quarta-feira, 23 de junho de 2010

Pois ...


«Privatize-se tudo, privatize-se o mar e o céu, privatize-se a água e o ar, privatize-se a justiça e a lei, privatize-se a nuvem que passa, privatize-se o sonho, sobretudo se for diurno e de olhos abertos.
E, finalmente, para florão e remate de tanto privatizar, privatizem-se os Estados, entregue-se por uma vez a exploração deles a empresas privadas, mediante concurso internacional.
Aí se encontra a salvação do mundo...
E, já agora, privatize-se também a puta que os pariu a todos».

José Saramago, in «Cadernos de Lanzarote – Diário III», pág. 148

domingo, 20 de junho de 2010

‘É a luta de classes, estúpido!’

Mais uma vez os patrões indígenas – meros peões na luta global das grandes corporações empresariais – ‘sentem’ que é este o momento oportuno para exigirem do Governo novas medidas legislativas que lhes permitam intensificar a exploração do trabalho/acumulação do capital. À boleia de uma proposta partidária de idêntico propósito, ‘soprada’ por Bruxelas(!), insistem na necessidade de uma maior ‘flexibilização das leis laborais’, ou seja, solicitam autorização (!) para despedirem legalmente sem restrições!

Depois da desregulação financeira – que permitiu o regabofe liberal na origem da actual crise e que, pelos vistos, de nada aproveitou e assim vai continuar; da progressiva destruição do Estado Social – tido como prestador de regalias e não como garante de direitos, logo esbanjador do dinheiro dos contribuintes em inúteis e incompetentes; resta agora completar o modelo ultraliberal com a imposição da total precarização laboral – exclusão de quaisquer direitos de protecção sobre o trabalho, com o regresso à lei da selva contratual, expondo o trabalhador às arbitrariedades dos ‘empregadores’, os que detêm o poder efectivo nas sociedades actuais.

A extrema e cada vez mais generalizada degradação das condições de prestação do trabalho a prazo (o equivalente, na actualidade, à dependência gerada, no passado, pelos sistemas de escravatura), a par do aumento das disparidades de rendimentos, torna a situação social cada vez mais explosiva. Que irá contribuir, mais cedo ou mais tarde, para o recrudescer das ‘velhas’ lutas de classes, tão ‘velhas’ como as sociedades humanas organizadas. ‘Adormecidos’ durante décadas, por obra e graça da hegemonia das teorias keynesianas e do modelo social-democrata – que conseguiram anestesiar as vontades e retardar a mudança social – os conflitos ameaçam agora irromper com violência, não obstante as condições sociais serem muito diferentes das dos séc. XIX e XX, a nível da estrutura de classes, do modo de vida e das próprias formas de luta.

Por agora, empurrados pela necessidade ou tomados pela ousadia, retiram-se as máscaras, desvanecem-se os subterfúgios, surge com maior nitidez a divergência inconciliável dos interesses em presença. Sem pudor, os detentores do poder assumem pretender uma maior liberdade na gestão da precariedade do trabalho, um controle sem limites do ‘mercado laboral’ – peça estratégica desse mecanismo global imposto para dirigir as sociedades! Confiados em que o outro lado, sofrendo o grosso dos efeitos punitivos de uma crise que não provocou e, por enquanto, incapaz de se organizar para lhes fazer frente (receio de perder o pouco que lhe resta?...), permaneça numa ‘acomodada expectativa’.

No âmago de uma crise económica e social marcada pela incerteza e pela insegurança, que ameaça pôr tudo em causa, o que mais se sente e ganha relevo é a ausência de uma alternativa segura ao modelo que a ela conduziu. Mas para além de todos os jogos e manipulações partidárias de escasso ou nulo conteúdo político, pressente-se o desespero de quem descrê da capacidade do poder público (e dos seus representantes eleitos) em encontrar soluções práticas e viáveis, em centrar-se na regulação democrática da realidade social, por demasiado dependente da inevitabilidade do ‘poder soberano dos mercados’.

Pois é a altura de recordar que, por trás destas manifestações, destas expressões exteriores de força – mais ofensivas de um lado, ‘apenas’ (?) resistentes do outro – encontra-se uma realidade mais profunda. Capaz de a qualquer momento explodir e tudo alterar. É tempo de proclamar que, depois da economia, o que se encontra subjacente a esta crise... ‘é a luta de classes, estúpido!

sexta-feira, 18 de junho de 2010

A(s) Vuvuzela(s) ...

Eis, para quem não conhece, a origem da Vuvuzela ...
E agora, ainda vão continuar a "assoprar" a corneta e, assim, engordar os lucros da Galp ?..

terça-feira, 15 de junho de 2010

Uma questão de "crença" ...


Depois de ter empatado a 0-0, o treinador da Selecção do BES, um dos mais bem pagos do Mundo, acusou a Costa do Marfim de ter uma postura demasiado defensiva.
«É sempre assim quando de um lado está uma equipa com vontade de ganhar e outra interessada em defender. Frente a uma equipa completamente fechada atrás da linha da bola, as coisas ficam um pouco mais difíceis»
O que (nos) dirá, a criatura, depois de jogar com a Selecção da Coreia do Norte ?..

domingo, 13 de junho de 2010

O regabofe ...


Pronto.
Começou o regabofe ...
Enquanto estamos distraídos com futebolada(s), ao menos não nos preocupamos com outras "coisas" ...
Eu, e muito sinceramente, o que desejo é que nenhum Jogador do BENFICA se lesione e que entrem de férias o mais cedo e depressa possíveis ...
De todo o modo, aqui vai o
Calendário do Mundial 2010

quarta-feira, 9 de junho de 2010

'Privatize-se o ar!'

Não resisto a transcrever, com a devida vénia, um comentário a uma posta do Daniel Oliveira, no ‘Arrastão’, a propósito das declarações recentes de Daniel Bessa – tido como de esquerda porque, um dia, fez parte, durante uns meses, do governo do ‘esquerdista’ Guterres! – defendendo a privatização da Saúde e da Educação como forma de resolver a crise da dívida (!):

«Privatize-se tudo, privatize-se o mar e o céu, privatize-se a água e o ar, privatize-se a justiça e a lei, privatize-se a nuvem que passa, privatize-se o sonho, sobretudo se for diurno e de olhos abertos. E finalmente, para florão e remate de tanto privatizar, privatizem-se os Estados, entregue-se por uma vez a exploração deles a empresas privadas, mediante concurso internacional. Aí se encontra a salvação do mundo… e, já agora, privatize-se também a puta que os pariu a todos.» José Saramago – (Cadernos de LanzaroteDiário III – pag. 148)

«Passávamos já à última fase, não? O resto está mais ou menos feito», conclui o comentador.

Sob pretexto de pretender resolver ‘a crise da dívida’, o capitalismo, perfilado por trás de um neoliberalismo cada vez menos escondido nos seus propósitos, perdeu toda a vergonha e deixou de disfarçar. O objectivo é mesmo, já ninguém o contesta, a destruição do Estado Social! Prepara-se o ataque final ao que resta dos serviços públicos – pelo menos os que, explorados até ao cêntimo, garantam alguma margem de valor, algum lucro! Irá sobrar ainda alguma coisa? Ou, dito de outro modo, alguma coisa que gere valor consegue escapar às leis do mercado, à fúria do lucro?

segunda-feira, 7 de junho de 2010

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Isto promete acabar mal! – II

Os limites do modelo exportador de crescimento – e desta globalização

Nos meses imediatos a Outubro de 2008, para evitar o risco sistémico de uma crise que ameaçava alastrar sem controle, foram lançados pela generalidade dos Estados programas de apoio financeiro de dimensão nunca vista. Ouviram-se então algumas vozes interrogar como reagiria a economia no momento da retirada desses apoios e quem afinal iria pagar todos aqueles milhares de milhões (!) que, de repente, surgiam do nada. Mais cedo do que se previra, sem surpresas como se esperava, aí está a resposta às duas questões, convergindo no sentido histórico de sempre: violento ‘ajustamento orçamental’, com sobrecarga nos mais desfavorecidos! Os efeitos esperados irão seguramente contribuir para evidenciar que as alternativas de solução propostas pelo sistema se encontram já fora de prazo!

Desde que se concluiu, sem margem para dúvidas – e também sem surpresas! – que as promessas feitas pelo G20 no calor da crise não eram mais do que isso, meras promessas, foram vários os alertas oriundos de diferentes lados a prever que o pior da crise financeira ainda estaria para vir. Sem necessidade de sair do quadro de referências do sistema, relembro os constantes ‘recados’ de Stiglitz sobre o curso do Euro e o (in)consequente rumo ‘desta’ UE; o já aqui abordado ensaio de Santiago Becerra – o premonitório ‘O crash de 2010’; ou as recentes declarações de Jaques Attali em entrevista à Euronews, onde afirma que ‘a crise está apenas a começar’, após observar que ‘os bancos continuam a especular como antes (...), nada mudou num sistema que está totalmente nas mãos do mercado financeiro internacional’.

Contrariando a tónica das políticas postas em prática na UE – de comprovados efeitos desastrosos, a nível económico e social, para todos os países que a integram – Attali, defensor de uma outra alternativa (curiosamente melhor ‘compreendida’ pelos EUA de Obama!), avança o que considera dever ser feito para atacar a turbulência na zona Euro, provocada pelo disparo das ‘dívidas soberanas’ (!), ao defender que ‘a única solução é a do crescimento para a redução da dívida'. Mas acrescenta que, para se evitar a catástrofe enquanto a retoma do crescimento não chega, é preciso ‘emprestar de modo credível’, adiantando ser a União Europeia a única a poder fazê-lo. E, já agora, sobre o efeito desta crise na construção do futuro da Europa: ‘Hoje vemos como uma evidência que a moeda única não pode existir sem uma política fiscal e orçamental. Não é possível.’

Contudo, também a solução para a crise através do incentivo ao crescimento económico parece seriamente comprometida, dadas as condições objectivas de funcionamento actual do modelo de desenvolvimento nas sociedades centradas no mercado – bem expresso no paradigma ‘subprime’ (‘engenharia financeira’ sobre crédito fácil e barato!). A não aplicação de algumas medidas essenciais – como é a ausência de uma política orçamental e fiscal europeia – pode vir a revelar-se fatal. Ou tão só a sua aplicação fora de tempo.

Mas pelo menos uma vantagem, para já, pode ter tido esta crise global, ela permitiu ver com maior clareza a natureza contraditória desta globalização, ao demonstrar os limites deste modelo de desenvolvimento que a suporta, baseado generalizadamente no crescimento do sector exportador. Porque assente na capacidade aquisitiva solvente algures no planeta – nos destinos dos produtos, ou seja, na capacidade de absorção/importação dos mercados consumidores – este modelo é posto em causa sempre que falha alguma das bases que sustenta essa capacidade – os rendimentos disponíveis das famílias ou o recurso ao crédito para os obter (ou as duas em simultâneo, como é agora o caso).

A enorme crise de confiança que se abateu sobre o crédito e as instituições que o gerem, não só fragiliza o sistema financeiro a nível global, como denota o esgotamento gradual desta via como forma de se compensar a crescente debilidade do poder aquisitivo dos consumidores – o suporte real deste modelo de desenvolvimento – por força da cada vez maior diferenciação na repartição dos rendimentos. Nestas condições, a impossibilidade do aumento do consumo pela via da expansão do crédito surge, pois, como limite objectivo à dinamização do tecido económico e ao crescimento, como forma de se sair da crise. E se esta era já, para muitos, a solução que se perfilava como derradeira (após a falência real da protagonizada pela UE)...

Ora, é precisamente na altura em que o recurso ao crédito se contrai ou até desaparece (seja pelo preço, seja pelo risco), que vai ser exigido um esforço suplementar ao orçamento das famílias pelos Estados (todos os Estados) para resolverem a crise... financeira!

É por isso que as palavras dos três autores citados (a par das de muitos outros) soam de forma tragicamente lúcida – ainda que pouco adiantem para a solução. Apenas um ‘isto promete acabar mal, mesmo!

Porque a solução, essa, só mesmo fora de um sistema centrado no mercado – na Globalização dos mercados! – ‘substituído’ pela política como centro da organização social – o princípio para uma outra globalização. Mas isso já daria mesmo outra ‘história’.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Isto promete acabar mal! – I

Um modo de vida assente na extorsão

Primeiro foi a crise do sub-prime. Pelo menos a origem próxima, a que é mais fácil de responsabilizar pela maioria dos males de que a economia actualmente se queixa. De repente esta entidade abstracta, a economia – pela via do mercado – ganhou estatuto equivalente ao dos seres sensíveis, não só se queixa, como gosta e valoriza, não gosta e penaliza, tem aversão (!)... enfim, tem alma – ‘os mercados são sensíveis’, ouve-se constantemente!

Mas uma crise, como qualquer outra coisa da vida, não começa assim, de repente. Prepara-se, tem antecedentes, surge num determinado enquadramento, há (e houve) condições que a tornaram possível... e a prolongam. Porque se o discurso dominante do pensamento único (expresso de forma maquinal – quantas vezes, insuportavelmente enfatuada! – por um qualquer jovem acabado de formatar por uma qualquer escola de economia) foi fácil em diagnosticar as causas próximas da Crise e, não obstante a virulência dos seus inusitados efeitos, a augurar-lhe um fim mais ou menos próximo (os mais cautelosos aventuravam-se então até ao médio prazo), o certo é que ninguém já arrisca hoje uma previsão para o seu termo. Passado a euforia inicial que se seguiu à forma como reagiu à injecção dos apoios governamentais por todo o mundo, a persistência na orientação que a determinou e que, afirmam, a vai ultrapassar (?), apenas tem contribuído, como era fácil de prever, para a sua ampliação.

Certo é que o mal-estar social, durante muito tempo controlado, ameaça agora tornar-se insuportável – da Grécia a Portugal, por toda a Europa, de repente obrigada a pagar uma crise que cada vez se vai desenhando mais profunda e, ao mesmo tempo, mais perceptível nas suas causas, mas resistente à assunção das respectivas consequências. As informações constantes sobre as enormes disparidades de rendimento, contribuem para acentuar esta sensação. Por via dos média tradicionais (escritos e audiovisuais) ou da incontrolável internet, os cidadãos vão-se apercebendo da profundidade das dificuldades, mas, ao mesmo tempo, de quem as provoca e as pretende perpetuar..., daí retirando benefícios pessoais.

Já não é mais possível ignorar que o mundo se transformou, quase de repente – muito por obra das tecnologias da informação – num lugar onde se torna cada vez mais difícil passar despercebido (pessoas e factos), num imenso repositório de queixas contra abusos e percepcionadas injustiças, numa caixa de ressonância onde de forma contraditória mas gradual se vai refinando uma consciência colectiva dando mostras de um apurado sentido de equidade, num laboratório onde se reinventa a solidariedade e se experimenta a cidadania.

Multiplicam-se na Net as informações, petições, abaixo assinados e muitos comentários sobre as escandalosas práticas comerciais de empresas de referência (Instituições Financeiras, à cabeça), por confronto com as chorudas benesses auferidas pelo reduzidíssimo grupo de pessoas que as controla e se atribui, em nome do que designam por ‘criação de valor para o accionista’ (!), mas também em benefício próprio, o poder de extorsão sobre as pessoas – não há outro termo para designar a ‘legal’ imposição de condições aos consumidores, assim obrigados a alimentar esta cáfila, para além de toda a pretensa regulação – por via de um modo de vida assente no crédito fácil e barato, ‘imposto’ por sofisticadas técnicas de marketing e o apoio domesticado do poder dos média!

Este edifício ameaça agora ruir. Em Outubro de 2008, a direita conservadora não teve pruridos em aderir à filosofia do Estado intervencionista, contra todos os princípios até aí professados, para impedir a falência do sistema financeiro à escala global. Seja por razões ideológicas ou por defesa de interesses próprios, o pragmatismo revelado naquela situação de aperto depressa regrediu ao fundamentalismo na origem próxima da crise, deixando sobrepor-se a ganância à razão, com isso ameaçando ‘devorar’ a galinha dos ovos de ouro. O pagamento das dívidas contraídas para salvar os bancos em dificuldades, é agora exigido aos mesmos que têm alimentado a sua fortuna – mas os bolsos estão exauridos, o risco de crédito (do país e das pessoas) descontrolado! Enfim, a receita para o desastre!

(...)

segunda-feira, 31 de maio de 2010

"A austeridade conduz ao desastre"


Joseph Stiglitz é conhecido pela sua postura crítica sobre as principais instituições financeiras internacionais, o pensamento único, a globalização e o monetarismo.
Numa entrevista ao jornal francês Le Monde, falou sobre a sua análise da crise do euro
.
Ler mais …
(Via : www.esquerda.net )

domingo, 30 de maio de 2010

Afinal, é tão fácil apanhar um mentiroso …


Segundo o Público de hoje, o gabinete de José Sócrates divulgou uma nota – devidamente replicada pela imprensa - informando que Chico Buarque pretendia conhecer o primeiro ministro de Portugal, aquando da visita deste ao Brasil.
E, para o efeito, lá se deslocou José Sócrates a casa de Chico Buarque;
registe-se que : devidamente acompanhado de um fotógrafo para registar o “boneco” para a posteridade …
Porém, Chico Buarque desmentiu de forma clara, categórica e inequívoca o primeiro ministro de Portugal.
Afinal, fora José Socrates que pretendera conhecer Chico Buarque.
Enfim, mais uma trapalhada, uma das múltiplas e variadas trapalhadas desta inefável criatura que, ainda e agora, é primeiro ministro de Portugal.
Enfim, lá reza o ditado que : é mais fácil apanhar um mentiroso ...

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Modelos económicos, ausência de política – II

Entre as opções de mercado e as opções políticas – onde fica a democracia?

Assiste-se hoje à imposição mediática de um ‘pensamento único’ globalizado, em torno de uma pressuposta inevitabilidade (?) do mercado – deste modo arvorado em intocável eminência sagrada dos nossos dias – por pretensa ausência de uma alternativa social (credível, acrescentam). Tal não obsta, contudo, ao persistente desenvolvimento histórico de duas formas principais de encarar a condução das sociedades:

· de um lado, hegemónicos e esmagadores, os que afirmam o predomínio absoluto do mercado enquanto mecanismo automático de regulação económica, portanto, neutro relativamente aos diferentes interesses em presença, carecendo, em consequência, de ‘rédea solta’ para poder manifestar toda a sua eficácia e isenção (!);
· do outro, ultraminoritários e muito dispersos, os que, face aos resultados actuais, defendem a necessidade de uma alternativa social global ao domínio do mercado, a começar pela aceitação do princípio básico que deve enformar as sociedades, da subordinação da economia – logo, do mercadoà política, e não o contrário, como acontece hoje. Que se expressam de múltiplas maneiras, ainda que sem um rumo muito definido: da ‘economia social’ à ‘economia sustentável’, das teorias ecológicas às teorias do decrescimento económico ou do pós-desenvolvimento, ou ainda às várias correntes marxistas, altermundialistas,...

É certo que nem o mais liberal dos prosélitos do predomínio do mercado se atreve, hoje, a defender a sua total liberalização, prescindindo de alguma ‘regulamentação deste regulador’ (?), afinal a opção por uma maior ou menor regulação é que posiciona o espectro político actual, da direita à esquerda dita socialista (ou social-democrata) – todos coligados na defesa do que já se designa por ‘nova economia de mercado’ (!), a da fase do hipercapitalismo (pelo domínio global e absoluto). A realidade, porém, vem demonstrando as dificuldades ou mesmo a impossibilidade de se colocarem travões a tal mecanismo, de se conseguir, desde logo e para além de todas as pias declarações em contrário, que um modelo económico baseado no mercado possa actuar subordinado ao poder político.

Ainda que involuntariamente, isso mesmo acaba de ser reconhecido pela líder do principal país da UE. Perante o agravamento da instabilidade financeira e depois das promessas não cumpridas feitas há quase dois anos no mais aceso do calor da crise, Angela Merkel lembrou agora, numa conferência sobre regulação financeira, o que então foi proclamado pelos líderes do G-20 sobre a necessidade de reforma da regulação e supervisão. E acrescenta (não sem algum cinismo): ‘As pessoas questionam-se: que poderes ainda têm os políticos?’ Eis, de facto, a questão essencial... para a qual ‘estaUE não tem capacidade de resposta!

Nem podia ter no quadro actual. A aposta crescente num suposto ‘mercado regulado’, surge como uma terceira via entre o liberalismo puro (ou selvagem) e o intervencionismo estatal duro (ou totalitário), ou seja, a tentativa de se estabelecer um controlo indirecto através de uma pretensa regulação independente. Esta alternativa acredita na existência de leis económicas naturais idênticas às leis da física, cabendo aos especialistas a tarefa de as interpretarem e aplicarem à realidade social, e aos reguladores o papel de corrigirem as designadas ‘falhas do mercado’. A política é substituída pela técnica (a dos especialistas e a dos reguladores) e ela própria reduzida a mera técnica na aplicação destas pretensas leis naturais.

Ora, a solução para os problemas do mercado não passa apenas pela sua regulação técnica, mas pelo seu controle essencialmente político, ou seja, pela capacidade que a sociedade conseguir demonstrar em dotar este nível – a política – dos instrumentos adequados de supremacia sobre a economia e não o contrário, como acontece hoje. Insistir apenas na via de regulação do mercado, significa a aceitação implícita, ao arrepio do que teoricamente todos apregoam, da supremacia do económico, por via do mercado, sobre o político – em última análise, do predomínio dos interesses privados sobre o interesse geral ou público.

A avaliar pelas muitas ‘desordens’ que grassam no mundo – do descontrolado terrorismo às obscenas desigualdades sociais,... – a organização social que as segrega (e de que se alimenta) não é, não deve, não pode continuar a ser um “modelo” de sociedade! Mas pretender substituí-lo por um outro baseado na forma ou dimensão das empresas é, no mínimo, despropositado e limitativo do que realmente deve ser considerado um modelo económico.

As mudanças exigidas – e inevitáveis! – dificilmente se resumirão, reafirma-se, à opção pela dimensão das empresas ou dos empreendimentos, entre o apoio às ‘grandes obras públicas’ ou às ‘PME’s’ – elas têm de ser bem mais profundas! Enquanto isso, vão perdurando e fazendo o seu caminho tais equívocos,... encobrindo o alcance real dos verdadeiros pressupostos!

Uns vão bem e outros mal; porque será ???

quarta-feira, 26 de maio de 2010

O(s) Bandalho(s) ...


"Haverá sempre um grupo de bandalhos que
causa o opróbrio a uma nação;
mas alevantar-se-á contra ele uma minoria de homens de bem.
Serão estes, talvez, injuriados;
nunca serão escarnecidos pelo futuro."

( Alexandre Herculano, in Opúsculos )

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Modelos económicos, ausência de política

I - Equívocos e pressupostos

De forma recorrente, o tema vem à baila. De forma mais insistente agora, com a discussão do PEC (depois de revisto e muito aumentado!). A propósito das designadas ‘grandes opções económicas’ nele contidas – a opção essencial, de natureza política, é a de saber quem irá pagar a factura da crise provocada por um capitalismo desgovernado/desregulado! – invariavelmente as posições tanto do PSD como do CDS/PP, acolitadas pela do esfíngico Presidente, questionam o ‘modelo económico’ seguido pelo governo do PS. Fazem-no, contudo, desfocando o problema do essencial, resvalam para uma vertente que, no mínimo, lhe é lateral. Ao pretenderem contrapor a sua política à do Governo, procurando demonstrar que o ‘modelo económico’ proposto por este é errado, acentuam que a tónica se centra nas grandes obras públicas – e no investimento do Estado – ao invés de sê-lo nas Pequenas e Médias Empresas – e no investimento privado!!!

Havendo aqui uma aparência de verdade (essencial para tornar credível a mensagem), subsiste, contudo, uma grande confusão em tudo isto, a que a política económica do próprio governo PS (e da social-democracia em geral) não é alheia. Porque ao privilegiar os mecanismos do mercado (com mais ou menos regulação, conforme o momento assim o ‘aconselhe’ ou ‘exija’), a gestão política de uma significativa ‘carteira de obras públicas’ (destinada, em última análise, a ser satisfeita pelos privados do mercado), tem aberto historicamente a porta a relações de promiscuidade e de favores duvidosos, de que a corrupção é a sua face mais visível. Ainda que isso de modo algum seja específico deste Governo – em regra, ‘a esfera pública tende a parecer um mercado político em que se exerce a concorrência sem peias dos interesses particulares’, lê-se em recente título de Gilles Lipovetsky e Jean Serroy (‘A Cultura-Mundo’) – o certo é que, com o PS, é a esquerda toda que, sobretudo neste domínio específico, ‘parece’ contaminada pela sua acção!

Mas isto, apesar da sua inquestionável importância, serve apenas para desviar as atenções do essencial que deve ser analisado quando se fala em ‘modelo económico’, pela influência deste no desenvolvimento e bem-estar das sociedades. É privilegiar neste debate a forma em detrimento do conteúdo. Até porque as duas opções não são incompatíveis, muito menos excludentes. Coexistem qualquer que seja o modelo. Porque um ‘modelo económico’, base para o desenvolvimento, define-se pelas grandes linhas políticas (sempre, mesmo quando o não parece) que orientam a actividade produtiva do país, quer a nível da fixação das suas áreas e prioridades de actuação, como em termos da repartição da riqueza gerada – neste sentido, a dimensão das empresas não passa de mera estratégia ou meio para se atingirem objectivos, esses sim precisamente estabelecidos por um autêntico modelo económico!

Percebe-se a intenção da direita nesta questão, a discussão está longe de ser meramente semântica. Porque ela esconde a verdadeira razão que leva os partidos dessa ala política a desencadeá-la – sem a designarem pelo verdadeiro nome. O que está em causa é o ataque ao papel que os poderes públicos, expresso num governo político legitimado, deve desempenhar no controle e desenvolvimento da economia (essencial ao bom desempenho das funções sociais), é a desvalorização das funções económicas do Estado em benefício de uma pretensa liberdade económica dos particulares. O que se pretende, no fim de contas, é varrer a política da economia, deixando a organização desta inteiramente entregue e dependente do ‘livre jogo do mercado’, o mesmo é dizer, dos interesses privados, tidos pela ideologia liberal como mais eficientes (logo, também menos corruptos ou passíveis de o ser) na gestão económica.

Estes os pressupostos políticos que se pretendem dissimular por trás de conceitos (aparentemente) técnicos, no mínimo equívocos. A realidade social, porém, mais que todas as concepções ou polémicas, se encarregará de esclarecer e ditar os contornos do modelo económico do futuro. Mas uma coisa pode desde já adiantar-se: dificilmente o essencial desse modelo incidirá sobre a falsa opção entre ‘grandes obras públicas’ e PME’s!
(...)

sexta-feira, 21 de maio de 2010

O discurso ‘patriótico’ de ataque à crise

Temosque mudar radicalmente de vida. O “nosso” nível de vida vai baixar por uns tempos’. Palavras proferidas pelo Presidente da Caixa Geral de Depósitos em recente reunião de banqueiros, sintetizando, aliás, o consenso geral estabelecido entre tão selecta assembleia.

Esta súbita ânsia de ‘colectivização’ revelada pelo conjunto de comentadores que a toda a hora se pronunciam sobre ‘as duras mas inevitáveis’ (!) medidas internas para reduzir a pressão dos ‘mercados’ devido ao risco da dívida da República – amalgamando interesses, caldeando dificuldades, coligando necessidades, confundindo as obscenas remunerações de banqueiros e outros gestores, com o salário médio dos portugueses – visa um propósito, mas é totalmente destituída de objectividade.

Que sentido faz, com efeito, para o português médio – cujo salário ronda os 850€ mensais! – coligar-se com Faria de Oliveira, o autor da frase, ou com o mais badalado António Mexia, numa cruzada pela salvação da Pátria (!), quando o rendimento destes vale largas dezenas (nalguns casos centenas) daquele salário?

Porque é que, por estas alturas, surge sempre o discurso ‘patriótico’ do toque a reunir por parte dos comentadores do costume, que obriga os mais pobres a fazer sacrifícios e os mais ricos a abdicar, quando muito, de alguma futilidade, porventura de menos uma aplicação financeira em qualquer ‘off-shore’?

A confusão deliberada com que os ‘nossos comentadores nos querem convencer da necessidade de medidas que pesam no bolso da maioria do costume, mas apenas belisca a minoria de sempre, serve só e bem os interesses desta!

Piores que os comentadores, só mesmo os especialistas financeiros (economistas e outros), sempre a debitar palpites, a traçar diagnósticos, a ditar receitas. Que, afinal, se resumem à velha solução do mais ‘celebrado’ especialista financeiro que o país teve (e teve-o por mais de 40 anos!), prestidigitador de fancaria, com fama de saneador mas ganha à custa da habilidade manhosa do corte para metade das remunerações dos funcionários públicos!!! O ex-ministro das finanças de Cavaco, Eduardo Catroga, é o mais recente farsante da molhada dos que, agora, advogam o recurso a idênticas mezinhas, sugerindo cortes nos rendimentos dos ‘outros’ – os deles há muito que os têm bem seguros! – como solução milagreira (!) para o aperto actual.

É isso. Quando a política é dominada por especialistas...

Helena Pinto: "quantos pobres cabem num submarino?"

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Especuladores à solta …


Quando rebentou a crise financeira, ouvimos promessas de reformas.
“Nada vai ficar como dantes”, repetiam Obama, Angela Merkel, Sócrates ou Durão Barroso.
Dois anos depois, vemos que era tudo mentira : os especuladores nunca tiveram tanto poder como agora.
Nos últimos meses, o seu alvo tem sido o euro.
Como a bolsa anda mal, os especuladores apostam na desvalorização da moeda única através do ataque à dívida pública dos países mais vulneráveis.
Quanto maior for o risco de bancarrota do país, mais se valorizam os seguros da dívida detidos pelos especuladores.
A Grécia foi primeiro, Portugal está agora sob ataque. Mas os governos que se queixam dos especuladores devem ser os primeiros acusados.
Foram eles que deram liberdade de acção aos abutres do mercado.
A Europa liberal envelheceu obcecada com a moeda única.
Agora, com o euro em risco de ruína, fica à vista que o “europeísmo” dos negócios gez da União Europeia um projecto anémico e dominado pelo egoísmo das elites de cada país.
É necessária uma resposta coordenada da União Europeia e a criação de mecanismos de solidariedade entre os países-membros.
A principal potência económica, a Alemanha, domina hoje o Banco Central Europeu em nome do controlo da inflacção.
Esta prioridade é errada e tem alimentado a crise.
É absurda a situação criada nesta crise financeira, os Estados financiaram os bancos privados com juros baixos.
Depois, os mesmos Estados foram pedir dinheiro emprestado, a juros altos, aos mesmos bancos que antes salvaram.
Para desarmar os mercados especulativos, a Europa deve criar uma agência de notação pública e independente, que avalie as finanças públicas com rigor e transparência.
E o Banco Central Europeu deve poder financiar os Estados, em vez de os deixar à mercê dos tubarões da alta finança.
Entretanto, e até ver, os especuladores continuam à solta ...

(Via : Jornal do Bloco)