sábado, 15 de agosto de 2009

É possível o ‘desenvolvimento sustentável’ nas sociedades dominadas pelo mercado? - V

É possível ainda ‘salvar’ o planeta ?

Perante o quadro traçado e a aparente inutilidade dos esforços para o alterar, o desfecho mais racional ditaria a adopção de uma atitude de resignação, de baixar os braços ou desistir, restando então aguardar pela eclosão da catástrofe. Em especial a constatação da ineficácia das medidas tomadas a nível local, num mundo globalizado, conduz à aceitação, como inevitável, do que parece ser, precisamente, uma estratégia de resignação ou capitulação: considera-se apenas possível responder aos graves problemas ambientais com comportamentos e medidas de política visando, por um lado, a mitigação dos seus efeitos mais gravosos com vista, nomeadamente, à redução das emissões de gases com efeito de estufa (através de uma maior eficiência energética, de normas ambientais mais apertadas, de um controle mais severo no seu cumprimento), por outro, alertando para a necessidade de se procurarem desde já as vias para uma adaptação aos novos parâmetros climáticos, para uma absorção devidamente programada dos seus impactos.

Em face da dimensão atingida pelo problema e das previsões científicas que apontam para cenários altamente subversores do modo de vida actual, não pode questionar-se a necessidade da sua adopção generalizada, tanto a nível individual como institucional. Contudo, reduzir a estratégia de luta contra as agressões climáticas à ‘mitigação’ e ‘adaptação’ significa, só por si, abdicar de inverter uma situação em degradação acentuada, assumir a incapacidade para responsabilizar os seus fautores, premiar, em última instância, o acto predador que este sistema tem levado a efeito sobre o planeta, pondo em causa o seu futuro.

Apesar das certezas que, a este nível, podem já considerar-se adquiridas, importa reconhecer que subsistem ainda demasiadas incógnitas e com frequência se revelam imprevistos decorrentes de factores imponderáveis. Subsiste, sobretudo, uma nesga de esperança numa hipotética inversão da tendência no sentido da catástrofe, se for possível alterar, em tempo útil (ou seja, a breve prazo), as condições que determinam e influenciam o meio ambiente, sejam as materiais (alteração das fontes energéticas) ou as políticas (alteração da orientação económica do planeta), que de modo algum deve ser desprezada.

Entretanto, não obstante os efeitos positivos do ainda débil mas gradual despertar de um crescente número de pessoas para os problemas ambientais e a causa ecológica, contudo, a sua capacidade para reverter esta situação é extremamente débil e limitado, pois esbarrará sempre num sistema cuja lógica implica um consumo descontrolado dos recursos do planeta em nome da valorização incessante da mercadoria e das sagradas regras do mercado. Torna-se, pois, óbvio – mas importa aqui acentuá-lo com o maior ênfase – que a solução para os problemas ecológicos não passa apenas, nem sequer principalmente, pela alteração dos comportamentos individuais em matéria ambiental, mas implica sobretudo a assunção colectiva (ou pública) dessas responsabilidades.

Aliás, na fase actual, perante a apertada interdependência e a densa rede de ligações que se observa a nível planetário, deve assumir-se que a consciência das pessoas sobre os problemas ambientais só conseguirá ser despertada e, consequentemente, o seu comportamento cívico mobilizado para a necessidade de pôr cobro à desenfreada predação dos recursos e degradação das condições ambientais de vida, perante situações dramáticas ou outras que impliquem alterações radicais no seu modo de vida.

Nesse sentido, não sendo previsível que a ocorrência de catástrofes naturais de grande dimensão (ou a acentuação da sua frequência), possa contribuir, só por si e em tempo útil, para tornar consciente e impor a necessidade de mudanças radicais, a médio prazo apenas seria expectável tal efeito perante a hipótese (mirífica?) de geração de energia ilimitada a partir de uma fonte de recursos limpa e praticamente inesgotável (energia mecânica com origem magnética?) ou num método que a consiga sem consumo de energia (o motor do mítico movimento perpétuo?) – o que alteraria radicalmente as condições actuais de produção, as próprias relações sociais e todo o actual modo de vida das sociedades. Mas será realista esperar tal milagre?

Realista é, sem dúvida, considerar que o mundo se encontra confrontado com uma séria questão energética – ainda que a escassez de recursos se não reduza às fontes de energia (ela é até mais grave no que respeita à água, aos bens agro-alimentares ou mesmo ao ambiente!).
(...)

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

É possível o ‘desenvolvimento sustentável’ nas sociedades dominadas pelo mercado? - IV

As técnicas do Mercado ‘ao serviço’ do ambiente?!!!

O risco de a dimensão destes problemas assumir proporções irreversíveis, não obstante todo o esforço teórico desenvolvido pelos indefectíveis defensores do mercado na desvalorização do que já não pode mais ser ocultado, deixou de pertencer então à categoria de um invocado dramatismo sem fundamento, para se tornar numa realidade incontornável, impossível de ignorar pelos responsáveis políticos, porque cada vez mais presente no quotidiano das pessoas comuns. Começa, pois, a ganhar forma crescente, na consciência democrática da população mundial, nomeadamente a dos países ditos desenvolvidos, a necessidade de se estabelecerem controles rígidos sobre as práticas que originam as diferentes espécies de poluição, da terrestre à atmosférica, da marítima à dos cursos de água e restantes aquíferos.

Ora, não deixa de ser sintomático e ao mesmo tempo preocupante verificar que, numa sociedade em que toda a organização social é comandada pelo poder incontestado do mercado, as soluções engendradas pelo sistema para impedir a completa anarquia existente em termos de agressões ambientais passam pelo inevitável recurso aos mesmos princípios que as originam, ou seja, os princípios mercantis:
– O princípio do ‘poluidor-pagador’ (por adaptação do utilizador-pagador), pretendendo-se que os danos causados ao ambiente sejam reparados (monetariamente, entenda-se), pelos seus directos fautores: mesmo que apenas situados no estrito âmbito deste princípio, sem o questionar, a experiência comprova que o custo a pagar pelas infracções cometidas no domínio do ambiente é amplamente compensador, confirmando que, afinal, pelo menos aqui e até agora, ‘o crime compensa’. Muito largamente, aliás...
– O mecanismo de um inconsequente ‘mercado de emissões’ internacional, criado pelo Protocolo de Quioto, por realismo político assente num equívoco e regido por normas contraproducentes (que, além do mais, ninguém cumpre): o equívoco de partir do pressuposto de uma alternativa única de modelo de desenvolvimento, ao adoptar como padrão universal e exclusivo o mercado capitalista (altamente dependente dos recursos energéticos fósseis), levando a que todos os países se sintam, legitimamente, com igual direito ao seu acesso; a norma contraproducente de pretender reduzir a produção de CO2 por conta da fixação arbitrária dos denominados ‘direitos de emissão’, estabelecidos para cada país em função dos actuais níveis de emissão, transaccionáveis como qualquer outra mercadoria, facilmente manipuláveis, em seu proveito, pelos países altamente poluidores.

O sistema assente no mercado capitalista revela assim total incapacidade para enfrentar, de forma coerente e eficaz, a ameaça crescente constituída pelas agressões ambientais (cujos resultados se expressam nas alterações climáticas), dado que se encontra demasiado dependente e comprometido com todo o processo em que elas se produzem.

Pragmaticamente, no final, o que pesa é a ausência de qualquer alternativa global tendente à urgente inversão desta situação, a nível de hipóteses teóricas e no plano da luta política, sendo que todas as energias e esforços desenvolvidos são canalizados para acções pontuais localizadas, cujos efeitos mais perduráveis se fazem sentir na lenta mentalização das pessoas envolvidas ou atingidas, no sentido da mudança de atitude e alteração de hábitos passíveis de incorporar uma nova relação com o meio ambiente. Este processo, contudo, é, por natureza, de efeitos muito lentos e limitados, pouco consentâneo com a dimensão e a urgência atingidas pelo problema. Por isso mesmo, cada vez é mais real o risco de aqui ocorrer o pior dos cenários se, à semelhança do que aconteceu ao sapo da história, o homem se for conformando com o aumento gradual do calor na Terra – até a vida, conforme a entendemos e a fruímos hoje, se tornar completamente insuportável!

Resta-nos, porventura, a egoísta esperança de tal só vir a afectar, na sua forma mais dramática, as gerações futuras. Mas então importa questionar a nossa responsabilidade social, tanto em termos do contributo para a degradação das condições que aí conduziram, quanto sobretudo a nível da consciência ética do problema. Nestas circunstâncias, não será difícil de antecipar a condenação que o pesado juízo histórico abaterá sobre a nossa revelada incapacidade para o enfrentar e resolver – quando isso ainda se demonstrava ser viável.
(...)

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

É possível o ‘desenvolvimento sustentável’ nas sociedades dominadas pelo mercado? - III

Os limites da acção dos movimentos ecológicos

Não deixa de ser perigosamente ilusória, de facto, a luta que os movimentos ecologistas, apostados em denunciar e alterar este estado de coisas, desenvolvem um pouco por toda a parte, mas sem se atreverem a pôr em causa o que lhe dá origem e a determina – a lógica da mercadoria – que impõe uma sempre crescente valorização do capital (que se pretende traduzir por desenvolvimento) sem olhar aos meios utilizados, o que de modo algum se compadece com preocupações ambientais, como a razão explica e a experiência comprova. ‘Perigosamente ilusória’, porque ao desviar a atenção da verdadeira origem do problema, aliena a possibilidade de o resolver de forma consistente, para além da acção de resultado casuístico, criando ainda expectativas impossíveis de realizar.

Ao mesmo tempo, resulta de fraca ou nula eficácia, o esforço posto na defesa de um desenvolvimento sustentável (por estes movimentos e por todos quantos o propõem como alternativa), quando tal é feito sem que se tenham em conta e se questionem as condições de funcionamento do próprio sistema – sujeitas ao domínio absoluto do mercado capitalista – que aceitam como um dado natural ou uma inevitabilidade abstracta e a-histórica, ainda que a merecer reparos e ajustamentos de forma a despojá-lo dos aspectos mais odiosos e a torná-lo menos agressivo para o ambiente. Ajustamentos que todos sabem não terem hipótese de virem a ser considerados (ou de resultarem), pois isso equivaleria a dizer que o sistema aceitava alterar a sua natureza - como se o lobo pudesse deixar de ser carnívoro para se converter em herbívoro!

Nestas circunstâncias e perante a impossibilidade lógica de se alterarem as condições de funcionamento do próprio sistema (sem o desvirtuar), a acção em prol da construção de alternativas a uma situação cada vez mais unanimemente considerada insustentável, corre o risco de se transformar apenas numa luta contra moinhos de vento (como o recurso a tecnologias para substituir os mecanismos naturais de regulação climática na base de soluções tão engenhosas quanto aparatosas: o conhecido autor do conceito de Gaia, James Lovelock, por exemplo, sugere a criação de sombrinhas espaciais que protejam a Terra dos raios solares, contribuindo, assim, para a arrefecer e atenuar os efeitos esperados da diminuição dos glaciares polares no aumento da temperatura do planeta!)

Melhor que quaisquer outras considerações sobre a validade destas propostas, importa atentar no alerta lançado na síntese elaborada pelo próprio Lovelock (o que não significa total aderência às teses defendidas por este autor, mas apenas o inquietante alerta de um reconhecido especialista): “O desenvolvimento sustentável, suportado pelo uso da energia renovável, é a abordagem da moda sobre viver com a Terra, e é a plataforma dos políticos de pensamento verde. Em oposição a esta perspectiva, particularmente nos Estados Unidos, estão os muitos que ainda vêem o aquecimento global como ficção e favorecem os velhos hábitos". Estes últimos, explica, actuam ancorados mais na fé – ‘Deus tomará conta da Terra’, nas palavras de Madre Teresa de Calcutá – ou mesmo nos ‘velhos hábitos’ (que determinaram a situação actual), do que na ciência..

E prossegue, mais adiante: "Muitos consideram esta nobre política (do desenvolvimento sustentável) moralmente superior ao laissez faire dos velhos hábitos. Infelizmente para nós, estas abordagens totalmente diferentes, uma a expressão da decência internacional, a outra das forças de mercado insensíveis, têm o mesmo resultado: a probabilidade da alteração global desastrosa. O erro que partilham é a crença de que mais desenvolvimento é possível e que a Terra continuará, mais ou menos como agora, durante pelo menos a primeira metade deste século. Há duzentos anos, quando a alteração era lenta e inexistente, podíamos ter tido tempo para estabelecer o desenvolvimento sustentável, ou até ter continuado durante algum tempo com os velhos hábitos, mas agora é tarde demais; o estrago já foi feito”. E a conclusão não pode ser mais pessimista, ao apontar que, não obstante as diferenças, estas duas vias convergem para a existência, em breve, de um planeta onde poucos terão possibilidade de sobreviver...

Contra os que depositam confiança inabalável nas soluções da técnica para ultrapassarem este aperto da Humanidade, resta o conforto do aviso de Darwin: ‘Não é a mais forte das espécies que sobrevive... Nem a mais inteligente... Mas a que for mais adaptável à mudança’.
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terça-feira, 11 de agosto de 2009

É possível o ‘desenvolvimento sustentável’ nas sociedades dominadas pelo mercado? - II

O paradoxo mercantil: a lógica do crescimento ilimitado num mundo de recursos limitados

Até à entrada na modernidade e ao consequente domínio do mercado, as agressões praticadas pelo homem contra a natureza produziam efeitos nefastos mas localizados, a sua influência, por norma, não extravasava os limites das regiões onde tais actos eram praticados (por exemplo, no período romano, a desflorestação das margens do Mediterrâneo, sobretudo para a construção de frotas de guerra, com consequências que ainda hoje perduram). Com o capitalismo, pelo contrário, tudo se alterou. O processo de industrialização das sociedades, acelerado de forma descomunal no pós-guerra, levou a degradação ambiental e a depredação dos recursos ao paroxismo e a níveis já considerados irreversíveis nalgumas situações. Aquilo que demorou uma infinidade a construir (entre 3 a 4 mil milhões de anos!), está em vias de ser delapidado no tempo planetário de um fósforo (em pouco mais de 2 a 3 centenas de anos!), desde a combustão da energia fóssil, ao ar que respiramos, dependente da lenta constituição de uma atmosfera habitável, fisiologicamente adaptável ao homem.

As actuais alterações climáticas, em boa medida responsáveis ora pela escassez de água e secas prolongadas, ora por tempestades e cheias diluvianas que tudo arrasam, têm origem, é hoje ponto assente, no aquecimento global do planeta em resultado da acção do homem (emissão de gases com efeito de estufa, CO2 e metano, sobretudo), muito embora se saiba ser possível actualmente evitá-las, através do recurso a soluções técnicas já disponíveis mas pouco utilizadas dado os custos que representam para as empresas com o consequente efeito na redução dos seus lucros! Pelo que, da destruição de áreas e espécies isoladas passou-se para a destruição com carácter sistemático, da devastação localizada e ‘controlada’ para a devastação planetária: a afirmação de que o futuro da Humanidade se encontra em sério risco surge agora cada vez menos como dramatização e mais como tradução da realidade. O crescimento ilimitado do mercado, imposto pela lógica do valor, choca-se com um mundo de recursos limitados: o mercado tende inevitavelmente para a sua própria autodestruição!

Esta realidade impõe-se já com tal evidência que até sectores da corrente liberal acabaram por a aceitar. Na verdade, os mais conscientes destes, mesmo não abdicando da fé nas virtudes do mercado, percebem que, a manter-se a actual tendência predadora na utilização de recursos finitos, a Humanidade caminha para a sua extinção, a vida na Terra pode encontrar-se ameaçada. A ideologia do crescimento contínuo, base inquestionável da actual Globalização Competitiva, conduzirá, afirmam (A. Neto da Silva, em O triplo conflito), “ao esgotamento do Planeta, não apenas dos recursos minerais mas também dos elementos fundamentais que permitem a existência da nossa vida”. A alternativa à catástrofe anunciada passa por “a ideologia hoje dominante, de uma globalização baseada apenas na (prossecução da máxima) eficiência e na (máxima) competitividade económica, (...) ser substituída por uma ideologia do crescimento possível, assente na maior eficiência ambiental, social e económica, por esta ordem de prioridades”. Essa alternativa passaria, então, pela implementação urgente e global de políticas enquadradas no designado ‘Desenvolvimento Sustentável’ e na conciliação indispensável dos três pilares em que assenta: o desenvolvimento económico, a protecção do ambiente e a coesão social. Mas sendo um objectivo global, isso significa que só resultará e será eficaz se puder contar com o concurso, em acção concertada, de todos os países do mundo, o que, para ser exequível, exigiria a constituição de um (mirífico?) Governo Mundial, capaz de federar/subordinar os interesses locais ou, no caso, nacionais.

Sublinhe-se, desde já, que a acção desenvolvida tanto pelos movimentos ecológicos como pelos defensores do desenvolvimento sustentável, no sentido, sobretudo, duma indispensável e urgente sociedade de baixo carbono – contra a lógica do crescimento ilimitado? – se é certo haverem contribuído decisivamente para a consciencialização desta situação na opinião pública, cada vez mais desperta e melhor informada sobre as suas gravosas consequências na vida das populações, arrisca-se, no entanto, a criar perigosas ilusões ou a redundar num exercício de efeitos práticos pouco eficazes ou mesmo frustrantes, as mais das vezes de âmbito meramente local, ainda que, a esse nível, importantes.
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segunda-feira, 10 de agosto de 2009

É possível o ‘desenvolvimento sustentável’ nas sociedades dominadas pelo mercado? - I

A lógica do Mercado contra o Desenvolvimento Sustentável

(Reproduzo aqui, adaptado, parte de um texto das minhas reflexões pessoais sobre o Mercado, escrito há cerca de 3 anos. Vem ele a propósito da ‘ideologia do crescimento contínuo’, aflorada em comentário anterior (sobre o ‘Desafio Global’, de N. Stern). Por isso me pareceu oportuno expor agora, à margem dos temas da actualidade (crise, eleições,...), o enquadramento que faço de assunto tão estratégico para o futuro das sociedades).

À percepção, cada vez mais generalizada, de que as sociedades modernas, desenvolvidas ou subdesenvolvidas, atingiram uma situação insustentável (face sobretudo às precárias condições de vida da maioria da população mundial e à degradação contínua do meio ambiente), os sectores mais conscientes e informados, do meio académico à política e aos movimentos ecológicos, contrapõem a necessidade e a urgência na implementação de um desenvolvimento sustentável. Referido pela primeira vez em 1971 e adoptado pelas Nações Unidas no ano seguinte, foi sob a égide desta que foram sendo clarificados os três pilares essenciais com que se costuma defini-lo: o desenvolvimento económico, a protecção do ambiente e a coesão social.

O que se pretende traduzir com este conceito é que só haverá efectivo desenvolvimento se este for construído em bases que permitam mantê-lo e alargá-lo para o futuro, sem delapidar nem comprometer, portanto, os recursos, próprios e alheios, através da sua exploração exaustiva, nalguns casos até ao esgotamento, como tem vindo a verificar-se. Na verdade, após a revolução industrial e num curtíssimo espaço de tempo (à escala cósmica, entenda-se), descobre-se que o homem passou de espécie constantemente ameaçada por uma Natureza hostil, a principal agente da destruição que ameaça o planeta e os seus frágeis equilíbrios ecológicos. A reposição destes equilíbrios ameaçados exigiria então, não o abandono do crescimento económico, símbolo de bem estar e conforto crescente, mas a aplicação do que se designa por ‘desenvolvimento sustentado’.

A análise deste tema e a consciência dos problemas que o gera, levanta desde logo uma questão prévia algo intrigante: apesar da insistência de há largos anos por parte de inúmeros movimentos e académicos respeitáveis nesta terapia e existindo actualmente um consenso tão alargado sobre a sua necessidade, o que impede a afirmação peremptória de tal modelo de desenvolvimento e a sua implantação generalizada em todo o mundo? E a resposta a esta questão encontra-se, mais uma vez, no condicionamento imposto pelo mercado e na lógica que o sustenta:

– Por um lado, a concorrência impõe às empresas o recurso a políticas de redução de custos, o que, na maioria das situações, se traduz, não na sua racionalização (revestindo a forma de alterações técnicas, por exemplo), mas apenas na sua remoção para outro sítio: esta externalização dos custos das empresas tanto toma a forma de desemprego, nos recursos humanos, como de poluição das águas ou do ar, ou de qualquer outra agressão sobre o meio ambiente, no que respeita aos recursos físicos;
– Por outro, a expansão contínua da produção desencadeia uma dinâmica específica com tradução quer a nível material, pela pressão desmedida sobre os recursos a nível planetário, quer sobretudo no modo de vida das populações, incentivadas por campanhas agressivas a um consumismo sem limites (uso do automóvel particular, urbanização descontrolada,...) e ao desperdício irracional (rápida obsolescência dos produtos,...).

Convirá, pois, antes de mais realçar a excessiva (ou mesmo exclusiva) tónica posta na componente ‘sustentável’, quando, na verdade, impor-se-ia questionar, acima de tudo, a natureza ‘deste desenvolvimento’ e as lógicas que o sustentam. Afinal são estas que explicam, em última análise, a razão da impossibilidade de tal desenvolvimento poder vir a ser alguma vez sustentável!
(...)

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Leituras de Verão – 3

A crise, e agora?

De um dos mais influentes intelectuais franceses da actualidade, conselheiro de Presidentes (primeiro de Miterrand e agora de Sarkozy) e presumido liberal de esquerda – o que à partida pretende traduzir-se na defesa prioritária da liberdade (quem a não defende, hoje?), através da conjugação da democracia com o mercado, ainda que regulado – respigo, no seu último livro (em título), algumas sintomáticas considerações sobre a crise:

A situação actual assemelha-se, guardadas as devidas proporções, à queda do Império Romano, que durou mais de três séculos, terminando numa desordem milenária”. (...)
Esta crise é também a ocasião de compreender como um pequeno grupo de pessoas, sem produzir riqueza, subtrai dentro da legalidade, sem qualquer controlo, uma parte essencial do valor produzido. E também como este grupo, depois de ter rapinado tudo o que pôde, faz pagar as suas formidáveis remunerações e bónus pelos contribuintes, os assalariados, os consumidores, os empresários e os aforradores, forçando os Estados a arranjar em poucos dias, para preencher os buracos deixados nos seus cofres, somas mil vezes superiores àquelas que todos os dias obstinadamente recusam aos mais desfavorecidos dos países desenvolvidos e aos famintos do resto do mundo.
É verdade que este confisco é feito de modo legal, honesto e não violento. O que, aliás, constituirá aos olhos de alguns o maior motivo de revolta: se é legal, então o sistema que o permite não tem razão de ser.


Surpreendente é que, depois de produzido este tão desapiedado quanto fiel diagnóstico e extraídas tais conclusões, o autor desista de levar até às últimas consequências a lógica do seu raciocínio sobre as forças do mercado que colocaram o mundo à beira do colapso – admitindo, ao menos, pôr em causa o mecanismo que tal engendrou – e persista, incólume, na via que determinou essa situação (com mais regulação e umas pitadas de solidariedade), precisando até, para que não restem dúvidas:

Século após século, a Europa do Norte, depois toda a Europa e depois o mundo inteiro preferiu a liberdade individual a todos os outros valores (justiça, solidariedade, imortalidade). E com esta finalidade põe em prática dois mecanismos que em princípio permitem organizar esta liberdade no contexto de escassez que define a condição humana: o mercado e a democracia.” Para, mais adiante, logo advertir:
Esta dupla formada por mercado e democracia não é, por natureza, harmoniosa. Em primeiro lugar, fundada sobre a implantação da liberdade individual, fazendo confiança no mercado para a eficácia e na democracia para a justiça. Ele desqualifica todos os outros valores, em particular a solidariedade.(...) Ninguém terá mais justificação de respeitar um compromisso que limite a sua liberdade. Nem de ser leal em relação a quem quer que seja sem ser a si próprio. Nem, em particular, de ser leal em relação às gerações seguintes: os nossos bisnetos não têm direito de voto!

Preso ao hiperpragmatismo fatalista que impôe a ausência de alternativas ao mercado e de saídas para a crise fora deste contexto, Attali ‘perde-se’ na teoria prospectiva dos ‘hiper-conceitos’ (desenvolvida noutra sua publicação, Breve História do Futuro): da ameaça do hiperimpério – o domínio global do mercado sobrepondo-se às leis democráticas, onde tudo será privatizado, gerando fortunas e miséria extremas; ao risco deste evoluir para o hiperconflito – uma sucessão de conflitos entre Estados, significando um perigoso retorno à barbárie; à hipótese redentora da hiperdemocracia – se houver capacidade para erguer um estado mundial democrático, com autoridade para controlar o mercado e a globalização (e, pelo caminho, dinamizar as novas tecnologias).

À parte o eventual mérito na consideração destes cenários futuristas, importa aqui sublinhar a inconsequência da crítica ao que se designa por ‘falhas do mercado’ (apontadas como a origem da crise) e que radica na incompreensão do que é a natureza do mercado e das forças que o comandam e o levam a comportar-se deste modo: é a lei do valor e não eventuais perversões do sistema (ou dos seus intérpretes), que determina, por imperativos da sua própria sobrevivência, a necessidade (sistémica) de uma expansão ilimitada (valendo-se, para isso, da ‘ideologia do crescimento contínuo’), afinal a origem e a causa principal das crises – e desta, em particular, com todos os equívocos, dramas e aspectos rocambolescos que a envolveram, o que certamente também ajuda a criar a nebulosa sobre as suas verdadeiras raízes.

Assim se põe em causa a devida lealdade (e solidariedade) em relação às gerações futuras: de facto “os nossos bisnetos não têm direito de voto!

sábado, 25 de julho de 2009

Auditoria do Tribunal de Contas à Concessão do Terminal de Alcântara - Porto de Lisboa


Esta semana pudemos finalmente tirar a limpo toda a história anunciada há dias a propósito da auditoria do Tribunal de Contas à extensão da concessão do Terminal de Alcântara do Porto de Lisboa. Não há como ir directamnte à fonte para confrontarmos o Ministro Mário Lino e o Governo como uma opção que lesa escandalosamente o interesse público. Para Mário Lino, não há no relatório as expressões “negócio ruinoso” ou "ilegalidades", e pronto! O governo não concorda com o Tribunal de Contas, e está o assunto resolvido. Mas não está.
Para quem quiser ler o relatório, está disponível no sítio do Tribunal de Contas aqui.
No relatório não encontramos a expressão "negócio ruinoso", mas na conclusão podemos ler "[...] o Tribunal não pode deixar de relevar que este contrato de concessão, celebrado pela APL, não consubstancia nem um bom negócio, nem um bom exemplo, para o Sector Público, em termos de boa gestão financeira e de adequada protecção dos interesses financeiros públicos, [...].
E porquê é um mau exemplo? Porque, para além de se prolongar um contrato por mais 27 anos sem concurso público, este foi renegociado "[...] sem a fixação prévia, pelo concedente público, de critérios objectivos e rigorosos de value for money (ou seja, o valor do que se obtém em troca do que se paga), o que originou que os resultados alcançados com as negociações acabassem por traduzir uma perda de valor não só em relação ao contrato anterior, como, igualmente, no que toca às condições iniciais estabelecidas no Memorando de Entendimento;"

Podemos perguntar-nos, que razão leva uma Administração sob tutela do Estado a aceitar condições tão prejudiciais para o interesse público? Note-se, mesmo em relação ao contrato em vigor até à data e, pior ainda, face ao Memorando de Entendimento inicial? Quando, ainda por cima, faltavam sete anos para o fim do contrato em vigor. Perante as conclusões do TC, custa-nos a acreditar que a explicação se encontre em tamanho amadorismo da Administração do Porto de Lisboa.

De facto, da análise do contrato, se conclui que não há qualquer vantagem para o Estado desta Parceria Público Privada (PPP) e que mais valia a APL ter assumido a gestão directa do projecto.

Senão vejamos. Segundo o Quadro Jurídico das PPP , artº 7 alínea b), Partilha de riscos, «- O estabelecimento da parceria deverá implicar uma significativa e efectiva transferência de risco para o sector privado;»

Ora, segundo o TC isso não acontece neste caso, onde os riscos são todos transferidos para o Estado!

«prescreverem que uma PPP deve implicar uma significativa e efectiva transferência de risco para o sector privado, tal não se verifica neste contrato.» pág. 16 do relatório.

«Em primeiro lugar, não pode deixar de se questionar a necessidade, o interesse e a razoabilidade do concedente público, a APL, ter concretizado uma PPP em que não existe capital próprio em risco» pág. 15

«Por outro lado, deve, também, recordar-se que as taxas que a APL deixa de cobrar à LISCONT, no montante estimado de 199 M €, a preços correntes, excedem o valor do financiamento dos accionistas (auto-financiamento e suprimentos)» pág. 16

Isto é apenas uma amostra de como o interesse público é prejudicado.Vale a pena continuar a ler o relatório. E este não é caso único, o TC tem feito críticas semelhantes a PPP na área da saúde. Outro caso terá sido a chamada Ponte das Lezírias (Tejo), junto ao Carregado. Também aqui o padrão é o mesmo: sobreestima-se a procura, e estabelece-se que o Estado paga se a actividade não se verificar ( o que é quase certo!), o que corresponde a pagar em troca de trabalho nenhum!

Enfim, é uma festa, à custa de todos nós!



As grandes obras públicas e os palpites dos economistas

Ultimamente, a propósito das grandes obras públicas, acentuou-se a tendência, na boa e salutar tradição lusa (sem qualquer ironia) de ‘cada cabeça sua sentença’, de todos e cada um dos economistas ditos de referência, se pronunciarem sobre a valia (mais a desvalia) de cada projecto, ou do ‘pacote’ no seu conjunto. E é assim que, por objectivas razões técnicas fundadas na estrita aplicação da ‘ciência’ económica, uns pronunciam-se a favor do aeroporto contra o TGV e as auto-estradas; por idênticas e muito objectivas razões técnicas de sólida base científica, outros, porém, sustentam, se necessário à custa de sofisticados modelos matemáticos, a razão do TGV (as duas linhas, uma só delas, há para todos os sabores!) sobre o aeroporto; entretanto, os mais radicais, com o infalível recurso aos mais comprovados argumentos técnicos, asseguram que o país não está em condições de se meter nestas coisas – ‘quem não tem dinheiro não tem vícios’, rematam com frequência! Tudo isto (e o seu contrário, se for necessário) em defesa do modelo liberalizante assente na restrição do déficit público, por contrapartida da promoção dos bens transaccionáveis (!) – para onde todos os argumentos, afinal, confluem, quase de forma papagueada – a invariável panaceia com que nos pretendem fazer crer tratar-se tudo isto de decisões meramente técnicas!

Perante tamanho rigor analítico na defesa de posições tão díspares, resta-me apenas registar a enorme confusão que tão abnegado empenho cívico suscita, sobretudo numa altura em que a teoria académica que tem inspirado estas doutas (pouco importa se contraditórias) versões, mais se encontra exposta à crítica por força da sua influência nos acontecimentos que produziram a profunda crise actual. E mais sensibilizado (e preocupado) fico quando leio um dos seus epígonos e mais destacados intérpretes pretender fundamentar asserções essencialmente políticas com base em extrapolações – elaboradas pelos mesmos instrumentos técnicos que tão rotundamente falharam na previsão da crise actual – para um horizonte de 10 anos!!!

Foi isso que fez Abel Mateus, ex-presidente da Autoridade da Concorrência, ex-administrador do BP e ex-mais uma série de cargos bem remunerados, ao afirmar, em entrevista ao Jornal de Negócios, que não encontra "nenhuma folga para grandes investimentos, nem hoje nem nos próximos dez anos" (!!!). “Fiz uma pequena estimativa do que isso implicaria, somando a dinâmica externa que existe actualmente com os grandes projectos de investimento: isso resultaria num endividamento externo de 240% do PIB em 2020" – !!!!! – para concluir que o próximo Governo enfrenta uma "situação bastante séria, sem paralelo na economia portuguesa", havendo o risco de Portugal ficar sem dinheiro, como a Islândia. Apesar disso e como não podia deixar de ser, sempre adianta um palpite sobre a ‘sua’ grande obra pública: a opção vai para o aeroporto contra o TGV e auto-estradas!

À parte as minudências destas contradições, apetece perguntar por onde andavam as receitas deste iluminado académico que agora até já sabe o que pode acontecer ao país daqui a 10 anos (!) se este não fizer aquilo que os seus cânones liberais ditam que deva ser feito!!! Com a mesma destreza (ou desfaçatez?) que agora utiliza nestas dramáticas projecções (com intuitos políticos bem claros, trata-se de destacado quadro do PSD), devia tê-lo feito já antes, a tempo de se evitar a crise! Ou adoptar o mesmo modelo desta sua ‘pequena estimativa’ e estender a projecção a outros países europeus, alguns até mais endividados que Portugal.

A pergunta que apetece mesmo formular, no final, é se algum destes empertigados e mediáticos fazedores de opinião, constantemente a debitarem sentenças sobre o que se deve ou não deve fazer, aparentemente tão preocupados com o futuro do país, por norma insistindo na receita do apertar do cinto dos outros, aceitará, por exemplo, reduzir os seus chorudos proventos mensais em, digamos, para metade – sabendo que mesmo assim ainda lhes restarão largos milhares de euros por... mês, bastante mais do que a grande maioria dos trabalhadores ganha num ano inteiro!
Não há pachorra!

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Leituras de Verão – 2

O DESAFIO GLOBAL

Retomo aqui o título que, tanto pela data da sua edição original como pelo matéria nele tratada, mais actualidade suscita. Em 2009, O DESAFIO GLOBAL – é dele que se trata – destaca e desenvolve ideias chave do trabalho iniciado com o ‘Relatório Stern’, ‘já’ de 2006, beneficiando, naturalmente, das críticas e de novos dados entretanto coligidos após a publicação deste. E reforça a sua importância com o eclodir da crise económica, dada a pertinência do tema para a sua resolução. Destacaria, pois, nesse enquadramento, dois ou três aspectos mais relevantes (dos muitos que seria possível abordar), limitando-me a transcrever praticamente alguns excertos do texto.

1. Desde logo a resposta urgente ao que se pode designar por ‘estado de necessidade’, pelas ameaças ao nosso estilo de vida, tanto as que resultam das alterações às actuais condições de conforto climático, como as que se prendem com o esgotamento dos recursos. Porque, conforme se refere logo na Introdução, “o crescimento (baseado no) alto carbono destruir-se-á a si mesmo, primeiro por causa dos altos preços dos hidrocarbonetos e segundo, e mais fundamentalmente, por causa do ambiente físico muito hostil que criaria”.
A solução, para o autor, passa pelo desenvolvimento de “uma forte acção global empreendida agora”, a qual teria o mérito de não só contribuir para reduzir “os enormes riscos de longo prazo que advirão das alterações climáticas”, mas “também permitir que nos elevemos à altura de outro grande desafio do séc. XXI, a luta contra a pobreza mundial. Como defende o livro, teremos simultaneamente sucesso ou insucesso em relação a estes dois desafios que definem o séc. XXI. Convertendo as nossas economias em economias de baixo carbono criaremos e descobriremos uma nova forma de crescimento, mais limpa, mais segura em termos de energia, com maior biodiversidade, mais digna de confiança e mais tranquila”.

2. Entretanto, no Prefácio à edição portuguesa, Viriato Soromenho Marques deixa o aviso de que “esta crise (económica) só pode ser compreendida se percebermos que nas suas raízes mais fundas e nas suas consequências mais distantes tem uma ligação essencial com a negligência com que a humanidade tem habitado e malbaratado este planeta. (...) A principal tese do pensamento de Stern é a de que as alterações climáticas, para além de todos os seus aspectos científicos e técnicos que devem ser tratados pelas diferentes ciências da Natureza, constituem uma gigantesca ‘falha de mercado’. As consequências dessa falha, como este livro desenvolvidamente analisa e explica, são imensas e convocam outras falhas”. Falhas, acrescenta, tanto a nível do conhecimento, por incapacidade para prevenir e evitar os efeitos nefastos que agora se manifestam, como da ética, ao não acautelar as condições de sobrevivência para as gerações futuras. Mas interrogo eu: ‘falhas de mercado’ ou ‘mercado falhado’ mesmo?

3. Por último, e ainda, aquilo que tenho vindo a designar por os limites à mobilização das consciências para as questões éticas aqui envolvidas – sobretudo a relacionada com a herança deixada às gerações futuras de um planeta degradado (ou destruído?) – e ao trabalho pedagógico sobre a urgência da transformação social. Sobretudo por os problemas não serem directamente sentidos. ‘Quando comecei a ocupar-me da questão das alterações climáticas (...), a primeira coisa que me chamou a atenção foi a ordem de grandeza dos riscos e os efeitos potencialmente devastadores na vida das pessoas por todo o mundo. Estávamos a jogar o planeta. Tinha também a consciência aguda da importância da experiência directa na acção mobilizadora: a menos que as pessoas tenham visto ou sentido um problema, é difícil persuadi-las de que é necessária uma resposta. Dado que os efeitos das alterações climáticas só se tornam patentes ao fim de um longo período de tempo, isto é particularmente desafiador (...)’.

Vai certamente valer a pena prosseguir e aprofundar a leitura deste livro!

domingo, 19 de julho de 2009

Leituras de Verão – 1

Bruscamente, no Verão em curso...

Ainda o Verão vai no começo e já foi farto em acontecimentos típicos do que se convencionou chamar a ‘silly season’. Então este, que antecede e prepara as eleições do próximo Outono, ameaça mesmo bater todos os recordes. Das abjectas provocações do biltre da Madeira (‘Quousque tandem Catilina – AJJardim – abutere patientia nostra?’), às expressivas e bem elucidativas ‘gafes oratórias’ da Manuela (que, por inabilidade da ‘Senhora’, nunca querem dizer o que afinal disse – Pacheco Pereira ‘dixit’, arvorado em intérprete autêntico dos sentenciados disparates da líder!!!); da programática desregulação instituída (e imposta à revelia, soube-se agora, das mentes mais desprevenidas!), às diversas propostas da regulação a instituir (face ao regulador automático do sistema, o mercado, uma contradição sistémica?);...

Por agora, prefiro voltar-me para temas mais interessantes do que os que esta amostra pressagia. Registo, por exemplo, três novos títulos no panorama editorial português, de relevante importância para a crise – referência obrigatória da nossa actualidade – mas sem com ela se relacionarem directamente. Refiro-me a:
- COMÉRCIO JUSTO PARA TODOS, de Joseph Stiglitz & Andrew Charlton, com prefácio de Fernando Nobre
- A DOUTRINA DO CHOQUE – A ascensão do Capitalismo de Desastre, de Naomi Klein
- O DESAFIO GLOBAL – Como enfrentar as Alterações Climáticas criando uma nova Era de Progresso e Prosperidade, de Nicholas Stern, com prefácio de Viriato Soromenho Marques.

Os dois primeiros correspondem à versão portuguesa de títulos saídos originalmente ainda antes da eclosão da crise actual. Não se percebe, por isso, o atraso do primeiro – que data de 2005 e cuja edição nacional se encontra pronta desde Jan.2007!!! – e muito menos se admite a indigérrima (para não dizer miserável) tradução do segundo – que mais parece saída do tradutor automático de línguas do ‘Google’ (é nestas alturas que lastimo não dominar bem o inglês)!

O contributo de todos para a discussão a fazer sobre as saídas da crise afigura-se por demais oportuno. Deste ponto de vista, posso até vislumbrar alguma utilidade no atraso da versão portuguesa do livro da Naomi Klein. Numa altura em que ressurgem as investidas de retorno às fórmulas neoliberais para resolver a crise (de que, afinal, são os principais responsáveis), ganha ainda maior sentido a tese do livro, segundo a qual a teoria – e a prática – do ‘mercado livre’ se tem imposto como inevitável a partir da criação de choques ou de desastres habilmente aproveitados como oportunidades pelos seus acérrimos defensores. Como na tragédia de Nova Orleães, subsequente ao Katrina, em que o desmantelamento do sistema educativo público foi aproveitado para a sua violenta privatização pelos homens de mão de Bush – a famosa ‘folha em branco’ redesenhada pelos idealistas do mercado. Ou ainda, ‘arrasar para fazer tudo de novo’, o programa liberal que esteve por trás da infame campanha do Iraque! Transformar tragédias em oportunidades, desastres em chorudos negócios – eis, pois, o supremo propósito ultraliberal, que, para tal, não hesita em provocar essas situações dramáticas (como aconteceu no Iraque)!


É nessa perspectiva que os olhares gulosos dos neoliberais se derramam, cúpidos, sobre o potencial de negócios proporcionado pela crise actual!

O último dos três títulos indicados – O DESAFIO GLOBAL – é também o único em que parece não se ter perdido tempo sobre a data de saída do original (2009). Talvez pela percepção de que a sua consideração como elemento essencial para a resolução da crise é não só óbvia como sobretudo urgente. Talvez então convenha voltar a ele.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Um exemplo a seguir

Campanha nacional de recolha de lixo na Estónia.

domingo, 12 de julho de 2009

A Gripe A ...

Por vezes, este Blogue (em)presta serviço público; desta feita, clikando no quadro pode(rá) verificar as diferenças de sintomas entre a Gripe Comum e a Gripe A.

sábado, 11 de julho de 2009

A (falta de) qualidade da democracia

Retomo ainda, das ‘Europeias’, essa interrogação, já tantas vezes formulada e com resposta por tantos também tentada, se bem que, parece-me, sem satisfazer plenamente a dúvida nela contida: a de saber, afinal, por que razão se verificou, na generalidade dos países da UE, uma acentuada guinada política à direita por parte do eleitorado, quando se tem por assente (um mínimo de objectividade a isso conduz) que a origem da crise esteve na avassaladora tendência desreguladora imposta pela incontrolável deriva neoliberal dos últimos 30 anos!

À falta de melhor explicação fala-se então na incapacidade dos partidos de esquerda (em geral) definirem e aplicarem uma verdadeira política alternativa a esse modelo hegemónico liberal, o que, perante a amálgama indiferenciada de propostas, teria conduzido os eleitores a optarem pelo original, mais autêntico e garantido, que uma qualquer cópia. Eu próprio tentei a ‘boutade’ em anterior comentário, adiantando, no entanto, que tal se fica a dever desde logo à variável distribuição dos efeitos punitivos da crise (acima de todos, os que com ela perderam ou sentem fragilizado o emprego), mas certamente também à inexistência de um claro e consistente modelo alternativo.

Adiantei mesmo (e já não foi a primeira vez, ainda que se trate de uma velha polémica que, lamentavelmente, não tem passado disso mesmo!) que, partindo, antes de mais, da crítica (e consequente abandono) do actual paradigma de desenvolvimento baseado no crescimento contínuo (que todos sabem condenado a prazo – pelo inevitável esgotamento dos recursos – mas que todos fazem por ignorar), isso implica a sua transformação num outro que permita a estruturação de uma sociedade (1) sustentável, (2) de equilíbrio regulado, (3) de valores (seriedade, sobriedade e solidariedade – para além, claro, do clássico tríptico herdado da Revolução Francesa).

Mas, ainda assim, permanece a insatisfação com este tipo de leituras sobre o ocorrido nessas eleições. Porque estas respostas, de fácil aceitação racional e já com alargado consenso, têm-se demonstrado impossíveis de concretizar, não obstante a realidade objectiva o exigir cada vez com maior premência, sob pena de as sérias ameaças que hoje afectam a vida do planeta, se transformarem em danos irreversíveis. Perceber o que tem impedido a realização de um tal programa, exige, a meu ver, a prévia desmontagem da promiscuidade ideológica em que a direita conseguiu enlear (e manietar) um certo pensamento da esquerda, porventura traumatizada pelo fracassado modelo socialista soviético, por receio de com ele ser confundida. No centro deste sequestro ideológico, o dogma que estabelece a indissociável parceria entre democracia e mercado, como os dois pólos ou bases que garantem uma sociedade livre e desenvolvida: o mercado representaria na economia o papel que a democracia desempenha na política.

Entretanto e aparentemente sem qualquer relação com este assunto, logo no início deste mês de Julho, foram divulgados os resultados do estudo, promovido pela SEDES, sobre «A Qualidade da Democracia em Portugal: A Perspectiva dos Cidadãos». E talvez o aspecto mais inquietante a destacar nele seja mesmo o de que a maioria dos inquiridos (51%) não está satisfeita com ‘esta’ democracia. O inquérito centra-se mais nas questões da cidadania, os assuntos da economia parecem dele arredados. No entanto, a conclusão que mais salta à vista é a percepção do tratamento diferenciado que a Justiça proporciona... de acordo com o poder económico (82% considera que ricos e pobres são por ela tratados de forma desigual) ou o com o estatuto social (79% refere que trata de forma diferente políticos e cidadãos comuns).

Conclusão que reforça a percepção já generalizada na opinião pública: o que falta cumprir à democracia é a sempre prometida e nunca conseguida democracia económica – e a correlativa eliminação de privilégios, arrimo de todas as formas de discriminação e corrupção!

É esta impossibilidade prática de se consumar a democracia económica pela via do mercado (travestido de ‘economia social de mercado’), que confronta a esquerda e a deve levar a questionar-se, sob pena de ficar em risco a própria democracia política – a crescente insatisfação revelada no inquérito! – no sentido de identificar o que deve mudar para se constituir como verdadeira alternativa. Assumindo, desde logo, que a percepção generalizada da inutilidade das opções políticas postas a sufrágio e, consequentemente, a profunda ‘descredibilização da política’, tem a sua origem no implantado rotativismo partidário, centrado na mera gestão do sistema.

O drama é que, nas condições objectivas de funcionamento das actuais sociedades de consumo, é praticamente impossível contrariar, ou tão só desafiar, esse impulso vital que organiza toda a nossa vida social, que determina e explica o extremo consumismo que a caracteriza, que se acoberta na necessidade de... criação de valor. É, pois, sem pudor, que a própria terminologia escancara o propósito último do sistema: o objectivo instrumental básico das sociedades organizadas, a criação de riqueza, é substituída pela criação de valor – mesmo que esta criação de valor em nada venha a contribuir para a criação de riqueza!

Por alguma razão a origem (e explicação) da crise é, também, o principal obstáculo à sua resolução.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

A ciência prostituída …

“Ouve-se dizer que a ciência está actualmente submetida a imperativos de rentabilidade económica; na verdade sempre foi assim.
O que é novo é que a economia venha a fazer abertamente guerra aos humanos; já não somente quanto às possibilidades da sua vida, como também às da sua sobrevivência.
Foi então que o pensamento cientifico escolheu, contra uma grande parte do seu próprio passado antiesclavagista, servir a dominação espectacular (da sociedade de consumo).
Antes de chegar a este ponto, a ciência possuía uma autonomia relativa.
Então sabia pensar a sua parcela da realidade e, assim, tinha podido contribuir imensamente para aumentar os meios da economia.
Quando a economia toda-poderosa enlouqueceu, e os tempos espectaculares não são mais do que isto, suprimiu os últimos vestígios da autonomia científica, tanto no campo metodológico como no das condições práticas da actividade dos «investigadores».
Já não se pede à ciência que compreenda o mundo ou o melhore nalguma coisa.
Pede-se-lhe que justifique instantaneamente tudo o que faz.
Tão estúpida neste terreno como em todos os outros, que explora com a mais ruinosa irreflexão, a dominação espectacular promoveu o abate da árvore gigantesca do conhecimento científico com o único fim de dela talhar uma matraca.
Para obedecer a essa última exigência social de uma justificação manifestamente impossível, mais vale não saber pensar incomodamente e, pelo contrário, estar-se bem exercitado nas comodidades do discurso espectacular.
E é com efeito nesta carreira que a ciência prostituída destes tempos miseráveis encontrou agilmente, com muito boa vontade, a sua mais recente especialização”.
Guy Debord, in “Comentários à Sociedade do Espectáculo”

domingo, 5 de julho de 2009

A Política Socialista para Portugal ...

Francisco Louçã, coordenador da comissão política do Bloco de Esquerda apresentou o programa com que o partido se apresenta às próximas eleições e que tem como prioridade absoluta o combate ao desemprego.
O Bloco de Esquerda estima que o custo económico do desemprego será de 21 mil milhões de euros em 2009, "muito mais que o custo de todas as obras públicas que estão a ser discutidas até 2020".
Do programa, que tem mais de uma centena e meia de páginas, Louçã destacou um conjunto de cinco medidas para combater a crise, e disse que o maior problema de governabilidade que o país atravessa chama-se "maioria absoluta, que levou o país ao desastre".
Ler mais ...

sábado, 4 de julho de 2009

1.Jul 09 Noite Popular - Orquestra de Bandolins da Madeira

No largo de S. Carlos até 19 de Julho. Ver Programação em www.festivalaolargo.com/

Orquestra de Bandolins da Madeira

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Benfica : pronto, já votei …

Enquanto Benfiquista, estou de consciência tranquila, pois acabo de exercer o meu direito de voto.
Eu, que, e desta feita, até nem tinha intenções de o fazer, acabei votando em Luis Filipe Vieira.
Porquê ?
Porque se, em todo este processo, Luis Filipe Vieira agiu muito mal, um tal de Carvalho – e, em particular, um tal de Pimentel – não lhe ficaram atrás;
bem pelo contrário : agiram bem pior …
Assim, e por isso, escolhi defender o BENFICA.
Viva o BENFICA !!!

quinta-feira, 2 de julho de 2009

O "desnorte" Socratino ...

Manuel Pinho, delicodoce, em pleno debate do Estado da Nação, às tantas, e apanhado numa mentira, em mais uma mentira, toca de “investir”, com cornos e tudo, contra a oposição…
Resultado : o Manelinho acabou demitido
E pese este gesto – ao fim e ao resto a única saída possível – não deixa, ainda assim, de se acentuar o visível e risível “desnorte” deste governo Socrático …