terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

(In)Tolerância ...

Um sujeito estava a colocar flores no túmulo de um parente, quando vê um chinês a colocar um prato de arroz na lápide ao lado.
Ele vira-se para o chinês e pergunta :

- Desculpe, mas o senhor acha mesmo que o seu defunto virá comer o arroz?

E o chinês responde:

- Sim, e geralmente à mesma hora que o seu vem cheirar as flores...!!!


Respeitar as opções do(s) outro(s), em quaisquer circunstâncias , é uma das maiores virtudes que um ser humano pode(rá) ter.


É que quando se pensa que se sabe todas as respostas, vem a Vida e muda todas as perguntas ...

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Tinariwen - Música Touareg...

... e a história da luta pela identidade de um povo. Excelente!

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Os tempos que correm ...

«Convencidos da vida há-os, afinal, por toda a parte, em todos (e por todos) os meios.
Eles estão convictos da sua excelência, da excelência das suas obras e manobras (as obras justificam as manobras), de que podem ser, se ainda não são, os melhores, os mais em vista.
Praticam, uns com os outros, nada de genuinamente indecente: apenas um espelhismo lisonjeador.
Além de espectadores, o convencido precisa de irmãos-em-convencimento. Isolado, através de quem poderia continuar a convencer-se, a propagar-se?
(…) No corre-que-corre, o convencido da vida não é um vaidoso à toa.
Ele é o vaidoso que quer extrair da sua vaidade, que nunca é gratuita, todo o rendimento possível.
Nos negócios, na política, no jornalismo, nas letras, nas artes.
Para quem o sabe observar, para quem tem a pachorra de lhe seguir a trajectória, o convencido da vida farta-se de cometer «gaffes».
Não importa: o caminho é em frente e para cima.
A pior das «gaffes», além daquelas, apenas formais, que decorrem da sua ignorância de certos sinais ou etiquetas de casta, de classe, e que o inculcam como um arrivista, um «parvenu», a pior das «gaffes» é o convencido da vida julgar-se mais hábil manobrador do que qualquer outro.
Daí que não seja tão raro como isso ver um convencido da vida fazer plof e descer, liquidado, para as profundas.
Se tiver raça, pôr-se-á, imediatamente, a «refaire surface».
Cá chegado, ei-lo a retomar, metamorfoseado ou não, o seu propósito de se convencer da vida – da sua, claro – para de novo ser, com toda a plenitude, o convencido da vida que, afinal… sempre foi.»
Alexandre O’Neill, in «Uma Coisa em Forma de Assim»

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

A (des)propósito ...

“…Trocadas as descomposturas preliminares, sobre a questão da fazenda,decide-se que é indispensável, ainda mais uma vez, recorrer ao crédito, e faz-se novo empréstimo.
No dia seguinte averigua-se, por cálculos cheios de engenho aritmético que para pagar os encargos do empréstimo do ano anterior não há outro remédio senão recorrer ainda maisuma vez ao país e cria-se um novo imposto.
Fazem-se empréstimos para suprir o imposto, criam-se impostos para pagar os empréstimos, tornam-se a fazer empréstimos para atalhar os desvios do imposto para o pagamento dos juros, e neste interessante círculo vicioso, mas ingénuo, o deficit - por uma estranha birra, admissível num ser teimoso, mas inexplicável num mero saldo negativo, em uma não-existência - aumenta sempre através das contribuições intermitentes com que se destinam a extingui-lo, já o empréstimo contraído, já o imposto cobrado…
Pela parte que lhe respeita, o país espera.
O quê?
O momento em que pela boa razão de não haver mais coisa que se colecte, porque está colectado tudo, deixe de haver quem empreste por não haver mais quem pague."
Ramalho Ortigão, in Farpas ( em : 1882)

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

A propósito de/do carácter …

“ O carácter é constituído por um agregado de elementos afectivos aos quais se sobrepõem, mesclando-se muito pouco a eles, alguns elementos intelectuais. São sempre os primeiros que dão ao indivíduo a sua verdadeira personalidade. Sendo numerosos os elementos afectivos, a sua associação formará variados elementos: activos, contemplativos apáticos, sensitivos, etc. Cada um deles actuará diferentemente sob a acção dos mesmos excitantes.Os agregados constitutivos do carácter podem ser fortemente ou, ao contrário, fracamente cimentados. Aos agregados sólidos correspondem as individualidades fortes, que se mantêm não obstante as variações de meio e de circunstâncias. Aos agregados mal cimentados correspondem as mentalidades moles, incertas e mutáveis. Elas modificar-se-iam a cada instante sob as influências mais insignificantes se certas necessidades da vida quotidiana não as orientassem, como as margens de um rio canalizam o seu curso.Por mais estável que seja o carácter, permanece sempre ligado, no entanto, ao estado dos nossos órgãos. Uma nevralgia, um reumatismo, uma perturbação intestinal, transformam o júbilo em melancolia, a bondade em maldade, a vontade em indolência. Napoleão, doente em Warteloo, já não era Napoleão. César, dispéptico, não teria, sem dúvida, transposto o Rubicon.”
Gustave Le Bon - «As Opiniões e as Crenças»

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

A tecnologia …

“ A tecnologia que inunda o mundo de hoje, e a ciência que a serviu, não o invadem apenas na parte exterior do homem mas ainda os seus domínios interiores.
Assim o que daí foi expulso não deixou apenas o vazio do que o preenchia, mas substituiu-o pelo que marcasse a sua presença.
O mais assinalável dessa presença é por exemplo um computador.
Mas será a obra transaccionável por um parafuso? “
Vergílio Ferreira, in “Escrever”

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

As (minhas) contradições ...

Ora, e como se não (me) bastasse ter insónias e ser fraco de espírito, então não é que, hoje, e durante hora e meia, vou torcer pelo Sporting !!!
Com tantas e tamanhas contradições; triste saga a minha :
- que mais me irá acontecer ???

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

O êxodo dos gestores do BES …

( Hipotético carro transportando para estrangeiro gestores afectados com esta “diatribe” governamental )
“Esta taxação atinge muita gente dentro do BES, não só gestores de topo e poderemos ter gente muito valiosa a sair do país para ir trabalhar para outro”
( disse Ricardo Salgado durante um almoço promovido pela Associação Industrial Portuguesa - Confederação Empresarial (AIP-CE), em Lisboa ).

Não fiz, não faço, nem façarei !..

Disse o Presidente que não faz declarações sobre a vida dos partidos, acrescentando:

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Candidato independente, Presidente incómodo!

Ouviu-se no último ‘Quadratura do círculo’ (esse mesmo, o do inamovível, do vitalício Pacheco Pereira!) o argumento decisivo à defesa, embora a contragosto, da candidatura de Manuel Alegre à Presidência da República. Como (quase) sempre, ‘cheguei’ tarde ao programa, a cerca de 5 minutos do seu termo, mais precisamente ao minuto 45, marcava o relógio da SIC/N. A tempo de escutar Lobo Xavier (outro dos residentes, ainda longe da ‘eternidade’ do Pacheco, mas para lá caminha), afirmar que ‘este’ candidato, pela sua personalidade, ‘irá ser sempre um problema, para o PS e para o BE’, evidenciando assim (ainda que de forma ínvia e não propositada) a maior independência deste face aos diferentes actores e potenciais suportes da sua candidatura – aquilo que, afinal, faz a força de um Presidente da República, a sua isenção partidária.

Já não bastavam os mais de um milhão e 100 mil votos obtidos nas anteriores presidenciais, à margem de qualquer apoio e estrutura partidárias, faltava agora a prova de que este tipo de apoios (já certo o do Bloco, previsível o do PS) podem vir a demonstrar-se contraproducentes – mas para os apoios! Aviso que surge quase em jeito de recomendação, como quem diz: ‘Cuidado, este candidato não é de confiança, é independente’! Faz lembrar a celebrizada boca do ‘Coelhone’ inúmeras vezes glosada no ‘Contra Informação’, ao manifestar a ‘sua’ falta de confiança em todos os que não fossem filiados (ou arregimentados?) no PS: ‘estes independentes são muito imprevisíveis’!

Este súbito desvelo com que a direita parece querer olhar pelos interesses da esquerda seria deveras enternecedor, não fora tão denunciado, pois não consegue esconder os propósitos que a anima. Porque, logo a seguir, os dois (Xavier e Pacheco) mal conseguiram disfarçar o incómodo pela disponibilidade manifestada por Alegre para se candidatar (até agora é ao que se resume a sua candidatura), ao afirmarem que se Cavaco Silva tinha dúvidas para avançar como candidato, essas dúvidas desvaneceram-se perante tal anúncio. O que não deixa de ser curioso e particularmente sintomático por parte de quem, momentos antes, formulara tantas cautelas em resultado da ‘independência’ do candidato, sem perder o ensejo de manifestar sobranceiro desdém pela fragilidade da candidatura.

É que, depois do burlesco (ou pretensioso?) dramatismo que rodeou o episódio do ‘Estatuto dos Açores’; da pantomina montada em torno das ‘escutas’ (género ‘gato escondido com o rabo de fora’); das ‘tiradas técnicas’ a envolver mal disfarçados apoios políticos tão do agrado dos seus apaniguados; das insuportáveis manifestações de falta de gosto (aquela delambida ‘cena’ das vaquinhas a caminho da ordenha! – embora gostos não se discutam!) e de cultura (o que já é mais grave!) – só faltava mesmo que nos saísse um Presidente independente, ainda por cima prezando a cultura, que é coisa que vai escasseando e faz muita falta!
(Cultura? Quem precisa dela?)

Haverá tempo para se voltar ao assunto, pois ele ainda só agora começou. Para já fica apenas o breve registo da disponibilidade manifestada por um candidato independente que a direita se apressou já a apresentar como incómodo à esquerda!
Hum...!

A (minha) fraqueza de espírito …

Eu, declaro para todos os efeitos – necessários e convenientes - que tenho conduzido este Jeep ( da fotografia e cuja matricula é : SCP 1) algures, e por aqui, nos EUA ...
Começo, assim e por isso, a ficar seriamente preocupado comigo mesmo, sendo que continuo fiel ao Glorioso, do qual sou Sócio, Titular de Cativo/Fundador e Accionista da SAD do Benfica.
Afinal, tudo não passou, mesmo e só , de uma “fraqueza de espírito” devidamente patrocinada pelo meu Amigo, o Luís Melim, o (meu) anfitrião e fanático Sportinguista !!!

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

As insónias …

Têm sido múltiplas as vezes que tenho visitado os Estados Unidos da América mas nunca, e como desta feita, havia tido tantas e tamanhas insónias …
Eu que, felizmente, nunca fui dado a tais anomalias.
Associei, no entanto, esta perturbação ao facto desta ser uma viagem algo diferente de todas as outras :
- vim acompanhado e regressarei sozinho …
Enfim, assim quis o destino – ou lá o que isso, do destino, possa ser – que a minha filha fique, algures e por aqui, a prosseguir estudos …
Mas, analisando as razões e os porquês de tantas e tamanhas insónias, acabei por chegar à simples conclusão que, afinal, o único responsável por tal anomalia só pode(rá) ser, mesmo, o meu simpático anfitrião … que é, nem mais nem menos, um refinado Sportinguista …
Então, não é que o meu velho e bom Amigo, o Luís Melim, me pôs a dormir num quarto em que uma das paredes está decorada (?) com tantos e múltiplos cachecóis do SCP ?..
Ora, para mim, Benfiquista confesso, tal decoração (?) só poderia, mesmo, resultar nisso :
- em perturbação !!!

sábado, 23 de janeiro de 2010

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Da tragédia à farsa, uma história que se repete (2)

Da tragédia lusa à farsa mundial

Estes factos recentes – outros certamente se seguirão... – que parecem enquadrar um bem afinado coro de cassandras, não surgem agora por acaso. Seria de esperar, no entanto, que diagnósticos tão próximos e que prognosticam eminentes catástrofes, resultassem na imediata explicitação de medidas concretas para reverter a 'explosiva situação' em que o país se encontra. Mas para além de partilharem todos a opinião comum de que ‘as grandes obras públicas’ devem ser travadas – a única proposta concreta que ousam adiantar – o que sobra deste conjunto de posições tidas por cívicas, esgota-se no propósito obsessivo da contenção do déficit público. Muito além do que aconselharia um saudável equilíbrio das contas públicas.

Desde logo se diga que – e sem recurso a qualquer teoria da cabala, ela não é precisa aqui para nada, pois o coro já antes se manifestava afinado sem precisar de ensaios – o que está em causa, é retornar à mesma linha de rumo abalada e, por momentos, parecendo interrompida pela crise. Ledo engano, ‘abalada’ e ‘interrompida’ apenas na aparência, porque passado o susto, refeitos os prejuízos pelo ‘monstro’ Estado – por conta de quem se exorcizam todos os demónios que impedem a doce felicidade do homem (garantida pela fidelidade à já atrás referida ortodoxia neoliberal), mas a quem logo se recorre em caso de fera aflição – tudo então parece retomar o modo ‘normal’ da vida!

À margem destes propósitos e movimentações, importa então acentuar, também aqui, o falso dilema em que se pretende aprisionar a iniciativa do Estado, impedindo-o de intervir na economia, sob pretexto de uma elevada dívida pública (bem desmontado nos ‘blogs’ da especialidade: Ladrões de Bicicletas, O valor das Ideias,...). Pois esse é seguramente o modo mais rápido de se cair na depressão económica e, na sequência, na ‘instabilidade social’ (elevado desemprego, contracção forte da procura interna, degradação das condições de vida da população,...), insustentável a longo prazo, como parece ser o tempo esperado para a situação de emergência social e económica, com que se passou a designar o tempo desta crise.

O verdadeiro dilema, entretanto, não passa ‘apenas’ e sobretudo pela maior ou menor capacidade financeira do Estado, mas por opções políticas condicionadas por esta organização social – de que o Estado é garante – vitais para o actual modo de vida e para o futuro das sociedades. Que, na esfera económica, passam pelo urgente questionamento do paradigma do crescimento contínuo, impondo-se uma completa inversão das políticas de gestão dos recursos: humanos (política laboral apostada em garantir o acesso ao trabalho); materiais (política produtiva visando uma alocação estratégica dos investimentos, da produção básica à especialização produtiva, o acesso generalizado à tecnologia,...); da conservação (política ambiental voltada para a sustentabilidade); da distribuição (política retributiva, assegurando uma melhor repartição da riqueza). Sem esquecer a origem imediata da crise na desenfreada desregulamentação com que se pretendeu ‘eliminar’ o Estado da vida económica.

Muitos, pois, com mais competência na matéria, o vêm afirmando: colocar o investimento em alternativa ao déficit não parece constituir opção política válida, desde logo atendendo às condições específicas do momento presente em que se impõe acudir a toda a envolvente da crise actual – porque importa actuar antes de mais na busca de soluções para atenuar as suas consequências (já que, quanto às causas que a determinaram e à forma de lhes responder...). Mas tão pouco constitui, sequer, alternativa real, pois na verdade o que se tem verificado é que a obsessão do déficit ao longo de toda a década passada serviu sobretudo de argumento para:

- impedir uma política de investimentos públicos – indispensável para reduzir um pouco a fragilidade da posição económica do país e das suas estruturas, da baixa qualificação (sobretudo em gestão e organização, principal pecha do atávico déficit de produtividade), à dependência energética (principal causa do estrutural desequilíbrio comercial);
- ‘emagrecer’ a política social – reduzindo os já muito atrofiados benefícios básicos concedidos, com isso contribuindo para aumentar as desigualdades e as gritantes disparidades do rendimento;
- impor uma política fiscal especialmente adaptada para servir as grandes empresas – sob pretexto de pretender evitar a fuga de capitais, quando não mesmo de beneficiar as PME’s.

Falar agora do déficit para continuar a impedir-se o investimento e a condicionarem-se as restantes políticas, já não é apenas uma tragédia, é mais a continuação da farsa. A nível global!

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Da tragédia à farsa, uma história que se repete (1)

Da tragédia grega à farsa lusa

Primeiro foi o PR, na mensagem de Ano Novo, ao falar da possibilidade de o país cair numa ‘situação explosiva’. Depois, o estudo de um dos principais bancos, ‘ameaçou’ com a entrada numa ‘trajectória explosiva’. Até as declarações à saída do Palácio de Belém de ‘um-cidadão- que-pediu-para-ser-recebido-pelo-Presidente-da-República’ (foi essa a qualidade invocada por João Salgueiro!!) para lhe manifestar preocupação pelo ‘discurso cor-de-rosa’ do Governo, por contraponto com a séria ameaça do ‘exemplo’ da Grécia!!! Já antes se tinham ouvido os alertas lançados pelo Governador do Banco de Portugal. Pelo caminho, as diversas agências de notação internacional – as mesmas na origem da crise e dos avales que a precipitaram – falando de ‘morte lenta’ e ameaçando (sem aspas) rever em baixa o ‘rating’ da dívida pública portuguesa caso não sejam tomadas medidas para baixar o déficit das contas públicas – procurando, por esta via, redimir a sua própria credibilidade?

As conclusões do estudo do BPI, apresentado com pompa e circunstância pelo presidente do Banco, de que ‘a dívida pública entrará em trajectória explosiva caso não se adoptem medidas de redução da despesa pública’, resultam num exercício vistoso, mas de utilidade dúbia. Desde logo, qual o valor real de projecções efectuadas para 2040, a mais de 30 (!) anos? Será que os seus promotores terão estimado o impacto dos fenómenos e imprevistos que poderão/deverão acontecer ao longo das próximas três décadas, a avaliar tão só pelo que ocorreu nas duas que as antecederam? Qual, pois, o verdadeiro sentido de um estudo elaborado com base em dados de partida – recursos, tecnologia, ambiente, política,... – que se sabe arrastarem uma dinâmica tal que seguramente não serão os dados de chegada? E – mais importante ainda – quais as prioridades políticas por trás dos déficits que conduziram a este nível da dívida?

Feitas as contas, não pode excluir-se que este tipo de exercícios, sob a diáfana capa da sempre conveniente ‘neutralidade empresarial’ ou técnica, prossiga propósitos políticos (partidários mesmo, afinal tudo é político!). Semelhantes ao que motivou aquele conjunto de empresários promotores do estudo sobre o aeroporto de Lisboa, que levou à sua transferência da Ota para Alcochete (opção no mínimo discutível – pelo menos na perspectiva de João Cravinho e outros, baseados em critérios de ordenamento do território – mas não vou por aí, por mim basta que ‘ele’ saia de Lisboa, por razões ambientais e de segurança!). Alguém acredita que o fizeram ‘apenas’ por nobres razões altruístas ou filantrópicas? Ou, dito de outro modo, alguém pode garantir que o interesse público ficou assim melhor defendido?

No mesmo tom surge agora este estudo numa altura em que a grande opção a tomar na área económica, com implicações imediatas no OE/2010, parece centrar-se nas ‘grandes obras públicas’: aeroporto, TGV, auto-estradas,... Estes são, aliás, os únicos factos relevantes, a concretizar no futuro, introduzidos no modelo estatístico que serviu de base ao estudo e donde se retiram as conclusões que corroboram a visão catastrofista do PR na sua mensagem de Ano Novo. Não será, pois, abusivo concluir-se vir reforçar a oposição (PR incluído) às ditas obras públicas. Pelo efeito, dizem, de agravamento do já muito elevado nível de endividamento do País que os investimentos para tal necessários irão provocar, sem evidência clara de se tratar de obras com retorno seguro dos financiamentos envolvidos. Tanto mais que, rematam, aí mesmo à porta, o exemplo da Grécia, na eminência de um ‘blackout’ financeiro internacional, precisamente pelos níveis insustentáveis da sua dívida!

É certo que a dívida pública consolidada (contando com a das empresas públicas) atingiu níveis elevados e preocupantes (não são só os PR que podem usar a palavra!) e, portanto, estas tomadas de posição deveriam considerar-se um aviso no sentido de alguma prudência na despesa (incluindo a de se avaliarem bem os benefícios das ditas ‘grandes obras públicas’). Que não haja ilusões, porém: estes avisos têm sobretudo como finalidade justificar e preparar o ‘consenso’ nos partidos do centro para a adopção de medidas (de imediato no OE/10) que, de acordo com os parâmetros da ‘normalidade’ imposta pela ortodoxia neoliberal, visem a contenção da despesa pública (e o consequente desagravamento da dívida). O que, neste enquadramento político, significa maior agravamento das condições de vida das pessoas (seja por via das restrições nas prestações directas do Estado, seja indirectamente através da degradação das prestações sociais). A surpresa de Fernando Ulrich aos reparos de Sócrates às conclusões deste estudo é, deste ponto de vista, por demais elucidativa...

(...)

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Ano Novo, velhas utopias (2)

A utopia conservadora contra o progresso

Por estes dias, porém, a utopia que mais se tem imposto ao País é a utopia conservadora, a que tudo aposta na manutenção, ‘a ferro e fogo’, da ‘moral e dos bons costumes’ como única via para a felicidade do homem. Porque para os seus prosélitos, não basta a defesa racional dos seus pontos de vista, exige-se a sua imposição aos ‘infiéis’ (pelo recurso aos meios condizentes com cada época – desde a tortura e até a guerra,... ao referendo). Por eles ainda hoje existiriam escravos, a inquisição, a mulher arredada do voto e subordinada ao ‘chefe de família’, a exclusão dos católicos ao divórcio civil, a penalização do aborto, a superioridade do ‘homem branco’,... Porque todas estas causas foram, nos seus respectivos tempos e diversificados lugares, objecto de furiosas campanhas idênticas às que, hoje, são desencadeadas contra o ‘casamento entre pessoas do mesmo género’.

O derradeiro argumento ouvido da boca da arvorada promotora destas ‘causas’ (na questão do aborto, agora no casamento homossexual,...), é que deve auscultar-se a opinião das pessoas sobre este assunto através de referendo, enquanto expressão da democracia participativa (!!), uma vez que – pasme-se! – a democracia representativa mostra-se esgotada (!!!). De uma assentada pugna-se pela ‘moral e os bons costumes’, esgrimindo no próprio campo da esquerda política (avessa, por natureza, ao reaccionarismo de tais causas) conceitos que lhe são caros.

A caricatura com que a D. Isilda Pegado não tem pejo de tratar a ‘democracia participativa’, recorrendo ao reducionismo canhestro da sua equivalência à consulta referendária de âmbito nacional (distante, por exemplo, das consultas locais sobre assuntos concretos de interesse para as populações), junta-se assim à estratégia oportunista de apostar num referendo por sabê-lo ganho à partida, devido ao peso do apoio explícito das ‘igrejas’ – ademais, sobre a manutenção de discriminações em direitos fundamentais de minorias sociológicas. Ora, num país que se afirma de coração católico (por tradição e mentalidade), mesmo que de alma pouco praticante... O ‘pormenor’ de não vir a ser vinculativo, por não atingir quase de certo os 50% de votantes exigidos, pouco afectaria a estratégia.

A luta pela urgente transformação social – também ela, de algum modo, uma utopia em permanente ‘actualização’ – passa, e muito, pela queda de todas as formas de discriminação, mesmo a que se acoita no sacrossanto e inviolável castelo da ‘moral e dos bons costumes’. Por isso também a de mais difícil trato, porque envolve entranhados preconceitos e sedimentadas falsas verdades absolutas. Tarefa sempre inacabada, como ainda agora se provou: a lei agora aprovada no Parlamento sobre o casamento entre pessoas do mesmo género, exclui, para já, o direito a adoptar pelos casais assim constituídos. Idiossincrasias (ou fragilidades?) de uma democracia com dificuldade em se afirmar plenamente?

Ainda assim, o passo dado demonstra-se determinante no objectivo de acrescentar um pouco mais de felicidade a uns poucos – sem precisar de beliscar a de mais ninguém. Trata-se, afinal, da primeira e mais universal utopia do Homem, a que atravessa toda a sua História! Porque é a felicidade, no fim de contas, através do grau de satisfação global e geral conseguido (global na abrangência dos aspectos, geral pela inclusão do maior número de elementos), que marca e caracteriza o progresso das sociedades.

Tarefa sempre inacabada, repito, mas indispensável para se prepararem as condições, mentais e materiais, com que se constrói a dinâmica do Progresso.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Ano Novo, velhas utopias (1)

Ideais universalistas contra os fundamentalismos exclusivistas

Nesta altura do ano temos por salutar hábito transmitir uns aos outros o desejo de uma vida melhor, por vezes mesmo sabendo-o de difícil ou mesmo impossível realização. Fazemo-lo, em regra, por convicção (ainda que por conta da tradição), esperando com esse gesto fortalecer a ‘boa onda’ gerada pela longa cadeia de votos formulados em torno de desígnios tão sublimes quanto difíceis de prosseguir (no seu conjunto e sem discriminações), como o são a paz, a saúde, a amizade, a solidariedade, a prosperidade,... Desígnios que afinal constituem a mais velha e universal utopia da Humanidade, a que mais sensibiliza e tem mobilizado o Homem, qualquer que seja o sítio, o momento ou as circunstâncias. Que atravessa religiões, ideologias, simples movimentos filantrópicos. Na busca, em suma, da felicidade de todos. O generalizado acordo na sua aceitação, porém, não consegue evitar complacentes sorrisos caso alguém se proponha a sua realização global. Afinal utopia é isso mesmo, representa um ideal de sociedade, um modelo alternativo às sofridas condições da existência, mas dificilmente se adapta à realidade concreta.

Esta é a utopia que agrega sem discriminar nem excluir. Que não atiça proselitismos porque, em lugar de se constituir contra alguém, faz da vida a sua única religião. Que pretende acrescentar, sem que isso implique reduzir nada a ninguém. Ao contrário de outras que, eivadas de um espírito sectário de cariz religioso ou ideológico, apostam no interesse egoísta, na exclusão do ‘outro’ e na discriminação da diferença.

O fundamentalista islâmico faz o que faz, incluindo actos terroristas, porque acredita poder vir a realizar, através desses actos, a ‘sua’ utopia, a de rumar aos céus onde o esperam largas dezenas de virgens e uma eternidade de... felicidade! O fundamentalista liberal alimenta, também ele, uma utopia, o sonho da ‘sua’ imensa liberdade individual, cujos limites seriam ditados apenas pela liberdade dos outros. Felicidade pessoal, pois, mas à custa do sacrifício de muitos!

Mas enquanto a realização da utopia islâmica é transposta para ‘uma outra vida’, a celestial, a da utopia individualista pretende ser realizável já nesta, na terrena. E isso porque a base de partida é essencialmente diferente: a utopia individualista impregna o capitalismo dominante, a utopia islâmica domina povos humilhados e explorados. Se alguma vez esta situação se invertesse, talvez pudéssemos então assistir à adaptação terrena da teoria religiosa das virgens e, em contrapartida, ao ressurgimento do abominável terrorismo por entre as incensadas hostes liberais (já nem seria facto inédito!).

A formulação da utopia individualista é, por si só, uma impossibilidade prática, já que as zonas de fronteira entre as liberdades de cada um são tão sensíveis que o potencial de conflitos e a sua resolução implica a existência prévia de um critério ou a intervenção de um terceiro com capacidade e aceitação nas partes para, de forma isenta, se poder regulamentar e dirimir conflitos. Daí a visceral aversão dos ‘liberais’ ao Estado e às suas instituições, dado ser ele que, por regra, detém esse poder arbitral.

Entre o exclusivismo discriminatório proposto pelas utopias fundamentalistas (de cariz religioso, ideológico ou outro) e o universalismo dos ideais que, pelo menos por esta altura, todos os anos revisitamos, a escolha não parece difícil de fazer. Pelo menos para os ‘homens de boa vontade’. E mesmo que seja apodada de utópica!

(...)

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Feliz 2010 !!!

Se o Calendário não estiver enganado, mais logo, às zero horas, entramos em 2010.
Pois, e para 2010, os Votos de muita Solidariedade, Amor, Amizade, Saúde, Paz, Pão, Habitação ... e muitas Lutas e outras tantas Vitórias !!!

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

O dilema civilizacional que condiciona o emprego

Há qualquer coisa de perverso nas políticas económicas desenvolvidas por todo o Mundo para fazer face à crise, pois aquilo que todos parecem encarar como solução incontornável para lhe fazer frente, afinal demonstra-se, a longo prazo e nas condições actuais de funcionamento das sociedades (que já por mais de uma vez abordei), ser a fonte dos problemas com que presentemente se confrontam.

A maior preocupação actual dos governos de todo o Mundo, pelo menos nos discursos públicos, é a de procurarem criar empregos para fazerem face aos destruídos pela crise. Desdobram-se em esforços na elaboração de programas e na busca de investimentos, públicos e privados, tendo em vista apoiar as empresas, esperando, por via destas, impulsionar o emprego. Uma das áreas que tem vindo a ser mais estimulada nesses programas económicos, elaborados um pouco por toda a parte para combater o desemprego – uma séria ameaça à estabilidade social! – é, a par da educação e da formação profissional, a de promoverem a investigação, como forma de se ‘inventarem’ novos empregos. Ainda agora, em França, o governo de Sarkozy anunciou aquilo que a imprensa designou por um ‘megaplano de investimentos’, precisamente orientado nesse sentido: ele é, ‘apenas’, o maior das últimas décadas!

Por detrás destes programas a convicção de que só será possível ultrapassar a crise se forem criadas/inventadas novas ocupações económicas capazes de suprir os empregos desaparecidos, que todos consideram já definitivamente extintos. O objectivo é, invariavelmente, ganhar posições na competitividade externa, descobrindo, produzindo e comercializando aquilo que ainda ninguém antes se tinha lembrado de fazer – preencha ou não funcionalidades socialmente úteis (desde que venda...!). Esperando, deste modo, ficar até melhor defendidos para as próximas crises...

A importância estratégica destas prioridades não oferece contestação, sejam quais forem as circunstâncias ou as situações, tanto no presente como também já no passado, em Portugal como na França ou na China, ainda que ganhem especial acuidade agora face à pressão social que resulta dos níveis generalizados de desemprego. Com a natural especificidade geográfica e histórica de cada situação concreta. Mas a lógica que explica a razão de ser de tais opções, inserida na dinâmica de progresso que acompanha o homem, determina também, como resultado natural dos desenvolvimentos técnicos conseguidos, a consequente redução do esforço humano aplicado no trabalho.

Contudo, a realidade está longe de se ajustar ou subordinar às determinações da lógica. Pois aquilo que se apresentaria, então, como resultado natural de um processo de substituição do esforço individual das pessoas (o trabalho manual) por uma crescente intervenção das máquinas e da inteligência artificial, esbarra não nos limites da técnica mas nos interesses particulares dos grupos sociais que dominam a organização social do capitalismo através de condições específicas impostas a nível mundial: globalizada no seu nível económico, mantida nos limites nacionais a nível político – o que permite todo o tipo de chantagem com base na constante ameaça da ‘deslocalização de empresas’! Daí assistir-se hoje, no campo laboral, a situações aparentemente contraditórias ou mesmo absurdas (por vezes até na mesma empresa!!!), de pressão/imposição patronal de alargamento dos horários de trabalho, a par... do aumento do desemprego!

A redução do esforço humano na produção de bens e serviços (para além do incremento da produtividade e da riqueza) é o resultado natural e inevitável da investigação/inovação e seus consequentes avanços tecnológicos, pelo que ganha consistência um autêntico dilema civilizacional, de resolução quase impossível no imediato, dadas as referidas condições económicas e políticas mundiais: ouesta’ organização social muda e se adapta ao progresso técnico, ou a precariedade do emprego e o desemprego terão tendência para aumentar para níveis cada vez mais socialmente insustentáveis.

No fim de contas, o futuro do emprego, para além de todos os bem intencionados esforços em o redimir, encontra-se, em última análise, preso da resolução deste dilema!

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Boas Festas !..


Para Tod@s e Cada Um(a) os Votos de Boas Festas

sábado, 12 de dezembro de 2009

Copenhaga na Crise global

Incertezas, insatisfação, oportunidades...

Apesar das tentativas oficiais pretenderem fazer crer que o pior da crise já passou, verdadeiramente ninguém parece fazer fé em tanto optimismo, tenha ou não já sido afectado, directa ou indirectamente, por ela – e não, não fica a dever-se ao descrédito das fontes! Tudo, afinal, se resume à dura e crua realidade. À realidade sentida, percebida ou até mesmo só intuída pela esmagadora maioria das pessoas. Em Portugal, seguramente (afinal o mal já vem de longe e a instalada anemia parece não ter cura), mas também um pouco por todo o Mundo!

Longe estão de se encontrar assegurados, sequer delineados ou em vias de o ser, os prometidos mecanismos de regulação e outros (quando no auge do perigo se temia o pior, e o pior era mesmo a derrocada do sistema!), destinados não só a resolver a crise, como sobretudo a evitar a sua repetição. Certo, os mesmos desejos, os mesmos propósitos haviam já sido formulados – e tentados – em ocasiões anteriores, sempre com os mesmos pífios resultados. Expressivos apenas na insatisfação, no desespero, no medo, na humilhação a que se reduz a incerteza e a crescente sensação de vidas permanentemente adiadas, sem perspectivas de qualquer futuro.

À tese dos que consideram e insistem (eles lá saberão porquê) que isso resultou sobretudo devido à ganância, perfídia, desvios de carácter ou quaisquer outros desvarios dos detentores do poder, económico e político, tenho vindo a contrapor a de que, não descurando tais aspectos, circunstancialmente importantes, o essencial se deve procurar antes no carácter predador do próprio sistema, cuja lógica de funcionamento, baseada na expansão contínua, ameaça arrastar tudo e todos na sua derrocada. De tal modo que a grande preocupação (ou esperança, conforme a perspectiva), porventura a única, que por estes tempos todos apregoam como forma de se ultrapassar a crise e devolver os empregos perdidos, reside na miragem do ‘crescimento económico’, tido como indispensável para inverter uma situação em contínua degradação.

Também por estes dias decorre em Copenhaga, promovida pela ONU, a Conferência das Alterações Climáticas, a 15ª tentativa de se encontrar uma fórmula, vertida num compromisso à escala global, que permita contrariar ou mesmo evitar as consequências nefastas, potencialmente catastróficas, que o rápido aquecimento do planeta provocado pelo efeito de estufa – em resultado da acção do homem, já não há volta a dar-lhe! – irá desencadear sobre toda a vida na Terra. Aparentemente, pois, os objectivos do que se discute em Copenhaga conflituam com os da tradicional via de desenvolvimento, uma vez que tem sido ‘este’ (dito imprescindível) crescimento económico, movido e dominado pelo motor da expansão capitalista, o principal responsável pela difícil, e porventura já irreversível, situação geoambiental (não é só climática) em que o Mundo actualmente se encontra.

Os mais optimistas parecem depositar uma fé inabalável numa ilimitada (!) capacidade tecnológica para a inverter e impedir as catástrofes que se anunciam (e salvar o Mundo do precipício, nem que isso aconteça só no último momento!), indo até muito para além do que permitiria deduzir-se de uma pretensa neutralidade da técnica face aos interesses dominantes (o que, como se sabe, é irrealista pensar-se). Certo é que o tempo escasseia e a eficácia de uma acção oportuna cada vez se apresenta menos provável.

Ora, no clima de profunda crise económica instalado a nível global (com todo o rol de incertezas, de insatisfação, de humilhações,... de abertura à mudança) e perante o grau de confiança permitido pelos dados que a ciência já dispõe sobre os efeitos das alterações climáticas, uma convicção parece afirmar-se: nunca como agora se reuniram condições tão favoráveis à denúncia dos responsáveis por este estado de coisas e à consequente desmontagem dos mecanismos sociais que o propiciaram (incluindo o perverso desaproveitamento da capacidade científica e técnica – perverso até na perspectiva do próprio sistema!).

Resta então saber, para além dos discursos e dos compromissos oficiais, até onde irá ser possível aproveitar-se esta oportunidade para se repensar o funcionamento do nosso actual modo de vida e se tentar esboçar um novo modelo de organização social; até onde nos será permitido contestar algumas verdades tidas como absolutas e resgatar-se o sopro de esperança num outro futuro, num futuro alternativo ao que nos querem impor!

Utópico? Talvez, mas... que futuro sem utopia?

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

A bandalheira ...

É andando nos transportes públicos – uma “coisa” que governantes, chefes de gabinetes, assessores e quejandos da/na orla do poder não utilizam, pois fazem-se transportar em lustrosas “bombas”, com direito a motorista e pagos pelo erário publico – que se ausculta o sentir, o pulsar do pensamento da (nossa) “populis” …
Acabei de assistir a um hilariante diálogo entre um casal de idosos que se sentaram, no Metro e à minha frente, enquanto eu desfolhava o “Metro” que, ironia das ironias, traz em titulo de primeira página “Portugueses desconfiam (e muito) dos políticos”
E todo este arrazoado, afinal, a propósito da entrevista que esta noite a RTP faz o favor de fazer – será encomenda (?) - ao arguido do/no processo “Face Oculta”, o cidadão Armando Vara.
Dizia a “velhota” para o “velhote” :
-« então, é logo à noite que o Vara dá a entrevista, não é?»
- « isto é uma bandalheira », responde-lhe o “velhote”
E, de novo, a “velhota” :
-«então, não está tudo em segredo de justiça ?»
Responde, de novo, o “velhote” : « é uma bandalheira »
Eis, entretanto, que o casal se levanta para “desembarcar” e, assim e com muita pena minha, não assisto ao resto do pertinente diálogo.
E, assim, dou comigo a pensar no seguinte:
- pese embora perceber o critério de oportunidade jornalística, como é de facto possível que a RTP se “preste” a fazer uma entrevista a Armando Vara.
O sucesso da entrevista dependerá, naturalmente, do teor das perguntas que Judite de Sousa proferirá.
Antecipo, com os ricos daí decorrentes, o que irá acontecer na dita-cuja entrevista.
A estratégia de Armando Vara – tal como, ainda e muito recentemente ocorreu com Dias Loureiro -, será clara.
Clamará por inocência; e se, por parte da entrevistadora, houver lugar a perguntas pertinentes dirá que não pode(rá) responder por ser matéria de “segredo de justiça”.
Uma coisa é certa.
Tal como laconicamente respondia o “velhote” :
«é uma bandalheira.»
Acrescento eu que :
para haver bandalheira é condição necessária a existência de bandalhos
E, para mim, Armanda Vara é isso mesmo :
- mais robalo, menos robalo : um b-a-n-d-a-l-h-o ...

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Pedro Barroso : 40 anos de música e Palavras ...

Parece que foi ontem amigos.
Uma vida de sonho que me deram.
Uma vida de causas e destemor.
Uma vida de altos e baixos, com incompreensões e injustiças, mas também com êxitos e aplausos.
Destinado a ser professor, tudo começou no velho programa Zip Zip, onde há 40 anos recebi o meu primeiro cachet por actuar em Televisão.
Era ainda uma criança, acho eu. Mas mudou a minha vida.
Se hoje aqui estou, tanto tempo depois, testemunhando o vosso calor humano e a vossa atenção, é graças a esse episódio e à minha luta, feita de insistencias dificeis.
É graças também à vossa atenção e à vossa estima que o devo.
Ninguém tem êxito sem ter quem o aprecie. Ninguém vende o que ninguém quiser comprar. Ninguém circula por onde não houver caminho.
Que digo eu? Muitas vezes consegui circular sem haver estrada. E fiz a pulso as escarpas de um escrever e cantar que nunca andou pelas autoestradas da facilidade. Disco a disco, em editoras pequenas e alternativas. Palco a palco, arrostando com condições que não eram as ideais. Por sitios que não lembra ao diabo fazer espectaculos ali. Frente a um povo ora evoluido e atento, ora distraído e boçal.
E comentei para mim mesmo, surdamente, os dias maiores e os de amargura. E arqivei na memória tudo, desde as paisagens, aos romances de estrada, aos músicos que já partiram, aos petiscos regionais, aos solavancos do caminho.
Este próximo ano de 2009 - quarenta anos de estrada e palcos deixados para trás - quero compartilhar convosco esse louco e profundo conviver. Esse profundo viver português, em que desafio o mais pintado a ter estado lá, onde eu estive e cantei e toquei, ao longo de milhares de horas, milhares de quilometros, milhares de abraços, milhões de notas e palavras.
Espero em 2009 fazer uma tournée nacional que justifique e consolide uma vida que escolhi.
Mas para isso vos peço que se mobilizem localmente e me ajudem a satisfazer esse desejo de chegar - num folego que ja me vai faltando...- a estar em toda a parte onde valha a pena.
Celebração de mim com a vossa cumplicidade maior.
Afinal, como tudo sempre foi.
Por isso o meu imenso obrigado.
O velho trovador ainda está de pé e nunca se venderá, eis a minha única forma de vos agradecer.
Pedro Barroso
PS : Pedro, eu vou lá estar ...

domingo, 29 de novembro de 2009

Weird & Wonderful !..

O Boletim Estatístico do mês de Novembro, publicado pelo Banco de Portugal, revela que 2009 poderá ser o ano em que os portugueses mais investiram em paraísos fiscais.
Ler mais
(Via : Esquerda )

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Antes da dívida temos direitos !..

Lançada por várias Associações de Trabalhadores Precários – FERVE, Plataforma dos Intermitentes do Espectáculo e Audiovisual e Precários Inflexíveis - decorre uma petição com vista a acabar com as injustiças nas contribuições para a Segurança Social, a qual pode ser subscrita AQUI.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Um País em transe?

Ouviu-se no último ‘Prós e Contras’, um desorbitado penalista apregoar: ‘O país está em transe para ouvir as escutas!’. Para ouvir, esclareça-se, não o conteúdo das escutas supostamente efectuadas para detectar corrupção, mas apenas ‘o pormenor’ em que um estouvado 1º Ministro (Sócrates), presumidamente (?) é ‘apanhado’ a falar sobre uma destrambelhada ‘jornalista’ (MMGuedes). Não fora o tom hiperbólico da bramida diatribe e o assunto não passaria de mais uma tirada no longo rol de acusações canhestras e defesas obtusas com que um país, de facto posto em transe com tais desaforos, quotidianamente se vê obrigado a confrontar-se.

Escarmentado com a interminável saga ‘Casa Pia’ – o gáudio e condenação populares que a sua exibição pública proporcionou, encontra malsã contrapartida nos já irreparáveis danos no apuramento da verdade – recuso-me a embarcar neste clima de histeria colectiva, seja qual for a campanha ou personalidade envolvidas. Estranha (ou talvez não) a colaboração da comunicação social, seguramente nem sempre descomprometida e isenta, antes mais ocupada em colher os dividendos proporcionais ao efeito de atiçar na turba uma enviesada vingança por conta de magra compensação para desventuras, fracassos e angústias pessoais.

A minha inclinação será sempre a de contrariar o unanimismo das condenações prévias, a de me manter céptico perante verdades impostas, de desconfiar da fúria justicialista. Abundam na História exemplos que desaconselham tal procedimento. E se, no final, tudo o que a comunicação social deu por provado se vier a demonstrar falso? Ou se até só apenas algumas destas ‘impostas’ verdades mediáticas o forem? Talvez por deformação, inclino-me para o lado contrário para onde me querem empurrar. Contra as correntes dominantes, contra a moda, contra as verdades absolutas, contra o rebanho.

Resisto assim, mesmo quando o pé me foge para a dança, em dar o meu contributo para a fogueira com que pretendem – e têm-no conseguido! – queimar etapas ou eliminar provas. Assisto, pois, distanciado e céptico, ao desenrolar frenético mas enfadonho da interminável série de peripécias e contraditas em que os ‘media’ nos têm enredado, deste deplorável espectáculo com que nos pretendem – e têm-no conseguido! – entreter. Desviando-nos a atenção de questões bem mais sensíveis e relevantes na vida das pessoas, essas sim a merecerem inadiável debate público.

De entre os temas que melhor o exemplificam, há um que, mais uma vez, corre o risco de ser submergido pela leva de notícias em voga. Refiro-me, naturalmente, às alterações climáticas, cuja importância soçobra claramente perante a avalanche dos temas que vendem. A esse, cuja actualidade exige um debate quase permanente e cuja oportunidade, a 15 dias do início da Conferência de Copenhaga, o torna particularmente urgente, os ‘media’ têm dedicado apenas o tempo e o espaço para onde são empurrados pelo material noticioso que lhes cai nas redacções. Apenas para que se não diga terem-no completamente esquecido.

Mas o enquadramento ideológico que dita a valorização das escutas (até ao paroxismo mais absurdo) sobre a dimensão das alterações climáticas, é o mesmo que conduz à banalização dos efeitos de uma crise que alguns dão já em tempo de rescaldo. E, para a ultrapassar, ao desvelo na insistência no desgastado modelo de desenvolvimento que a ela conduziu, assente num insustentável crescimento económico como grande objectivo político e num pouco virtuoso modelo exportador como único modo de aí chegar. Argumenta-se que a isso obriga – e talvez com razão – as ‘leis’ da globalização. Mas isso não impede de lhe diagnosticarem a falência e de se pensar nas alternativas que se irão colocar (pelo menos) a prazo, de se discutir o futuro do ‘emprego’ (pois o emprego parece já não ter futuro), de se repensar o papel do Estado para além das funções de regulação que lhe reserva o pensamento neoliberal na origem da crise. Porque o essencial da crise não resultou dos desvios de carácter ou quaisquer perversões dos seus agentes!

Inquietante, sem dúvida, o recrudescer das corporações, neste serôdio corporativismo que parece finalmente instituído. Em que se encontram empenhados jornalistas e operadores da justiça, mas onde não faltam também os operadores da saúde, os da educação,... todos apostados em fazer valer os seus pontos de vista particulares sobre o geral, os seus interesses de ‘classe’ sobre os deveres profissionais – ou, no mínimo, confundindo-os. Em lugar de se extinguirem as velhas ‘ordens’, multiplicam-se as ‘pró-ordens’, sintoma pouco saudável deste revivalismo corporativo a destempo.

Sintomas pouco saudáveis de um país posto em transe para proveito de uns poucos – tanto os de bom como os de mau ‘carácter’! E, acrescente-se o bónus, seu supremo gáudio!

As cinco "etapas" da Vida ...

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Piano stairs - TheFunTheory.com - Rolighetsteorin.se

A (i)moralidade de Vítor Constâncio …

Mais uma vez, solicito e quase parecendo um comissário político, Vítor Constâncio(VC), o principescamente bem pago Governador do Banco de Portugal (BdP), lá vai (em)prestando os seus palpites na “defesa” do Governo e, claro, do patronato.
Desta feita, no V Fórum Parlamentar Ibero-Americano, VC lá foi defendendo que "em geral, para a economia e, sobretudo, para a economia empresarial [seja pública ou privada], os aumentos salariais reais deverão situar-se entre 1 e 1,5 por cento, correspondendo isto à inflação previsível".
Para VC – ex secretário-geral do PS e, agora, que o “tacho” no BdP está a expirar é candidato a Vice-Presidente do Banco Central Europeu (BCE) – que nunca se preocupou com a pobreza e as desigualdades no/do País a receita é simples e mais do mesmo : menos salários e mais impostos.
Enquanto isso, VC lá vai continuando “distraído” nas funções para as quais é principescamente muito bem pago – um dos mais bem remunerados Governadores/Presidentes dos Bancos Centrais do/no Mundo – e não consegue dar resposta(s) à denúncia de ocorrência de práticas bancárias eticamente recrimináveis associadas a operações de swap de taxa de juro por parte de bancos nacionais.
Ora, enquanto não “parte” para o BCE e/ou é nomeado para um qualquer outro cargo importante , Vítor Constâncio lá (em)presta, mais uma vez, um serviço ao PSócrates dando o seu pontapé macro nos bolsos micro; na senda dos patrões com sacrifícios para ou outros …
Ora, e como já nos habituou, Vítor Constâncio no seu melhor :
- muito atento com uns e distraído com outros !!!

sábado, 21 de novembro de 2009

PS : as prebendas e sinecuras ...

O novo Governo, tal como lhe compete, acaba de nomear os dezoito Governadores Civis do/no País.
Dos dezoito Governadores, dez são nomeados pela primeira vez.
Pois, e até aqui, nada de anormal; pois a renovação não só é necessária como se recomenda.
Porém, o que espanta(?) é o facto de uns tantos desses novos Governadores terem sido ou candidatos derrotados nas últimas Eleições Autárquicas(EA), e/ou Deputados não eleitos à Assembleia da República(AR).
Perderam em 27 de Setembro e/ou 11 de Outubro … mas, a 19 de Novembro, o PS, em jeito de prebenda, generosamente, lá lhes oferece as respectivas sinecuras e, assim, a possibilidade de continuidade na/da profissão de políticos :
Lisboa – António Galamba ( não eleito - AR)
Porto – Isabel Santos (derrotada em Gondomar - EA)
Aveiro – José Mota (derrotado em Espinho – EA)
Viseu – Miguel Ginestal (derrotado em Viseu – EA)
Santarém – Sónia Sanfona (derrotada em Alpiarça – EA)
Faro – Isilda Gomes (não eleita – AR)
É assim o PS, este PS quanto à sua génese; à forma de estar e lidar com a Democracia.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

sábado, 14 de novembro de 2009

A História da Moral ...

Com toda a estima, dedicado ao Senhor Primeiro Ministro de Portugal, José Sócrates :

Você tem-me
cavalgado,
seu safado !
Você tem-me
cavalgado,
mas nem por
isso me pôs
a pensar
como você.
Que uma coisa
pensa o cavalo;
outra quem está
a montá-lo.

(Alexandre O´Neill, A História da Moral)

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Jazz contra o Racismo ...

Para colocar em Agenda :
20 de Novembro, 21h30m
Centro Cultural de Cascais

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Água mole em pedra dura …

Na legislatura que ainda agora começou, a primeira Declaração Politica do Bloco de Esquerda esteve a cargo de Fernando Rosas que abordou o tema da corrupção, um tema que está – pelas piores razões – na ordem do dia da politica Portuguesa.
Trata-se, em meu entender, de um discurso que pela sua pertinência, pela abordagem factual e corajosa com que é sustentado, merece ser lido num propósito de séria e urgente reflexão:
… a linha divisória entre quem pretende responder à emergência ou continuar a fechar os olhos é a delimitação das causas da corrupção e a escolha dos remédios com que se pretende combatê-los.
A corrupção é filha do clientelismo, do nepotismo, do caciquismo e de todas as formas de degenerescência antidemocrática do poder que se perpetua sem alternância real – ainda que, por vezes, com substituição das clientelas -, criando promiscuidades ou cumplicidades ilegítimas com os interesses, furtando-se a uma eficaz vigilância cidadã com os alçapões que cria ou mantém nas leis e revestindo essa podridão essencial com uma fachada solene de respeitabilidade.”


E, talvez pela pertinência e oportunidade do discurso, porque a luta contra a corrupção é o combate pela democracia e transparência da vida política a todos os níveis que, embora a “falar” em nome pessoal, Francisco Assis, o líder da Bancada Parlamentar do PS, afirmou que :
“as propostas que foram apresentadas pelo sr. engenheiro João Cravinho podem a cada momento ser objecto de uma reapreciação”

Vá lá, vá lá; do mal o menos …
Tenhamos ao menos a esperança – não confundir, sff, com certeza – que e tal como reza um velho ditado que :
“ água mole em pedra dura tanto dá até que fura”.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Robert Enke...

Robert Enke (1977-2009) suicidou-se ontem, aos 32 anos.
Em 1999, Robert Enke chegou ao Benfica.
Jovem, muito jovem mas já um guarda-redes consagrado.
Mas, e à partida, com um problema :
o de fazer “esquecer” um dos melhores guarda-redes do Mundo, Michel Preud´homme.
O Benfica tinha, então, e durante os três anos em que se manteve no Clube – lembro-me bem; infelizmente muito bem - uma equipa de qualidade mais que duvidosa.
Robert Enke, graças ao seu grande profissionalismo, lá conseguia – sozinho, e por vezes – colmatar as fragilidades da Equipa.
Não esqueço que foi deselegante para com o (meu) Benfica.
Quando saiu para o Barcelona, declarou que “precisava de jogar numa grande equipa para chegar à Selecção da Alemanha”.
Robert Enke, aos 32 anos, encontrava-se na fase de maturidade dos guarda-redes.
E, prematuramente, decidiu partir.
Deixando de jogar e, acima de tudo, de viver.
Uma tragédia pessoal que, e na circunstancia ocorrida, não tem qualquer defesa.
Enke, até sempre !..

terça-feira, 10 de novembro de 2009

A insustentável leveza do (nosso) ser …

Ora, se a corrupção é um problema, um grande problema que mina e corrói a democracia, mui provavelmente este problema não pode(rá) ser resolvido pela mera retórica discursiva como, e de resto, se vem verificando por parte dos partidos do sistema e, muito em particular, pelo PS.
É um lugar muito comum ouvir-se que “à politica o que é da politica e à justiça o que é da justiça”.
O problema, o grande problema é que cada vez mais é difícil separar a justiça da politica e/ou a politica da justiça.
O que é naturalmente grave e motivo de múltiplas e sérias preocupações.
Eis um exemplo caricato que tipifica, de forma clara e inequívoca esta “confusão” entre a politica e a justiça e/ou vice-versa; desta feita, devidamente explicitado ao Jornal “I” ( pode ler-se na primeira página de hoje ) pelo senhor procurador-geral da Republica :
- na última semana de Junho, enviou para o presidente do Supremo Tribunal de Justiça duas certidões extraídas do Processo Face Oculta e está a avaliar o envio de outras oito.
- no dia 3 de Setembro, Noronha do Nascimento ( Presidente do Supremo Tribunal de Justiça ) decidiu sobre as duas primeiras, onde estarão incluídas as conversas entre o primeiro-ministro e Armando Vara.
Hoje, dia 10 de Novembro, finalmente, o Supremo Tribunal de Justiça diz que as escutas são nulas.
Mas, então, porquê só agora ?..
É que, e assim, como é que vamos a-c-r-e-d-i-t-a-r na Justiça !!!

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Leituras de Verão – no estio deste Outono retardado!

‘O crash de 2010’!

O fim do Verão e este início ensolarado e quase tropical de um Outono que tarda, trouxe interessantes novidades editoriais, seja as relacionadas com a interminável crise económica (que ameaça eternizar-se), ou as que respeitam à consolidada teoria da evolução (no ano em que se comemoram os 200 anos do nascimento de Darwin e os 150 da publicação da ‘Origem das espécies’). Mas entre Krugman (‘A consciência de um liberal’) ou R. Dawkins (‘O espectáculo da vida’), prefiro aqui trazer o espanhol Santiago Niño Becerra, que acaba de ver editado em português o seu enigmático (ou provocatório?) ‘O crash de 2010’.

Independentemente do tom premonitório do título – pois o mais relevante não é saber se a crise sistémica de que o autor fala vai mesmo acontecer, com uma precisão que roça a ‘convicção profética’, no Verão de 2010 (!!!) – importa aqui destacar alguns aspectos que a leitura deste livro suscita. Desde logo, que se trata de uma perspectiva diferente de quantas têm abordado a actual crise e as suas consequências ou saídas. O autor situa-se no que se pode designar de ‘keinesianismo de esquerda’, até nas referências teóricas que adopta (J. K. Galbraith e Joan Robinson), o que talvez explique a firmeza e a convicção que coloca tanto na caracterização da crise (trata-se de uma crise sistémica e não de mais uma crise cíclica), como no seu previsível desfecho (que só pode ser um novo modo de produção, com a mudança da ‘forma como as coisas são feitas’) – ao contrário dos denominados neo-keinesianos, empenhados em demonstrar a suficiência das tradicionais receitas públicas aplicadas em anteriores crises.

Neste contexto são especialmente significativas duas passagens do livro. A primeira diz respeito ao que o autor designa por ‘bluff irlandês’ – e já se percebeu a que se refere! Durante os últimos 20 anos apontado como um exemplo a seguir pela cartilha neoliberal, os episódios da crise tiveram o mérito de pôr a nu o verdadeiro milagre irlandês, ao transformarem em pesadelo aquilo que era propagandeado como um sonho – sonho para uns poucos, é certo, que não para os milhares de desempregados, submersos no endividamento para onde foram arrastados (atraídos?) pelo hiperconsumo, precisamente dois dos três pilares em que assenta este capitalismo tardio (o terceiro é, segundo o autor, o desmesurado crescimento do terciário). Os resultados do modelo irlandês do ‘boom’ (atracção do investimento externo por via fiscal), acabaram por, mais uma vez, demonstrar como a economia de um país pode ser usada apenas como plataforma de ganhos alheios sem retorno significativo para os respectivos cidadãos.

E adianta: ‘A crise das hipotecas de alto risco, ou subprime, os níveis descontrolados a que se deixou chegar a economia financeira, os montantes da dívida privada já incomportável a todos os níveis, a crescente produtividade que já está a tornar excedentários amplos colectivos humanos, os progressos de uma tecnologia cada vez mais eficiente não são mais do que manifestações do esgotamento do sistema’.

O que se prende com o segundo aspecto a destacar. De acordo com o autor, ‘o capitalismo nasceu com o germe que lhe permitiu desenvolver-se, alcançar os níveis de crescimento que conseguiu, mas, por sua vez, constitui a semente do seu esgotamento e da sua destruição.(...) o capitalismo exige uma expansão constante, que, obviamente, não é possível.Fisicamente, sublinhe-se. Pois ainda que relevando do óbvio, tende a ignorar-se o aspecto que cada vez mais importa evidenciar, o que o leva a concluir: ‘O crescimento do planeta tem-se baseado na convicção de que gastar de tudo, sem limite, era possível e inclusive necessário (...). Foi possível porque esse estado de bem-estar, esse ir mais além, nos fez crer que com as nossas criações, a nossa tecnologia e o nosso engenho financeiro seria possível compensar qualquer desequilíbrio. Contudo, quando a dívida se tornou fisicamente insustentável e a capacidade de absorver bens de consumo se esgotou, o nosso sistema deparou-se com uma crise.

Resta saber se a actual crise acaba mesmo em ‘crash’, como assegura a premonição de Santiago Becerra. E se o seu desfecho se traduz num novo modo de produção.

Há muitas questões que persistem sem resposta nesta descrição do sistema a caminho da catástrofe. Por exemplo, em que é que se traduz o germe (ou pulsão) que sustenta o capitalismo, mas que o irá levar à autodestruição. Limites, naturalmente, da própria concepção ideológica do autor – ou da sua recusa em aceitar conceitos decretados como ‘malditos’. Não obstante, pois, serem questionáveis alguns dos pressupostos em que assenta a narrativa, não deixa de ser interessante percorrer as páginas deste livro e confirmar que, afinal, por diferentes vias e processos, há muita gente a confluir numa conclusão básica: a mudança deste sistema impõe-se como uma medida profilática em nome do progresso – ou tão só da sobrevivência do homem.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

20 anos : como "voa" o tempo ...

O José Carvalho, o Zé da Messa, foi assassinado (de)corre, agora, 20 anos ...
Faz tempo, muito tempo, mas é altura de (re)lembrar - porque a memória dos homens é, por vezes e propositadamente, muito curta - que morreu, então, esfaqueado por um grupo de skinheads neonazis.
Eu, porque não tenho o dom da ubiquidade, não vou poder lá estar; na Festa de Homenagem que a APSR promove, hoje e para o efeito, na Voz do Operário.
Tenho pena; muita pena...
Mas, ainda assim, estou contigo, Zé; até sempre !!!

sábado, 24 de outubro de 2009

Os negócios do Árctico!

Não certamente por embirração ou impertinente fixação, de quando em vez tropeço na personagem. Sintetiza, na perfeição, o pensamento corrente dominante, ao reproduzir, de forma acrítica, a vulgata neoliberal (que verbaliza através das mais desgastadas expressões). Qualquer desvio a este fio de rumo, provoca-lhe mesmo um constrangedor desdém, extrai-lhe sorrisos de altivo desprezo, como que traduzindo a sua percepção do óbvio: ‘só não vê quem, por sectarismo ou ignorância, não quer ver’!!!

Já não é, portanto, a primeira vez que aqui me refiro a Estela Barbot (pois é dela que se trata), personagem da nossa ‘socialite’ (como agora se designa!!!) e lugar cativo nos ‘media’, onde de novo fui esbarrar com ela (no programa ‘Contas à Vida’, na TVI24). Desta feita, porém, passou das habituais – e banais – trivialidades (debitadas a propósito de tudo não dizendo nada), às mais delirantes boçalidades, ao atrever-se, de forma leviana, por territórios (literalmente) inexplorados mas muito sensíveis.

Foi o caso da dita criatura haver participado (desconheço em que qualidade) na última reunião da Trilateral (grupo de Bilderberg), em Oslo, cujo representante luso (entre outros insuspeitos frequentadores, alguns deles socialistas!) é o ex-ministro Braga de Macedo, também presente nesse programa (onde é convidado residente, juntamente com Pina Moura). De lá trouxe a informação – e a volúpia dos pormenores – de que, com o degelo do Árctico, prestes a consumar-se, abrem-se novas e promissoras áreas de actividade, ‘é todo um mundo de oportunidades para novos negócios’.

Com o Árctico navegável, acrescentou, as novas rotas abertas pelos transportes marítimos permitirão poupanças consideráveis, em tempo e combustível (já existe até uma estimativa dos custos ‘arrecadados’). Para já não falar das novas possibilidades no domínio da exploração petrolífera, em jazidas já identificadas, deste modo tornadas acessíveis... Enfim, um autêntico maná para o ‘business’, que já discute direitos de exploração e de soberania, ‘uma espécie do que virá a suceder com a Lua, no futuro’, logrou gracejar a Barbot.

Diante de tão inconsciente desaforo, Pina Moura objectou a reserva óbvia (porventura, remexendo no fundo das suas há muito sumidas convicções de esquerda, apelando a algum resquício de dignidade): ‘e os efeitos climáticos, já foram estimados?’. Efeitos climáticos? Mas perante tamanha fortuna, alguém estará interessado em perder tempo com tão esquerdizantes minudências, que só servem para atrapalhar e desviar a atenção do essencial – a expectativa de chorudos negócios – o que releva do ‘simples bom senso’, assim explicava a Barbot?

Perante a inevitabilidade do facto consumado – e o reconfortante cenário de um novo impulso económico – quem é que, no mundo de hoje, pára para avaliar os efeitos que a destruição da calota polar e consequente eliminação do efeito reflector solar (efeito de albedo) provocará, pela absorção de mais calor por parte do mar, no clima da Terra? Ou nas consequências imprevisíveis da alteração das correntes marítimas, por influência da circulação termohalina dos oceanos, com impacto determinante no clima e, por arrastamento, nos ecossistemas marítimos e terrestres, ou seja, nos recursos e na capacidade alimentar do planeta? E estes são apenas os efeitos directos imediatos!

Enquanto alguns ainda se afadigam em tentar evitar o pior dos cenários (incluindo soluções no mínimo engenhosas, mas de duvidosa eficácia), o ‘bom senso’ de outros leva-os já a antecipar, babados – e criminosamente inconscientes! –, o momento da concretização dos cúpidos negócios em perspectiva. Certo é que os efeitos gravosos incorporados no ‘bom senso’ actual da Barbot só se farão sentir de forma acentuada (alguns sinais são já visíveis, ainda assim pouco assustadores) algures no futuro, previsivelmente apenas daqui a um bom par de anos. E é isso que, para todas as Barbots (eles e elas), faz toda a diferença! ‘Quem vier a seguir que feche a porta’, chalacearão eles em tom de desafio.

Lastimo o Metelo metido nisto. No fim de contas e pensando bem..., nem isso!

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Maiorias de esquerda, governos de direita

Surgido na sequência dos resultados eleitorais para as legislativas, o ‘Compromisso à esquerda’, iniciativa protagonizada por André Freire (e outros), apela a que os 3 partidos da esquerda parlamentar pós-eleições procurem entendimentos no sentido de ‘se encontrar uma solução estável de Governo’. Gesto simbólico, é certo, sem qualquer hipótese de sucesso face às declarações prévias dos partidos visados, o suficiente, no entanto, para desencadear, no meio da indiferença e bonomia gerais com que foi acolhido, algumas curiosas reacções. Mas também com o mérito e a utilidade de confrontar os responsáveis desses partidos com a realidade sociológica do País, pois a opinião pública de esquerda menos comprometida com os aparelhos partidários, não entende a incapacidade dos políticos em tentarem aproximar-se – e associar-se – num conjunto alargado de domínios, do político ao social, do económico ao cultural.

Importa, antes de mais, esclarecer que se tal experiência nunca foi tentada – e não se vêem condições de, tão próximo, o vir a ser – isso se deve, por um lado, à prática histórica do PS na governação e aos compromissos, sobretudo económicos, em que se enreda (ou a que se submete, não raro para proveito pessoal dos seus próprios interventores), por outro, à intransigência (dogmática? sectária? simplesmente de princípio?) dos outros dois partidos, pela incapacidade em transformarem propósitos em política. Mas deve acrescentar-se que, tão errado como qualificar estes últimos de expressões de um extremismo serôdio e irrealista, o é igualmente reduzir o PS a partido de direita, desprezando o sentido da sua base social de apoio, pelo facto de os seus governos se terem resumido a pouco mais que uma gestão (sofrível) de um sistema que, do ponto de vista de esquerda, deve ser transformado.

Uma coisa, porém, parece certa: no meio dos jogos de poder, o país real acaba sempre muito maltratado. Prova disso, para além do essencial – e o essencial são as dificuldades vividas em resultado de uma sociedade cada vez mais desigual – o crescente alheamento político das pessoas e o seu maior distanciamento dos eleitos para as representarem, como se depreende da desilusão que os eleitores manifestam (de diversos modos) quando chamados a pronunciar-se em actos eleitorais, não obstante todas as manipulações, propagandísticas ou outras, de que são alvo (incluindo a transformação/deformação da política numa espécie de ‘clubite’ partidária, à margem das ideias e dos programas).

No ponto em que se encontram as ‘coisas’ à esquerda e nas actuais condições de regresso à sobranceria neo-liberal, já nada há a esperar. A realidade – a vida, como diria o ‘outro’ – se encarregará, então, de ditar o ritmo e o momento do rumo que tais ‘coisas’ irão tomar. Será o caso do invocado óbice do ministro Amado (e outros), ao afirmar a impossibilidade de o PS estabelecer qualquer aliança (fosse qual fosse a sua natureza e profundidade) com o BE e o PCP, dadas as conhecidas posições destes no domínio da política externa, nomeadamente quanto à proposta de saída da NATO (que ambos propõem) e às reticências na integração na UE (menores, no caso do Bloco). Mas bastaria que tais matérias (e outras) ficassem fora de um eventual acordo! O futuro – a realidade vivida – ditaria a razão nos casos polémicos.

Subsiste ainda, no dizer de alguns, o sinal negativo que deste modo se transmitia aos mercados internacionais (!). Tanto melhor se assim fosse. Haveria oportunidade para se começar a fazer uma selecção dos apoios (incluindo o dos famigerados ‘capitais externos’) que mais interessa captar, excluindo os que apenas apostam nas habituais condições de competitividade do País (leia-se baixos salários) ou que pretendem tão só prolongar os laços de domínio e a exploração de recursos (humanos e naturais).

Para já, perante um Parlamento que não domina e sem a confiança de Cavaco, como se irá comportar a, a todos os títulos, salutar experiência de um governo minoritário do PS? Com quem virá, afinal, a estabelecer os entendimentos necessários à governação?

E, neste contexto, o que nos reservam as presidenciais ? Até onde conseguirão elas ‘forçar’ a realidade?

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

‘Tempos interessantes’

Tempos interessantes’ é o sugestivo título de um livro ainda recente de Eric Hobsbawm, dedicado a uma incursão intimista do autor ao longo do século XX, um tempo de grandes acontecimentos e transformações sociais. Longe a pretensão de estabelecer qualquer paralelo entre a narrativa do eminente historiador e os comentários aqui expostos. Simplesmente considero, não por consolidadas razões históricas de tramas e dramas, mas pelas enredadas teias a que se amarra actualmente o futuro incerto das sociedades, que se avizinham tempos deveras interessantes. Em termos de peripécias e dos seus efeitos. A nível global.

Limito-me a pontuar episódios, a respigar indícios, a destacar incógnitas. A começar pela política doméstica, onde será interessante acompanhar o comportamento da nova geometria partidária, sem maiorias absolutas, o centrão em declínio e a correspondente ascensão das denominadas ‘franjas’. Do poder absoluto de Sócrates ao (forçadamente) poder partilhado de... Sócrates, agora de ‘espírito aberto’ e pronto para o ‘diálogo’. Não o diálogo baseado em princípios, como pretendia ser o de Guterres, obrigado a ele também por força das circunstâncias (e por força disso exposto ao pântano), mas o diálogo assente no pragmatismo, que parece ser o grande princípio ideológico que o anima na pretensão de conservar o poder (a qualquer preço?).

E já com as eleições presidenciais por perto! Aqui será imensamente interessante ver como é que, Sócrates e Cavaco, vão gerir a hipertensa relação saída das eleições (para além dos antecedentes, ainda por aclarar), com o primeiro a ver-se obrigado a ‘apear’ o segundo da Presidência, não por razões de decência mútua (bastaria para isso o episódio do ‘e-mail’), mas pelo risco permanente de um Cavaco ressabiado e, já se percebeu, disposto a tudo. Nessa emergência, resta a Sócrates as alianças à esquerda. A quem recorrer, então? Ao ‘querido inimigo interno’ Alegre?

Interessante’, seguramente, será também seguir o percurso das oposições. À direita, após uma pírrica vitória de Rangel nas europeias, o PSD enredou-se em tramas e ilusões, colou-se à oca e chocha estratégia do Presidente das ‘escutas’, curando que lhe bastaria zurzir o nome de Sócrates e agitar vagos sintomas de apneia política para recuperar o poder. Resta saber, por agora, quem é que o vai tirar do estado catatónico em que se abate, alijando-o, na passada, da esfiapada ganga cavaquista. Já o PP, claro beneficiário de tão suicida atitude, espreita – e aproveita (até quando?) – a oportunidade desse vazio ideológico. Desdobrando-se em bravatas e desafios, alardeando uma tão cínica quanto propagandeada humildade, ao pragmatismo ideológico de Sócrates contrapõe o seu próprio pragmatismo populista (e justiceiro), bem à imagem do seu frenético líder (ao pretender arremedar o Batman, acabou clonado de Pinguim). Será então desta que surgirá (e de onde?) o sempre adiado projecto do ‘grande’ partido liberal, ou melhor, neo-liberal?

Não menos ‘interessantes’ se apresentam as perspectivas à esquerda, reforçada – e clarificada – pela recomposição parlamentar pós-eleitoral, escandalosa à luz da bitola europeia (?) do politicamente correcto. Resta, pois, saber ‘o que fazer com estes votos’: se o seu peso se esgota, como até aqui, na aritmética dos números, ou se será possível convertê-los em opções políticas comuns. Sem perda de identidade das três tendências que dela se reclamam, apenas abdicando de dogmas e preconceitos. Sintomático – e bem interessante – observar que até o proscrito marxismo, não obstante as resistências subliminares e ataques acéfalos, voltou a ser invocado para explicar realidades doutro modo inexplicáveis. As mais das vezes, é verdade, por interpostos discípulos.

Preocupante – e sem dúvida menos interessante – a realidade vivida, essa que permanece acima de todos os jogos de poder. É que a realidade, mesmo para além d’a crise que até se diz que já não é’ (!!!), faz-se de uma imensa soma de problemas: dos que exigem intervenção imediata (o desemprego imparável, a avassaladora precariedade laboral, as alterações climáticas,...), aos que obrigam a opções colectivas estratégicas. Opções que vão da afirmação da primazia do interesse público sobre os interesses privados (a nível dos serviços e recursos básicos: saúde, educação,...; água, energia,...), à construção de alternativas a ‘este’ esgotado modelo de desenvolvimento (termo do crescimento contínuo, exaustão dos recursos naturais, ‘crise’ do trabalho assalariado,...), em suma, ao questionamento deste nosso insustentável modo de vida que urge alterar – em troca do acentuado declive no sentido da autodestruição, de que as agressões ambientais são, por enquanto, apenas uma das faces mais visíveis.