade está longe de se ajustar ou subordinar às determinações da lógica. Pois aquilo que se apresentaria, então, como resultado natural de um processo de substituição do esforço individual das pessoas (o trabalho manual) por uma crescente intervenção das máquinas e da inteligência artificial, esbarra não nos limites da técnica mas nos interesses particulares dos grupos sociais que dominam a organização social do capitalismo através de condições específicas impostas a nível mundial: globalizada no seu nível económico, mantida nos limites nacionais a nível político – o que permite todo o tipo de chantagem com base na constante ameaça da ‘deslocalização de empresas’! Daí assistir-se hoje, no campo laboral, a situações aparentemente contraditórias ou mesmo absurdas (por vezes até na mesma empresa!!!), de pressão/imposição patronal de alargamento dos horários de trabalho, a par... do aumento do desemprego!

A redução do esforço humano na produção de bens e serviços (para além do incremento da produtividade e da riqueza) é o resultado natural e inevitável da investigação/inovação e seus consequentes avanços tecnológicos, pelo que ganha consistência um autêntico dilema civilizacional, de resolução quase impossível no imediato, dadas as referidas condições económicas e políticas mundiais: ouesta’ organização social muda e se adapta ao progresso técnico, ou a precariedade do emprego e o desemprego terão tendência para aumentar para níveis cada vez mais socialmente insustentáveis.

No fim de contas, o futuro do emprego, para além de todos os bem intencionados esforços em o redimir, encontra-se, em última análise, preso da resolução deste dilema!

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Boas Festas !..


Para Tod@s e Cada Um(a) os Votos de Boas Festas

sábado, 12 de dezembro de 2009

Copenhaga na Crise global

Incertezas, insatisfação, oportunidades...

Apesar das tentativas oficiais pretenderem fazer crer que o pior da crise já passou, verdadeiramente ninguém parece fazer fé em tanto optimismo, tenha ou não já sido afectado, directa ou indirectamente, por ela – e não, não fica a dever-se ao descrédito das fontes! Tudo, afinal, se resume à dura e crua realidade. À realidade sentida, percebida ou até mesmo só intuída pela esmagadora maioria das pessoas. Em Portugal, seguramente (afinal o mal já vem de longe e a instalada anemia parece não ter cura), mas também um pouco por todo o Mundo!

Longe estão de se encontrar assegurados, sequer delineados ou em vias de o ser, os prometidos mecanismos de regulação e outros (quando no auge do perigo se temia o pior, e o pior era mesmo a derrocada do sistema!), destinados não só a resolver a crise, como sobretudo a evitar a sua repetição. Certo, os mesmos desejos, os mesmos propósitos haviam já sido formulados – e tentados – em ocasiões anteriores, sempre com os mesmos pífios resultados. Expressivos apenas na insatisfação, no desespero, no medo, na humilhação a que se reduz a incerteza e a crescente sensação de vidas permanentemente adiadas, sem perspectivas de qualquer futuro.

À tese dos que consideram e insistem (eles lá saberão porquê) que isso resultou sobretudo devido à ganância, perfídia, desvios de carácter ou quaisquer outros desvarios dos detentores do poder, económico e político, tenho vindo a contrapor a de que, não descurando tais aspectos, circunstancialmente importantes, o essencial se deve procurar antes no carácter predador do próprio sistema, cuja lógica de funcionamento, baseada na expansão contínua, ameaça arrastar tudo e todos na sua derrocada. De tal modo que a grande preocupação (ou esperança, conforme a perspectiva), porventura a única, que por estes tempos todos apregoam como forma de se ultrapassar a crise e devolver os empregos perdidos, reside na miragem do ‘crescimento económico’, tido como indispensável para inverter uma situação em contínua degradação.

Também por estes dias decorre em Copenhaga, promovida pela ONU, a Conferência das Alterações Climáticas, a 15ª tentativa de se encontrar uma fórmula, vertida num compromisso à escala global, que permita contrariar ou mesmo evitar as consequências nefastas, potencialmente catastróficas, que o rápido aquecimento do planeta provocado pelo efeito de estufa – em resultado da acção do homem, já não há volta a dar-lhe! – irá desencadear sobre toda a vida na Terra. Aparentemente, pois, os objectivos do que se discute em Copenhaga conflituam com os da tradicional via de desenvolvimento, uma vez que tem sido ‘este’ (dito imprescindível) crescimento económico, movido e dominado pelo motor da expansão capitalista, o principal responsável pela difícil, e porventura já irreversível, situação geoambiental (não é só climática) em que o Mundo actualmente se encontra.

Os mais optimistas parecem depositar uma fé inabalável numa ilimitada (!) capacidade tecnológica para a inverter e impedir as catástrofes que se anunciam (e salvar o Mundo do precipício, nem que isso aconteça só no último momento!), indo até muito para além do que permitiria deduzir-se de uma pretensa neutralidade da técnica face aos interesses dominantes (o que, como se sabe, é irrealista pensar-se). Certo é que o tempo escasseia e a eficácia de uma acção oportuna cada vez se apresenta menos provável.

Ora, no clima de profunda crise económica instalado a nível global (com todo o rol de incertezas, de insatisfação, de humilhações,... de abertura à mudança) e perante o grau de confiança permitido pelos dados que a ciência já dispõe sobre os efeitos das alterações climáticas, uma convicção parece afirmar-se: nunca como agora se reuniram condições tão favoráveis à denúncia dos responsáveis por este estado de coisas e à consequente desmontagem dos mecanismos sociais que o propiciaram (incluindo o perverso desaproveitamento da capacidade científica e técnica – perverso até na perspectiva do próprio sistema!).

Resta então saber, para além dos discursos e dos compromissos oficiais, até onde irá ser possível aproveitar-se esta oportunidade para se repensar o funcionamento do nosso actual modo de vida e se tentar esboçar um novo modelo de organização social; até onde nos será permitido contestar algumas verdades tidas como absolutas e resgatar-se o sopro de esperança num outro futuro, num futuro alternativo ao que nos querem impor!

Utópico? Talvez, mas... que futuro sem utopia?

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

A bandalheira ...

É andando nos transportes públicos – uma “coisa” que governantes, chefes de gabinetes, assessores e quejandos da/na orla do poder não utilizam, pois fazem-se transportar em lustrosas “bombas”, com direito a motorista e pagos pelo erário publico – que se ausculta o sentir, o pulsar do pensamento da (nossa) “populis” …
Acabei de assistir a um hilariante diálogo entre um casal de idosos que se sentaram, no Metro e à minha frente, enquanto eu desfolhava o “Metro” que, ironia das ironias, traz em titulo de primeira página “Portugueses desconfiam (e muito) dos políticos”
E todo este arrazoado, afinal, a propósito da entrevista que esta noite a RTP faz o favor de fazer – será encomenda (?) - ao arguido do/no processo “Face Oculta”, o cidadão Armando Vara.
Dizia a “velhota” para o “velhote” :
-« então, é logo à noite que o Vara dá a entrevista, não é?»
- « isto é uma bandalheira », responde-lhe o “velhote”
E, de novo, a “velhota” :
-«então, não está tudo em segredo de justiça ?»
Responde, de novo, o “velhote” : « é uma bandalheira »
Eis, entretanto, que o casal se levanta para “desembarcar” e, assim e com muita pena minha, não assisto ao resto do pertinente diálogo.
E, assim, dou comigo a pensar no seguinte:
- pese embora perceber o critério de oportunidade jornalística, como é de facto possível que a RTP se “preste” a fazer uma entrevista a Armando Vara.
O sucesso da entrevista dependerá, naturalmente, do teor das perguntas que Judite de Sousa proferirá.
Antecipo, com os ricos daí decorrentes, o que irá acontecer na dita-cuja entrevista.
A estratégia de Armando Vara – tal como, ainda e muito recentemente ocorreu com Dias Loureiro -, será clara.
Clamará por inocência; e se, por parte da entrevistadora, houver lugar a perguntas pertinentes dirá que não pode(rá) responder por ser matéria de “segredo de justiça”.
Uma coisa é certa.
Tal como laconicamente respondia o “velhote” :
«é uma bandalheira.»
Acrescento eu que :
para haver bandalheira é condição necessária a existência de bandalhos
E, para mim, Armanda Vara é isso mesmo :
- mais robalo, menos robalo : um b-a-n-d-a-l-h-o ...

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Pedro Barroso : 40 anos de música e Palavras ...

Parece que foi ontem amigos.
Uma vida de sonho que me deram.
Uma vida de causas e destemor.
Uma vida de altos e baixos, com incompreensões e injustiças, mas também com êxitos e aplausos.
Destinado a ser professor, tudo começou no velho programa Zip Zip, onde há 40 anos recebi o meu primeiro cachet por actuar em Televisão.
Era ainda uma criança, acho eu. Mas mudou a minha vida.
Se hoje aqui estou, tanto tempo depois, testemunhando o vosso calor humano e a vossa atenção, é graças a esse episódio e à minha luta, feita de insistencias dificeis.
É graças também à vossa atenção e à vossa estima que o devo.
Ninguém tem êxito sem ter quem o aprecie. Ninguém vende o que ninguém quiser comprar. Ninguém circula por onde não houver caminho.
Que digo eu? Muitas vezes consegui circular sem haver estrada. E fiz a pulso as escarpas de um escrever e cantar que nunca andou pelas autoestradas da facilidade. Disco a disco, em editoras pequenas e alternativas. Palco a palco, arrostando com condições que não eram as ideais. Por sitios que não lembra ao diabo fazer espectaculos ali. Frente a um povo ora evoluido e atento, ora distraído e boçal.
E comentei para mim mesmo, surdamente, os dias maiores e os de amargura. E arqivei na memória tudo, desde as paisagens, aos romances de estrada, aos músicos que já partiram, aos petiscos regionais, aos solavancos do caminho.
Este próximo ano de 2009 - quarenta anos de estrada e palcos deixados para trás - quero compartilhar convosco esse louco e profundo conviver. Esse profundo viver português, em que desafio o mais pintado a ter estado lá, onde eu estive e cantei e toquei, ao longo de milhares de horas, milhares de quilometros, milhares de abraços, milhões de notas e palavras.
Espero em 2009 fazer uma tournée nacional que justifique e consolide uma vida que escolhi.
Mas para isso vos peço que se mobilizem localmente e me ajudem a satisfazer esse desejo de chegar - num folego que ja me vai faltando...- a estar em toda a parte onde valha a pena.
Celebração de mim com a vossa cumplicidade maior.
Afinal, como tudo sempre foi.
Por isso o meu imenso obrigado.
O velho trovador ainda está de pé e nunca se venderá, eis a minha única forma de vos agradecer.
Pedro Barroso
PS : Pedro, eu vou lá estar ...